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Silêncios e ausências: uma leitura bakhtiniana do livro "Uma delicada coleção de ausências", de Aline Bei

há 12 minutos
5 min de leitura

Por Isabella Lourenci Kojima


Há ausências que não significam só a falta de alguém. Algumas permanecem, ocupam espaços, atravessam memórias e continuam presentes mesmo quando aquilo ou aquele que se foi já não pode ser encontrado, mas sentido e revivido. É nesse território delicado entre presença e falta que em Uma delicada coleção de ausências, de Aline Bei o leitor é convidado a olhar para a experiência da falta não como um vazio absoluto, mas como algo que continua se (re)produzindo de geração em geração nessa família de mulheres.


A obra se passa em uma casa humilde, na cidade de Belva, onde Laura e Margarida vivem juntas, Margarida se dedica aos cuidados da neta, mesmo com o corpo cansado, pois é o elo mais forte com a sua filha, Glória. Em sua juventude, Margarida era fascinada pela arte e decide fugir para trabalhar no circo, lá ela conhece um palhaço, pai de sua filha, que lhe ensina a quiromancia, profissão que exerce em uma feira de antiguidades para sustentar o lar das duas. A fuga de Margarida representa o primeiro elo de uma longa cadeia de partidas, silêncios e ausências que atravessam as gerações de mulheres dessa família. Conforme os dias iam passando, Laura questionava o porquê de sua mãe ter lhe deixado com a avó, perguntava como Glória era, histórias, memórias e situações vividas por sua mãe, sua avó dizia os costumes que ela tinha, como era linda e ressaltava como a sua filha amava música e cinema. Com isso, esse universo particular que as duas criaram, se rompe com a chegada de Filipa, bisavó de Laura, uma idosa fiel a Deus, chegou com suas caixas, amarguras e angústias para conviver com a filha. Essa mudança provocou inúmeras transformações imediatas na vida de Laura, que perdeu o seu quarto, sua privacidade e o seu tempo de qualidade com a avó e na medida que o tempo passava tentava se habituar com a presença de Filipa, mas se via sozinha. Enfim, para conseguir dar conta da casa, do sustento e da nova configuração familiar, Margarida encontrou em Camilo, um senhor que vendia brinquedos, ajuda financeira e emocional.


A escrita de Aline Bei, em grande parte de sua produção literária, estabelece um espelhamento geracional entre mãe, filha e avó, evidenciando como experiências, afetos e conflitos são transmitidos entre diferentes gerações. Neste romance, temas como maternidade, infância, amizade, abandonos e desejos são atravessados e dilacerados por um ciclo de violências que ultrapassa a dimensão individual e respinga na criação de Laura, que não encerra o ciclo familiar de fugir de ambientes, vivências e ausências, seguindo um padrão geracional que alimenta as ausências de fala, carinho e cuidado, alimentando os não ditos da vida que toma conta do sujeito-mulher.


Nesse contexto, é possível estabelecer um diálogo com a teoria bakhtiniana, pois a obra escolhida funciona como arena dialógica, em que vozes sociais encontram-se em embate e possibilitam a emergência de sentidos que operam como reflexo e refração de resistência feminina, logo, a literatura e a linguagem se encontram como espaços de elaboração daquilo que, muitas vezes, não pode ser dito de maneira direta, permitindo que silêncios, ausências e dores encontrem formas de expressão por meio da palavra literária, considerando que a literatura, com seu acabamento estético, reflete e refrata embates sociais da vida.


A coleção de ausências se inicia com Filipa, uma mulher cristã que sofre com a culpa de se sentir aliviada pela morte do marido, homem que a violentava na frente de sua filha e encara a criação de Margarida como algo desafiador, visto que sua filha era diferente de sua projeção. A personagem é o símbolo do envelhecimento feminino, com um corpo marcado pelo tempo e cicatrizes de uma maternidade muitas vezes difícil ou não resolvida, com embates de crenças e experiências. Portanto, a ausência começa a ser construída por lembranças, expectativas, perguntas sem respostas e palavras que ecoam.


Para o Círculo de Bakhtin, a linguagem nunca é neutra, nem isolada,


“todo signo surge entre indivíduos organizados no processo de sua interação. Portanto, as formas do signo são condicionadas, antes de tudo, tanto pela organização social desses indivíduos quanto pelas condições mais próximas de sua interação” (2017, p.109)

 

Toda palavra está relacionada a outras palavras, a outros discursos e a diferentes vozes sociais, por isso a ausência pode ser compreendida como um fenômeno discursivo, já que é atravessada por concepções sociais sobre a morte, o abandono, o amor, a família, a solidão e a memória. No romance, isso fica evidente na maneira como Laura convive com esses sentimentos e se torna invisível após a chegada da bisavó em seu lar. Além disso, a ausência de Glória continua ocupando a memória da mãe, da filha e da bisavó e essa relação interrompida, entre Glória e Laura, influencia no comportamento familiar, já que esse ciclo de fuga se tornou uma experiência silenciada que continua produzindo efeitos e que resulta na fuga de Laura também.


Na teoria bakhtiniana o sujeito é um ser histórico e social, ele é feito na e pela linguagem, não somos constituídos apenas por nossas experiências individuais, mas pelas relações que estabelecemos com os outros e pelos discursos que circulam socialmente. Portanto, a literatura torna esse processo visível ao transformar experiências particulares em narrativas capazes de alcançar outros sujeitos. O sujeito é pelo menos dois, um não existe sem o outro, é a partir desse outro que o eu se reconhece, diante disso, o embate de vozes concordantes e discordantes é ideológico. A personagem Laura, uma pré-adolescente, estabelece um vínculo afetivo e intenso com sua avó, figura responsável por seus cuidados e pela construção de um espaço de acolhimento no qual quase todas as suas perguntas encontram respostas. No ambiente escolar, Laura mantém amizade com Lívia e Jordana, ambas pertencentes a famílias estruturadas segundo o modelo tradicional. É por meio dessas relações que a personagem começa a descobrir os prazeres do corpo e as transformações próprias da adolescência. Contudo, esse processo de descoberta também a coloca diante de experiências marcadas pela inveja, desilusão, rivalidade feminina, objetificação e pelos mecanismos de controle masculino sobre o corpo feminino, regulação que se instaura desde a infância.


A relação entre Laura e sua mãe é atravessada pela ausência física e psicológica. Enquanto Glória confia em sua beleza, mesmo traumatizada e cansada da dinâmica familiar sufocante, foge e abandona o núcleo familiar em decorrência da violência sexual sofrida por Camilo, amigo próximo da família, e sua filha permanece marcada pela busca de compreender essa partida, junto com a imaginação de como a mãe seria. Após a instalação da bisavó de todas as maneiras, a menina se sente invisível e começa a guardar para si as experiências boas e ruins que viveu e ao sofrer violência sexual, praticada também por Camilo, no seu aniversário foge pela extremidade da janela de vidro do banheiro, dando continuidade ao ciclo familiar de fuga de ambientes, experiências, vivências e ausências. Essa repetição cíclica do ato de fugir comprova como as histórias individuais se constituem em relação com as experiências do outro, sendo assim, a alteridade não se limita à existência de um outro exterior ao sujeito, mas constitui uma condição fundamental para a formação da consciência e da identidade, o sujeito não se constitui de forma isolada, ele se reconhece no outro e se transforma a partir das relações.


O ciclo de violência que essas mulheres da mesma família sofrem, nos permite observar como a violência entre o corpo feminino atravessa gerações e produz marcas que ultrapassam experiências individuais. Dito isso, a narrativa desloca essa relação entre mãe e filha para uma dimensão social e não só familiar ou psicológica, para além disso, Filipa vivia em um relacionamento tóxico e sofria violência doméstica e Margarida quase foi abusada pelo mágico que conheceu no circo e foi abandonada grávida pelo palhaço, homem com quem se relacionou por pouco tempo. Enfim, ao apresentar diferentes experiências de violência vivenciadas pelas mulheres da narrativa, Aline Bei evidencia que essas relações não são acontecimentos isolados, elas partem de uma estrutura social que condiciona as experiências femininas. O romance, portanto, revela como a violência pode ser naturalizada nas relações afetivas, familiares e sociais, ao mesmo tempo em que possibilita questionar os mecanismos que sustentam o silenciamento das mulheres.

 
 
 

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