Entre a festa da renovação e o funeral do pluralismo:Direita, Esquerda e Centro em prol da democracia em (dis)curso
“Não existe nada absolutamente morto: cada sentido terá sua festa de renovação.”
Mikhail Bakhtin (2017)
Cristiano Sandim Paschoal
A democracia não exige a uniformidade de pensamento, tampouco pressupõe a neutralização dos conflitos que constituem, estruturalmente, a vida social. Sua sobrevivência e vitalidade dependem, antes, da preservação das condições institucionais, discursivas e (axio)ideológicas que garantem a emergência do contraditório, permitindo que diferentes sujeitos, grupos e projetos políticos possam expressar suas posições, tensionar o horizonte de valores e disputar os rumos da sociedade em bases simétricas de legitimidade. Contudo, em conjunturas de acentuada polarização, essa premissa fundamental tende a ser solapada por atos linguageiros que convertem a divergência em inimizade e a oposição ideológica em ameaça existencial a ser sumariamente erradicada. Quando o adversário deixa de ser visto como participante legítimo do jogo político e passa a ser apresentado como um polo cuja própria existência discursiva deve ser eliminada, o problema ultrapassa os limites das discordâncias partidárias para incidir diretamente sobre as bases da civilidade que sustenta o regime democrático. É diante dessa problemática socio-discursiva que se torna salutar reexaminar a distinção entre direita, esquerda e centro, apontando, minimamente, seus fundamentos históricos e compreendendo a forma como esses espectros refletem e refratam a pluralidade política, particularmente no horizonte do segundo turno das eleições presidenciais brasileiras.
Embora operem contemporaneamente como categorias de ordenamento para classificar partidos, governos e posições ideológicas, os signos direita e esquerda possuem uma ancoragem histórica indissociável das transformações socio-estruturais da modernidade. Sua consolidação como balizas valorativas da linguagem política remonta ao contexto da Revolução Francesa, especificamente às sessões da Assembleia Nacional Constituinte de 1789, em que a disposição espacial dos delegados representantes dos Três Estados traduziu o tensionamento entre a conservação e a ruptura da ordem social: à direita sentavam-se os setores empenhados na manutenção do Ancien Régime, da autoridade monárquica e dos privilégios estamentais; à esquerda, alocavam-se as forças alinhadas à transformação da estrutura de poder, à limitação do absolutismo e à ampliação dos direitos civis (Rémond, 2020). O que se originou como uma distribuição espacial e contingente da configuração parlamentar, converteu-se, progressivamente, em uma densa malha valorativo-discursiva, apta a eclipsar diferentes concepções acerca da distribuição da riqueza, do papel do Estado e das articulações entre liberdade, igualdade e tradição. Essa gênese sociopolítica evidencia que direita e esquerda não constituem essências a priori ou categorias a-históricas, mas signos ideológicos complexos cujas cargas (axio)(ideo)dialógicas se reconfiguram continuamente sob a determinação das lutas sociais e das flutuações das esferas de atividade pública.
É justamente a persistência dessa distinção no grande tempo da política moderna — a despeito das sucessivas reconfigurações conjunturais — que as reflexões de Norberto Bobbio são mobilizadas na obra Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política (2012). Em oposição às teses que decretam o esvaziamento analítico desses conceitos, o filósofo italiano argumenta que a dicotomia permanece heuristicamente profícua para desvelar o modo como os agentes políticos se posicionam frente aos problemas semântico-valorativos que circundam a noção de igualdade. Sob sua perspectiva, a esquerda caracteriza-se primordialmente pela busca de redução das desigualdades compreendidas como socialmente construídas e injustas, ao passo que a direita tende a naturalizar, justificar ou preservar determinadas assimetrias como inerentes à condição humana ou à dinâmica social. Obviamente, essa lente interpretativa não autoriza leituras maniqueístas que atribuam à esquerda uma adesão à igualdade absoluta ou à direita uma rejeição irrestrita a políticas redistributivas; sua relevância reside em fornecer um vetor de análise para interpretar os diferentes diagnósticos sobre a ordem social e as estratégias projetadas para a sua conservação e/ou transformação. A contribuição de Bobbio (2012) permite, assim, reconhecer a heterogeneidade interna de cada polo sem dissolver sua capacidade distintiva, desde que apreendidos em sua variação cronotópica e em suas contradições constitutivas.
Essa mesma prudência deve orientar nosso olhar sobre o centro político, do centro político, frequentemente retratado, por meio de uma simplificação estática, como uma zona de neutralidade ou de simples equidistância entre dois polos coesos. O centro se configura como um espaço marcado por forte hibridização ideológica, no qual pendulam orientações pragmáticas, propostas reformistas e arranjos contingentes entre valores de conservação e de transformação. Direita, esquerda e centro designam, portanto, campos discursivos internamente clivados, cujas fronteiras políticas se deslocam ao sabor das correlações de força de cada momento histórico. A apreensão dessa plasticidade semântico-valorativa torna-se salutar porque impede que o pertencimento a uma determinada fração do espectro político seja tomado, por si só, como atestado de adesão ou de rejeição aos princípios democráticos. Em última instância, a questão medular não consiste em circunscrever a posição topográfica do sujeito-agente no espectro político, mas em avistar como esse posicionamento se materializa no seu projeto enunciativo-discursivo, no grau de responsividade ética perante as instituições, nos limites estabelecidos para o exercício do poder e no reconhecimento do adversário como interlocutor legítimo na arena social.
É nesse ponto de inflexão que se faz necessário apontar algumas diferenças entre a direita inscrita no horizonte democrático e a extrema-direita. Essa diferenciação não deve ser delineada pela simples gradação ou intensidade das convicções conservadoras, como se toda posição situada à direita do espectro resultasse, inexoravelmente, na recusa das regras do jogo democrático. A sustentação da propriedade privada, a defesa da liberdade de mercado, a salvaguarda de certas tradições ou a adesão a concepções específicas de ordenamento social constituem projetos políticos que, por si sós, não implicam a negação da legitimidade outra nem a invalidação do contraditório. O hiato qualitativo e perigoso se instaura no momento em que a defesa de um projeto de poder passa a ser intermediada por estratégias discursivas e práticas institucionais voltadas à supressão de garantias fundamentais, à coerção simbólica de opositores, ao achincalhamento sistemático do pacto constitucional e à erosão por dentro dos mecanismos de controle do Estado. A clivagem decisiva, por conseguinte, não se estabelece em função do grau de conservadorismo ideológico, mas em relação à aceitação ou rejeição da própria arquitetônica democrática e dos limites ético-políticos impostos ao exercício do poder. Uma direita que se pretende republicana orienta sua atuação pela disputa de hegemonia no mercado linguístico-discursivo na/da esfera política, reconhecendo na oposição um interlocutor legítimo dotado do mesmo direito de existência. Simetricamente, tal exigência responsiva estende-se à esquerda e ao centro, dado que nenhum espectro político goza de salvo-conduto ideológico ou de um compromisso democrático assegurado por mera autodeclaração.
Essa discussão adquire maior densidade analítica quando apreendida à luz da perspectiva práxio-dialógica do discurso, forjada por Paschoal (2025) a partir da articulação relacional entre o Círculo de Bakhtin e a sociologia de Pierre Bourdieu. No pensamento do Círculo, os signos não figuram como instrumentos neutros encarregados de traduzir passivamente uma realidade apriorística. Pelo contrário: constituem-se como signos ideológicos (Volóchinov, 2017, 2019) no seio das relações dialógicas (Bakhtin, 2010, 2015), onde refletem e refratam o meio e o horizonte ideológico de sua época (Medviédev, 2018). Sob esse prisma, o discurso opera como arena de confronto (axio)ideológico na qual se (re)constroem (des)pertencimentos. Todavia, para desvelar a eficácia social da linguagem nas disputas por hegemonia, a abordagem práxio-dialógica tensiona a dimensão enunciativa com a sociologia da dominação simbólica de Pierre Bourdieu. Por meio dessa oxigenação entre as matrizes dialógica e praxiológica, o enunciado é apreendido como práxis sobre o mundo — uma ação simbólica permeada por relações de poder constitutivas da vida social (Bourdieu, 2005). Essa integração conceitual evidencia que a força exercida pelo discurso não emana puramente de sua estrutura linguística interior, mas da acumulação de capital simbólico e das posições de autoridade ocupadas pelo sujeito-agente na arquitetura do campo (Bourdieu, 2008), bem como da naturalização da violência simbólica incorporada no habitus (Bourdieu, 2011).
É na esteira dessa sinergia (entre)teórica que a perspectiva práxio-dialógica (Paschoal, 2025) adere e incorpora os gestos analíticos da concepção verbivocovisual formulada por Luciane de Paula (Paula; Luciano, 2020a, 2020b). Essa adesão permite perscrutar o discurso político para além da palavra escrita ou oralizada, alcançando a sua materialidade encarnada: a entonação, a estridência vocal, as posturas corporais, a vestimenta, o enquadramento imagético e o investimento em rituais coletivos. Tais elementos compõem a própria substância sensível do signo ideológico (Volóchinov, 2017), exercendo uma atração magnético-axiológica sobre o habitus dos sujeitos. Conforme ressalta Bourdieu (2008), o poder simbólico opera pela imposição de esquemas de percepção e de valoração que, naturalizados, produzem a adesão profunda dos agentes sem a necessidade imperativa da coerção física. Investigar o que o discurso faz socialmente exige, por conseguinte, analisar quem fala, de qual posição no campo o faz, o modo como a materialidade verbivocovisual se expressa e quais efeitos de dominação ou emancipação catalisa na arena social.
A partir dessa perspectiva práxio-dialógica do discurso, Paschoal (2021, 2025) debruça-se sobre as reconfigurações do fascismo contemporâneo para compreender como as forças de extrema-direita operam no cenário geopolítico atual. Conforme adverte Jason Stanley (2018), o fascismo no século XXI não se apresenta necessariamente por meio de um golpe militar clássico — como se desdobrou no horizonte europeu do século passado —, mas atua como uma política fascista: uma engenharia discursiva pautada na divisão maniqueísta do corpo social, no anti-intelectualismo, na fabricação do pânico moral e na promoção de um passado mítico de vitimização. Essa plasticidade autoritária, que encontra no trumpismo um de seus epicentros globais, ganha densidade teórica na noção de Ur-Fascismo formulada por Umberto Eco (2018), a qual identifica no medo da diferença, no culto à tradição inventada, na obsessão pelo complô e na transformação do oponente em inimigo existencial a substância ideológica de um autoritarismo visceral.
No Brasil, uma das reacentuações mais agudas e perigosas dessa política fascista materializa-se no fenômeno que aqui denominamos bolsocristofascismo. Trata-se de um movimento sociopolítico e discursivo articulado em torno da figura do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro (2019–2022), erigido como líder messiânico e centro fundador desse tecido discursivo autoritário. Longe de se esgotar, essa dinâmica reatualiza-se e estende-se no cenário contemporâneo por meio da candidatura de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, no segundo turno das eleições presidenciais deste ano.
Nesse sentido, percursos analíticos conduzidos por Paschoal (2021, 2022), Paschoal e Di Fanti (2025), Paula e Siani (2020), Paula e Lopes (2020) e Oliveira (2025) demonstram que a fisiologia discursiva do bolsonarismo encarna, em seus atos discursivos ritualísticos, os marcadores estético-valorativos centrais do fascismo. Neles, a cooptação cerimonial da bandeira nacional, a gestualidade obsessiva com simulacros de armas, a vociferação estridente e as motociatas de tom mussolínico não figuram como adereços estéticos, mas fundem-se organicamente a conteúdos temáticos eugenistas e autoritários do alto de trios elétricos e em frente a quartéis. Trata-se de uma enunciação indissociável em que o tom belicoso é posto em (dis)curso para vilipendiar a educação, perseguir opositores convertidos em inimigos e glorificar a violência da ditadura civil-militar. Essa engrenagem necropolítica e eugênica ganhou corpo tátil nas encenações de Jair Messias Bolsonaro ao debochar de brasileiros morrendo por asfixia no auge do colapso pandêmico, assim como no abandono deliberado que resultou na tragédia sanitária e no genocídio do povo Yanomami.
Trata-se, em verdade, da atualização tropicalizada do fascismo italiano e do nacional-socialismo alemão. Ao hibridizar a voz social militarista com o pânico moral de matriz fundamentalista, o bolsocristofascismo instrumentaliza a fé e a linguagem sagrada para converter a arena política em uma guerra espiritual (Py, 2020), promovendo uma sacralização da esfera pública que visa blindar o líder e seu projeto dinástico de qualquer contestação racional e democrática.
Essa compreensão do estratagema discursivo bolsocristofascista nos conduz, por conseguinte, ao cerne da problemática democrática, agora sob uma perspectiva que articula os procedimentos institucionais às condições sociais e simbólicas da participação política. Em O futuro da democracia: uma defesa das regras do jogo, Bobbio (1986) enfatiza a importância das regras que tornam possível a disputa pelo poder sem a eliminação do contraditório. Sob essa ótica, a democracia não pressupõe a ausência de conflitos, mas exige a garantia efetiva de que diferentes interesses, valores e projetos se expressem e disputem legitimamente as decisões coletivas. Contudo, como adverte Stanley (2018), o perigo do fascismo contemporâneo reside precisamente em utilizar a liberdade e as regras da própria democracia para uma vez instalado no poder, corroer por dentro suas estruturas e destruí-la. Quando a fidelidade ideológica passa a justificar indiscriminadamente as ações de uma liderança — mesmo diante de práticas que restringem direitos e garantias —, a adesão política converte-se em submissão. Nesse processo, a crítica interna passa a ser interpretada como traição, a oposição como inimiga existencial e o pluralismo como obstáculo a um projeto tido como incontestável. É preciso reafirmar, portanto, que o pluralismo só ganha densidade e consistência analítica quando assegura a existência efetiva de posições distintas e a contestação aberta e irrestrita ao exercício do poder.
Diante dessas reflexões, o segundo turno das eleições presidenciais exige um posicionamento que vá além da simples associação entre identidade ideológica e decisão eleitoral. O voto não precisa significar a subscrição irrestrita ao programa de um candidato, mas uma escolha historicamente situada. Em contextos de profunda crise institucional, o voto estratégico configura-se como um gesto de preservação das condições mínimas de existência do próprio contraditório. Para a direita republicana e conservadora, esse cálculo envolve reconhecer que suas próprias prerrogativas de oposição, crítica e futura disputa dependem de garantias institucionais que não podem ser sacrificadas no altar de um projeto autocrático. Optar circunstancialmente pelo campo oposto não implica abdicação de princípios, mas o compromisso ético de assegurar o terreno comum sobre o qual a divergência continuará sendo possível.
A questão decisiva que se impõe, portanto, não é exigir conversões ideológicas nem a renúncia de bandeiras históricas, mas reconhecer que nenhum espectro político sobreviverá se forem destruídos os alicerces que garantem a alternância e a livre circulação das vozes sociais. Repensar o ato de votar, quando a própria democracia está sob ameaça de ruína, constitui um dever de responsabilidade histórica, uma vez que seu pressuposto vital é o de que vozes e sujeitos continuem existindo politicamente.
No grande tempo da cultura e sob o prisma transhistórico do discurso, compreende-se a atualidade do aviso bakhtiniano que inaugura este texto sob a forma de epígrafe: "cada sentido terá sua festa de renovação" (Bakhtin, 2017). Para que o presente seja o terreno firme em que a liberdade e o pluralismo possam renovar seu direito de existir — em vez de converter-se no palco do silenciamento e da interdição do outro —, exige-se a responsividade ética do ato político de votar com consciência no segundo turno brasileiro. Afinal, quando os sentidos do fascismo se reativam na história e reivindicam a sua celebração autoritária, o que está em jogo é o risco iminente de que nessa festa de renovação perversa se decrete o funeral simbólico da própria democracia.
Referências
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