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- VOZES PARA ALÉM DO APITO DA FIFA: A Copa do Mundo de 2026 como arena social
Davi César de Souza Ao analisarmos a geopolítica da Copa do Mundo 2026, percebemos que o futebol contemporâneo opera como um centro eurocêntrico de dominação gerido majoritariamente por homens brancos, mas que permanece sob constante disputa ideológica. Afinal, como formula Volóchinov, "já sabemos, toda palavra é um pequeno palco em que as ênfases sociais multidirecionadas se confrontam e entram em embate. Uma palavra nos lábios de um único indivíduo é um produto da interação viva das forças sociais" (2017, p. 140). Assim, longe de ser um esporte neutro, a palavra futebol funciona como "qualquer signo ideológico exterior" que, "independentemente do seu gênero, banha-se por todos os lados nos signos interiores, ou seja, na consciência" (Volóchoinov, 2017, p. 57). Sob essa ótica, o monopólio e os padrões estéticos e táticos ditados pela Europa encontram resistência quando o signo exterior do futebol mergulha no "mar dos signos interiores" das populações do Sul Global, onde sua vida e sua força insurgente continuam a pulsar justamente no "processo de renovação da sua compreensão, vivência e assimilação, ou seja, em sua inserção contínua no contexto interior" (Volóchinov, 2017, p. 57), transformando o gramado em um território vivo de confrontação e resistência aos colonizadores. Com 48 seleções, 104 partidas, 16 sedes e uma arrecadação projetada de US$ 8,9 bilhões, a Copa do Mundo de 2026, realizada nos Estados Unidos da América, México e Canadá, configura-se como o maior evento esportivo da história em termos de escala e monetização. Mas, para além dos números impressionantes e do discurso oficial da FIFA, que ecoa termos como "unidade global", "integração" e "fair play", o torneio se desdobra como um palco de tensões geopolíticas, protestos de federações, restrições de vistos e debates acirrados sobre imigração, gênero, raça e classe. É nesse terreno movediço que a presente reflexão propõe uma leitura: a Copa de 2026 como enunciado social, compreendido à luz dos pressupostos do Círculo de Bakhtin. Em A palavra na vida e a palavra na poesia (2019), Volóchinov traça as fronteiras entre a "palavra na vida", essencialmente orientada para o objeto, ancorada no cotidiano e de natureza concreta, e a "palavra na poesia", desenhada como autossuficiente, abstrata e enclausurada em sua própria arquitetura. A Copa do Mundo, em sua dimensão de macro enunciado midiático, orbita de maneira pendular entre essas duas polaridades. Sob a égide da superestrutura institucional, o discurso oficial emanado pela cúpula da FIFA tenta mimetizar a "poesia": ergue-se como um texto hermético e espetacularizado, engessado na ilusão do acabamento estético e exigindo uma decodificação unívoca. Contudo, ao descer ao rés do chão da vida concreta, o megaevento transborda essa redoma para se desdobrar como um texto irremediavelmente aberto. Em sua essência orgânica, o jogo é a coreografia imprevisível de vinte e dois corpos em campo, gravitando em torno do rito da bola rumo ao ápice do gol. É nesse terreno instável que o torneio recusa a completude e assume o seu devir; um espaço de permanente construção onde cada polêmica, fissura ou embate irrompe como uma nova voz social, tensionando as amarras do discurso dominante e reconfigurando, a cada instante, a composição polifônica do todo. Como afirma Volóchinov (1929, p. 87), "a palavra é o acúmulo de forças sociais no ponto mais sensível e móvel da prática social". A Copa do Mundo de 2026 constitui-se, precisamente, como esse ponto sensível e móvel. A estreia da Argentina contra a Argélia (3 a 0), por exemplo, gerou um dos primeiros grandes choques discursivos do torneio. Lionel Messi acertou a sola da chuteira na panturrilha do zagueiro Aïssa Mandi, lance que, para o técnico bósnio, configurava expulsão: "É inútil nesse momento comentar situações hipotéticas. Mas todo mundo viu, inclusive eu". O árbitro polonês Szymon Marciniak marcou apenas falta, sem cartão. A Federação Argelina apresentou queixa formal à FIFA. Aqui, a voz hegemônica, arbitragem, FIFA, imprensa ocidental, naturaliza a vitória argentina como produto do talento de Messi. A voz subalterna, da Argélia e da imprensa africana, denuncia um padrão de arbitragem que, segundo ela, favorece as potências tradicionais. O silêncio do VAR diante de lances que exigiriam expulsão funciona como um "discurso ausente" porque, para Mikhail Bakhtin (2003), o não-dito é tão constitutivo do sentido quanto o próprio dito. A omissão não é um vácuo, mas uma escolha comunicativa que revela critérios implícitos e ideológicos das arbitragens. O conceito de polifonia, desenvolvido por Bakhtin em Problemas da poética de Dostoiévski (2010, p. 65), não postula a harmonia de coros, mas a sinfonia desafinada de instrumentos que recusam o maestro (FIFA) e as múltiplas vozes independentes (países subalternos da África, Ásia e latinos), igualmente válidas, que se respondem sem se submeter. Se Volóchinov nos mostrou a Copa como texto pendular entre a "poesia" institucional e a "vida" desordenada, Bakhtin nos permite ouvir, dentro desse texto, as vozes que não se deixam silenciar pela voz oficial. Aqui, a polifonia não se resume às vozes que ecoam nos noventa minutos: ela se estende à reverberação que fratura o silêncio após o apito final. Quando a FIFA anuncia uma idílica "unidade global", quem de fato responde? Responde o árbitro somali Omar Artan, deportado dos EUA sem justificativa, cujo silêncio forçado grita mais alto que qualquer comunicado institucional. Responde a mãe do goleiro Vozinha, cuja solicitação de visto foi negada até que a mobilização nas redes sociais a transformasse em um "caso" midiático e, portanto, em um problema a ser burocraticamente resolvido. Responde o técnico iraniano, foi obrigado a transferir a base de treinamento do Arizona para Tijuana, na qual a seleção teve que treinar em volta da piscina do hotel, esses fatos reescrevem com os pés o mapa geopolítico que a FIFA e o governo estadunidense de extrema direita Donand Trump desenharam com a caneta. Essa polifonia adensa-se ainda mais nas vozes dos atletas antirracistas, como Vini Jr. e Mbappé, cujos corpos negros se recusam a ser meros autômatos do jogo, e nas vozes de governos como o de Trump, que intervém na justiça esportiva com a mesma crueza com que opera no mercado global; na base dessa superestrutura, manifestam-se as vozes dos torcedores, que ressignificam o meme nas redes sociais como a nova metáfora da revolta, em fricção constante com o coro dos patrocinadores – do monopólio das casas de apostas, que colonizam o signo como arena de luta de classes, às redes de fast-food, às bebidas alcoólicas e aos titãs de logística como a Amazon –, de modo que o jogo de futebol, antes espaço de disputa esportiva autônoma, converte-se hoje em signo ideologicamente saturado por essas plataformas, que não apenas patrocinam clubes e transmitem partidas, mas reconfiguram o próprio ritmo do espetáculo: as odds em tempo real, os mercados de escanteios e cartões, as narrativas televisivas que naturalizam o "aposta agora" como parte da experiência do torcedor, tudo isso opera na lógica do capital financeiro, que nunca fala em seu próprio nome, mas se infiltra no discurso do amor ao clube, da emoção do gol, da identidade coletiva, fazendo com que o torcedor, ao vibrar, reproduza sem saber a ideologia da mercantilização total do futebol, e o jogador, ao marcar, já esteja inscrito numa cadeia de valores que transcende o campo e o transforma em mero ator de um espetáculo cujo roteiro é escrito pelos algoritmos das casas de apostas, de tal forma que, como bem observa Volóchinov, "Tudo que é ideológico possui significado: representa, figura ou simboliza algo que está fora dele. Em outras palavras, é um signo. Sem signos, não há ideologia." (VOLÓCHINOV, 2017); configura-se assim o que se pode denominar apostocapitalismo espetacular, fenômeno pelo qual a lógica da aposta não mais se limita a parasitar o futebol, mas o dissolve por completo, transformando cada gesto do jogador e cada pulsação do torcedor em dado transacionável, de modo que o próprio corpo do esporte, seus ritmos, suas paixões, suas resistências, é reabsorvido como matéria-prima de um mercado que lucra com a ilusão de que ainda se trata de jogo. Esse processo de espetacularização, ainda é impulsionado pelo oligopólio de corporações transnacionais como Nike, Adidas e Puma, que operam uma violenta dupla via de alienação: por um lado, metamorfoseiam o corpo do atleta em um outdoor ambulante; por outro, exploram a vulnerabilidade do Sul Global, pagando irrisórios 36 a 40 pesos mexicanos por hora (cerca de R$ 10 a R$ 11) às artesãs indígenas que bordam à mão os uniformes da seleção do México, garantindo lucros que ultrapassam a margem de 100% na venda de uma única peça. Sob o signo do capital, até mesmo o apelo visual da performance, como a onipresença de chuteiras rosas vibrantes nos pés dos jogadores, deixa de ser mero instrumento tático e passa a operar como fetiche Instagramável. A subjetividade do espetáculo é, assim, integralmente convertida em mercadoria, forjando objetos de desejo que colonizam o imaginário dos consumidores. Como lembra Bourdieu (2015, p. 43), o campo social é um espaço de lutas em que os agentes disputam a legitimidade de suas visões de mundo. A Copa de 2026 desenha-se, portanto, não como um território neutro, mas como um campo de forças fraturado, onde cada voz carrega um habitus distinto, um capital simbólico desigual e uma posição estrutural que a predispõe ao eco ou ao silenciamento. A voz da FIFA fala do topo de seu capital institucional, como quem discursa de um palanque inacessível; em contrapartida, a voz do atleta Vozinha, ao suplicar pelo visto de sua mãe, ecoa do chão da vida concreta, como quem fala para o vento, até que esse, transmutado em algoritmo viral, force a engrenagem a ouvi-lo. Nesse sentido, a polifonia bakhtiniana no espetáculo contemporâneo não emana de uma democracia idílica, mas de uma "democracia ferida": todas as vozes se manifestam, mas nem todas portam o mesmo peso político. Se para Bakhtin (2010, p. 122) o diálogo é constitutivo da linguagem, para Bourdieu (2015, p. 87) ele é constitutivo do poder. No horizonte de 2026, o diálogo opera simultaneamente como promessa e prisão, a promessa de que todos os cantos podem ecoar e a prisão de que apenas as vozes hegemônicas detêm o microfone. Longe de serem meramente justapostas, essas vozes entram em rota de colisão, refutando-se e transformando-se mutuamente a contrapelo do texto oficial. Essa fricção materializou-se de forma dramática nas oitavas de final, quando a Argentina reverteu um placar de 2 a 0 contra o Egito nos acréscimos. Diante do desfecho, a Federação Egípcia protocolou uma denúncia formal contra o trio de arbitragem, enquanto o atacante Zico subverteu o protocolo ao acusar o campeonato de ser "direcionado". A resposta pragmática da FIFA de investigar os árbitros, mas chancelar o placar, escancarou a assimetria radical desse campo: a instituição reserva-se o direito de admitir falhas procedimentais na burocracia sem jamais comprometer a soberania do resultado material. Assim, as vozes subalternas do Sul Global não dialogam com a superestrutura em condições de igualdade; dialogam contra ela, rasurando as entrelinhas de um roteiro que já nasceu pronto. E é justamente nessa teia de discursos cruzados que se insere a institucionalização da chamada "Lei Vini Jr." pela FIFA, ratificada junto à IFAB. A diretriz, que proíbe o ato de cobrir a boca durante discussões sob o pretexto de coibir insultos discriminatórios, ilustra de que maneira a fala de um atleta marginalizado provoca reações em cadeia capazes de alterar a própria gramática do jogo global. Longe de resolver o conflito racial, essa medida converte-se em um amplo mecanismo de silenciamento. Na Copa de 2026, as expulsões de Miguel Almirón (Paraguai) e Piero Hincapié (Equador), somadas à repressão infligida contra os torcedores, os jogadores da República Democrática do Congo e o congolês/belga Romelu Lukaku, que utilizavam o espaço do jogo para denunciar a guerra e a crise humanitária no Congo, evidenciam a rigidez com que a superestrutura impõe novos dispositivos de controle burocrático sobre os corpos. Sob a ameaça imediata do cartão vermelho, a FIFA enclausura a "palavra do outro", obliterando tanto a insurgência antirracista quanto a denúncia geopolítica em nome de uma ordem asséptica e mercantil. No entanto, o consenso em torno da medida é puramente ilusório. Enquanto a UEFA adota uma postura mais branda, punindo o gesto apenas com o cartão amarelo, a aplicação assimétrica da lei revela profundas fraturas políticas: a federação pune rigorosamente o técnico egípcio por seguir os protocolos de reclamação, mas exime-se de controlar a violência material e simbólica em suas arenas. Essa leniência materializa-se tanto na inércia diante de torcedores argentinos que arremessam latas contra torcedores egípcios, quanto na omissão perante a proliferação de ataques virtuais, como os memes racistas direcionados a Vini Jr. com Haaland, ou, ainda, diante de ofensas proferidas por figuras do alto escalão político, como a senadora paraguaia Celeste Amarilla. Sob essa perspectiva, a regra opera como uma inversão: ao criminalizar o ato de tapar a boca, a instituição transforma uma tática de ocultamento do discurso racista na própria infração punível. O que outrora servia de escudo para a impunidade do agressor converte-se, ele mesmo, no corpo de delito. Como observa Volóchinov, "É, portanto, claro que a palavra será sempre o indicador mais sensível de todas as transformações sociais, mesmo daquelas que apenas despontam, que ainda não tomaram forma, que ainda não abriram caminho para sistemas ideológicos estruturados e bem formados." (Volóchinov, 2017, p. 41). Paralelamente, Kylian Mbappé consolida-se como uma nova figura discursiva: o atleta-intelectual que abdica da neutralidade mercadológica para intervir ativamente no tecido social. Sua voz ressoa não apenas contra o racismo estrutural e a ascensão da extrema-direita, mas também contra o colonialismo econômico das apostas esportivas. Ao repudiar o uso não autorizado da imagem dos atletas por plataformas de apostas, o atleta francês/camaronês evoca a ancestralidade e a realidade concreta das periferias, onde as promessas ilusórias do jogo destroem trajetórias vulneráveis. Essa postura engajada, contudo, converte o jogador em alvo preferencial de violentas reações conservadoras, materializadas nos ataques racistas desferidos pela senadora paraguaia, de centro-direita, uma tentativa flagrante da elite política de desqualificar sua agência e reconduzi-lo ao estigma histórico: “Um bruto, não aprendeu sequer a escrever; em vez de leite materno, mamava em cocos, e os sons mais cultos que ouviu na vida foram de chimpanzés. Você deveria ter mostrado o dedo do meio para ele, Orlando Gill; eu faço isso no Senado e não acontece nada”, escreveu a senadora, que chamou Mbappé de “camaronês colonizado que finge ser francês, rancoroso, novo rico, arrogante e feio”. Franz Fanon, em Pele Negra, Máscaras Brancas, aponta para a exigência de assimilação e submissão aos padrões hegemônicos: "Para o negro, há apenas um destino. E ele é branco" (FANON, 2008, p. 27). No futebol, isso implica que a aceitação e o sucesso do sujeito negro (seja ele jogador ou torcedor) são condicionados à sua disposição em atender às expectativas da sociedade branca. Ele é forçado a adotar “máscaras brancas”, ou seja, a performar comportamentos, aceitar passivamente o racismo e adotar posturas que não ameacem a ordem racial estabelecida ou o conforto da branquitude. O sujeito negro só é tolerado e celebrado enquanto se mantiver dócil ou espetacularizado. Nas arquibancadas, a dinâmica de negação da subjetividade é idêntica. O torcedor e jogador negro é alvo constante de hostilidade e violência, sendo reduzido a um alvo de ofensas racistas que buscam desumanizá-lo. O racismo estrutural e institucional que permeia o esporte reflete exatamente a linha abissal descrita por Fanon, que divide o mundo entre a zona do ser (o branco, detentor da plena humanidade e sujeito de fala) e a zona do não-ser (o negro, visto como inferior, indesejável ou mero adereço social). Dessa forma, o corpo negro no estádio é simultaneamente indispensável para o show esportivo, mas rejeitado como sujeito social pleno. Não obstante, o campo das disputas discursivas recusa maniqueísmos puros. Ao responder às agressões institucionais classificando a senadora como uma "mulher desprezível", Mbappé desliza para um comentário de teor machista e depreciativo. Esse episódio demonstra que a polifonia do espetáculo é atravessada por ambiguidades; mesmo a voz insurgente, ao tatear as entrelinhas do poder, está sujeita a reproduzir opressões do mesmo verniz social que tenta combater. Nesse ponto, Heleieth Saffioti, em O Poder do Macho, oferece o instrumental analítico necessário: "Não há de um lado a dominação patriarcal e, de outro, a exploração capitalista. Para começar, não existe um processo de dominação separado de outro de exploração" (SAFFIOTI, 2005, p. 65). A fala de Mbappé, ao mesmo tempo em que denuncia o racismo, reproduz a dominação de gênero, revelando que patriarcado e racismo são, nas palavras de Saffioti, "duas faces de um mesmo processo" (SAFFIOTI, 2005, p. 65). Outro episódio profundamente emblemático da politização assimétrica da Copa envolveu o atacante norte-americano Folarin Balogun, expulso pelo árbitro brasileiro Raphael Claus em um confronto contra a Bósnia. A gravidade do fato consolidou-se fora das quatro linhas: o presidente Donald Trump admitiu publicamente ter intercedido junto à FIFA para solicitar a reavaliação do lance, levando a entidade a anular a suspensão automática do atleta e a substituí-la por um inusitado "período probatório de um ano". A comemoração de Trump nas redes sociais, "Obrigado à Fifa por fazer o que era certo e reverter uma grande injustiça!", escancara uma colagem abrupta entre o poder de Estado e o ordenamento esportivo. Ao ver a esfera presidencial intervir diretamente em sua estrutura regulatória, o futebol testemunha a ruína de sua suposta autonomia simbólica. A capitulação da FIFA ressoa como uma concordância estratégica com o país-sede, instituindo um precedente perigoso: a justiça esportiva passa a ser um bem negociável sob a balança das pressões políticas macroeconômicas. O contraste desse veredito com o caso envolvendo Lionel Messi no jogo contra a Argélia torna-se, portanto, gritante. Enquanto a entrada faltosa de Messi, atleta de incomensurável capital simbólico e mercadológico, não gerou sequer a aplicação de um cartão amarelo, a ação similar de Balogun resultou em uma expulsão sumária, posteriormente revogada não pelo rigor da regra, mas pelo peso da interferência geopolítica. Paralelamente a esse duplo padrão de julgamento, a superestrutura opera sua blindagem na esfera digital: vídeos que compilavam e denunciavam erros sistemáticos de arbitragem contra a seleção de Cabo Verde foram sumariamente removidos das plataformas digitais a pedido da FIFA. Como contraofensiva a esse autoritarismo corporativo, a eclosão da campanha popular #ResignInfantino, acompanhada de um massivo abaixo-assinado virtual, surge como uma resposta insurgente da base social, que tenta tensionar as redes e reverter a assimetria radical de um jogo cujas cartas parecem sempre marcadas. Mas por que isso importa? Como nos ensina o Círculo de Bakhtin, o signo é a arena na qual se trava a luta de classes, e o futebol, longe de ser um mero espetáculo alienante, funciona como um macroenunciado que reflete as pulsações mais íntimas da nossa estrutura social. Quando a bola rola em um cenário geopolítico complexo, o que testemunhamos não é a pureza asséptica das regras da FIFA, mas sim a palavra viva, refletida e refratada pelas assimetrias de poder que Bourdieu tão bem mapeou. Os discursos que cercam os gramados, sejam os protestos silenciosos contra o neocolonialismo e comentários racistas denunciados nos estudos de Fanon, sejam os deslizes discursivos que reproduzem as opressões de gênero desveladas por Saffioti, provam que o futebol é um tecido histórico em constante disputa axioideológica. Referências: BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003. BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2015. FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: Edufba, 2008. SAFFIOTI, Heleieth I. B. O poder do macho. São Paulo: Editora Moderna, 1987. VOLÓCHINOV, Valentin. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. São Paulo: 34, 2017. VOLÓCHINOV, Valentin. A palavra na vida e a palavra na poesia: para uma poética sociológica. São Paulo: Editora 34, 2019.
- Entre páginas, vozes e super-heróis: o fanzine-zine na sala de aula
Ingrid Liliam da Silva Você já imaginou transformar a sala de aula em um espaço onde leitura, arte e criação se encontram com super-heróis, identidade cultural e autoria estudantil? É exatamente essa proposta que o artigo “O gênero fanzine-zine na sala de aula: leitura, arte e super-heróis”, de Luciane de Paula e Josiani Kely Milesk, nos apresenta — e que merece a sua leitura com atenção e curiosidade! A partir de uma perspectiva bakhtiniana da linguagem, o estudo nos convida a repensar práticas pedagógicas, deslocando o foco de um ensino mecanizado para uma abordagem viva, dialógica e profundamente significativa. Aqui, a linguagem é entendida como verbivocovisual — ou seja, não apenas palavras, mas também sons, imagens e sentidos que se entrelaçam na construção dos enunciados. Mas o que isso significa na prática? Significa reconhecer a sala de aula como um espaço de acontecimento. Um espaço onde os estudantes deixam de ser apenas receptores e passam a ser autores de suas próprias vozes, expressando suas visões de mundo por meio de gêneros discursivos que dialogam com suas realidades. E é aí que entram os fanzines e e-zines. Frequentemente vistos como “estranhos” ao ambiente escolar, esses gêneros foram incorporados à prática pedagógica por meio de três motes criativos e potentes: ● Leitura & Literatura ● Tarsila e toda a nossa brasilidade ● Super-heróis O resultado? Um ambiente de aprendizagem mais aberto, criativo e significativo, em que os estudantes puderam: ● experimentar diferentes linguagens ● explorar suas estéticas e posicionamentos ● construir sentidos de forma crítica e colaborativa Como destacam as autoras, os alunos passaram a “eleger suas estéticas, éticas e conteúdos composicionais, marcando suas autorias e fazendo ressoar suas vozes”. Além disso, a proposta não se limitou a um único gênero: ao longo do processo, diversos outros gêneros discursivos emergiram, evidenciando a riqueza de uma abordagem baseada nos multiletramentos — uma pedagogia comprometida com a formação crítica, plural e democrática. Por que ler esse artigo? Porque ele nos inspira a: ● repensar o ensino de linguagem como prática social viva ● valorizar a autoria e a criatividade dos estudantes ● experimentar abordagens prototípicas e inovadoras ● fortalecer pesquisas alinhadas à perspectiva dialógica dos gêneros do discurso Vamos continuar essa conversa? Se você é pesquisador(a), professor(a) ou estudante interessado(a) em linguagem, ensino e práticas inovadoras, este artigo é um convite aberto. Leia, reflita e compartilhe suas impressões conosco!
- XIII Simposio Internacional de Géneros Textuales/Discursivos
Imagem de divulgação - XIII Simposio Internacional de Géneros Textuales/Discursivos O XIII Simpósio Internacional de Gêneros Textuais/Discursivos (SIGET) será realizado entre os dias 17 e 20 de novembro de 2026, em Montevidéu, Uruguai. Organizado pela Universidad de la República, em parceria com o Grupo de Trabalho de Gêneros Textuais/Discursivos da ANPOLL, o evento chega à sua 13ª edição e acontece pela segunda vez fora do Brasil. Com o tema “Vozes e identidades em diálogo: múltiplos olhares nos estudos dos gêneros textuais/discursivos”, o simpósio propõe reflexões sobre as diferentes formas de construção das identidades e das vozes sociais na contemporaneidade, reunindo pesquisadores interessados nos estudos dos gêneros textuais e discursivos sob diversas perspectivas teóricas e metodológicas. O evento busca promover o diálogo entre diferentes abordagens de pesquisa, oferecendo um espaço para a discussão de temas como identidades e discursos em conflito, formação de professores, tecnologias digitais e inteligência artificial, letramentos acadêmicos e profissionais, literatura e mídia, ensino de leitura, produção textual e oralidade, divulgação científica, contextos de vulnerabilidade social e perspectivas interculturais. Para mais informações, acesse: https://xiiisiget.wordpress.com/
- IX CBE - Congresso Brasileiro de Educação
Imagem de divulgação - IX CBE De 23 a 26 de setembro de 2026, a Faculdade de Ciências (FC) de Bauru será palco de um importante encontro para refletir, dialogar e fortalecer a educação no Brasil. A IX edição do Congresso Brasileiro de Educação traz como tema “Desafios e Resistências na Educação em Tempos de Retrocessos Políticos e Sociais”, reafirmando a educação como prática sociopolítica transformadora. O evento propõe debates essenciais sobre formação docente, educação pública, inclusão, acessibilidade e o uso crítico das tecnologias digitais. Destinado a pesquisadores, docentes, estudantes, profissionais e gestores da área, o congresso mantém seu caráter científico e abrangência nacional. Para mais informações sobre o evento e a submissão de trabalhos, acesse a página do evento: https://www.even3.com.br/cbe2026-655080/
- Entre ansiolíticos, cosméticos e soluções rápidas
Imagem de dilvugação - Poções estéticas e alimentares: da farmacologia ao discurso da beleza Entre ansiolíticos, cosméticos e soluções rápidas: até que ponto sentimentos, corpos e identidades estão sendo transformados em algo que precisa ser corrigido?” Tendo como inspiração o universo de Harry Potter, uma análise das poções mágicas mostra que aquilo que aparenta ser fictício também fala sobre nós, sobre padrões, controle e maneiras de buscar constantemente artifícios de “ajuste” para o corpo e para a mente. Talvez a diferença entre os mundos mágico e não mágico não esteja na presença/ausência das poções, mas sim na forma como as nomeamos e na importância que damos às mesmas…
- Bate-papo: vida e arte em diálogo: construções da "diferença" em enunciados fantásticos
Oi, pessoal. Temos vídeo novo no canal do GED. Trata-se do bate-papo entre a professora Ana e a professora Alline Rufo sobre a construção da diferença em Tolkien e J. K. Rowling. https://www.youtube.com/watch?v=J-BOVSZANUU Comentem e compartilhem ;)
- Repercussões da direita sobre a lei de misoginia: quais ideologias estão em embate?
Carolina Gomes Sant’ana O Brasil vive uma epidemia de feminicídios. Somente em 2025, foram registrados 1.568 (Souza, 2026) casos, o maior número da última década. Quatro mulheres são mortas todos os dias, apenas por serem mulheres. A situação alarmante é produto do aumento de comunidades na internet, chamadas “red pill”, que são construídas a partir da disseminação de ideologias machistas de ódio à mulher, e de incentivo à violência física, verbal, sexual e psicológica contra a mulher e sua subjugação. O movimento, de extrema direita, vem crescendo na internet, junto com o movimento incel, ambos defendem a superioridade biológica do “macho-alfa”, e a inferioridade biológica da “fêmea-beta”, que existe para cumprir seu suposto papel de servitude silenciosa ao homem e à família. Esses grupos constroem essas valorações como se fossem fatores naturais e inatos, porém, não são embasados por dados científicos, muito pelo contrário, são construções socialmente construídas por um grupo organizado de pessoas. Todavia, o movimento red pill é produto de centenas de anos de um patriarcado hegemônico, estrutural e sistemático, que visava colocar a mulher em posição de inferioridade, para que, consequentemente, o homem seja superior, para que ele tenha a mulher cumprindo todas as funções de cuidado do marido, dos filhos e do lar, sem nenhuma forma de remuneração. Na busca de tentar diminuir a circulação dos discursos de ódio e incitação à violência do movimento red pill na internet, e tentar fazer com que menos pessoas sejam “convertidas” para essa prática que leva à discriminação e à violência contra a mulher, o Senado brasileiro aprovou, em 24 de fevereiro de 2026, a PL896/ 2023, que inclui a misoginia entre crimes de preconceito, como o racismo. De acordo com o site do Senado (2026): O texto aprovado define a misoginia como “a conduta que exteriorize ódio ou aversão às mulheres”. O projeto também inclui a expressão "condição de mulher" entre os critérios de interpretação da Lei do Racismo (Lei 7.716, de 1989), ao lado de cor, etnia, religião e procedência. A legislação atual equipara a misoginia à injúria e à difamação – com pena que pode ir de dois meses a um ano de reclusão, de acordo com o Código Penal (arts. 139 a 141).[...] A relatora apontou que países como França, Argentina e Reino Unido já têm leis de combate à misoginia. [...] — O projeto é para proteger a família e a dignidade e a liberdade das mulheres. A aprovação do projeto responde a uma realidade urgente. O ódio às mulheres não é abstrato: é estruturado, é crescente e ceifa vidas todos os dias — afirmou Soraya. Essa aprovação é uma conquista na luta por uma sociedade mais justa e igualitária, mesmo sendo ainda um pequeno passo de uma batalha maior. Isso porque apenas alterar o sistema, sem combater a propagação desses valores patriarcais na sociedade não é suficiente, já que são membros dessa sociedade que aplicam essas leis. Simultaneamente, homens e membros da extrema direita contestam a lei, julgam-a como absurda e moralmente errada e desequilibrada, como é o caso do Deputado Federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que postou em suas redes sociais “Falar mal de uma mulher será mais grave do que ela tomar um tapa na cara. A Câmara tem o dever de derrubar essa loucura” e “Inacreditável é a palavra… Amanhã começa o trabalho para derrubar essa aberração que foi aprovada hoje no Senado”, nos dias 26 de março e 24 de março respectivamente (Poder 360, 2026). De acordo com Bakhtin, o sujeito ocupa lugar único na existência (Bakhtin, 2011), sendo constituído de valorações e ideologias, e cada ato seu é uma tomada de posicionamento, é assumir um posicionamento ideológico socialmente construído. Aqui vemos como Nikolas, em seus enunciados, em seus atos, atua na manutenção de uma hegemonia de desigualdade, que trata a mulher como inferior e indigna de direitos, independência ou justiça. Mas porque esse posicionamento? Saffioti (1987, p.15) afirma: “O poder está concentrado em mãos masculinas há milênios. E os homens temem perder privilégios que asseguram sua supremacia sobre as mulheres.” A construção de inferioridade da mulher, dentro do patriarcado, é condição necessária para a construção de superioridade do homem, isso porque a inferioridade e a superioridade só podem existir por sua oposição uma à outra, ou seja, para que o homem seja superior, a mulher deve ser colocada como inferior. Dessa forma, quando mulheres obtêm direitos e mais igualdade na justiça, muitos interpretam como a perda de direitos dos homens, já que, com a mulher saindo da posição de inferioridade, o homem, automaticamente, sai também da de superioridade. Essa mudança de status, todavia, não resulta em homens perdendo direitos, apenas sendo igualados pelas mulheres. Entretanto, esses sujeitos recusam-se a perder a posição de superioridade, recusam-se a perder o domínio, mesmo que violento, das mulheres. Porém, Bakhtin (2011) afirma que o sujeito não tem álibi da existência, é responsável por todas as suas ações, e tem a responsabilidade moral e ética de atuar de forma justa, em busca de uma sociedade melhor e mais igualitária. Mesmo assim, há aqueles que se recusam a lutar pelo bem coletivo, pela igualdade para todos, por não querer deixar sua posição de superioridade de lado, tendo como motivador um individualismo extremo, que descarta os sujeitos vistos como menos importantes ou menos humanos. Referências: BAKHTIN, M. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2011. FRIOLI, Giovana.Nikolas Ferreira publicou texto que não consta no projeto de lei que criminaliza a misoginia. Estadão, 2026. Disponível em: https://www.estadao.com.br/estadao-verifica/nikolas-ferreira-trecho-projeto-de-lei-criminaliza -misoginia-enganoso/ Acesso em 29 mar. 2026. Nikolas chama projeto de lei sobre misoginia de “loucura”. Poder 360, 2026. Disponível em: https://www.poder360.com.br/poder-congresso/nikolas-chama-projeto-de-lei-sobre-misoginia -de-loucura/ Acesso em 29 mar. 2026. SAFFIOTI, H. I. B. O poder do macho. São Paulo: Moderna, 1987. Senado aprova criminalização da misoginia. Senado Federal, 2026. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/institucional/procuradoria/noticias/senado-aprova-criminalizaca o-da-misoginia Acesso em 29 mar. 2026. SOUZA, Felipe. Brasil tem maior número de feminicídios dos últimos 10 anos, diz pesquisa. CNN Brasil, 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil/brasil-tem-maior-numero-de-feminicidios-dos-u ltimos-10-anos-diz-pesquisa/ Acesso em 29 mar. 2026.
- Divulgação científica: o que a literatura revela sobre o “amor”
Oi, pessoal. Temos vídeo novo no canal do GED no Youtube. Trata-se de um vídeo de divulgação científica da pesquisadora Isabella Kojima. Comentem, compartilhem, curtam. Bora dialogar! Título: Divulgação científica: o que a literatura revela sobre o “amor” https://www.youtube.com/watch?v=RIjmThFdpgc
- “No one mourns the wicked”: uma breve reflexão dialógica sobre a diferença em Wicked
Ana Carolina Siani Com uma primeira parte lançada em 2024 ( Wicked – Parte I ) e a segunda em 2025 ( Wicked – Parte 2 ), o filme Wicked é uma adaptação cinematográfica do musical da Broadway de mesmo título (em cartaz desde 2003) que, por sua vez, baseia-se no livro de Gregory Maguire, Wicked: A história não contada das Bruxas de Oz (2016 [1995]). Enquanto um todo narrativo, no qual a obra de Maguire parte do universo do clássico O mágico de Oz de L. Frank Baum (2013 [1900]) e de elementos de sua adaptação cinematográfica mais famosa, O mágico de Oz de 1939; o enunciado Wicked segue a vida pregressa da Bruxa Má do Oeste e de Glinda, a Bruxa Boa, antes dos acontecimentos retratados em O mágico de Oz, de forma a nos oferecer uma outra perspectiva da história já conhecida. De modo geral, Wicked concentra-se no ponto de vista da “vilã”, esta que é referenciada no clássico apenas como a Bruxa Má do Oeste, e que nesta narrativa torna-se a protagonista, ganhando um nome, Elphaba, uma mudança que já expressa os novos sentidos construídos pelo enunciado que nasce como uma “resposta” a outro (Bakhtin, 2011). É a partir da constituição da personagem Elphaba, em seu percurso até tornar-se a Bruxa Má do Oeste, que no presente texto temos como intuito realizar uma breve reflexão acerca da materialização de relações de identidade e diferença na narrativa do filme Wicked, tendo em vista uma compreensão dialógica que toma a linguagem e o enunciado como um palco da luta entre valores sociais (Volóchinov, 2017), o que denota o caráter sígnico dos processos de construção do “diferente”. Para tanto, devido aos limites desta reflexão, nos concentraremos especialmente nos acontecimentos retratados na primeira parte da franquia fílmica. Em Wicked (2024) , Elphaba é rejeitada e marginalizada desde a infância, primeiro pelo pai e posteriormente pelos cidadãos de Oz, por ter nascido com a cor verde. Por uma interrelação entre valores sociais sustentada por determinados signos (aqui, a cor da pele), podemos compreender os mecanismos discursivos de construção da identidade e diferença a partir da contraposição entre a protagonista e seus outros. Essa contraposição é explorada pelo projeto de dizer do enunciado ao retratar a “diferença” de Elphaba, que incorre no preconceito e exclusão que sofre, ancorando-se também na sua relação inicialmente de inimizade e posteriormente de amizade com Glinda na Universidade de Shiz, enquanto sujeitos completamente opostos e localizados em diferentes lugares sociais (Glinda é a garota “popular” da universidade, apreciada pelos colegas, padrão ético e estético almejado e a ser seguido). Por uma compreensão dialógica, ancorada sobretudo no pensamento do Círculo de Bakhtin e sua filosofia da linguagem, a jornada e constituição da personagem Elphaba nos permite compreender o modo pelo qual a diferença é produzida a partir da identidade, pela/na alteridade, enquanto elementos interdependentes (uma não existe sem a outra) e fatos de sentido. De acordo com Silva (2014), identidade e diferença “[...] não são criaturas do mundo natural ou de um mundo transcendental, mas do mundo cultural e social. Somos nós que as fabricamos, no contexto de relações culturais e sociais” (p. 76). Enquanto criações socioculturais, identidade e diferença não são preexistentes aos atos de linguagem, tratam-se antes de tudo de um conjunto de valores (discursos), formas de compreensão do mundo e consciência social, veiculados e concretizados pela/na materialidade significante, isto é, “[...] expressa e fixada pelo homem na palavra, no desenho artístico e técnico ou em alguma outra forma sígnica (Volóchinov, 2019, p. 243). Conforme o pensamento do Círculo de Bakhtin, podemos dizer que um valor só pode ser estabelecido em contraposição (em uma relação de diferença) com outro valor, uma vez que nasce em um território interindividual, a partir de uma coletividade, do que decorre que um posicionamento sempre pressupõe ou leva em conta outros posicionamentos: “É impossível alguém definir sua posição sem correlacioná-la com outras posições” (Bakhtin, 2011, p. 297). A “diferença” de Elphaba é produzida a partir da relação “eu-outro”, isto é, o “diferente” é valorado como tal sempre em relação a uma dada norma, esta que é “[...] a referência, é o ponto original relativamente ao qual se define a diferença. Isto reflete a tendência a tomar aquilo que somos como sendo a norma pela qual descrevemos ou avaliamos aquilo que não somos” (Silva, 2014, p. 75-76). E sendo a linguagem e o enunciado um reflexo e refração das relações conflituosas entre sujeitos socialmente organizados (Volóchinov, 2017), a produção da identidade e diferença também compreende dinâmicas de força e poder, a partir das quais determinados sujeitos construídos como “diferentes” serão marginalizados. Em Wicked (2024), a cor de pele verde é o signo que materializa a diferenciação (não-identidade) de Elphaba em relação aos seus “outros”, elemento a partir do qual a personagem será valorada de forma negativa. Figura 1: Elphaba na infância Fonte: Sequência disponível em 00:09:45; 00:09:46; 00:09:48 no filme Wicked (2024) Figura 2: Elphaba na infância Fonte: Sequência disponível em 00:09:51; 00:09:55; 00:09:57 no filme Wicked (2024) Nas sequências em destaque (Figuras 1 e 2), temos acesso às lembranças da infância de Elphaba, na qual é retratado o preconceito que a personagem sofre por parte de outras crianças por causa da sua cor. Assim, ter a cor verde no interior dessa coletividade é uma característica que vai contra um determinado “padrão” e que por isso, é associada a determinados valores negativos (éticos e estéticos), visto como algo que não pertence àquela sociedade. Tendo em vista o projeto de dizer do enunciado fílmico, é interessante observar que as crianças enunciam em um tom negativo que Elphaba é “verde como as árvores” (Figura 2), o que nos chama atenção para plurivalência de sentidos desta cor, a qual será trabalhada pela narrativa e franquia de Wicked, em relação de oposição e complementariedade com o rosa, marca da personagem Glinda . Isso porque, conforme Heller (2013), o verde pode ser signo de valores ligados a natureza, esperança, frescor, entre outros, mas também assume, por outro lado, em algumas práticas de representação, mitos e narrativas, o sentido de “horripilante” e repulsivo (por também ser a cor de lagartos, serpentes, sapos), uma vez que pode ser tida como a cor mais “anti-humana” de todas, frequentemente mobilizada para retratar monstros, criaturas mitológicas, extraterrestres, demônios etc. A norma compreende o que está na margem, pois “[...] a definição daquilo que é considerado aceitável, desejável, natural é inteiramente dependente da definição daquilo que é considerado abjeto, rejeitável, antinatural” (Silva, 2014, p. 84), uma complementariedade valorativa que em Wicked (2024) será explorada pela inesperada amizade entre Elphaba e Glinda, tendo em vista a versão da história retratada no clássico O mágico de Oz. Ao adentrar a Universidade de Shiz, a cor de Elphaba causa estranhamento e rejeição por parte dos colegas, incluindo Glinda, com qual desenvolverá uma relação de inimizade. Glinda é caracterizada como ambiciosa, e mesmo expressando seu estranhamento e preconceito com Elphaba (a descreve como “exótica” e define sua cor como um “problema” a ser resolvido), ao interagir com ela, age com condescendência (Figura 3), valoração expressa não só pela palavra que utiliza para se referir a sua cor (“problema”), mas também pelo tom de voz e expressões faciais que emprega, o que faz com que seja exaltada por sua suposta “bondade” (ainda que no decorrer da trama, a afeição e amizade que surge entre elas se mostre verdadeira). O contraste ético e estético entre as duas protagonistas que refletem e refratam o modo pelo qual identidade e diferença são construídas via discurso corrobora com a constituição de cada uma em signos ideológicos do “bem” (Glinda, a Bruxa Boa) e do “mal” (Elphaba, a Bruxa Má do Oeste), a narrativa já conhecida da obra-fonte, a qual a franquia Wicked visa desconstruir. Figura 3: Elphaba e Glinda na Universidade de Shiz Fonte: Sequência disponível em 00:16:31; 00:16:33; 00:16:35 no filme Wicked (2024) Todo signo carrega e veicula uma ideologia, um dado conjunto de valores, assim, por meio da manipulação da opinião pública e difusão de uma dada narrativa, Elphaba transforma-se no próprio “mal”, isso porque não aceita submeter-se aos planos autoritários de governo do Mágico (dentre os quais temos o projeto de exclusão e marginalização dos animais), e passa a ser enunciada em toda a Oz como a “inimiga” que deve ser eliminada, o que culmina na sua transformação na Bruxa Má do Oeste, um percurso que compreende o olhar/enquadramento axiológico que parte do “outro”, e de forma hierárquica distribui o poder entre quem pode definir e quem é definido. A produção discursiva da norma e do diferente compreende determinados movimentos valorativos, nos quais uma dada moral e ética é atribuída aos sujeitos: “[...] incluir/excluir (‘estes pertencem, aqueles não’); demarcar fronteiras (‘nós’ e ‘eles’); classificar (‘bons e maus’; ‘puros e impuros’; ‘desenvolvidos e primitivos’; ‘racionais e irracionais’); normalizar (‘nós somos normais; eles são anormais’)” (Silva, 2014, p. 81-82). Dividir e classificar, também compreende o ato de hierarquizar e imputar comportamentos positivos e negativos tanto aos dominantes como aos subalternizados. Do mesmo modo, em Wicked (2024) , Elphaba passa a ser definida como “má”, e para tanto, sua cor é evidenciada, como no discurso proferido por Madame Morrible aos cidadãos de Oz. Figura 4: A transformação de Elphaba na Bruxa Má do Oeste Fonte: Sequência disponível em 02:29:20; 02:29:23; 02:29:30 no filme Wicked (2024) Na sequência acima (Figura 4), acompanhamos a associação entre a cor de pele de Elphaba (ressaltando-se essa sua “diferença” para “justificar” supostos atos condenáveis da personagem) e o valor de “maldade”. A recorrência a uma “natureza”, argumento presente no discurso de Morrible, visa assegurar ou sustentar determinados discursos preconceituosos e realizar a manutenção de hierarquias, o que se trata de um lugar comum neste tipo de visão de mundo. Assim, determinados tipos de intolerância sempre procedem a uma “essencialização” de características consideradas negativas imputadas às características de determinados grupos. Ainda no caso de Elphaba, esse tipo de estratégia discursiva cumpre com a manipulação promovida por Morrible e o Mágico, o que também envolve a instrumentalização de Glinda e sua imagem “irretocável” (“boa”) para a campanha de perseguição à Elphaba, quando aquele se torna a garota propaganda do governo. Em seu projeto de dizer, a jornada de Elphaba demonstra o modo pelo qual a língua/linguagem nunca são neutras: O enunciado nunca é apenas um reflexo, uma expressão de algo já existente fora dele, dado e acabado. Ele sempre cria algo que não existia antes dele, absolutamente novo e singular, e que ainda por cima tem relação com o valor (com a verdade, com a bondade, com a beleza, etc.) (Bakhtin, 2011, p. 326). A releitura operada por Wicked nos permite compreender o discurso como um reflexo e refração da realidade, isto é, como uma atividade sígnica que não só descreve o mundo, como também cria algo novo e o avalia, podendo por isso mesmo, distorcê-lo. Mais do que isso, enquanto enunciado estético que nasce do solo social e toca em questões da vida de modo singular (de seu lugar único e a partir das potencialidades da esfera artística e do gênero dentro do qual concretiza-se), a constituição de Elphaba exemplifica o modo pelo qual identidade e diferença longe de serem elementos do mundo natural e fatos essenciais aos sujeitos, são antes de tudo, construções de sentido, o que vai ao encontro do que nos diz Hall (2013): “Não é que as diferenças não existam, mas sim que o que importa são os sistemas que utilizamos para dar sentido a elas” (Hall, 2013, s/p.). Conforme a máxima que diz que toda história tem dois lados, na esteira de uma série de outros enunciados que buscam mostrar a perspectiva dos “vilões”, o enunciado fílmico Wicked comporta-se como um organismo vivo que traz em si um confronto entre vozes sociais, portanto, mostra-se como uma unidade de sentido complexa que visa desmontar uma narrativa já conhecida. Ainda no interior do próprio enunciado e na sua relação com outros, podemos compreender a existência de movimentos de forças centrípetas e centrífugas (Bakhtin, 2014), uma vez que, no que diz respeito a produção discursiva da identidade e diferença, temos um jogo entre tentativas de fixidez e outras que visam desestabilizar esses valores, o que evidencia a linguagem como espaço de resistência nos qual podemos ressignificar e desconstruir hierarquias. Tal deslocamento é operado por Wicked (2024) ao humanizar Elphaba e Glinda, descontruindo uma narrativa já cristalizada (a tão essencializada luta entre “bem” e “mal”), ao retratar estas como sujeitos ambivalentes. Assim, entender as identidades e diferenças como construções simbólicas nos permite compreender as estratégias discursivas de suas imposições, o que também nos permite pensar que a linguagem pode ser usada tanto para reafirmar estereótipos e valores nocivos, como para desconstruí-los. Finalmente é importante enfatizar que a presente reflexão não buscou esgotar as possibilidades de análise sobre os reflexos e refrações da identidade e diferença em Wicked, bem como realizar uma análise mais minuciosa e aprofundada da construção de sentido do enunciado fílmico, o que será feito em um trabalho futuro. Referências bibliográficas BAKHTIN, M. Estética da criação verbal . Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora Martins Fontes, 6ª edição, 2011. BAKHTIN, M. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini, José Pereira Júnior, Augusto Góes Júnior, Helena Spryndis Nazário, Homero Freitas de Andrade. São Paulo: Hucitec, 2014. BAUM, F. L. O mágico de Oz. Tradução de Sérgio Flaksman. Rio de Janeiro: Zahar, 2013. MAGUIRE, G. Wicked: A História Não Contada das Bruxas de Oz . Tradução de Tatiana Leão. São Paulo: LeYa, 2016. HALL, S. Raça, um significante vazio. In: Z Cultural . UFRJ. Revista do Programa Avançado de Cultura Contemporânea. Ano VIII, Volume 02. 2013. Disponível em: https://revistazcultural.pacc.ufrj.br/raca-o-significante-flutuante%EF%80%AA/ (Acesso em 16 de março de 2026). HELLER, E. A psicologia das cores: como as cores afetam a emoção e a razão. São Paulo: Gustavo Gili, 2013. SILVA, T. T. da. A produção social da identidade e da diferença. In: SILVA, T. T. da. (Org.). HALL, S. WOODWARD, K. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 15ª edição, 2014, p. 73-102. VOLÓCHINOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem. Tradução de Sheila Camargo Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. Rio de Janeiro: 34, 2017. VOLÓCHINOV, V. A palavra na vida e a palavra na poesia: Ensaios, artigos, resenhas e poemas . Organização, tradução, ensaio introdutório e notas de Sheila Grilo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Editora 34, 2019. WICKED . Direção: Jon M. Chu. Produção: Marc Platt, David Stone. Roteiro: Winnie Holzman, Dana Fox. Música: Stephen Schwartz. Distribuição: Universal Pictures, 2024, 160 min. 1 “Ninguém chora pelos maus” (Tradução nossa). Trecho da canção No one mourns the wicked, que abre o filme Wicked (2024), na qual as personagens comemoram a morte de Elphaba, a Bruxa Má do Oeste. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=HgwOx31qsK4 (Acesso em 16 de março de 2026).
- Colóquio Internacional "Circulações em Português: Corpos, Culturas e Textualidades"
Imagem de divulgação - Circulações em Português: Corpos, Culturas e Textualidades" Este colóquio propõe-se como um espaço de encontro entre diversas abordagens críticas e disciplinas, reunindo reflexões que exploram as múltiplas formas de mobilidade cultural, textual e simbólica no âmbito da língua portuguesa. Convidamos à construção de um pensamento partilhado sobre as circulações como experiência histórica, condição estética e desafio interpretativo — reconhecendo o português como território de trânsito, de invenção e de múltiplas pertenças. Propõem-se, entre outras, as seguintes linhas de reflexão: Poéticas do deslocamento: narrativas de trânsito, travessia e experiências de viagem; Culturas em circulação: persistência de formas e ecologias da diferença; Migração, exílio e cosmopolitismo: geografias móveis da literatura em português; Tradução, adaptação, reescrita: textualidades em trânsito interlinguístico e interartístico; Intermedialidade e ecossistemas expressivos: da literatura impressa à imagem, ao som e à hipermédia; Políticas da circulação: infraestruturas, mediação, recepção e mercados literários; Trânsitos Atlânticos: Perspetivas Transnacionais para Além do Mundo de Língua Portuguesa O colóquio "Circulações em Português: Corpos, Culturas e Textualidades" será um evento presencial, a ter lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, de 03 a 05 de junho de 2026. Os interessados deverão enviar uma proposta de comunicação para o endereço de e-mail: lucafazzini@edu.ulisboa.pt (indicar no assunto do e-mail: Comunicação Colóquio Circulações), contendo: nome completo, endereço de e-mail, título da comunicação, resumo (máx. 200 palavras) e nota biográfica (máx. 100 palavras). As línguas oficiais do colóquio são o português e o inglês, mas são bem vindas também propostas em outras línguas. Prazos: Envio das propostas: até 06 de março de 2026C Comunicação de aceitação: até 27 de março de 2026 Para obter mais informações, acesse: https://plataforma9.com/congressos/cfp-coloquio-internacional-circulacoes-em-portugues.htm?fbclid=IwY2xjawQG0EFleHRuA2FlbQIxMABzcnRjBmFwcF9pZBAyMjIwMzkxNzg4MjAwODkyAAEerxc56gefWf7Cwj12S7y9_CiMM_yuXbhAzDkDijJUQGoTaCp5DP7b93L6qig_aem_yBykJYlBmjGPQUrI4ehgiA
- 7º CIELLI - Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários
Imagem de divulgação - 7º CIELLI - Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários O CIELLI é um evento híbrido promovido pelo Programa de Pós-graduação em Letras (PLE), da Universidade Estadual de Maringá (UEM). O evento reúne, bianualmente, pesquisadores dedicados ao campo dos Estudos Linguísticos e Literários. A edição de 2026, que ocorrerá nos dias 9 a 12 de junho de 2026, no formato híbrido, suscitar reflexões acerca de questões essenciais relacionadas às práticas de ensino e pesquisa no campo dos estudos linguísticos e dos estudos literários no contexto sócio-político-econômico atual. Datas importantes: Submissão de Propostas de Simpósios: até 15 de março de 2026 Divulgação da lista de Simpósios: até 20 de março de 2026 Inscrição de comunicação em Simpósios: de 20 de março a 20 de abril de 2026 Para obter mais informaações, acesse: https://plataforma9.com/congressos/7-cielli-coloquio-internacional-de-estudos-linguisticos-e-literarios.htm?fbclid=IwY2xjawQG0hBleHRuA2FlbQIxMABzcnRjBmFwcF9pZBAyMjIwMzkxNzg4MjAwODkyAAEeBInfCAFeZ2giuAb8wpERVP0TMmCoIWIc8pfGGhv7tdD8KBKp-k2N48Hgiwo_aem_89J_y8AFsoUWcLDHjbOxVQ
- Unesp Assis promove ação de multiletramento com a exposição "Ler e/com blocos"
Nos dias 1º a 3 de dezembro de 2025 , foi realizada, na Unesp Assis, a exposição “Ler e/com blocos” , promovida pelo Grupo de Estudos Discursivos (GED). A ação é resultado da integração entre projetos de pesquisa, extensão, inovação e ensino, contando com uma equipe ampla que envolve desde alunos do Ensino Médio (PIBIC Jr.), alunos da graduação, alunos da pós-graduação (como coorientadores), professores e comunidade externa. Sendo uma ação propositiva de implementação de atividades de leitura e produção de gêneros discursivos na escola, foram trabalhados textos que inspiraram a criação de um minimundo (MOC/DIY) personalizado, em um trabalho dialógico-transversal. A proposta articula temáticas contemporâneas e contempla conteúdos curriculares do Ensino Médio, organizados em blocos de saberes interdisciplinares. O evento buscou fomentar a leitura e a produção textual questionadora, além de possibilitar o acesso a materiais e metodologias de ensino-aprendizagem socioculturais, em parceria com a escola pública e com a pesquisa científica. Assim, recebeu um público variado, do CCI (crianças de 2 a 3 anos) à terceira idade, incluindo perfis diversos: crianças, jovens (alunos de todos os cursos da FCLAs, da educação básica e dos programas de pós-graduação de Assis), adultos (docentes da universidade e da educação básica) e membros da comunidade externa. No primeiro dia (01/12), o evento recebeu 7 visitantes pela manhã, 15 à tarde e 8 à noite, totalizando 30 pessoas. No segundo dia (02/12), foram 15 pela manhã, 25 à tarde e 5 à noite, totalizando 45 visitantes. No terceiro e último dia (03/12), houve 12 visitantes pela manhã, 5 à tarde e 10 à noite, totalizando 27 pessoas. Assim, ao final dos três dias, o evento somou 102 visitantes . A proposta geral foi estimular a autonomia e o protagonismo cidadão por meio da criação e construção de MOCs/DIY focados em produções de diferentes fandoms , como Harry Potter, Família Addams, Tim Burton, Disney, entre outros, com ilhas específicas no minimundo. Todo o trabalho foi alicerçado nas orientações dos documentos oficiais para o multiletramento no ensino: um ensino que aproxima realidades e saberes a partir da compreensão de que não lemos, escrevemos ou falamos coisas isoladas, mas em blocos de texto/discurso que manifestam sentidos. Pensamos de maneira integrada por meio da linguagem tridimensional, em blocos dialógicos que formam o enunciado concreto. Dessa forma, as produções apresentadas na exposição evidenciam, como estratégia de ensino, redes de leitura que refletem e refratam o pensamento em ação, a partir de blocos de tijolos MOC. Rafaela dos Santos Batista Confira abaixo alguns registros da exposição .











