top of page

Resultados de busca

Buscar neste site

198 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Silêncios e ausências: uma leitura bakhtiniana do livro "Uma delicada coleção de ausências", de Aline Bei

    Por Isabella Lourenci Kojima Há ausências que não significam só a falta de alguém. Algumas permanecem, ocupam espaços, atravessam memórias e continuam presentes mesmo quando aquilo ou aquele que se foi já não pode ser encontrado, mas sentido e revivido. É nesse território delicado entre presença e falta que em Uma delicada coleção de ausências, de Aline Bei o leitor é convidado a olhar para a experiência da falta não como um vazio absoluto, mas como algo que continua se (re)produzindo de geração em geração nessa família de mulheres. A obra se passa em uma casa humilde, na cidade de Belva, onde Laura e Margarida vivem juntas, Margarida se dedica aos cuidados da neta, mesmo com o corpo cansado, pois é o elo mais forte com a sua filha, Glória. Em sua juventude, Margarida era fascinada pela arte e decide fugir para trabalhar no circo, lá ela conhece um palhaço, pai de sua filha, que lhe ensina a quiromancia, profissão que exerce em uma feira de antiguidades para sustentar o lar das duas. A fuga de Margarida representa o primeiro elo de uma longa cadeia de partidas, silêncios e ausências que atravessam as gerações de mulheres dessa família. Conforme os dias iam passando, Laura questionava o porquê de sua mãe ter lhe deixado com a avó, perguntava como Glória era, histórias, memórias e situações vividas por sua mãe, sua avó dizia os costumes que ela tinha, como era linda e ressaltava como a sua filha amava música e cinema. Com isso, esse universo particular que as duas criaram, se rompe com a chegada de Filipa, bisavó de Laura, uma idosa fiel a Deus, chegou com suas caixas, amarguras e angústias para conviver com a filha. Essa mudança provocou inúmeras transformações imediatas na vida de Laura, que perdeu o seu quarto, sua privacidade e o seu tempo de qualidade com a avó e na medida que o tempo passava tentava se habituar com a presença de Filipa, mas se via sozinha. Enfim, para conseguir dar conta da casa, do sustento e da nova configuração familiar, Margarida encontrou em Camilo, um senhor que vendia brinquedos, ajuda financeira e emocional. A escrita de Aline Bei, em grande parte de sua produção literária, estabelece um espelhamento geracional entre mãe, filha e avó, evidenciando como experiências, afetos e conflitos são transmitidos entre diferentes gerações. Neste romance, temas como maternidade, infância, amizade, abandonos e desejos são atravessados e dilacerados por um ciclo de violências que ultrapassa a dimensão individual e respinga na criação de Laura, que não encerra o ciclo familiar de fugir de ambientes, vivências e ausências, seguindo um padrão geracional que alimenta as ausências de fala, carinho e cuidado, alimentando os não ditos da vida que toma conta do sujeito-mulher. Nesse contexto, é possível estabelecer um diálogo com a teoria bakhtiniana, pois a obra escolhida funciona como arena dialógica, em que vozes sociais encontram-se em embate e possibilitam a emergência de sentidos que operam como reflexo e refração de resistência feminina, logo, a literatura e a linguagem se encontram como espaços de elaboração daquilo que, muitas vezes, não pode ser dito de maneira direta, permitindo que silêncios, ausências e dores encontrem formas de expressão por meio da palavra literária, considerando que a literatura, com seu acabamento estético, reflete e refrata embates sociais da vida. A coleção de ausências se inicia com Filipa, uma mulher cristã que sofre com a culpa de se sentir aliviada pela morte do marido, homem que a violentava na frente de sua filha e encara a criação de Margarida como algo desafiador, visto que sua filha era diferente de sua projeção. A personagem é o símbolo do envelhecimento feminino, com um corpo marcado pelo tempo e cicatrizes de uma maternidade muitas vezes difícil ou não resolvida, com embates de crenças e experiências. Portanto, a ausência começa a ser construída por lembranças, expectativas, perguntas sem respostas e palavras que ecoam. Para o Círculo de Bakhtin, a linguagem nunca é neutra, nem isolada, “todo signo surge entre indivíduos organizados no processo de sua interação. Portanto, as formas do signo são condicionadas, antes de tudo, tanto pela organização social desses indivíduos quanto pelas condições mais próximas de sua interação” (2017, p.109) Toda palavra está relacionada a outras palavras, a outros discursos e a diferentes vozes sociais, por isso a ausência pode ser compreendida como um fenômeno discursivo, já que é atravessada por concepções sociais sobre a morte, o abandono, o amor, a família, a solidão e a memória. No romance, isso fica evidente na maneira como Laura convive com esses sentimentos e se torna invisível após a chegada da bisavó em seu lar. Além disso, a ausência de Glória continua ocupando a memória da mãe, da filha e da bisavó e essa relação interrompida, entre Glória e Laura, influencia no comportamento familiar, já que esse ciclo de fuga se tornou uma experiência silenciada que continua produzindo efeitos e que resulta na fuga de Laura também. Na teoria bakhtiniana o sujeito é um ser histórico e social, ele é feito na e pela linguagem, não somos constituídos apenas por nossas experiências individuais, mas pelas relações que estabelecemos com os outros e pelos discursos que circulam socialmente. Portanto, a literatura torna esse processo visível ao transformar experiências particulares em narrativas capazes de alcançar outros sujeitos. O sujeito é pelo menos dois, um não existe sem o outro, é a partir desse outro que o eu se reconhece, diante disso, o embate de vozes concordantes e discordantes é ideológico. A personagem Laura, uma pré-adolescente, estabelece um vínculo afetivo e intenso com sua avó, figura responsável por seus cuidados e pela construção de um espaço de acolhimento no qual quase todas as suas perguntas encontram respostas. No ambiente escolar, Laura mantém amizade com Lívia e Jordana, ambas pertencentes a famílias estruturadas segundo o modelo tradicional. É por meio dessas relações que a personagem começa a descobrir os prazeres do corpo e as transformações próprias da adolescência. Contudo, esse processo de descoberta também a coloca diante de experiências marcadas pela inveja, desilusão, rivalidade feminina, objetificação e pelos mecanismos de controle masculino sobre o corpo feminino, regulação que se instaura desde a infância. A relação entre Laura e sua mãe é atravessada pela ausência física e psicológica. Enquanto Glória confia em sua beleza, mesmo traumatizada e cansada da dinâmica familiar sufocante, foge e abandona o núcleo familiar em decorrência da violência sexual sofrida por Camilo, amigo próximo da família, e sua filha permanece marcada pela busca de compreender essa partida, junto com a imaginação de como a mãe seria. Após a instalação da bisavó de todas as maneiras, a menina se sente invisível e começa a guardar para si as experiências boas e ruins que viveu e ao sofrer violência sexual, praticada também por Camilo, no seu aniversário foge pela extremidade da janela de vidro do banheiro, dando continuidade ao ciclo familiar de fuga de ambientes, experiências, vivências e ausências. Essa repetição cíclica do ato de fugir comprova como as histórias individuais se constituem em relação com as experiências do outro, sendo assim, a alteridade não se limita à existência de um outro exterior ao sujeito, mas constitui uma condição fundamental para a formação da consciência e da identidade, o sujeito não se constitui de forma isolada, ele se reconhece no outro e se transforma a partir das relações. O ciclo de violência que essas mulheres da mesma família sofrem, nos permite observar como a violência entre o corpo feminino atravessa gerações e produz marcas que ultrapassam experiências individuais. Dito isso, a narrativa desloca essa relação entre mãe e filha para uma dimensão social e não só familiar ou psicológica, para além disso, Filipa vivia em um relacionamento tóxico e sofria violência doméstica e Margarida quase foi abusada pelo mágico que conheceu no circo e foi abandonada grávida pelo palhaço, homem com quem se relacionou por pouco tempo. Enfim, ao apresentar diferentes experiências de violência vivenciadas pelas mulheres da narrativa, Aline Bei evidencia que essas relações não são acontecimentos isolados, elas partem de uma estrutura social que condiciona as experiências femininas. O romance, portanto, revela como a violência pode ser naturalizada nas relações afetivas, familiares e sociais, ao mesmo tempo em que possibilita questionar os mecanismos que sustentam o silenciamento das mulheres. Referências BEI, Aline. Uma delicada coleção de ausências. Infinito Particular, 2025. VOLÓCHINOV, Valentin Nikolaevich. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Editora 34, 2017.

  • Metodologia dialético-dialógica verbivocovisual de ADD: estratégias de normalização científica (Minicurso)

    O minicurso propõe uma abordagem teórico-prática da leitura analítico-interpretativa verbivocovisual, com foco na análise de discursos de composição sincrética. A atividade será realizada nos dias 8 e 9 de setembro de 2026, das 14h às 17h, na modalidade online e gratuitamente e contará com a apresentação de ferramentas e procedimentos metodológicos para a análise da materialidade discursiva, incluindo programas como PRAAT, Adobe Color, Adobe Premiere, OBS e VLC. Para obter mais informações e se inscrever no evento, acesse: https://www.even3.com.br/metodologia-dialetico-dialogica-verbivocovisual-de-add-estrategias-de-normalizacao-cientifica-778704. A inscrição é necessária para a emissão dos certificados! A transmissão será realizada pelo canal do GED no YouTube: https://www.youtube.com/@ged-grupodeestudosdiscursi9959 Imagem de divulgação do minicurso

  • Do Ronco do Motor aos Acordes Sinfônicos: Dialética e Luta de Classes na Performance de MC Hariel

    Maria Carolina José Lopes Durante anos o funk foi (e ainda é) lido como um gênero musical de menor qualidade e importância, relegado às periferias e rejeitado pela elite sob alegações moralistas. Assim, essa expressão artística constitui-se como um signo que reflete a experiência material de comunidades marginalizadas enquanto é refratado e transformado por meio da luta de classes. Entretanto, no palco da Red Bull Symphonics de 2026 realizada no Brasil, o cantor MC Hariel demonstrou a potência do funk e sua relevância cultural. Em Marxismo e Filosofia da Linguagem, o signo ideológico é explicado como dialético, o que significa a existência de forças contraditórias em sua constituição; desse modo, entende-se que há “a particularidade do signo ideológico de refratar e distorcer a realidade dentro dos níveis da ideologia dominante” (VOLÓCHINOV, 2017, p. 113)”. Quando se analisa o funk dentro do Brasil, nota-se que ele é majoritariamente visto como algo sujo, impróprio e até mesmo imoral, um discurso reacionário que busca excluir esse gênero musical da cultura legitimada. A proposta da performance de MC Hariel é unir suas canções e seu estilo contemporâneos à música clássica, representada pela orquestra sinfônica, de modo que essa nova produção possa alcançar e tocar as diferentes bases da existência material dos sujeitos, independentemente de pertencerem à periferia ou à elite. Ainda que a apresentação inclua a música clássica, gênero que por si só remete as classes sociais mais altas enquanto afasta as mais pobres, os músicos da orquestra não destoam de modo algum do MC, pois alguns deles — inclusive o maestro Xuxa Levy — utilizam óculos de sol, correntes, elementos visuais que remetem à estética das comunidades. Além disso, um grupo de dançarinos se une à cena dançando funk conforme os passos do ritmo, principalmente do funk paulista, incluindo o “dedo pro alto”. Outro elemento bastante emblemático é a chegada de Hariel ao palco: o cantor entra pilotando uma moto, que inesperadamente se torna parte do espetáculo como instrumento quando o ronco do motor passa a harmonizar com a orquestra. As canções performadas trazem críticas sobre a visão estereotipada das favelas e de suas produções musicais, pois além de denunciar a realidade precária que suas comunidades enfrentam e promover entretenimento nelas, o funk também é constituído como forma de resistência. Portanto, a apresentação dos músicos mostra como os signos de um gênero discursivo, nesse caso o funk, podem ser refletidos e refratados a depender da ideologia dos sujeitos envolvidos em sua enunciação.

  • Quantas “soberanias” cabem no mesmo enunciado?

    O que a Constituição brasileira de 1988 diz sobre o signo ideológico soberania por Ma. Mônica Nubiato, doutoranda em Linguística e Língua Portuguesa – FCLAr/Unesp. Integrante do GED. monica nubiato@unesp.br "Toda palavra é um elo na cadeia da comunicação discursiva." Essa ideia, desenvolvida por Mikhail Bakhtin (2016), parece simples à primeira vista. Mas basta pronunciarmos uma palavra como soberania para percebermos sua força. Soberania. A palavra aparece diariamente nos jornais, nos discursos presidenciais, nos debates sobre guerras, nas discussões sobre economia, nas redes sociais e, claro, na Constituição Federal de 1988. Mas será que, todas as vezes que pronunciamos essa palavra, estamos falando da mesma coisa? Essa pergunta surgiu quase por acaso, durante a leitura da Constituição. Ao percorrer seus artigos, chamou a atenção o fato de que o signo soberania aparece em lugares muito diferentes: como fundamento da República (art. 1º), como princípio das relações internacionais (art. 4º), como atributo do povo (art. 14) e como princípio da ordem econômica (art. 170, I). À primeira vista, trata-se apenas da repetição de uma mesma palavra. Entretanto, quando nos aproximamos desse texto constitucional com as lentes da Análise Dialógica do Discurso, inspirada no Círculo de Bakhtin, a aparente repetição começa a se desfazer. A palavra permanece a mesma; os sentidos, porém, multiplicam-se. Portanto, a Carta Magna de 1988 também mostra-se bivocal. Foi exatamente esse estranhamento que motivou a pesquisa. A palavra constrói sentido na interação Valentin Volóchinov afirma que "o signo ideológico é a arena da luta de classes" (VOLÓCHINOV, 2021, p. 97). Embora escrita na década de 1920, essa formulação continua surpreendentemente atual. Ela nos convida a abandonar a ideia de que as palavras possuem significados naturais, neutros ou permanentes. Se todo signo é uma arena de disputas, a soberania talvez seja um dos exemplos mais expressivos dessa condição. Ao longo da história, a soberania já significou o poder absoluto do rei, a autoridade do Estado, a vontade do povo, a independência nacional, a autonomia econômica e, mais recentemente, até a soberania dos dados digitais e das plataformas tecnológicas. A palavra permaneceu. O mundo mudou. E, com ele, mudaram também os sentidos que nela passaram a habitar. Como lembra Bakhtin (2016, p. 48), nenhum enunciado nasce isolado. Todo discurso responde a discursos anteriores e antecipa respostas futuras. Em outras palavras, toda palavra chega até nós já povoada por outras vozes. Contexto de produção da Constituição de 1988 A Constituição Federal de 1988 nasce em um momento histórico de ruptura: depois de 21 anos de regime militar, marcado por autoritarismo, restrições às liberdades e concentração de poder, o Brasil vivia o processo de redemocratização que culminaria na Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988. Convocada pela Emenda Constitucional nº 26, de 27 de novembro de 1985, a Constituinte foi instalada em 1º de fevereiro de 1987 e reuniu 559 parlamentares, encerrando seus trabalhos com a promulgação da nova Carta em 5 de outubro de 1988 (BRASIL, 1985; SENADO FEDERAL, 2008). Diferentemente das Cartas autoritárias de 1937 e de 1967, esta última posteriormente profundamente modificada pela Emenda Constitucional nº 1/1969, a Constituição de 1988 foi produzida no processo de reconstrução democrática e contou, de modo inédito, com participação de cidadãos e entidades representativas por meio do envio de sugestões e emendas populares (SENADO FEDERAL, 2013; BRASIL, 2018). Nesse sentido, seu texto não pode ser dissociado do cronotopo da redemocratização: suas palavras respondem a um passado autoritário, dialogam com as demandas sociais de seu presente e projetam uma determinada concepção de futuro democrático Quem fala quando a Constituição fala? Essa pergunta desloca completamente o foco da análise. Em vez de perguntar "o que significa soberania?", passamos a perguntar: quem está falando quando a Constituição fala em soberania? A Constituição Federal de 1988 não define a soberania; ela coloca em diálogo diferentes tradições de pensamento sobre a soberania. Por isso, mais do que um conceito jurídico, a soberania pode ser compreendida como um signo ideológico polifônico, permanentemente reacentuado pelas disputas históricas de sentido. No artigo 1º, por exemplo, é difícil não ouvir ecos de Jean Bodin e Thomas Hobbes. Ambos escreveram em períodos marcados por guerras civis, conflitos religiosos e instabilidade política. Em Os Seis Livros da República (1576/2011), Bodin define a soberania como poder absoluto e perpétuo da República. Seu objetivo era preservar a unidade política da França em um momento de profunda fragmentação. Algumas décadas depois, Hobbes publica Leviatã (1651/2014). Para ele, a ausência de uma autoridade soberana conduziria ao estado de guerra permanente, em que a vida seria "solitária, pobre, sórdida, brutal e curta" (HOBBES, 2014, p. 120). A soberania aparece, portanto, como condição da ordem. Mas a Constituição de 1988 não fala apenas com Bodin e Hobbes. Quando chegamos ao artigo 14, outra voz ganha força: Jean-Jacques Rousseau. Em Do Contrato Social, Rousseau afirma que "a soberania não pode ser representada" (ROUSSEAU, 2011, p. 83), porque pertence ao povo. A legitimidade política nasce da vontade geral, e não da autoridade de um governante. Essa mudança altera profundamente o horizonte do conceito. A soberania deixa de ser atributo do soberano para tornar-se atributo dos cidadãos. Hannah Arendt e a pergunta que muda tudo Seria possível encerrar essa história aqui, afirmando que a soberania apenas mudou de voz? Hannah Arendt nos obriga a ir além. Em A Condição Humana, ela escreve que "se os homens desejam ser livres, é precisamente à soberania que devem renunciar" (ARENDT, 2017, p. 290). A frase causa estranhamento porque rompe com uma tradição de séculos. Para Arendt, a política nasce da pluralidade humana. Nenhuma pessoa controla completamente os efeitos de suas ações, porque agir significa entrar em relação com outros sujeitos igualmente livres. A soberania, ao contrário, pressupõe domínio absoluto da vontade. É justamente essa tensão que apresenta a bivocalidade em nossa Constituição. Ao mesmo tempo em que afirma a soberania como fundamento da República, o texto constitucional também institui mecanismos de participação, pluralidade, separação de poderes e limitação da autoridade. O discurso constitucional passa, então, a reunir vozes que nem sempre concordam entre si. A Constituição de 1988 é mais polifônica do que imaginamos Foi essa percepção que conduziu essa reflexão. A Constituição de 1988 não parece oferecer uma definição única da soberania. Ela abriga diferentes tradições intelectuais, diferentes experiências históricas e diferentes projetos de sociedade. Em linguagem bakhtiniana, poderíamos dizer que o texto constitucional é profundamente polifônico. A soberania do artigo 1º não coincide integralmente com a soberania do artigo 14. A soberania do artigo 4º dialoga com problemas distintos daqueles presentes no artigo 170. A palavra permanece, mas as vozes mudam. E talvez seja justamente essa multiplicidade que explique a vitalidade do conceito ainda hoje. Afinal, toda vez que ouvimos alguém defender a soberania nacional, a soberania popular ou a soberania econômica, não estamos apenas diante de uma opinião contemporânea. Estamos diante de uma longa conversa histórica que permeia séculos, incorpora novos interlocutores e continua aberta. É por isso que estudar a soberania talvez seja menos uma busca por definições e mais um exercício de escuta: vozes que permanecem ecoando nos enunciados. Referências ARENDT, Hannah. A condição humana. 13. Ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2017. BAKHTIN, Mikhail. Os gêneros do discurso. Organização, tradução, posfácio e notas de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2016. BODIN, Jean. Os seis livros da República. Livro I. Tradução de José Carlos Orsi Morel. São Paulo: Ícone, 2011. BRASIL. Emenda Constitucional nº 26, de 27 de novembro de 1985. Convoca Assembleia Nacional Constituinte e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 1985. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. HOBBES, Thomas. Leviatã ou matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. Tradução de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. São Paulo: Martins Fontes, 2014. PAULA, Luciane de; LUCIANO, José Antonio Rodrigues. As noções bakhtinianas de linguagem e enunciado. Letras de Hoje, v. 56, p. 453–464, 2021. Disponível em https://doi.org/10.15448/1984-7726.2021.3.42207 MEDVEDEV, Pavel Nikolaevich. O método formal nos estudos literários: introdução crítica a uma poética sociológica. Tradução de Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Contexto, 2012. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011. SENADO FEDERAL. Constituições. Brasília. A retrospectiva histórica registra que a Constituição de 1937 foi outorgada por Getúlio Vargas, com dissolução do Congresso e concentração de poder no Executivo. DF: Senado Federal, 1937. SENADO FEDERAL. Emenda Constitucional nº 1, de 17 de outubro de 1969. A norma estabeleceu novo texto para a Constituição de 1967, razão pela qual é importante mencioná-la ao caracterizar a ordem constitucional do período militar. DF: Senado Federal, 1967. SENADO FEDERAL. Constituintes. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. SENADO FEDERAL. Instalação da Assembleia Nacional Constituinte em 1º de fevereiro de 1987, sua conclusão em 5 de outubro de 1988 e a composição de 559 parlamentares. Brasília, DF, 29 set. 2008. VOLÓCHINOV, Valentin. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Tradução, notas e glossário de Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. 2. Ed. São Paulo: Editora 34, 2021.

  • O GED marca presença no 71º Seminário do GEL

    O 71º Seminário do GEL, realizado entre os dias 28 e 31 de julho, na Faculdade de Ciências e Letras da UNESP, em Araraquara, conta com a participação de membros do Grupo de Estudos Discursivos (GED) em sessões de comunicação, simpósios e painéis. A presença do grupo reafirma seu compromisso com a produção e a divulgação científica, promovendo o diálogo e a circulação de pesquisas na área dos estudos da linguagem. Confira abaixo a programação das apresentações dos integrantes do GED. Simpósios: Painéis: Comunicações: Para conferir a programação completa do 71º Seminário do GEL, acesse o site oficial do evento: https://www.gel.org.br/

  • VOZES PARA ALÉM DO APITO DA FIFA: A Copa do Mundo de 2026 como arena social

    Davi César de Souza Ao analisarmos a geopolítica da Copa do Mundo 2026, percebemos que o futebol contemporâneo opera como um centro eurocêntrico de dominação gerido majoritariamente por homens brancos, mas que permanece sob constante disputa ideológica. Afinal, como formula Volóchinov, "já sabemos, toda palavra é um pequeno palco em que as ênfases sociais multidirecionadas se confrontam e entram em embate. Uma palavra nos lábios de um único indivíduo é um produto da interação viva das forças sociais" (2017, p. 140). Assim, longe de ser um esporte neutro, a palavra futebol funciona como "qualquer signo ideológico exterior" que, "independentemente do seu gênero, banha-se por todos os lados nos signos interiores, ou seja, na consciência" (Volóchoinov, 2017, p. 57). Sob essa ótica, o monopólio e os padrões estéticos e táticos ditados pela Europa encontram resistência quando o signo exterior do futebol mergulha no "mar dos signos interiores" das populações do Sul Global, onde sua vida e sua força insurgente continuam a pulsar justamente no "processo de renovação da sua compreensão, vivência e assimilação, ou seja, em sua inserção contínua no contexto interior" (Volóchinov, 2017, p. 57), transformando o gramado em um território vivo de confrontação e resistência aos colonizadores. Com 48 seleções, 104 partidas, 16 sedes e uma arrecadação projetada de US$ 8,9 bilhões, a Copa do Mundo de 2026, realizada nos Estados Unidos da América, México e Canadá, configura-se como o maior evento esportivo da história em termos de escala e monetização. Mas, para além dos números impressionantes e do discurso oficial da FIFA, que ecoa termos como "unidade global", "integração" e "fair play", o torneio se desdobra como um palco de tensões geopolíticas, protestos de federações, restrições de vistos e debates acirrados sobre imigração, gênero, raça e classe. É nesse terreno movediço que a presente reflexão propõe uma leitura: a Copa de 2026 como enunciado social, compreendido à luz dos pressupostos do Círculo de Bakhtin. Em A palavra na vida e a palavra na poesia (2019), Volóchinov traça as fronteiras entre a "palavra na vida", essencialmente orientada para o objeto, ancorada no cotidiano e de natureza concreta, e a "palavra na poesia", desenhada como autossuficiente, abstrata e enclausurada em sua própria arquitetura. A Copa do Mundo, em sua dimensão de macro enunciado midiático, orbita de maneira pendular entre essas duas polaridades. Sob a égide da superestrutura institucional, o discurso oficial emanado pela cúpula da FIFA tenta mimetizar a "poesia": ergue-se como um texto hermético e espetacularizado, engessado na ilusão do acabamento estético e exigindo uma decodificação unívoca. Contudo, ao descer ao rés do chão da vida concreta, o megaevento transborda essa redoma para se desdobrar como um texto irremediavelmente aberto. Em sua essência orgânica, o jogo é a coreografia imprevisível de vinte e dois corpos em campo, gravitando em torno do rito da bola rumo ao ápice do gol. É nesse terreno instável que o torneio recusa a completude e assume o seu devir; um espaço de permanente construção onde cada polêmica, fissura ou embate irrompe como uma nova voz social, tensionando as amarras do discurso dominante e reconfigurando, a cada instante, a composição polifônica do todo. Como afirma Volóchinov (1929, p. 87), "a palavra é o acúmulo de forças sociais no ponto mais sensível e móvel da prática social". A Copa do Mundo de 2026 constitui-se, precisamente, como esse ponto sensível e móvel. A estreia da Argentina contra a Argélia (3 a 0), por exemplo, gerou um dos primeiros grandes choques discursivos do torneio. Lionel Messi acertou a sola da chuteira na panturrilha do zagueiro Aïssa Mandi, lance que, para o técnico bósnio, configurava expulsão: "É inútil nesse momento comentar situações hipotéticas. Mas todo mundo viu, inclusive eu". O árbitro polonês Szymon Marciniak marcou apenas falta, sem cartão. A Federação Argelina apresentou queixa formal à FIFA. Aqui, a voz hegemônica, arbitragem, FIFA, imprensa ocidental, naturaliza a vitória argentina como produto do talento de Messi. A voz subalterna, da Argélia e da imprensa africana, denuncia um padrão de arbitragem que, segundo ela, favorece as potências tradicionais. O silêncio do VAR diante de lances que exigiriam expulsão funciona como um "discurso ausente" porque, para Mikhail Bakhtin (2003), o não-dito é tão constitutivo do sentido quanto o próprio dito. A omissão não é um vácuo, mas uma escolha comunicativa que revela critérios implícitos e ideológicos das arbitragens. O conceito de polifonia, desenvolvido por Bakhtin em Problemas da poética de Dostoiévski (2010, p. 65), não postula a harmonia de coros, mas a sinfonia desafinada de instrumentos que recusam o maestro (FIFA) e as múltiplas vozes independentes (países subalternos da África, Ásia e latinos), igualmente válidas, que se respondem sem se submeter. Se Volóchinov nos mostrou a Copa como texto pendular entre a "poesia" institucional e a "vida" desordenada, Bakhtin nos permite ouvir, dentro desse texto, as vozes que não se deixam silenciar pela voz oficial. Aqui, a polifonia não se resume às vozes que ecoam nos noventa minutos: ela se estende à reverberação que fratura o silêncio após o apito final. Quando a FIFA anuncia uma idílica "unidade global", quem de fato responde? Responde o árbitro somali Omar Artan, deportado dos EUA sem justificativa, cujo silêncio forçado grita mais alto que qualquer comunicado institucional. Responde a mãe do goleiro Vozinha, cuja solicitação de visto foi negada até que a mobilização nas redes sociais a transformasse em um "caso" midiático e, portanto, em um problema a ser burocraticamente resolvido. Responde o técnico iraniano, foi obrigado a transferir a base de treinamento do Arizona para Tijuana, na qual a seleção teve que treinar em volta da piscina do hotel, esses fatos reescrevem com os pés o mapa geopolítico que a FIFA e o governo estadunidense de extrema direita Donand Trump desenharam com a caneta. Essa polifonia adensa-se ainda mais nas vozes dos atletas antirracistas, como Vini Jr. e Mbappé, cujos corpos negros se recusam a ser meros autômatos do jogo, e nas vozes de governos como o de Trump, que intervém na justiça esportiva com a mesma crueza com que opera no mercado global; na base dessa superestrutura, manifestam-se as vozes dos torcedores, que ressignificam o meme nas redes sociais como a nova metáfora da revolta, em fricção constante com o coro dos patrocinadores – do monopólio das casas de apostas, que colonizam o signo como arena de luta de classes, às redes de fast-food, às bebidas alcoólicas e aos titãs de logística como a Amazon –, de modo que o jogo de futebol, antes espaço de disputa esportiva autônoma, converte-se hoje em signo ideologicamente saturado por essas plataformas, que não apenas patrocinam clubes e transmitem partidas, mas reconfiguram o próprio ritmo do espetáculo: as odds em tempo real, os mercados de escanteios e cartões, as narrativas televisivas que naturalizam o "aposta agora" como parte da experiência do torcedor, tudo isso opera na lógica do capital financeiro, que nunca fala em seu próprio nome, mas se infiltra no discurso do amor ao clube, da emoção do gol, da identidade coletiva, fazendo com que o torcedor, ao vibrar, reproduza sem saber a ideologia da mercantilização total do futebol, e o jogador, ao marcar, já esteja inscrito numa cadeia de valores que transcende o campo e o transforma em mero ator de um espetáculo cujo roteiro é escrito pelos algoritmos das casas de apostas, de tal forma que, como bem observa Volóchinov, "Tudo que é ideológico possui significado: representa, figura ou simboliza algo que está fora dele. Em outras palavras, é um signo. Sem signos, não há ideologia." (VOLÓCHINOV, 2017); configura-se assim o que se pode denominar apostocapitalismo espetacular, fenômeno pelo qual a lógica da aposta não mais se limita a parasitar o futebol, mas o dissolve por completo, transformando cada gesto do jogador e cada pulsação do torcedor em dado transacionável, de modo que o próprio corpo do esporte, seus ritmos, suas paixões, suas resistências, é reabsorvido como matéria-prima de um mercado que lucra com a ilusão de que ainda se trata de jogo. Esse processo de espetacularização, ainda é impulsionado pelo oligopólio de corporações transnacionais como Nike, Adidas e Puma, que operam uma violenta dupla via de alienação: por um lado, metamorfoseiam o corpo do atleta em um outdoor ambulante; por outro, exploram a vulnerabilidade do Sul Global, pagando irrisórios 36 a 40 pesos mexicanos por hora (cerca de R$ 10 a R$ 11) às artesãs indígenas que bordam à mão os uniformes da seleção do México, garantindo lucros que ultrapassam a margem de 100% na venda de uma única peça. Sob o signo do capital, até mesmo o apelo visual da performance, como a onipresença de chuteiras rosas vibrantes nos pés dos jogadores, deixa de ser mero instrumento tático e passa a operar como fetiche Instagramável. A subjetividade do espetáculo é, assim, integralmente convertida em mercadoria, forjando objetos de desejo que colonizam o imaginário dos consumidores. Como lembra Bourdieu (2015, p. 43), o campo social é um espaço de lutas em que os agentes disputam a legitimidade de suas visões de mundo. A Copa de 2026 desenha-se, portanto, não como um território neutro, mas como um campo de forças fraturado, onde cada voz carrega um habitus distinto, um capital simbólico desigual e uma posição estrutural que a predispõe ao eco ou ao silenciamento. A voz da FIFA fala do topo de seu capital institucional, como quem discursa de um palanque inacessível; em contrapartida, a voz do atleta Vozinha, ao suplicar pelo visto de sua mãe, ecoa do chão da vida concreta, como quem fala para o vento, até que esse, transmutado em algoritmo viral, force a engrenagem a ouvi-lo. Nesse sentido, a polifonia bakhtiniana no espetáculo contemporâneo não emana de uma democracia idílica, mas de uma "democracia ferida": todas as vozes se manifestam, mas nem todas portam o mesmo peso político. Se para Bakhtin (2010, p. 122) o diálogo é constitutivo da linguagem, para Bourdieu (2015, p. 87) ele é constitutivo do poder. No horizonte de 2026, o diálogo opera simultaneamente como promessa e prisão, a promessa de que todos os cantos podem ecoar e a prisão de que apenas as vozes hegemônicas detêm o microfone. Longe de serem meramente justapostas, essas vozes entram em rota de colisão, refutando-se e transformando-se mutuamente a contrapelo do texto oficial. Essa fricção materializou-se de forma dramática nas oitavas de final, quando a Argentina reverteu um placar de 2 a 0 contra o Egito nos acréscimos. Diante do desfecho, a Federação Egípcia protocolou uma denúncia formal contra o trio de arbitragem, enquanto o atacante Zico subverteu o protocolo ao acusar o campeonato de ser "direcionado". A resposta pragmática da FIFA de investigar os árbitros, mas chancelar o placar, escancarou a assimetria radical desse campo: a instituição reserva-se o direito de admitir falhas procedimentais na burocracia sem jamais comprometer a soberania do resultado material. Assim, as vozes subalternas do Sul Global não dialogam com a superestrutura em condições de igualdade; dialogam contra ela, rasurando as entrelinhas de um roteiro que já nasceu pronto. E é justamente nessa teia de discursos cruzados que se insere a institucionalização da chamada "Lei Vini Jr." pela FIFA, ratificada junto à IFAB. A diretriz, que proíbe o ato de cobrir a boca durante discussões sob o pretexto de coibir insultos discriminatórios, ilustra de que maneira a fala de um atleta marginalizado provoca reações em cadeia capazes de alterar a própria gramática do jogo global. Longe de resolver o conflito racial, essa medida converte-se em um amplo mecanismo de silenciamento. Na Copa de 2026, as expulsões de Miguel Almirón (Paraguai) e Piero Hincapié (Equador), somadas à repressão infligida contra os torcedores, os jogadores da República Democrática do Congo e o congolês/belga Romelu Lukaku, que utilizavam o espaço do jogo para denunciar a guerra e a crise humanitária no Congo, evidenciam a rigidez com que a superestrutura impõe novos dispositivos de controle burocrático sobre os corpos. Sob a ameaça imediata do cartão vermelho, a FIFA enclausura a "palavra do outro", obliterando tanto a insurgência antirracista quanto a denúncia geopolítica em nome de uma ordem asséptica e mercantil. No entanto, o consenso em torno da medida é puramente ilusório. Enquanto a UEFA adota uma postura mais branda, punindo o gesto apenas com o cartão amarelo, a aplicação assimétrica da lei revela profundas fraturas políticas: a federação pune rigorosamente o técnico egípcio por seguir os protocolos de reclamação, mas exime-se de controlar a violência material e simbólica em suas arenas. Essa leniência materializa-se tanto na inércia diante de torcedores argentinos que arremessam latas contra torcedores egípcios, quanto na omissão perante a proliferação de ataques virtuais, como os memes racistas direcionados a Vini Jr. com Haaland, ou, ainda, diante de ofensas proferidas por figuras do alto escalão político, como a senadora paraguaia Celeste Amarilla. Sob essa perspectiva, a regra opera como uma inversão: ao criminalizar o ato de tapar a boca, a instituição transforma uma tática de ocultamento do discurso racista na própria infração punível. O que outrora servia de escudo para a impunidade do agressor converte-se, ele mesmo, no corpo de delito. Como observa Volóchinov, "É, portanto, claro que a palavra será sempre o indicador mais sensível de todas as transformações sociais, mesmo daquelas que apenas despontam, que ainda não tomaram forma, que ainda não abriram caminho para sistemas ideológicos estruturados e bem formados." (Volóchinov, 2017, p. 41). Paralelamente, Kylian Mbappé consolida-se como uma nova figura discursiva: o atleta-intelectual que abdica da neutralidade mercadológica para intervir ativamente no tecido social. Sua voz ressoa não apenas contra o racismo estrutural e a ascensão da extrema-direita, mas também contra o colonialismo econômico das apostas esportivas. Ao repudiar o uso não autorizado da imagem dos atletas por plataformas de apostas, o atleta francês/camaronês evoca a ancestralidade e a realidade concreta das periferias, onde as promessas ilusórias do jogo destroem trajetórias vulneráveis. Essa postura engajada, contudo, converte o jogador em alvo preferencial de violentas reações conservadoras, materializadas nos ataques racistas desferidos pela senadora paraguaia, de centro-direita, uma tentativa flagrante da elite política de desqualificar sua agência e reconduzi-lo ao estigma histórico: “Um bruto, não aprendeu sequer a escrever; em vez de leite materno, mamava em cocos, e os sons mais cultos que ouviu na vida foram de chimpanzés. Você deveria ter mostrado o dedo do meio para ele, Orlando Gill; eu faço isso no Senado e não acontece nada”, escreveu a senadora, que chamou Mbappé de “camaronês colonizado que finge ser francês, rancoroso, novo rico, arrogante e feio”. Franz Fanon, em Pele Negra, Máscaras Brancas, aponta para a exigência de assimilação e submissão aos padrões hegemônicos: "Para o negro, há apenas um destino. E ele é branco" (FANON, 2008, p. 27). No futebol, isso implica que a aceitação e o sucesso do sujeito negro (seja ele jogador ou torcedor) são condicionados à sua disposição em atender às expectativas da sociedade branca. Ele é forçado a adotar “máscaras brancas”, ou seja, a performar comportamentos, aceitar passivamente o racismo e adotar posturas que não ameacem a ordem racial estabelecida ou o conforto da branquitude. O sujeito negro só é tolerado e celebrado enquanto se mantiver dócil ou espetacularizado. Nas arquibancadas, a dinâmica de negação da subjetividade é idêntica. O torcedor e jogador negro é alvo constante de hostilidade e violência, sendo reduzido a um alvo de ofensas racistas que buscam desumanizá-lo. O racismo estrutural e institucional que permeia o esporte reflete exatamente a linha abissal descrita por Fanon, que divide o mundo entre a zona do ser (o branco, detentor da plena humanidade e sujeito de fala) e a zona do não-ser (o negro, visto como inferior, indesejável ou mero adereço social). Dessa forma, o corpo negro no estádio é simultaneamente indispensável para o show esportivo, mas rejeitado como sujeito social pleno. Não obstante, o campo das disputas discursivas recusa maniqueísmos puros. Ao responder às agressões institucionais classificando a senadora como uma "mulher desprezível", Mbappé desliza para um comentário de teor machista e depreciativo. Esse episódio demonstra que a polifonia do espetáculo é atravessada por ambiguidades; mesmo a voz insurgente, ao tatear as entrelinhas do poder, está sujeita a reproduzir opressões do mesmo verniz social que tenta combater. Nesse ponto, Heleieth Saffioti, em O Poder do Macho, oferece o instrumental analítico necessário: "Não há de um lado a dominação patriarcal e, de outro, a exploração capitalista. Para começar, não existe um processo de dominação separado de outro de exploração" (SAFFIOTI, 2005, p. 65). A fala de Mbappé, ao mesmo tempo em que denuncia o racismo, reproduz a dominação de gênero, revelando que patriarcado e racismo são, nas palavras de Saffioti, "duas faces de um mesmo processo" (SAFFIOTI, 2005, p. 65). Outro episódio profundamente emblemático da politização assimétrica da Copa envolveu o atacante norte-americano Folarin Balogun, expulso pelo árbitro brasileiro Raphael Claus em um confronto contra a Bósnia. A gravidade do fato consolidou-se fora das quatro linhas: o presidente Donald Trump admitiu publicamente ter intercedido junto à FIFA para solicitar a reavaliação do lance, levando a entidade a anular a suspensão automática do atleta e a substituí-la por um inusitado "período probatório de um ano". A comemoração de Trump nas redes sociais, "Obrigado à Fifa por fazer o que era certo e reverter uma grande injustiça!", escancara uma colagem abrupta entre o poder de Estado e o ordenamento esportivo. Ao ver a esfera presidencial intervir diretamente em sua estrutura regulatória, o futebol testemunha a ruína de sua suposta autonomia simbólica. A capitulação da FIFA ressoa como uma concordância estratégica com o país-sede, instituindo um precedente perigoso: a justiça esportiva passa a ser um bem negociável sob a balança das pressões políticas macroeconômicas. O contraste desse veredito com o caso envolvendo Lionel Messi no jogo contra a Argélia torna-se, portanto, gritante. Enquanto a entrada faltosa de Messi, atleta de incomensurável capital simbólico e mercadológico, não gerou sequer a aplicação de um cartão amarelo, a ação similar de Balogun resultou em uma expulsão sumária, posteriormente revogada não pelo rigor da regra, mas pelo peso da interferência geopolítica. Paralelamente a esse duplo padrão de julgamento, a superestrutura opera sua blindagem na esfera digital: vídeos que compilavam e denunciavam erros sistemáticos de arbitragem contra a seleção de Cabo Verde foram sumariamente removidos das plataformas digitais a pedido da FIFA. Como contraofensiva a esse autoritarismo corporativo, a eclosão da campanha popular #ResignInfantino, acompanhada de um massivo abaixo-assinado virtual, surge como uma resposta insurgente da base social, que tenta tensionar as redes e reverter a assimetria radical de um jogo cujas cartas parecem sempre marcadas. Mas por que isso importa? Como nos ensina o Círculo de Bakhtin, o signo é a arena na qual se trava a luta de classes, e o futebol, longe de ser um mero espetáculo alienante, funciona como um macroenunciado que reflete as pulsações mais íntimas da nossa estrutura social. Quando a bola rola em um cenário geopolítico complexo, o que testemunhamos não é a pureza asséptica das regras da FIFA, mas sim a palavra viva, refletida e refratada pelas assimetrias de poder que Bourdieu tão bem mapeou. Os discursos que cercam os gramados, sejam os protestos silenciosos contra o neocolonialismo e comentários racistas denunciados nos estudos de Fanon, sejam os deslizes discursivos que reproduzem as opressões de gênero desveladas por Saffioti, provam que o futebol é um tecido histórico em constante disputa axioideológica. Referências: BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003. BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2015. FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: Edufba, 2008. SAFFIOTI, Heleieth I. B. O poder do macho. São Paulo: Editora Moderna, 1987. VOLÓCHINOV, Valentin. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. São Paulo: 34, 2017. VOLÓCHINOV, Valentin. A palavra na vida e a palavra na poesia: para uma poética sociológica. São Paulo: Editora 34, 2019.

  • Entre páginas, vozes e super-heróis: o fanzine-zine na sala de aula

    Ingrid Liliam da Silva Você já imaginou transformar a sala de aula em um espaço onde leitura, arte e criação se encontram com super-heróis, identidade cultural e autoria estudantil? É exatamente essa proposta que o artigo “O gênero fanzine-zine na sala de aula: leitura, arte e super-heróis”, de Luciane de Paula e Josiani Kely Milesk, nos apresenta — e que merece a sua leitura com atenção e curiosidade! A partir de uma perspectiva bakhtiniana da linguagem, o estudo nos convida a repensar práticas pedagógicas, deslocando o foco de um ensino mecanizado para uma abordagem viva, dialógica e profundamente significativa. Aqui, a linguagem é entendida como verbivocovisual — ou seja, não apenas palavras, mas também sons, imagens e sentidos que se entrelaçam na construção dos enunciados. Mas o que isso significa na prática? Significa reconhecer a sala de aula como um espaço de acontecimento. Um espaço onde os estudantes deixam de ser apenas receptores e passam a ser autores de suas próprias vozes, expressando suas visões de mundo por meio de gêneros discursivos que dialogam com suas realidades. E é aí que entram os fanzines e e-zines. Frequentemente vistos como “estranhos” ao ambiente escolar, esses gêneros foram incorporados à prática pedagógica por meio de três motes criativos e potentes: ● Leitura & Literatura ● Tarsila e toda a nossa brasilidade ● Super-heróis O resultado? Um ambiente de aprendizagem mais aberto, criativo e significativo, em que os estudantes puderam: ● experimentar diferentes linguagens ● explorar suas estéticas e posicionamentos ● construir sentidos de forma crítica e colaborativa Como destacam as autoras, os alunos passaram a “eleger suas estéticas, éticas e conteúdos composicionais, marcando suas autorias e fazendo ressoar suas vozes”. Além disso, a proposta não se limitou a um único gênero: ao longo do processo, diversos outros gêneros discursivos emergiram, evidenciando a riqueza de uma abordagem baseada nos multiletramentos — uma pedagogia comprometida com a formação crítica, plural e democrática. Por que ler esse artigo? Porque ele nos inspira a: ● repensar o ensino de linguagem como prática social viva ● valorizar a autoria e a criatividade dos estudantes ● experimentar abordagens prototípicas e inovadoras ● fortalecer pesquisas alinhadas à perspectiva dialógica dos gêneros do discurso Vamos continuar essa conversa? Se você é pesquisador(a), professor(a) ou estudante interessado(a) em linguagem, ensino e práticas inovadoras, este artigo é um convite aberto. Leia, reflita e compartilhe suas impressões conosco!

  • XIII Simposio Internacional de Géneros Textuales/Discursivos

    Imagem de divulgação - XIII Simposio Internacional de Géneros Textuales/Discursivos O XIII Simpósio Internacional de Gêneros Textuais/Discursivos (SIGET) será realizado entre os dias 17 e 20 de novembro de 2026, em Montevidéu, Uruguai. Organizado pela Universidad de la República, em parceria com o Grupo de Trabalho de Gêneros Textuais/Discursivos da ANPOLL, o evento chega à sua 13ª edição e acontece pela segunda vez fora do Brasil. Com o tema “Vozes e identidades em diálogo: múltiplos olhares nos estudos dos gêneros textuais/discursivos”, o simpósio propõe reflexões sobre as diferentes formas de construção das identidades e das vozes sociais na contemporaneidade, reunindo pesquisadores interessados nos estudos dos gêneros textuais e discursivos sob diversas perspectivas teóricas e metodológicas. O evento busca promover o diálogo entre diferentes abordagens de pesquisa, oferecendo um espaço para a discussão de temas como identidades e discursos em conflito, formação de professores, tecnologias digitais e inteligência artificial, letramentos acadêmicos e profissionais, literatura e mídia, ensino de leitura, produção textual e oralidade, divulgação científica, contextos de vulnerabilidade social e perspectivas interculturais. Para mais informações, acesse: https://xiiisiget.wordpress.com/

  • IX CBE - Congresso Brasileiro de Educação

    Imagem de divulgação - IX CBE De 23 a 26 de setembro de 2026, a Faculdade de Ciências (FC) de Bauru será palco de um importante encontro para refletir, dialogar e fortalecer a educação no Brasil. A IX edição do Congresso Brasileiro de Educação traz como tema “Desafios e Resistências na Educação em Tempos de Retrocessos Políticos e Sociais”, reafirmando a educação como prática sociopolítica transformadora. O evento propõe debates essenciais sobre formação docente, educação pública, inclusão, acessibilidade e o uso crítico das tecnologias digitais. Destinado a pesquisadores, docentes, estudantes, profissionais e gestores da área, o congresso mantém seu caráter científico e abrangência nacional. Para mais informações sobre o evento e a submissão de trabalhos, acesse a página do evento: https://www.even3.com.br/cbe2026-655080/

  • Entre ansiolíticos, cosméticos e soluções rápidas

    Imagem de dilvugação - Poções estéticas e alimentares: da farmacologia ao discurso da beleza Entre ansiolíticos, cosméticos e soluções rápidas: até que ponto sentimentos, corpos e identidades estão sendo transformados em algo que precisa ser corrigido?” Tendo como inspiração o universo de Harry Potter, uma análise das poções mágicas mostra que aquilo que aparenta ser fictício também fala sobre nós, sobre padrões, controle e maneiras de buscar constantemente artifícios de “ajuste” para o corpo e para a mente. Talvez a diferença entre os mundos mágico e não mágico não esteja na presença/ausência das poções, mas sim na forma como as nomeamos e na importância que damos às mesmas…

  • Bate-papo: vida e arte em diálogo: construções da "diferença" em enunciados fantásticos

    Oi, pessoal. Temos vídeo novo no canal do GED. Trata-se do bate-papo entre a professora Ana e a professora Alline Rufo sobre a construção da diferença em Tolkien e J. K. Rowling. https://www.youtube.com/watch?v=J-BOVSZANUU Comentem e compartilhem ;)

  • Repercussões da direita sobre a lei de misoginia: quais ideologias estão em embate?

    Carolina Gomes Sant’ana  O Brasil vive uma epidemia de feminicídios. Somente em 2025, foram registrados 1.568 (Souza, 2026) casos, o maior número da última década. Quatro mulheres são mortas todos os dias, apenas por serem mulheres. A situação alarmante é produto do aumento de comunidades na internet, chamadas “red pill”, que são construídas a partir da disseminação de ideologias machistas de ódio à mulher, e de incentivo à violência física, verbal, sexual e psicológica contra a mulher e sua subjugação. O movimento, de extrema direita, vem crescendo na internet, junto com o movimento incel, ambos defendem a superioridade biológica do “macho-alfa”, e a inferioridade biológica da “fêmea-beta”, que existe para cumprir seu suposto papel de servitude silenciosa ao homem e à família. Esses grupos constroem essas valorações como se fossem fatores naturais e inatos, porém, não são embasados por dados científicos, muito pelo contrário, são construções socialmente construídas por um grupo organizado de pessoas. Todavia, o movimento red pill é produto de centenas de anos de um patriarcado hegemônico, estrutural e sistemático, que visava colocar a mulher em posição de inferioridade, para que, consequentemente, o homem seja superior, para que ele tenha a mulher cumprindo todas as funções de cuidado do marido, dos filhos e do lar, sem nenhuma forma de remuneração. Na busca de tentar diminuir a circulação dos discursos de ódio e incitação à violência do movimento red pill na internet, e tentar fazer com que menos pessoas sejam “convertidas” para essa prática que leva à discriminação e à violência contra a mulher, o Senado brasileiro aprovou, em 24 de fevereiro de 2026, a PL896/ 2023, que inclui a misoginia entre crimes de preconceito, como o racismo. De acordo com o site do Senado (2026):  O texto aprovado define a misoginia como “a conduta que exteriorize ódio ou aversão às mulheres”. O projeto também inclui a expressão "condição de mulher" entre os critérios de interpretação da Lei do Racismo (Lei 7.716, de 1989), ao lado de cor, etnia, religião e procedência. A legislação atual equipara a misoginia à injúria e à difamação – com pena que pode ir de dois meses a um ano de reclusão, de acordo com o Código Penal (arts. 139 a 141).[...] A relatora apontou que países como França, Argentina e Reino Unido já têm leis de combate à misoginia. [...] — O projeto é para proteger a família e a dignidade e a liberdade das mulheres. A aprovação do projeto responde a uma realidade urgente. O ódio às mulheres não é abstrato: é estruturado, é crescente e ceifa vidas todos os dias — afirmou Soraya.  Essa aprovação é uma conquista na luta por uma sociedade mais justa e igualitária, mesmo sendo ainda um pequeno passo de uma batalha maior. Isso porque apenas alterar o sistema, sem combater a propagação desses valores patriarcais na sociedade não é suficiente, já que são membros dessa sociedade que aplicam essas leis. Simultaneamente, homens e membros da extrema direita contestam a lei, julgam-a como absurda e moralmente errada e desequilibrada, como é o caso do Deputado Federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que postou em suas redes sociais “Falar mal de uma mulher será mais grave do que ela tomar um tapa na cara. A Câmara tem o dever de derrubar essa loucura” e “Inacreditável é a palavra… Amanhã começa o trabalho para derrubar essa aberração que foi aprovada hoje no Senado”, nos dias 26 de março e 24 de março respectivamente (Poder 360, 2026). De acordo com Bakhtin, o sujeito ocupa lugar único na existência (Bakhtin, 2011), sendo constituído de valorações e ideologias, e cada ato seu é uma tomada de posicionamento, é assumir um posicionamento ideológico socialmente construído. Aqui vemos como Nikolas, em seus enunciados, em seus atos, atua na manutenção de uma hegemonia de desigualdade, que trata a mulher como inferior e indigna de direitos, independência ou justiça. Mas porque esse posicionamento? Saffioti (1987, p.15) afirma: “O poder está concentrado em mãos masculinas há milênios. E os homens temem perder privilégios que asseguram sua supremacia sobre as mulheres.” A construção de inferioridade da mulher, dentro do patriarcado, é condição necessária para a construção de superioridade do homem, isso porque a inferioridade e a superioridade só podem existir por sua oposição uma à outra, ou seja, para que o homem seja superior, a mulher deve ser colocada como inferior. Dessa forma, quando mulheres obtêm direitos e mais igualdade na justiça, muitos interpretam como a perda de direitos dos homens, já que, com a mulher saindo da posição de inferioridade, o homem, automaticamente, sai também da de superioridade. Essa mudança de status, todavia, não resulta em homens perdendo direitos, apenas sendo igualados pelas mulheres. Entretanto, esses sujeitos recusam-se a perder a posição de superioridade, recusam-se a perder o domínio, mesmo que violento, das mulheres.  Porém, Bakhtin (2011) afirma que o sujeito não tem álibi da existência, é responsável por todas as suas ações, e tem a responsabilidade moral e ética de atuar de forma justa, em busca de uma sociedade melhor e mais igualitária. Mesmo assim, há aqueles que se recusam a lutar pelo bem coletivo, pela igualdade para todos, por não querer deixar sua posição de superioridade de lado, tendo como motivador um individualismo extremo, que descarta os sujeitos vistos como menos importantes ou menos humanos.  Referências: BAKHTIN, M. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2011. FRIOLI, Giovana.Nikolas Ferreira publicou texto que não consta no projeto de lei que criminaliza a misoginia. Estadão, 2026. Disponível em: https://www.estadao.com.br/estadao-verifica/nikolas-ferreira-trecho-projeto-de-lei-criminaliza -misoginia-enganoso/ Acesso em 29 mar. 2026. Nikolas chama projeto de lei sobre misoginia de “loucura”. Poder 360, 2026. Disponível em: https://www.poder360.com.br/poder-congresso/nikolas-chama-projeto-de-lei-sobre-misoginia -de-loucura/ Acesso em 29 mar. 2026. SAFFIOTI, H. I. B. O poder do macho. São Paulo: Moderna, 1987. Senado aprova criminalização da misoginia. Senado Federal, 2026. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/institucional/procuradoria/noticias/senado-aprova-criminalizaca o-da-misoginia Acesso em 29 mar. 2026. SOUZA, Felipe. Brasil tem maior número de feminicídios dos últimos 10 anos, diz pesquisa. CNN Brasil, 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil/brasil-tem-maior-numero-de-feminicidios-dos-u ltimos-10-anos-diz-pesquisa/ Acesso em 29 mar. 2026.

bottom of page