Do Ronco do Motor aos Acordes Sinfônicos: Dialética e Luta de Classes na Performance de MC Hariel
- rafaelabatista9
- há 10 horas
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Maria Carolina José Lopes

Durante anos o funk foi (e ainda é) lido como um gênero musical de menor qualidade e importância, relegado às periferias e rejeitado pela elite sob alegações moralistas. Assim, essa expressão artística constitui-se como um signo que reflete a experiência material de comunidades marginalizadas enquanto é refratado e transformado por meio da luta de classes. Entretanto, no palco da Red Bull Symphonics de 2026 realizada no Brasil, o cantor MC Hariel demonstrou a potência do funk e sua relevância cultural.
Em Marxismo e Filosofia da Linguagem, o signo ideológico é explicado como dialético, o que significa a existência de forças contraditórias em sua constituição; desse modo, entende-se que há “a particularidade do signo ideológico de refratar e distorcer a realidade dentro dos níveis da ideologia dominante” (VOLÓCHINOV, 2017, p. 113)”. Quando se analisa o funk dentro do Brasil, nota-se que ele é majoritariamente visto como algo sujo, impróprio e até mesmo imoral, um discurso reacionário que busca excluir esse gênero musical da cultura legitimada. A proposta da performance de MC Hariel é unir suas canções e seu estilo contemporâneos à música clássica, representada pela orquestra sinfônica, de modo que essa nova produção possa alcançar e tocar as diferentes bases da existência material dos sujeitos, independentemente de pertencerem à periferia ou à elite.
Ainda que a apresentação inclua a música clássica, gênero que por si só remete as classes sociais mais altas enquanto afasta as mais pobres, os músicos da orquestra não destoam de modo algum do MC, pois alguns deles — inclusive o maestro Xuxa Levy — utilizam óculos de sol, correntes, elementos visuais que remetem à estética das comunidades. Além disso, um grupo de dançarinos se une à cena dançando funk conforme os passos do ritmo, principalmente do funk paulista, incluindo o “dedo pro alto”. Outro elemento bastante emblemático é a chegada de Hariel ao palco: o cantor entra pilotando uma moto, que inesperadamente se torna parte do espetáculo como instrumento quando o ronco do motor passa a harmonizar com a orquestra.
As canções performadas trazem críticas sobre a visão estereotipada das favelas e de suas produções musicais, pois além de denunciar a realidade precária que suas comunidades enfrentam e promover entretenimento nelas, o funk também é constituído como forma de resistência. Portanto, a apresentação dos músicos mostra como os signos de um gênero discursivo, nesse caso o funk, podem ser refletidos e refratados a depender da ideologia dos sujeitos envolvidos em sua enunciação.




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