Quem exerce o poder? breve reflexão bakhtiniana sobre uma política gilediana-brasileira
Rafaela dos Santos Batista

Em O Conto da Aia, série baseada no romance homônimo de Margaret Atwood, acompanhamos a construção e implementação de uma sociedade totalitária na qual o controle dos corpos femininos é institucionalizado e justificado por uma ordem moral e religiosa. Em Gilead, as mulheres perdem todos os seus direitos fundamentais, têm sua vida transformada, sua autonomia restringida e passam a ocupar castas sociais rigidamente delimitadas pelo regime. São assim que se constroem as principais classes, como as aias, mulheres feitas de escravas sexuais, para que reproduzam e gerem filhos; as esposas, mulheres dos comandantes dessa cidade, inférteis, mas com a responsabilidade de zelar pelos bons costumes da família tradicional; e as tias, mulheres responsáveis pelo cuidado rígido das aias, assim, estão em manutenção desse poder.
Entretanto, a manutenção dessa estrutura não depende exclusivamente da autoridade masculina ou da imposição da força. Algumas mulheres também participam da produção, da circulação e da legitimação dos discursos que sustentam essa sociedade. É nesse contexto que as personagens Tia Lydia e Serena Joy se tornam particularmente interessantes para uma reflexão sobre ideologia, linguagem e relações de poder.
Embora ocupem posições distintas, ambas contribuem, de maneiras diferentes, para a sustentação do regime. Tia Lydia atua diretamente na disciplina e na vigilância das aias, participando de sua formação segundo as normas de Gilead. Em suas práticas, a violência é frequentemente acompanhada por discursos de proteção, moralidade e correção, como se a submissão das mulheres fosse necessária para seu próprio bem. Serena Joy, por sua vez, é uma esposa que participou da construção ideológica da sociedade que posteriormente também restringe sua liberdade. Sua trajetória evidencia uma contradição: embora tenha contribuído para a legitimação de um projeto político baseado em valores tradicionais, ela também se vê submetida às limitações impostas às mulheres por essa mesma ordem.
As personagens permitem questionar uma concepção segundo a qual a opressão feminina seria sustentada exclusivamente por homens, enquanto as mulheres ocupariam necessariamente uma posição de resistência. A série mostra que as relações de poder são mais complexas: mulheres podem ocupar posições privilegiadas em determinadas hierarquias e, ao mesmo tempo, contribuir para a manutenção de estruturas que restringem os direitos e as possibilidades de outras mulheres. Isso não significa que todas ocupem as mesmas posições ou disponham dos mesmos recursos, mas que a participação na reprodução de uma ordem social não depende exclusivamente do lugar de quem a instituiu.
Volóchinov (2017) compreende o signo linguístico como um fenômeno social e ideológico: participa da produção de sentidos e expressa avaliações constituídas nas relações sociais. A palavra, nessa perspectiva, não é neutra nem existe isolada das condições históricas em que é empregada. Seus sentidos são constituídos por valores, interesses e posições sociais que podem entrar em conflito. Somado a isso, analisar discursos políticos sobre mulheres revelam uma política atual em que termos como “família”, “liberdade”, “maternidade” e “feminismo” não circulam na sociedade com os mesmos valores. Ao contrário, tornam-se signos por meio dos quais diferentes grupos procuram afirmar suas concepções de mundo, defender projetos políticos e estabelecer aquilo que consideram legítimo ou desejável. Uma mesma palavra pode assumir acentos valorativos distintos conforme a posição social e ideológica de quem a enuncia. O que está em disputa não é somente a definição de uma palavra, mas a concepção de sociedade que se procura legitimar por meio dela.
É nesse ponto que a aproximação com O Conto da Aia se torna significativa. Em Gilead, a maternidade deixa de ser apenas uma experiência possível e passa a organizar a posição social das mulheres, sobretudo daquelas submetidas à função reprodutiva. A reprodução é incorporada à estrutura política do regime, enquanto discursos religiosos e morais são mobilizados para apresentar essa organização como necessária. O controle dos corpos não se realiza somente por meio da coerção física, mas também pela produção de sentidos que procuram naturalizar a submissão. Quando Tia Lydia apresenta a disciplina como proteção ou quando as normas de Gilead são justificadas em nome de uma suposta ordem moral, a linguagem participa ativamente da legitimação das relações de poder.
A personagem Serena Joy acrescenta outra dimensão a essa discussão. Sua participação na construção ideológica do regime mostra que a defesa de valores tradicionais também pode funcionar como um instrumento de legitimação de hierarquias de gênero. Entretanto, sua condição de esposa não lhe garante autonomia plena: a estrutura que ajudou a legitimar também estabelece limites para sua atuação. A contradição da personagem não está simplesmente em ser uma mulher conservadora, mas em participar de um projeto que promete uma determinada ordem social e, ao mesmo tempo, restringe suas próprias possibilidades de ação. Já Tia Lydia evidencia como a reprodução de uma ideologia pode ocorrer por meio de práticas cotidianas de disciplina, vigilância e educação. As duas personagens, portanto, permitem observar diferentes formas de participação na manutenção de uma estrutura social: a legitimação de seus valores e a reprodução de suas normas.
Essa reflexão nos permite estabelecer um diálogo crítico com a política brasileira contemporânea. A eleição de mulheres para cargos públicos representa uma conquista importante, sobretudo diante da histórica exclusão feminina dos espaços de decisão. Entretanto, a presença de mulheres na política não implica, automaticamente, a defesa dos direitos das mulheres ou o compromisso com a transformação das desigualdades de gênero. Assim como os homens não constituem um grupo politicamente homogêneo, as mulheres também apresentam posições ideológicas distintas, participam de diferentes projetos de sociedade e atribuem sentidos diversos às experiências relacionadas ao gênero. Por isso, é importante distinguir a representatividade feminina do compromisso político com a emancipação das mulheres.
Citamos, referente ao atual contexto político (2026) declarações de representantes políticas como Eduarda Campopiano (PL-SP) e Júlia Zanatta (PL-SC). Campopiano se posicionou publicamente contra o feminismo e afirmou desejar que o aborto se torne "impensável", manifestação que permite discutir as concepções de autonomia feminina e de direitos reprodutivos mobilizadas em seu discurso. Zanatta, por sua vez, criticou o emprego da expressão "pessoa que gesta" em substituição a "mãe", a trazer para o debate uma disputa em torno dos sentidos atribuídos à maternidade e da relação entre linguagem, identidade e experiência feminina. Embora as declarações não sejam equivalentes e devam ser compreendidas em seus respectivos contextos, ambas possibilitam investigar como os sentidos de feminismo, maternidade e mulher são mobilizados em disputas políticas.
Pelo clivo bakhtiniano, não basta considerar essas declarações como manifestações de opiniões individuais. É necessário compreender que os enunciados se constituem em condições sociais e históricas específicas, dialogam com discursos já existentes e se orientam para determinadas respostas. Quando uma representante política se posiciona contra o feminismo, por exemplo, seu enunciado não se limita a expressar uma preferência pessoal: ele participa de uma disputa sobre o significado do movimento feminista, sobre quais reivindicações são consideradas legítimas e sobre quais projetos de sociedade devem orientar as políticas públicas. Uma declaração política circula, é retomada por apoiadores e críticos, ganha novos acentos valorativos e passa a integrar outras disputas. Por isso, a análise não deve se limitar à identificação da posição ideológica de uma parlamentar, mas investigar as condições de produção de sua fala, os valores que ela mobiliza, os discursos com os quais estabelece relações e as consequências políticas das posições defendidas.
A ideia de reflexo e refração (Volóchinov, 2017) assevera que as disputas políticas não se realizam apenas em torno de medidas concretas, mas também em torno das palavras e dos sentidos por meio dos quais essas medidas são justificadas. Quando uma determinada concepção de família, maternidade ou feminilidade é apresentada como natural, universal ou moralmente obrigatória, pode-se apagar seu caráter histórico e ideológico, como se não houvesse outras maneiras possíveis de organizar as relações sociais. É justamente nesse processo que a linguagem pode contribuir para a naturalização de hierarquias.
A aproximação entre a série e o cenário brasileiro, contudo, exige um cuidado importante. Não se trata de afirmar que o Brasil contemporâneo equivale a Gilead ou que toda posição conservadora conduz necessariamente à supressão de direitos. A ficção apresenta uma estrutura totalitária extrema, enquanto a realidade política brasileira é marcada por instituições, disputas e contradições específicas. A comparação é produtiva quando permite identificar mecanismos discursivos e ideológicos que merecem ser questionados, sem apagar as diferenças entre os contextos. Uma mulher pode conquistar espaço em uma estrutura política sem necessariamente questionar as hierarquias que organizam essa estrutura; pode, inclusive, participar da defesa de valores que limitam a autonomia de outras mulheres. Essa possibilidade torna insuficiente a ideia de que a representatividade, por si só, assegura a transformação social.
No cenário atual, é preciso refletir sobre as relações de poder. É preciso observar não apenas quem ocupa os espaços de decisão, mas também quais discursos essa ocupação ajuda a legitimar. Na perspectiva dialógica, os sentidos nunca estão completamente isolados das relações sociais: eles se constituem no encontro e no conflito entre diferentes vozes. É nesse terreno de disputas que a linguagem participa tanto da manutenção das hierarquias quanto da possibilidade de questioná-las.
Referências
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