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- (Moro)minions: uma breve reflexão dialógica de um post no Facebook
Natasha Ribeiro de Oliveira Temos estudado, desde o início de 2018, ano de eleição presidencial no Brasil, o que se tem chamado de “bolsominions” (OLIVEIRA, 2020; PAULA e OLIVEIRA, 2020) e a forma de produção, circulação e recepção deste signo ideológico na rede social Facebook. Brevemente, compreendemos “bolsominions” como um signo ideológico (VOLÓCHINOV, 2017 [1929]) que utiliza uma situação sócio-histórica (uma figura política em um determinado espaço-tempo: o Brasil dos anos 2018 em diante) para criar uma crítica, por meio da sátira/do escárnio, a partir de personagens amplamente conhecidas e consumidas, não só aqui, mas no mundo: os minions, dos filmes Meu Malvado Favorito (2010, 2013, 2015 e 2017). A crítica, ferrenha, mas também risível, é feita aos apoiadores fiéis de Jair Bolsonaro que, tal qual os minions, seguem um malvado favorito (no filme, esta figura de chefe-vilão é Gru) e tentam agradá-lo a todo custo, pois o seu bem-estar e a sua felicidade são mais importantes até do que a própria felicidade do grupo (o famoso trabalhador que defende e dá a vida pelo patrão). Está feita, assim, a crítica que, dentre tantos formatos, encontra nas redes sociais, como o Facebook, uma forma de circular socialmente, em ambiente on-line. Os posts, que ocorrem no formato de fotomontagem, memes, charges etc. estabelecem uma relação estreita com acontecimentos atuais, portanto, não é estranho o caráter efêmero que esses posts assumem, altamente curtidos e compartilhados em um período e facilmente esquecidos logo em seguida, para que seja dada vida a novos posts, relativos a novos acontecimentos. Dito isso, refletimos, brevemente, sobre um acontecimento que marcou a cena política do país: o rompimento da aliança entre Bolsonaro e Moro. Como acompanhado no cenário político, Jair Bolsonaro e Sérgio Moro, ex-ministro da Justiça, caminhavam alinhados e aliados enquanto os interesses próprios de cada um não entravam em conflito. Quando ocorreram consecutivos desentendimentos, as duas figuras políticas desfizeram a união para cada um seguir seu caminho, em meados de maio de 2020. A questão, aqui, não é retomar, historicamente, os detalhes desta aliança política, mas refletir sobre como as duas figuras, antes aliadas, tornaram-se desalinhadas e, como consequência, os atritos de ambos desencadeou na subdivisão do grupo que, até então, era unicamente denominado “bolsominions” para dar vida a um novo signo ideológico: os “morominions”, a partir de um post de Facebook. Os “morominions” são sujeitos que, como decorrência dos atritos entre Bolsonaro e Moro, decidiram apoiar esta última figura política, por acreditarem em seus valores e ideais. Podemos compreender que os morominions são uma subdivisão dos bolsominions, logo, ex-bolsominions. Perderam a associação a Bolsonaro para ganharem a carga valorativa relacionada a Moro, contudo, não podemos deixar de observar, como a própria constituição sígnica materializa, a valoração presente em “minions”, pois continuam a ser minions, mas agora com um novo malvado favorito a quem devotam seus esforços e defesas: Moro – por isso, (moro)minions. Podemos perceber que o signo ideológico surge motivado, portanto, por um acontecimento político, histórico e social e liga-se de maneira estreita às situações enunciativas em que é utilizado. Diferente do que temos estudado em nossa tese de doutorado (a relação entre os signos “bolsominions” e “petralhas”), no caso da presente reflexão, vemos um rompimento e subdivisão dentro de um mesmo grupo, antes unido. Interessante pensar no embate dentro de um mesmo grupo pois, a partir disso, podemos analisar a imagem abaixo, objeto da presente reflexão, retirada de uma página de Facebook intitulada “Bolsominions”, bastante ativa na produção e circulação de críticas feitas aos ideais conservadores dos apoiadores de Jair Bolsonaro. No post, podemos ver como este rompimento entre Bolsonaro e Moro foi recebido e elaborado pelo grupo de oposição, sendo, portanto, criada uma crítica em formato de fotomontagem como um posicionamento avaliativo da situação – a vida em ato, o enunciado materializado: Figura: Bolsominions e Morominions Fonte: Facebook “Bolsominions” (https://www.facebook.com/osbolsominions/photos/a.180646935828566/653868415173080. Acesso em: 15 set 2021). Situado de maneira concreta, por ser histórico e cultural, o enunciado materializa, por meio da linguagem em suas mais diferentes dimensões, valorações que são próprias de quem o produz. Logo, os materiais, no caso do post, verbal e visual, significam de maneira integrada, como vemos nos estudos desenvolvidos por Paula e Luciano (2020) – assim como o vocal que, mesmo não materializado, em potência pode ser depreendido como significativo. No post, vemos dois minions em imagem (como estão nos filmes) e dois enunciados verbais que, juntos, em ato, se complementam. Na parte superior da imagem, o verbal “Agora temos”, em caixa alta e na coloração preta, nos indica uma situação de novidade, pelo advérbio “agora”, compartilhada por uma coletividade, marcada pelo verbo “ter” flexionado na 3ª pessoa do plural. As duas imagens de minions, um normal e outro do mal (que, no filme, é um minion normal que toma um antídoto PX-41 que o transforma em um “monstro” aos olhos dos outros minions que não foram contaminados pela mutação), mostram a situação de novidade não relacionada aos “bolsominions”, marcada pelo minion com uma banana na mão, oferecendo ao outro, mas refere-se ao “morominions”, que é a subdivisão do grupo maior e anterior, assim como ocorre no filme. A diferença entre arte e vida – ou entre bolsominions e morominions, é que os apoiadores de Bolsonaro e Moro não se separaram por conta de um antídoto manipulado e consumido por uma parcela do grupo, mas em razão do desalinhamento entre as duas figuras políticas, o que justificou a criação de uma nova modalidade de servo fiel, que não mais obedece ao Bolsonaro, mas agora ao Moro, o que demonstra uma impossibilidade da existência dos dois contrários como parte de um mesmo grupo, dada a crise vivenciada pelos dois grupos. Interessante pensar, nessas duas imagens materializadas, em como um grupo passa a enxergar outro e, aqui, temos um movimento complexo: o grupo que critica os bolsominions e produz enunciados risíveis sobre o grupo, ao mesmo tempo em que se coloca no lugar dos bolsominions e projeta como eles enxergam os morominions (como minions do mal), como forma de demonstrar que os morominions, enquanto outro-para-mim (BAKHTIN, 2010 [1920-24]) para os bolsominions, se tornaram monstruosos, com um olhar torto, sorriso torto, despenteados e desproporcionais. Ao mesmo tempo, também podemos ver a visão dos que criticam ambos os grupos, bolsominions e morominions, e avalia a situação de modo a enunciar que, por agora ter os dois grupos, os morominions (dada a caracterização imagética do post) sejam piores do que os bolsominions (também dada a caracterização imagética do post), pois dentre os dois minions, o relacionado a Bolsonaro possui uma caracterização imagética mais branda e “normal” do que o relacionado a Moro – com isso, a situação é avaliada de modo a compreender que ambos continuam sendo minions, seguidores fiéis de malvados favoritos, mas que um grupo é “pior” do que o outro, pela forma como foram representados nas imagens retiradas dos filmes e contextualizadas em relação à enunciativa fílmica. No processo morfológico de produção, os dois signos ideológicos utilizam a junção para a formação do termo: unem parte ou a totalidade do sobrenome da figura política, “Bolso[naro]” e “Moro”, justaposto ao nome das personagens animadas, “minions”. Entendemos como signo ideológico pois, de acordo com Volóchinov, “[…] tudo o que é ideológico possui uma significação: ele representa e substitui algo encontrado fora dele, ou seja, ele é signo” (VOLÓCHINOV, 2017 [1929], p. 91 – grifo do autor), logo, tudo o que possui significação/sentido é passível de refletir e refratar o mundo à sua maneira. Os novos sentidos atribuídos aos signos são justamente o que os tornavam vivos, dinâmicos, em constante evolução, pois próprios da linguagem, que é ideológica por excelência. Moro, amplamente utilizado pelos seus apoiadores como um símbolo de combate à corrupção, representa este ideal para aqueles que optam por segui-lo em meio ao rompimento com Bolsonaro. Ainda que não seja a pretensão da reflexão, de mostrar quais são os ideais de cada figura, limitamo-nos a pensar nesta imagem que o Moro tem na política brasileira pois é como ficou popularmente conhecido, principalmente nos desdobramentos da Lava-Jato (quando, ainda, tinha seus ideais políticos alinhados com os de Bolsonaro). Interessante observar, portanto, em como a caracterização dos apoiadores de Moro torna-se monstruosa e do mal a partir do momento em que se separa dos bolsominions, como um grupo de oposição, isto na visão de quem é o outro-para-mim, pois se torna um monstro a partir do momento em que não se filia mais aos meus propósitos, logo, o monstro é o outro, não o eu. Contudo, mesmo que a visão seja de um grupo desmembrado e subdividido, não podemos nos esquecer que a crítica ainda continua a mesma, pois é feita a partir de uma página que produz e circula posts de crítica e denúncia contra Bolsonaro e tudo o que representa apoio a este governo. Não importa quem é o minion e quem é o minion do mal, ambos os papéis poderiam ser facilmente intercambiados, pois o interesse na consolidação dos pensamentos de direita e extrema-direita no governo do país são próximos e falam diretamente às duas figuras políticas. Logo, ainda que tenham optado por caminhos diferentes, Bolsonaro e Moro, assim como bolsominions e morominions ainda compartilham (e continuarão compartilhando) o ideal de combate às ideias voltadas ao avanço da democracia, direito às minorias e manutenção de direitos básicos sob a bandeira verde amarela, que camufla o discurso de ódio, o fim de ações afirmativas e a corrupção velada-mas-que-de-velada-não-tem-nada. Bolsominions, morominions ou ex-bolsominions, não importa: continuam sendo minions. Referências bibliográficas BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Para uma filosofia do ato responsável. [Tradução aos cuidados de Valdemir Miotello & Carlos Alberto Faraco]. São Carlos: Pedro & João Editores, 2010 [1920-24]. PAULA, Luciane de; OLIVEIRA, Natasha Ribeiro de. (2020). Minions nas telas e bolsominions na vida: uma análise bakhtiniana. Letrônica, 13(2), e36198. Disponível em: https://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/letronica/article/view/36198 DOI: https://doi.org/10.15448/1984-4301.2020.2.36198. PAULA, Luciane de; LUCIANO, José Antonio Rorigues. A filosofia da linguagem bakhtiniana e sua tridimensionalidade verbivocovisual. Estudos Linguísticos. São Paulo, v. 49, n. 2 (2020), p. 706-722. Disponível em: https://revistas.gel.org.br/estudos-linguisticos/article/view/2691. DOI: https://doi.org/10.21165/el.v49i2.2691. OLIVEIRA, Natasha Ribeiro de. A febre amarela “minions”: uma análise bakhtiniana. — 2020 282 f. Dissertação (Mestrado em Linguistica e Lingua Portuguesa) — Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Faculdade de Ciências e Letras (Campus Araraquara). VOLÓCHINOV, Valentin. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem; tradução, notas e glossário de Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo; ensaio introdutório de Sheila Grillo – São Paulo: Editora 34, 2017 [1929]. #GED
- Reflexões iniciais sobre a relação da linguagem concretista e a filosofia da linguagem bakhtiniana
Rafaela dos Santos Batista O movimento concretista, iniciado em 1950 pelo grupo Noigandres (Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari), renovaram a tradição poética no esteio mallarmeano de superação do verso e estrutura. Ao verem a palavra com personalidade e habilidade de se manifestar de diferentes maneiras, a poesia concreta recebe a linguagem como um lugar de não sepultamento da ideia, por isso, vai ao centro da palavra para a viver (DE CAMPOS, 1975). A linguagem entendida e empregada é, como eles denominam com o termo joyceano, verbivocovisual, porque: – o poeta concreto vê a palavra em si mesma – campo magnético de possibilidades – como um objeto dinâmico, uma célula viva, um organismo completo, com propriedades psicofisicoquímicas tacto antenas circulação coração: viva. (DE CAMPOS; 1975, p.44) Com essa percepção, o movimento concretista repensa a poesia nessa linguagem que leva em conta os âmbitos verbais, visuais e sonoros, sem privilégio de nenhuma dimensão, todas são partes da criação poética e essa é igualada a uma construção matemática. Assim, essa vanguarda radicaliza a tradicional poesia versificada e linear, que passa a ser explicada pela estrutura onde forma e conteúdo se ligam na linguagem que fala por/de si própria, pois não há eu-lírico e a palavra é trabalhada na máxima potência. A construção matemática do poema e a posição de cada palavra, com suas diferentes cores, nada tem de arbitrária. Não é apenas focada na expressão de um apelo visual, mas demonstra em si uma profunda relação entre a visualidade e o conteúdo. A discrepância entre forma e conteúdo, que estamos acostumados a observar numa concepção poética mais canônica, não tem espaço no concretismo, pois a profunda intimidade entre eles transforma o poema em uma unidade icônica e verbivocovisual. Podemos analisá-lo em suas formas, espaços em branco, em sua semântica não tradicional, em sua não linearidade. Todos esses elementos são parte fundamental da poesia concreta e, consequentemente, fazem parte de seu processo de criação. (CAMPOS, 2019, p. 109) A perspectiva bakhtiniana no que tange a linguagem, se centra na noção do enunciado composto por signos ideológicos que refletem e refratam concepções de mundo na/pela linguagem constituída por esses signos. A palavra é o lugar de realização dos fios ideológicos de todas as áreas da comunicação social e é também o indicador das mudanças sociais (VOLÓCHINOV, 2017). A dialogia, fio condutor do pensamento do Círculo russo, mostra a relação de alteridade entre o sujeito (eu/outro), a gerar trocas ideológicas em embate vivo, a linguagem ideológica faz dos enunciados arena de luta de ideias, dessa forma, ideologias surgem nos sujeitos e são tomadas por eles como realidade absoluta, em seus atos responsáveis e em suas vozes sociais. Somado a isso, os enunciados ideológicos não são apenas verbais para o grupo bakhtiniano, visto que “Qualquer fenômeno ideológico sígnico é dado em algum material: no som, na massa física, na cor, no movimento do corpo e assim por diante” (VOLÓCHINOV, 2017, p. 94). Mesmo que não focalizada em outras dimensões, há indícios de que vão além do verbal e se estendem para o vocal e visual. Na filosofia da linguagem do grupo bakhtiniano, existe uma visão de certa linguagem geral, estabelecida pós-reuniões do Círculo (entre 1959-1961): Todo sistema de signos (isto é, qualquer língua), por mais que sua convenção se apoie em uma coletividade estreita, em princípio sempre pode ser codificada, isto é, traduzido para outros sistemas de signos (outras linguagens); consequentemente, existe uma lógica geral dos sistemas de signos, uma potencial linguagem das linguagens única(que, evidentemente, nunca pode vir a ser uma linguagem única concreta, uma das linguagens). (BAKHTIN, 2011, p. 311) A materialização dos enunciados coloca a linguagem geral verbivocovisual no amparo das especificidades da esfera de comunicação discursiva, com regras e objetivos limitadores da construção enunciativa. A verbivocovisualidade não é explicitada no material externalizado, mas aparece nas marcas enunciativas, como também pode se manifestar de forma clara nos signos interiores ao passo da compreensão ativa que se apoia nas marcas dos enunciados, logo, a significação de qualquer enunciado acontece a partir da relação interior e exterior que revelam a verbivocovisualidade da linguagem, base que recobre os enunciados desde a formulação até a construção interativa de sentido à luz dos traços entonacionais. Disso, Paula (2017) propõe essa visão teórico-analítica verbivocovisual na seara bakhtiniana, que avançam esse estudo nessa forma metafórica de encarar a linguagem do Círculo: ao entender a próto-linguagem alargada e também ao perceber a materialidade enunciativa da linguagem, que pode ser tridimensional, a depender do projeto arquitetônico autoral, genérico e do estilo que reflete e refrata voz social, que a filosofia bakhtiniana da linguagem é ampliada. Começa-se a pensar a relação entre os dois campos aqui citados, o concretismo entende a linguagem de forma parecida que o Círculo de Bakhtin, apesar das diferenças grupais. Com influências parecidas, o movimento concreto trabalhou com essa possível linguagem geral na sua criação verbivocovisual que desafia a compreensão do leitor que precisa atuar na leitura, numa espécie de “adentramento” que o faz participar da linguagem e da criação poética, em certa relação alteritária eu/outro. Isso é visto no poema Rever, com a primeira versão em 1972, mas com diversas releituras em múltiplos suportes. Esse poema conta com a palavra “rever” escrita com o “E” e “R” finais invertidos. O entendimento se dá na própria forma do poema, ou seja, na palavra palíndromo, que ao ler de trás para frente, ainda é “rever” e as letras invertidas mostram a relação da forma com o que significa. Figura 1 – Poema Rever (Augusto de Campos – 1972) Fonte: retirado da internet. Disponível em: https://augustoscampos.wordpress.com/2017/06/23/analise-obra-rever-de-augusto-dos-campos/. No clip-poema, do CD-ROM do livro Não, a relação palindrômica é potencializada no círculo dividido ao meio pelas cores vermelho e verde, com “rever” espelhado. No vídeo, o movimento de ir e voltar, em rotação, e para frente e para trás, com o tamanho do círculo diminuindo e aumentando, trazem no verbal e visual a leitura em sentido contrário e normal que a palavra oferece. As cores, em alguns momentos, são invertidas à luz da palíndromo, e as letras em branco se transformam em preto. Há certa continuidade no recurso de looping, o poema nunca termina, fica em constante retorno que alude a palavra rever e sua leitura. Ainda, há a sonoridade do poema que representa o movimento do círculo nessa relação palindrômica. Figura 2 – clip-poema Rever (2003) Fonte: retirado do Youtube. Disponível em: https://youtu.be/MVN-RL4Oj5k. [1] Tais reflexões precisam ser aprofundadas, mas fica claro que há diálogo entre as noções de linguagem, portanto, a poesia concreta pode ser analisada no campo bakhtiniano a pensar a linguagem verbivocovisual. Referências BAKHTIN. M. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2011. CAMPOS, Raquel Bernardes. Entre vivas e vaias: a visualidade concreta de Augusto de Campos. 2019. DE CAMPOS, Augusto. Teoria da poesia concreta: textos críticos e manifestos, 1950-1960. Livraria Duas Cidades, 1975. DE CAMPOS, Augusto. Não poemas. Perspectiva, 2003. PAULA, L. de. Verbivocovisualidade: uma abordagem bakhtiniana tridimensional da linguagem. Projeto de Pesquisa em andamento. Assis: UNESP, 2017. Mimeo, s/d. VOLOCHÍNOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem. Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Rio de Janeiro: 34, 2017. [1] Sequência disponível em: 00:01, 00:02,00:04,00:11.
- Reflexões iniciais sobre a relação da linguagem concretista e a filosofia da linguagem bakhtiniana
Rafaela dos Santos Batista O movimento concretista, iniciado em 1950 pelo grupo Noigandres (Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari), renovaram a tradição poética no esteio mallarmeano de superação do verso e estrutura. Ao verem a palavra com personalidade e habilidade de se manifestar de diferentes maneiras, a poesia concreta recebe a linguagem como um lugar de não sepultamento da ideia, por isso, vai ao centro da palavra para a viver (DE CAMPOS, 1975). A linguagem entendida e empregada é, como eles denominam com o termo joyceano, verbivocovisual, porque: – o poeta concreto vê a palavra em si mesma – campo magnético de possibilidades – como um objeto dinâmico, uma célula viva, um organismo completo, com propriedades psicofisicoquímicas tacto antenas circulação coração: viva. (DE CAMPOS; 1975, p.44) Com essa percepção, o movimento concretista repensa a poesia nessa linguagem que leva em conta os âmbitos verbais, visuais e sonoros, sem privilégio de nenhuma dimensão, todas são partes da criação poética e essa é igualada a uma construção matemática. Assim, essa vanguarda radicaliza a tradicional poesia versificada e linear, que passa a ser explicada pela estrutura onde forma e conteúdo se ligam na linguagem que fala por/de si própria, pois não há eu-lírico e a palavra é trabalhada na máxima potência. A construção matemática do poema e a posição de cada palavra, com suas diferentes cores, nada tem de arbitrária. Não é apenas focada na expressão de um apelo visual, mas demonstra em si uma profunda relação entre a visualidade e o conteúdo. A discrepância entre forma e conteúdo, que estamos acostumados a observar numa concepção poética mais canônica, não tem espaço no concretismo, pois a profunda intimidade entre eles transforma o poema em uma unidade icônica e verbivocovisual. Podemos analisá-lo em suas formas, espaços em branco, em sua semântica não tradicional, em sua não linearidade. Todos esses elementos são parte fundamental da poesia concreta e, consequentemente, fazem parte de seu processo de criação. (CAMPOS, 2019, p. 109) A perspectiva bakhtiniana no que tange a linguagem, se centra na noção do enunciado composto por signos ideológicos que refletem e refratam concepções de mundo na/pela linguagem constituída por esses signos. A palavra é o lugar de realização dos fios ideológicos de todas as áreas da comunicação social e é também o indicador das mudanças sociais (VOLÓCHINOV, 2017). A dialogia, fio condutor do pensamento do Círculo russo, mostra a relação de alteridade entre o sujeito (eu/outro), a gerar trocas ideológicas em embate vivo, a linguagem ideológica faz dos enunciados arena de luta de ideias, dessa forma, ideologias surgem nos sujeitos e são tomadas por eles como realidade absoluta, em seus atos responsáveis e em suas vozes sociais. Somado a isso, os enunciados ideológicos não são apenas verbais para o grupo bakhtiniano, visto que “Qualquer fenômeno ideológico sígnico é dado em algum material: no som, na massa física, na cor, no movimento do corpo e assim por diante” (VOLÓCHINOV, 2017, p. 94). Mesmo que não focalizada em outras dimensões, há indícios de que vão além do verbal e se estendem para o vocal e visual. Na filosofia da linguagem do grupo bakhtiniano, existe uma visão de certa linguagem geral, estabelecida pós-reuniões do Círculo (entre 1959-1961): Todo sistema de signos (isto é, qualquer língua), por mais que sua convenção se apoie em uma coletividade estreita, em princípio sempre pode ser codificada, isto é, traduzido para outros sistemas de signos (outras linguagens); consequentemente, existe uma lógica geral dos sistemas de signos, uma potencial linguagem das linguagens única(que, evidentemente, nunca pode vir a ser uma linguagem única concreta, uma das linguagens). (BAKHTIN, 2011, p. 311) A materialização dos enunciados coloca a linguagem geral verbivocovisual no amparo das especificidades da esfera de comunicação discursiva, com regras e objetivos limitadores da construção enunciativa. A verbivocovisualidade não é explicitada no material externalizado, mas aparece nas marcas enunciativas, como também pode se manifestar de forma clara nos signos interiores ao passo da compreensão ativa que se apoia nas marcas dos enunciados, logo, a significação de qualquer enunciado acontece a partir da relação interior e exterior que revelam a verbivocovisualidade da linguagem, base que recobre os enunciados desde a formulação até a construção interativa de sentido à luz dos traços entonacionais. Disso, Paula (2017) propõe essa visão teórico-analítica verbivocovisual na seara bakhtiniana, que avançam esse estudo nessa forma metafórica de encarar a linguagem do Círculo: ao entender a próto-linguagem alargada e também ao perceber a materialidade enunciativa da linguagem, que pode ser tridimensional, a depender do projeto arquitetônico autoral, genérico e do estilo que reflete e refrata voz social, que a filosofia bakhtiniana da linguagem é ampliada. Começa-se a pensar a relação entre os dois campos aqui citados, o concretismo entende a linguagem de forma parecida que o Círculo de Bakhtin, apesar das diferenças grupais. Com influências parecidas, o movimento concreto trabalhou com essa possível linguagem geral na sua criação verbivocovisual que desafia a compreensão do leitor que precisa atuar na leitura, numa espécie de “adentramento” que o faz participar da linguagem e da criação poética, em certa relação alteritária eu/outro. Isso é visto no poema Rever, com a primeira versão em 1972, mas com diversas releituras em múltiplos suportes. Esse poema conta com a palavra “rever” escrita com o “E” e “R” finais invertidos. O entendimento se dá na própria forma do poema, ou seja, na palavra palíndromo, que ao ler de trás para frente, ainda é “rever” e as letras invertidas mostram a relação da forma com o que significa. Figura 1 – Poema Rever (Augusto de Campos – 1972) Fonte: retirado da internet. Disponível em: https://augustoscampos.wordpress.com/2017/06/23/analise-obra-rever-de-augusto-dos-campos/. No clip-poema, do CD-ROM do livro Não, a relação palindrômica é potencializada no círculo dividido ao meio pelas cores vermelho e verde, com “rever” espelhado. No vídeo, o movimento de ir e voltar, em rotação, e para frente e para trás, com o tamanho do círculo diminuindo e aumentando, trazem no verbal e visual a leitura em sentido contrário e normal que a palavra oferece. As cores, em alguns momentos, são invertidas à luz da palíndromo, e as letras em branco se transformam em preto. Há certa continuidade no recurso de looping, o poema nunca termina, fica em constante retorno que alude a palavra rever e sua leitura. Ainda, há a sonoridade do poema que representa o movimento do círculo nessa relação palindrômica. Figura 2 – clip-poema Rever (2003) Fonte: retirado do Youtube. Disponível em: https://youtu.be/MVN-RL4Oj5k. [1] Tais reflexões precisam ser aprofundadas, mas fica claro que há diálogo entre as noções de linguagem, portanto, a poesia concreta pode ser analisada no campo bakhtiniano a pensar a linguagem verbivocovisual. Referências BAKHTIN. M. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2011. CAMPOS, Raquel Bernardes. Entre vivas e vaias: a visualidade concreta de Augusto de Campos. 2019. DE CAMPOS, Augusto. Teoria da poesia concreta: textos críticos e manifestos, 1950-1960. Livraria Duas Cidades, 1975. DE CAMPOS, Augusto. Não poemas. Perspectiva, 2003. PAULA, L. de. Verbivocovisualidade: uma abordagem bakhtiniana tridimensional da linguagem. Projeto de Pesquisa em andamento. Assis: UNESP, 2017. Mimeo, s/d. VOLOCHÍNOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem. Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Rio de Janeiro: 34, 2017. [1] Sequência disponível em: 00:01, 00:02,00:04,00:11.
- A “chegada” e a “partida”: a linguagem como potencializadora da vida
Tatiele Silva Os vínculos entre os sujeitos são estabelecidos por meio das diferentes manifestações de linguagem. A linguagem e a língua propiciam que ocorram interações sociais essenciais à comunicação e organização social. No âmbito das relações sociais, a língua permite os sujeitos interagir, construir valorações e atribuir sentidos ao mundo e sobre as vivências e, desse ponto de vista, conforme os estudos do Círculo de Bakhtin, Medviédev, Volóchinov, o vínculo entre a língua e a linguagem com a sociedade é indissociável. Esse vínculo estreito implica se pensar que a língua e a linguagem são essenciais para o processo de interação social entre sujeitos. Ao se levar em consideração os aspectos mencionados anteriormente, retoma-se o enunciado “A chegada” (2016) com a finalidade de refletir sobre a língua e a linguagem como potencializadoras da vida e das interações humanas. No enunciado fílmico em questão, uma linguista faz parte de uma equipe que tem como objetivo mediar a comunicação entre humanos e os visitantes extraterrestres, especificamente, com o intuito de descobrir o motivo pelo qual eles aterrissaram na terra. Nesse percurso, podemos observar como a linguista Louise passa a conhecer a língua falada pelos visitantes e como a comunicação entre o ser humano e o extraterrestre vai ocorrendo à medida que se conhece a língua por meio do processo de interação no qual a comunicação é estabelecida. Embora esse percurso seja interessante e muito rico, abordamos uma questão particular ao final do filme, quando é revelado que esses visitantes oferecem como presente a sua língua para os habitantes da terra. A caracterização apresentada no enunciado acerca da “língua como um presente”, pensada além do horizonte do enunciado fílmico, promove a reflexão de como a vida é potencializada pela língua e pela linguagem. As relações são possíveis e mediadas pela linguagem, nela diferentes tipos de enunciados emergem, ganham forma e se transformam em um ciclo mobilizador e potencializador da vida e das relações humanas. Esse “presente” pode ser pensado como a “chegada” e a “partida” de como atribuímos sentido ao mundo e a nossa existência por meio das relações humanas mediadas pela língua e pela linguagem. A partir desse ponto de vista, a língua e a linguagem podem ser compreendidas como um “presente” ao considerarmos que todo o processo de vivência social é perpassado por ambas. O processo de valorar e construir sentidos no mundo é mediado pela língua e pela linguagem e, portanto, elas podem ser compreendidas, sob uma dada perspectiva, como a base e também produto das vivências sociais. Referências A CHEGADA. Direção de Denis Villeneuve. USA: Paramount Pictures, 2016. (116 min.) BAKHTIN, M. M. Estética da criação verbal. Tradução de Paulo Bezerra. 6a Edição. São Paulo: Martins Fontes, 2011. VOLÓCHINOV, V. A palavra na vida e a palavra na poesia. Tradução de Sheila Camargo Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. Editora 34, 2019. VOLÓCHINOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem. Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Tradução de Ekaterina Vólkova Américo e Sheila Camargo Grillo. 2 ed. São Paulo: Editora 34, 2018 [1929].
- A “chegada” e a “partida”: a linguagem como potencializadora da vida
Tatiele Silva Os vínculos entre os sujeitos são estabelecidos por meio das diferentes manifestações de linguagem. A linguagem e a língua propiciam que ocorram interações sociais essenciais à comunicação e organização social. No âmbito das relações sociais, a língua permite os sujeitos interagir, construir valorações e atribuir sentidos ao mundo e sobre as vivências e, desse ponto de vista, conforme os estudos do Círculo de Bakhtin, Medviédev, Volóchinov, o vínculo entre a língua e a linguagem com a sociedade é indissociável. Esse vínculo estreito implica se pensar que a língua e a linguagem são essenciais para o processo de interação social entre sujeitos. Ao se levar em consideração os aspectos mencionados anteriormente, retoma-se o enunciado “A chegada” (2016) com a finalidade de refletir sobre a língua e a linguagem como potencializadoras da vida e das interações humanas. No enunciado fílmico em questão, uma linguista faz parte de uma equipe que tem como objetivo mediar a comunicação entre humanos e os visitantes extraterrestres, especificamente, com o intuito de descobrir o motivo pelo qual eles aterrissaram na terra. Nesse percurso, podemos observar como a linguista Louise passa a conhecer a língua falada pelos visitantes e como a comunicação entre o ser humano e o extraterrestre vai ocorrendo à medida que se conhece a língua por meio do processo de interação no qual a comunicação é estabelecida. Embora esse percurso seja interessante e muito rico, abordamos uma questão particular ao final do filme, quando é revelado que esses visitantes oferecem como presente a sua língua para os habitantes da terra. A caracterização apresentada no enunciado acerca da “língua como um presente”, pensada além do horizonte do enunciado fílmico, promove a reflexão de como a vida é potencializada pela língua e pela linguagem. As relações são possíveis e mediadas pela linguagem, nela diferentes tipos de enunciados emergem, ganham forma e se transformam em um ciclo mobilizador e potencializador da vida e das relações humanas. Esse “presente” pode ser pensado como a “chegada” e a “partida” de como atribuímos sentido ao mundo e a nossa existência por meio das relações humanas mediadas pela língua e pela linguagem. A partir desse ponto de vista, a língua e a linguagem podem ser compreendidas como um “presente” ao considerarmos que todo o processo de vivência social é perpassado por ambas. O processo de valorar e construir sentidos no mundo é mediado pela língua e pela linguagem e, portanto, elas podem ser compreendidas, sob uma dada perspectiva, como a base e também produto das vivências sociais. Referências A CHEGADA. Direção de Denis Villeneuve. USA: Paramount Pictures, 2016. (116 min.) BAKHTIN, M. M. Estética da criação verbal. Tradução de Paulo Bezerra. 6a Edição. São Paulo: Martins Fontes, 2011. VOLÓCHINOV, V. A palavra na vida e a palavra na poesia. Tradução de Sheila Camargo Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. Editora 34, 2019. VOLÓCHINOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem. Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Tradução de Ekaterina Vólkova Américo e Sheila Camargo Grillo. 2 ed. São Paulo: Editora 34, 2018 [1929].
- Os relacionamentos amorosos baseados na propriedade
Rafael Junior de Oliveira No presente texto, abordaremos a questão dos relacionamentos dentro de uma sociedade capitalista, apontando de que maneiras certas relações afetivas materializam, refletindo e refratando, relações trabalhistas, que objetificam as pessoas e, mais do que isso, as tornam possuidoras e parte da propriedade privada do outro. Faremos isso dialogando com os campos da filosofia da linguagem, da sociologia e da psicologia. O modelo neoliberal ganhou força na sociedade brasileira nos últimos anos, fato marcado, dentre outros eventos, pela ascensão da direita a partir de 2014. A desestatização de empresas, sob o pretexto de aumento da competitividade e de lucratividade, deixa claro que o mercado adoraria gerenciar suas próprias relações, independente das consequências sociais de tal gerenciamento, já que, se o objetivo é o lucro, os meios pelos quais ele é obtido não interessam aos donos do capital. Neste cenário, pessoas tornam-se objetos e relações amorosas se tornam contratos, o que pode ser visto nos próprios enunciados empresariais que permeiam tais relações afetivas: “invista na relação”, “faça acordos”, “crie metas para seus relacionamentos”. Quando se fala em relacionamento, a visão regente se constitui por um núcleo familiar, muitas vezes pequeno, se compararmos com séculos passados. A partir do momento em que as grandes famílias se dividiram, formando novos núcleos familiares, as relações afetivas foram modificadas. Se no século XX, o Brasil foi marcado pela chegada de estrangeiros, cujas famílias eram compostas por vários adultos (avôs, pais, filhos e netos etc) morando na mesma casa, o século XXI apresenta novas características. Com o avanço neoliberal, a ideia de privacidade e individualidade faz com que essas famílias se separem fisicamente, cada qual comprando novas casas e usufruindo particularmente de seus trabalhos. Assim, uma dada forma de conceber o trabalho se modificou, pois o indivíduo não trabalha em prol do crescimento da família, mas em prol do crescimento próprio, com objetivo de formar seu próprio patrimônio. Todo esse processo de formação impacta nas novas relações afetivas formadas, pois ainda que tais mudanças ocorram e novos valores sejam formados, a propriedade privada é indispensável, já que é através dela que o nível de sucesso do indivíduo que saiu do eixo central será medido. Além disso, espera-se socialmente que esse indivíduo estabeleça um novo eixo, isto é, uma nova família, sendo essa pressão ainda mais forte nas mulheres. Nesse sentido, não só os ganhos dessa nova família – que, diga-se de passagem, é formada legalmente por um padrão monogâmico-, são considerados propriedades privadas, mas a própria relação torna os componentes do relacionamento em mercadorias, isto é, em posse. Em linhas gerais, o processo de transmissão de valores pode ser representado pelo seguinte esquema. Esquema 1.0 – A transmissão geracional da ideia de propriedade Neoliberalismo Família Indivíduo Propriedade privada Propriedade privada Propriedade privada Fonte: Autoria própria (2021) Como mostrado no esquema 1.0, a ideia de propriedade privada penetra na construção da família, que, por sua vez, incute isso nos indivíduos, que, por consequência, farão o mesmo com seus filhos. Trata-se de um processo de mentalidade, que não só reflete uma dada concepção de propriedade, mas a refrata em virtude de determinados interesses. O semiolinguísta Patrick Charaudeau se debruçou nas relações sociais, afirmando que a premissa por trás das interações sociais são os “contratos sociais”, que regem as configurações enunciativas dos discursos. Com relação aos relacionamentos, precisamos nos questionar: Quais sujeitos criaram tal contrato? Que relações são estabelecidas? De que maneira podemos modificá-las? Segundo Engels (1984), a propriedade privada é marcada por uma relação de posse, aspecto destacado pelo autor ao discorrer sobre os diferentes modelos de família ao longo da história. Volóchinov (2017) contribui para a discussão ao dizer que quem cria tais relações, e suas consequentes construções sígnico-ideológicas, é a classe dominante, por meio da linguagem. Vale dizer que tal construção é feita sob diferentes argumentos, mas uma de suas finalidades é parecer genérica, ampla, enfim, neutra. Segundo a psicóloga Regina Navarro, especialista em relações amorosas, historicamente, existe, antes da relação de posse se formar, uma tendência monogâmica marcada pelas condições materiais que constituem os indivíduos. Via rede social, a psicóloga afirmou no dia 28 de maio de 2021: Fonte: LINS (2021) A colocação da autora se relaciona com o processo citado no esquema 1, mas alerta que, se não existe uma paridade entre ambos os envolvidos na relação, o que significa ter as condições de viver fora daquele relacionamento, a posse só funciona para um dos lados. Devidos às condições criadas ao longo do tempo, esta é a situação de muitas mulheres hoje, o que significa que apenas elas são objetos de posse, podendo os maridos realizarem diferentes atos que somente eles têm o direito, como é o caso das relações extraconjugais. Com base na fala da psicóloga e tendo em vista o tema abordado, podemos analisar que a classe dominante, ao espalhar uma ideologia de que o(a) amado(a) é uma propriedade, mesmo que utilizando, por vezes, a palavra amor para fazer tal processo, instaura a mesma relação de exclusividade que uma empresa possui com relação aos seus funcionários e clientes. Ao assinar um contrato com uma operadora que presta serviços de internet, por exemplo, o cliente é fidelizado por um determinado período de tempo. Cabe destacar que o uso desse termo não é à toa e demonstra como a ideologia capitalista se materializa em diferentes relações. No entanto, é necessário apresentar alguns elementos importantes nesse processo da reificação da propriedade privada, pois o que pode parecer algo comum em um regime capitalista, pode ser alvo de lutas feministas, já que o capitalismo e o patriarcado são ambas ideologias reinantes na sociedade contemporânea. No caso de uma relação amorosa entre duas pessoas que vivem juntas, o que significa que constroem um patrimônio juntas, tal contrato, como postula Charaudeau (2004), é uma forma de fazer com que a propriedade privada permaneça no núcleo familiar, o que nem sempre foi assim. A luta feminista para que as mulheres tivessem direito a receber aposentadoria no caso da morte dos maridos e a ficar com os bens adquiridos com/do o mesmo levou anos e, ainda hoje, preenchem inúmeros processos no judiciário brasileiro. Essa relação de luta demonstra que, muitas vezes, a relação entre patriarcado e capitalismo não é miscível e que existe uma hierarquia entre um e outro, a depender da situação. Um exemplo disso pode ser encontrado no primeiro episódio da série What If…? da Disney, lançado em 11 de agosto de 2021, especificamente quando as opções sendo salvar o mundo ou desempoderar uma mulher – mesmo sendo uma super soldada-, o comandante do exército escolhe a segunda. Além disso, o contrato do casamento, por exemplo, não é, de fato, muito diferente de um contrato empresarial, com assinatura e tudo mais. Bakhtin (1993, 56-57) afirma que a assinatura é um dos ato-reconhecimento da interação. No entanto, o autor também destaca que não é o conteúdo da obrigação que obriga a sua assinatura, mas o seu reconhecimento. Em outras palavras, no casamento e até na união estável, não é o conteúdo do documento assinado no cartório ou mesmo o conteúdo do dizer feito durante os votos que responsabiliza o sujeito, mas o seu reconhecimento. Nesse caso, o fazer parte da sociedade, cuja ideologia do amor romântico (como denomina Regina Navarro) é incutida nas pessoas desde criança, que é o importante, mesmo que isso signifique abdicar de seu próprio lugar enquanto sujeito, fundindo-se, devido às relações impostas pelo casamento monogâmico e neoliberal, com o outro. Deste modo, os votos de casamento e o juramento compelem, via linguagem oral e/ou escrita, muitas vezes, um dizer-fazer de um cônjuge em direção ao outro, no sentido conceitual que propõe Villarta-Neder (2018). Esse ato implica, às vezes nas entrelinhas, às vezes explicito no corpo do dizer, o que tal individuo deve ou não fazer após assinar tal contrato. A infidelidade, no sentido sexual, por exemplo, foi considerada crime por muito tempo, já que tais atos poderiam danificar a ideia de propriedade privada e seu consequente processo de transmissão geracional, pois outra pessoa poderia usufruir de uma propriedade alheia, resultando em perda de capital. Citamos, anteriormente, um exemplo (série animada) no qual o patriarcalismo sobrepujava o capitalismo, vejamos um exemplo inverso. Atualmente, o Estado, por meio da união estável, torna uma pessoa, que não faz parte do contrato de casamento, também dona de direitos em relação ao seu relacionamento com uma pessoa já casada. Esse tipo de consideração é muito importante, pois, em caso de separação e diante de uma sociedade que, como dissemos, ainda mantém determinadas relações patriarcais, sendo o homem o único responsável pelo sustento da casa, a mulher tenha direitos aos bens adquiridos durante aquele relacionamento. Isso demonstra o imbricamento entre as duas ideologias, explicitando, muitas vezes, as contradições entre elas. De qualquer modo, seja via capitalismo, seja via patriarcalismo, cabe apontar que essas relações de posses, que vêm desde um plano maior, na relação entre classes e Estado, e penetra nas relações amorosas mais íntimas, como é o caso dos votos de casamento, merecem alguns destaques. Em uma relação de posse, nos dois sentidos discutidos nesse texto, o outro é clivado de diferentes elementos, sendo o principal deles a possibilidade de interação com outras pessoas, seja por ser propriedade privada, seja por ser submissa à palavra do outro. Tal impedimento também possui implicações para além das relações interpessoais, já que a traição, majoritariamente considerada como ato de ter relação sexual com outra pessoa fora do relacionamento, pode ser utilizada pela pessoa traída para dar entrada em um processo legal de indenização por danos morais. Tal ato, recorrente no meio jurídico, revela o aspecto do contratual no qual o relacionamento é constituído. Do ponto de vista do sujeito e da ideologia, uma concepção de casamento, como a colocada aqui, é plenamente coerente com uma perspectiva ideológica conservadora e capitalista. No entanto, funcionamentos assim estão espalhados por toda a sociedade, em diferentes classes e gêneros, principalmente a ideia de posse, que mesmo em um relacionamento não monogâmico, como é o caso de um trisal ou quadrisal, ainda é possível compreender como o núcleo familiar regente de tal ideia se mantém. Nesses casos, por exemplo, a fidelidade sexual, apesar de ser regularmente pensada em relação a dois ou três cônjuges, ainda se mantém, pois qualquer relação fora desse núcleo constitui uma ameaça. Por fim, as consequências de tais relações amorosa-capitalistas nos mostram como os signos ideológicos – destacamos aqui o da fidelidade, mas existem outros -, nos constituem e nos responsabilizam diante deles, pois não estão acabados ou fechados. Qualquer padrão de família, relacionamento, comportamento etc. vendido como único, muitas vezes tido como cultural, como é o caso da infidelidade conjugal por parte dos homens, é construído socialmente, ou seja, seu caráter de cultural é um processo de esvaziamento do signo, neutralizando-o, o que, de acordo com Volóchinov (2017), é um processo feito pela classe dominante. Se o signo de família pôde mudar, como constata Engels (1984), a relação de posse também pode. De acordo com as lives feitas pela psicóloga Regina Navarro, nas suas diferentes redes sociais, os sujeitos precisam explicitar e, quando quiserem, romper com os contratos nunca mencionados, como é o caso da monogamia, já que essa é um imperativo, isto é, um acordo nunca explicitado ou questionado. Seguindo uma perspectiva bakhtiniana, a partir do momento em que os sujeitos perceberem que eles interagem com os outros, mas nunca se fundem com esses, já que a empatia total é uma falácia, novas relações amorosas poderão ser constituídas, rompendo aspectos e dizeres(fazeres) que prejudicam a relação entre os SUJEITOS. NÃO SOMOS EMPRESAS! Referências. BAKHTIN, M. Para uma Filosofia do Ato. Tradução de Carlos Alberto Faraco e Cristóvão Tezza de. Toward a Philosophy of the Act. Austin: University of Texas Press, 1993. CHARAUDEAU, Patrick. Visadas discursivas, gêneros situacionais e construção textual. In: In: MACHADO, I.L.; MELLO, R. (Org.). Gêneros: Reflexões em Análise do Discurso. Belo Horizonte: NAD/FALE/UFMG, 2004. p.13-41. ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. 9ª edição. Rio de Janeiro: Ed, 1984. LINS, R. N. O que você pensa disso? Deixe aqui nos comentários a sua opinião. Rio de Janeiro: 28 mai. 2021. Disponível em: https://www.instagram.com/p/CPbm3pYn_em/. Acesso em: 22 ago. 2021. ______. Novas formas de amar. Editora Planeta do Brasil, 2017. VILLARTA-NEDER, M. Dizeres e fazeres como enunciados: arquitetônica e sentidos para além dos textos. 2018 (Mimeo.). VOLÓCHINOV, V. N. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico da ciência da linguagem. Trad., notas e glossário de Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. Ensaio introdutório de Sheilla Grillo – São Paulo: Editora 34, 2017.
- Os relacionamentos amorosos baseados na propriedade
Rafael Junior de Oliveira No presente texto, abordaremos a questão dos relacionamentos dentro de uma sociedade capitalista, apontando de que maneiras certas relações afetivas materializam, refletindo e refratando, relações trabalhistas, que objetificam as pessoas e, mais do que isso, as tornam possuidoras e parte da propriedade privada do outro. Faremos isso dialogando com os campos da filosofia da linguagem, da sociologia e da psicologia. O modelo neoliberal ganhou força na sociedade brasileira nos últimos anos, fato marcado, dentre outros eventos, pela ascensão da direita a partir de 2014. A desestatização de empresas, sob o pretexto de aumento da competitividade e de lucratividade, deixa claro que o mercado adoraria gerenciar suas próprias relações, independente das consequências sociais de tal gerenciamento, já que, se o objetivo é o lucro, os meios pelos quais ele é obtido não interessam aos donos do capital. Neste cenário, pessoas tornam-se objetos e relações amorosas se tornam contratos, o que pode ser visto nos próprios enunciados empresariais que permeiam tais relações afetivas: “invista na relação”, “faça acordos”, “crie metas para seus relacionamentos”. Quando se fala em relacionamento, a visão regente se constitui por um núcleo familiar, muitas vezes pequeno, se compararmos com séculos passados. A partir do momento em que as grandes famílias se dividiram, formando novos núcleos familiares, as relações afetivas foram modificadas. Se no século XX, o Brasil foi marcado pela chegada de estrangeiros, cujas famílias eram compostas por vários adultos (avôs, pais, filhos e netos etc) morando na mesma casa, o século XXI apresenta novas características. Com o avanço neoliberal, a ideia de privacidade e individualidade faz com que essas famílias se separem fisicamente, cada qual comprando novas casas e usufruindo particularmente de seus trabalhos. Assim, uma dada forma de conceber o trabalho se modificou, pois o indivíduo não trabalha em prol do crescimento da família, mas em prol do crescimento próprio, com objetivo de formar seu próprio patrimônio. Todo esse processo de formação impacta nas novas relações afetivas formadas, pois ainda que tais mudanças ocorram e novos valores sejam formados, a propriedade privada é indispensável, já que é através dela que o nível de sucesso do indivíduo que saiu do eixo central será medido. Além disso, espera-se socialmente que esse indivíduo estabeleça um novo eixo, isto é, uma nova família, sendo essa pressão ainda mais forte nas mulheres. Nesse sentido, não só os ganhos dessa nova família – que, diga-se de passagem, é formada legalmente por um padrão monogâmico-, são considerados propriedades privadas, mas a própria relação torna os componentes do relacionamento em mercadorias, isto é, em posse. Em linhas gerais, o processo de transmissão de valores pode ser representado pelo seguinte esquema. Esquema 1.0 – A transmissão geracional da ideia de propriedade Neoliberalismo Família Indivíduo Propriedade privada Propriedade privada Propriedade privada Fonte: Autoria própria (2021) Como mostrado no esquema 1.0, a ideia de propriedade privada penetra na construção da família, que, por sua vez, incute isso nos indivíduos, que, por consequência, farão o mesmo com seus filhos. Trata-se de um processo de mentalidade, que não só reflete uma dada concepção de propriedade, mas a refrata em virtude de determinados interesses. O semiolinguísta Patrick Charaudeau se debruçou nas relações sociais, afirmando que a premissa por trás das interações sociais são os “contratos sociais”, que regem as configurações enunciativas dos discursos. Com relação aos relacionamentos, precisamos nos questionar: Quais sujeitos criaram tal contrato? Que relações são estabelecidas? De que maneira podemos modificá-las? Segundo Engels (1984), a propriedade privada é marcada por uma relação de posse, aspecto destacado pelo autor ao discorrer sobre os diferentes modelos de família ao longo da história. Volóchinov (2017) contribui para a discussão ao dizer que quem cria tais relações, e suas consequentes construções sígnico-ideológicas, é a classe dominante, por meio da linguagem. Vale dizer que tal construção é feita sob diferentes argumentos, mas uma de suas finalidades é parecer genérica, ampla, enfim, neutra. Segundo a psicóloga Regina Navarro, especialista em relações amorosas, historicamente, existe, antes da relação de posse se formar, uma tendência monogâmica marcada pelas condições materiais que constituem os indivíduos. Via rede social, a psicóloga afirmou no dia 28 de maio de 2021: Fonte: LINS (2021) A colocação da autora se relaciona com o processo citado no esquema 1, mas alerta que, se não existe uma paridade entre ambos os envolvidos na relação, o que significa ter as condições de viver fora daquele relacionamento, a posse só funciona para um dos lados. Devidos às condições criadas ao longo do tempo, esta é a situação de muitas mulheres hoje, o que significa que apenas elas são objetos de posse, podendo os maridos realizarem diferentes atos que somente eles têm o direito, como é o caso das relações extraconjugais. Com base na fala da psicóloga e tendo em vista o tema abordado, podemos analisar que a classe dominante, ao espalhar uma ideologia de que o(a) amado(a) é uma propriedade, mesmo que utilizando, por vezes, a palavra amor para fazer tal processo, instaura a mesma relação de exclusividade que uma empresa possui com relação aos seus funcionários e clientes. Ao assinar um contrato com uma operadora que presta serviços de internet, por exemplo, o cliente é fidelizado por um determinado período de tempo. Cabe destacar que o uso desse termo não é à toa e demonstra como a ideologia capitalista se materializa em diferentes relações. No entanto, é necessário apresentar alguns elementos importantes nesse processo da reificação da propriedade privada, pois o que pode parecer algo comum em um regime capitalista, pode ser alvo de lutas feministas, já que o capitalismo e o patriarcado são ambas ideologias reinantes na sociedade contemporânea. No caso de uma relação amorosa entre duas pessoas que vivem juntas, o que significa que constroem um patrimônio juntas, tal contrato, como postula Charaudeau (2004), é uma forma de fazer com que a propriedade privada permaneça no núcleo familiar, o que nem sempre foi assim. A luta feminista para que as mulheres tivessem direito a receber aposentadoria no caso da morte dos maridos e a ficar com os bens adquiridos com/do o mesmo levou anos e, ainda hoje, preenchem inúmeros processos no judiciário brasileiro. Essa relação de luta demonstra que, muitas vezes, a relação entre patriarcado e capitalismo não é miscível e que existe uma hierarquia entre um e outro, a depender da situação. Um exemplo disso pode ser encontrado no primeiro episódio da série What If…? da Disney, lançado em 11 de agosto de 2021, especificamente quando as opções sendo salvar o mundo ou desempoderar uma mulher – mesmo sendo uma super soldada-, o comandante do exército escolhe a segunda. Além disso, o contrato do casamento, por exemplo, não é, de fato, muito diferente de um contrato empresarial, com assinatura e tudo mais. Bakhtin (1993, 56-57) afirma que a assinatura é um dos ato-reconhecimento da interação. No entanto, o autor também destaca que não é o conteúdo da obrigação que obriga a sua assinatura, mas o seu reconhecimento. Em outras palavras, no casamento e até na união estável, não é o conteúdo do documento assinado no cartório ou mesmo o conteúdo do dizer feito durante os votos que responsabiliza o sujeito, mas o seu reconhecimento. Nesse caso, o fazer parte da sociedade, cuja ideologia do amor romântico (como denomina Regina Navarro) é incutida nas pessoas desde criança, que é o importante, mesmo que isso signifique abdicar de seu próprio lugar enquanto sujeito, fundindo-se, devido às relações impostas pelo casamento monogâmico e neoliberal, com o outro. Deste modo, os votos de casamento e o juramento compelem, via linguagem oral e/ou escrita, muitas vezes, um dizer-fazer de um cônjuge em direção ao outro, no sentido conceitual que propõe Villarta-Neder (2018). Esse ato implica, às vezes nas entrelinhas, às vezes explicito no corpo do dizer, o que tal individuo deve ou não fazer após assinar tal contrato. A infidelidade, no sentido sexual, por exemplo, foi considerada crime por muito tempo, já que tais atos poderiam danificar a ideia de propriedade privada e seu consequente processo de transmissão geracional, pois outra pessoa poderia usufruir de uma propriedade alheia, resultando em perda de capital. Citamos, anteriormente, um exemplo (série animada) no qual o patriarcalismo sobrepujava o capitalismo, vejamos um exemplo inverso. Atualmente, o Estado, por meio da união estável, torna uma pessoa, que não faz parte do contrato de casamento, também dona de direitos em relação ao seu relacionamento com uma pessoa já casada. Esse tipo de consideração é muito importante, pois, em caso de separação e diante de uma sociedade que, como dissemos, ainda mantém determinadas relações patriarcais, sendo o homem o único responsável pelo sustento da casa, a mulher tenha direitos aos bens adquiridos durante aquele relacionamento. Isso demonstra o imbricamento entre as duas ideologias, explicitando, muitas vezes, as contradições entre elas. De qualquer modo, seja via capitalismo, seja via patriarcalismo, cabe apontar que essas relações de posses, que vêm desde um plano maior, na relação entre classes e Estado, e penetra nas relações amorosas mais íntimas, como é o caso dos votos de casamento, merecem alguns destaques. Em uma relação de posse, nos dois sentidos discutidos nesse texto, o outro é clivado de diferentes elementos, sendo o principal deles a possibilidade de interação com outras pessoas, seja por ser propriedade privada, seja por ser submissa à palavra do outro. Tal impedimento também possui implicações para além das relações interpessoais, já que a traição, majoritariamente considerada como ato de ter relação sexual com outra pessoa fora do relacionamento, pode ser utilizada pela pessoa traída para dar entrada em um processo legal de indenização por danos morais. Tal ato, recorrente no meio jurídico, revela o aspecto do contratual no qual o relacionamento é constituído. Do ponto de vista do sujeito e da ideologia, uma concepção de casamento, como a colocada aqui, é plenamente coerente com uma perspectiva ideológica conservadora e capitalista. No entanto, funcionamentos assim estão espalhados por toda a sociedade, em diferentes classes e gêneros, principalmente a ideia de posse, que mesmo em um relacionamento não monogâmico, como é o caso de um trisal ou quadrisal, ainda é possível compreender como o núcleo familiar regente de tal ideia se mantém. Nesses casos, por exemplo, a fidelidade sexual, apesar de ser regularmente pensada em relação a dois ou três cônjuges, ainda se mantém, pois qualquer relação fora desse núcleo constitui uma ameaça. Por fim, as consequências de tais relações amorosa-capitalistas nos mostram como os signos ideológicos – destacamos aqui o da fidelidade, mas existem outros -, nos constituem e nos responsabilizam diante deles, pois não estão acabados ou fechados. Qualquer padrão de família, relacionamento, comportamento etc. vendido como único, muitas vezes tido como cultural, como é o caso da infidelidade conjugal por parte dos homens, é construído socialmente, ou seja, seu caráter de cultural é um processo de esvaziamento do signo, neutralizando-o, o que, de acordo com Volóchinov (2017), é um processo feito pela classe dominante. Se o signo de família pôde mudar, como constata Engels (1984), a relação de posse também pode. De acordo com as lives feitas pela psicóloga Regina Navarro, nas suas diferentes redes sociais, os sujeitos precisam explicitar e, quando quiserem, romper com os contratos nunca mencionados, como é o caso da monogamia, já que essa é um imperativo, isto é, um acordo nunca explicitado ou questionado. Seguindo uma perspectiva bakhtiniana, a partir do momento em que os sujeitos perceberem que eles interagem com os outros, mas nunca se fundem com esses, já que a empatia total é uma falácia, novas relações amorosas poderão ser constituídas, rompendo aspectos e dizeres(fazeres) que prejudicam a relação entre os SUJEITOS. NÃO SOMOS EMPRESAS! Referências. BAKHTIN, M. Para uma Filosofia do Ato. Tradução de Carlos Alberto Faraco e Cristóvão Tezza de. Toward a Philosophy of the Act. Austin: University of Texas Press, 1993. CHARAUDEAU, Patrick. Visadas discursivas, gêneros situacionais e construção textual. In: In: MACHADO, I.L.; MELLO, R. (Org.). Gêneros: Reflexões em Análise do Discurso. Belo Horizonte: NAD/FALE/UFMG, 2004. p.13-41. ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. 9ª edição. Rio de Janeiro: Ed, 1984. LINS, R. N. O que você pensa disso? Deixe aqui nos comentários a sua opinião. Rio de Janeiro: 28 mai. 2021. Disponível em: https://www.instagram.com/p/CPbm3pYn_em/. Acesso em: 22 ago. 2021. ______. Novas formas de amar. Editora Planeta do Brasil, 2017. VILLARTA-NEDER, M. Dizeres e fazeres como enunciados: arquitetônica e sentidos para além dos textos. 2018 (Mimeo.). VOLÓCHINOV, V. N. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico da ciência da linguagem. Trad., notas e glossário de Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. Ensaio introdutório de Sheilla Grillo – São Paulo: Editora 34, 2017.
- As chamas de Borba Gato e a natureza dialógica da linguagem
Ana Carolina Siani No dia 24 de julho de 2021, um incêndio tomou a estátua de Borba Gato em Santo Amaro, bairro localizado na zona sul da cidade de São Paulo[1]. O ato que se configurou como uma manifestação política foi assumido pelo grupo de ativistas nomeado como “Revolução Periférica”, o que culminou na criminalização e prisão de alguns de seus membros. Como se tem registro nos últimos anos, esta não foi a primeira vez que o monumento idealizado pelo escultor Júlio Guerra e inaugurado em 1957 como uma homenagem ao bandeirante Manuel de Borba Gato (1649-1718) foi alvo de protestos. Em 2016, a estátua de Borba Gato e o Monumento às Bandeiras, localizado no Parque do Ibirapuera, amanheceram pichados com tinta colorida[2]. Contextualizados por um debate atual que busca repensar e ressignificar monumentos que retratam personalidades históricas envolvidas com a dominação e exploração de povos subalternizados, esses diferentes atos de protesto nos revelam uma crítica ao papel dos bandeirantes na história brasileira, uma vez que o grupo esteve comprometido com missões em determinadas regiões do Brasil e que envolviam a caça e escravização das populações indígena e negra no período colonial. No bojo de uma disputa entre narrativas, as diferentes intervenções são valoradas diferentemente pela opinião pública, e no caso do incêndio da estátua de Borba Gato, o ato foi avaliado como “vandalismo” por uma parcela da população brasileira, ao mesmo tempo em que foi tido como “revolução” por outra, bem como instaurou debates entre especialistas acerca do real papel de Borba Gato na prática bandeirante e da necessidade de se preservar este monumento e outros por seu valor de registro histórico. Se considerarmos a natureza dialógica da linguagem tal como compreendiam os estudiosos do Círculo de Bakhtin (tomados aqui pelos escritos de Bakhtin, Volóchinov e Medviédev), podemos retomar seu papel como material dos fenômenos ideológicos, o que nos permite refletir acerca do caráter valorativo do monumento de Borba Gato enquanto um signo ideológico. Como uma perspectiva que leva em conta seu caráter de atividade e de mediação entre sujeitos socialmente organizados, os escritos do Círculo de Bakhtin nos possibilitam pensar a linguagem de forma ampla, o que nos permite conceber o monumento de Borba Gato como uma criação ideológica. Elaborada por um autor-criador, a estátua como uma obra de arte se estabelece como um enunciado artístico, o que também nos revela a natureza social da arte enquanto uma forma de linguagem. Na obra Marxismo e Filosofia da Linguagem, Volóchinov (2017) destaca a linguagem como materialidade por meio da qual encarnam-se as ideologias: “Qualquer fenômeno ideológico sígnico é dado em algum material: no som, na massa física, na cor, no movimento do corpo e assim por diante” (VOLOCHÍNOV, 2017, p. 94). Uma vez materializados pela/na linguagem, os fenômenos ideológicos podem ser considerados em sua dimensão sígnica, isto é, como elementos que constituem a realidade natural, ao mesmo tempo em que refletem e refratam uma outra realidade para além de seus limites. Por uma perspectiva dialógica, o monumento de Borba Gato como um ato de linguagem nos leva além de seus limites e de suas particularidades materiais, pois se encarado como um enunciado concreto, como fenômeno social e histórico carrega um valor, isto é, nos revela um determinado posicionamento social que se constitui pela relação que trava com outros posicionamentos e valores. Segundo Medviédev (2012), como povoado por signos, o meio ideológico é a consciência social que se encontra materialmente expressa. No caso da construção de monumentos como a estátua de Borba Gato, é válido contextualizarmos que a obra se inscreve na esteira de um processo histórico de “heroicização” da figura do bandeirante, que passa a ser valorado como “herói paulista” a partir do fim do século XIX e início do século XX, no contexto de ascensão econômica de São Paulo, um movimento de ressignificação que se materializa na forma de monumentos e estátuas, nomeação de ruas, avenidas, rodovias etc.[3]. Deste modo, podemos dizer que todo enunciado se constitui como uma orientação avaliativa frente à realidade, assim como participa de um diálogo social em larga escala. Se compreendida a ideia de diálogo por seu funcionamento amplo e como motor da comunicação entre sujeitos, podemos considerar que antes de consenso e concordância, a linguagem pressupõe relações de embate e divergência. Em seu teor avaliativo e de resposta ao horizonte ideológico de uma dada época, potenciais homenagens às figuras históricas comprometidas com o genocídio e dominação dos povos indígenas e negros na forma de monumentos comporta sempre duas faces, pois nos conta a história da colonização por um determinado ponto de vista: “O signo não é somente uma parte da realidade, mas também reflete e refrata uma outra realidade, sendo por isso mesmo capaz de distorcê-la, ser-lhe fiel, percebê-la de um ponto de vista específico e assim por diante” (VOLOCHÍNOV, 2017, p. 93). De fato, como colocado por Medviédev (2012), o horizonte ideológico de qualquer época não é constituído por uma única verdade, mas por várias verdades divergentes. Bakhtin (2010) nos diz que um mesmo acontecimento quando em relação com o “eu” e com o “outro” recebe uma valoração diferente, o que nos permite perceber que uma mesma realidade pode ser percebida diferentemente pelos grupos em disputa. A linguagem manifesta essa luta de classes, na qual a estátua de Borba Gato destaca-se como um palco do embate entre diferentes grupos sociais e seus interesses (VOLÓCHINOV, 2017). Neste contexto de disputa de narrativas e luta pelos sentidos, a compreensão e recepção de um determinado enunciado também se dá como uma resposta (BAKHTIN, 2011). Enquanto manifestação e ato de linguagem, o incêndio de uma estátua ou monumento também diz e está igualmente imbuído de valor. Como resultado de uma tendência global em que grupos historicamente subalternizados reivindicam novas formas de representação, bem como a ressignificação de determinados signos ideológicos; o próprio fato de tais figuras históricas e seus atos do passado estarem sendo revistos “responde” a um diálogo maior, pois situa-se na esteira de outras ações como propostas de mudança do nome de ruas, projetos de leis que propõem a retirada de determinados monumentos do espaço público e sua transferência para museus, a construção de outros monumentos para homenagear figuras históricas importantes que representariam o outro lado da história etc. Referências bibliográficas BAKHTIN, M. Para uma filosofia do ato responsável. Tradução de Valdemir Miotello e Carlos Alberto Faraco. São Carlos: Pedro e João Editores, 2010a. ______. Estética da criação verbal. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora Martins Fontes, 6ª ed., 2011. MEDVIÉDEV, P. M. O método formal nos estudos literários: uma introdução crítica a uma poética sociológica. Tradução de Sheila Camargo Grillo e Ekaterina Vólkova Américo São Paulo: Contexto, 2012. VOLÓCHINOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem. Tradução de Sheila Camargo Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. Rio de Janeiro: 34, 2017. [1] “Estátua de Borba Gato é incendiada em São Paulo”. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/noticia/2021/07/24/estatua-de-borba-gato-e-incendiada-por-grupo-em-sao-paulo.ghtml (Acesso em 14 de agosto de 2021). [2] “Monumentos amanhecem pichados com tinta colorida em SP”. Disponível em: http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2016/09/monumentos-amanhecem-pichados-com-tinta-colorida-em-sp.html (Acesso em 15 de agosto de 2021). [3] “Como os bandeirantes, cujas homenagens hoje são questionadas, foram alçados a ‘heróis paulistas’”. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53116270 (Acesso em 16 de agosto de 2021).
- As chamas de Borba Gato e a natureza dialógica da linguagem
Ana Carolina Siani No dia 24 de julho de 2021, um incêndio tomou a estátua de Borba Gato em Santo Amaro, bairro localizado na zona sul da cidade de São Paulo[1]. O ato que se configurou como uma manifestação política foi assumido pelo grupo de ativistas nomeado como “Revolução Periférica”, o que culminou na criminalização e prisão de alguns de seus membros. Como se tem registro nos últimos anos, esta não foi a primeira vez que o monumento idealizado pelo escultor Júlio Guerra e inaugurado em 1957 como uma homenagem ao bandeirante Manuel de Borba Gato (1649-1718) foi alvo de protestos. Em 2016, a estátua de Borba Gato e o Monumento às Bandeiras, localizado no Parque do Ibirapuera, amanheceram pichados com tinta colorida[2]. Contextualizados por um debate atual que busca repensar e ressignificar monumentos que retratam personalidades históricas envolvidas com a dominação e exploração de povos subalternizados, esses diferentes atos de protesto nos revelam uma crítica ao papel dos bandeirantes na história brasileira, uma vez que o grupo esteve comprometido com missões em determinadas regiões do Brasil e que envolviam a caça e escravização das populações indígena e negra no período colonial. No bojo de uma disputa entre narrativas, as diferentes intervenções são valoradas diferentemente pela opinião pública, e no caso do incêndio da estátua de Borba Gato, o ato foi avaliado como “vandalismo” por uma parcela da população brasileira, ao mesmo tempo em que foi tido como “revolução” por outra, bem como instaurou debates entre especialistas acerca do real papel de Borba Gato na prática bandeirante e da necessidade de se preservar este monumento e outros por seu valor de registro histórico. Se considerarmos a natureza dialógica da linguagem tal como compreendiam os estudiosos do Círculo de Bakhtin (tomados aqui pelos escritos de Bakhtin, Volóchinov e Medviédev), podemos retomar seu papel como material dos fenômenos ideológicos, o que nos permite refletir acerca do caráter valorativo do monumento de Borba Gato enquanto um signo ideológico. Como uma perspectiva que leva em conta seu caráter de atividade e de mediação entre sujeitos socialmente organizados, os escritos do Círculo de Bakhtin nos possibilitam pensar a linguagem de forma ampla, o que nos permite conceber o monumento de Borba Gato como uma criação ideológica. Elaborada por um autor-criador, a estátua como uma obra de arte se estabelece como um enunciado artístico, o que também nos revela a natureza social da arte enquanto uma forma de linguagem. Na obra Marxismo e Filosofia da Linguagem, Volóchinov (2017) destaca a linguagem como materialidade por meio da qual encarnam-se as ideologias: “Qualquer fenômeno ideológico sígnico é dado em algum material: no som, na massa física, na cor, no movimento do corpo e assim por diante” (VOLOCHÍNOV, 2017, p. 94). Uma vez materializados pela/na linguagem, os fenômenos ideológicos podem ser considerados em sua dimensão sígnica, isto é, como elementos que constituem a realidade natural, ao mesmo tempo em que refletem e refratam uma outra realidade para além de seus limites. Por uma perspectiva dialógica, o monumento de Borba Gato como um ato de linguagem nos leva além de seus limites e de suas particularidades materiais, pois se encarado como um enunciado concreto, como fenômeno social e histórico carrega um valor, isto é, nos revela um determinado posicionamento social que se constitui pela relação que trava com outros posicionamentos e valores. Segundo Medviédev (2012), como povoado por signos, o meio ideológico é a consciência social que se encontra materialmente expressa. No caso da construção de monumentos como a estátua de Borba Gato, é válido contextualizarmos que a obra se inscreve na esteira de um processo histórico de “heroicização” da figura do bandeirante, que passa a ser valorado como “herói paulista” a partir do fim do século XIX e início do século XX, no contexto de ascensão econômica de São Paulo, um movimento de ressignificação que se materializa na forma de monumentos e estátuas, nomeação de ruas, avenidas, rodovias etc.[3]. Deste modo, podemos dizer que todo enunciado se constitui como uma orientação avaliativa frente à realidade, assim como participa de um diálogo social em larga escala. Se compreendida a ideia de diálogo por seu funcionamento amplo e como motor da comunicação entre sujeitos, podemos considerar que antes de consenso e concordância, a linguagem pressupõe relações de embate e divergência. Em seu teor avaliativo e de resposta ao horizonte ideológico de uma dada época, potenciais homenagens às figuras históricas comprometidas com o genocídio e dominação dos povos indígenas e negros na forma de monumentos comporta sempre duas faces, pois nos conta a história da colonização por um determinado ponto de vista: “O signo não é somente uma parte da realidade, mas também reflete e refrata uma outra realidade, sendo por isso mesmo capaz de distorcê-la, ser-lhe fiel, percebê-la de um ponto de vista específico e assim por diante” (VOLOCHÍNOV, 2017, p. 93). De fato, como colocado por Medviédev (2012), o horizonte ideológico de qualquer época não é constituído por uma única verdade, mas por várias verdades divergentes. Bakhtin (2010) nos diz que um mesmo acontecimento quando em relação com o “eu” e com o “outro” recebe uma valoração diferente, o que nos permite perceber que uma mesma realidade pode ser percebida diferentemente pelos grupos em disputa. A linguagem manifesta essa luta de classes, na qual a estátua de Borba Gato destaca-se como um palco do embate entre diferentes grupos sociais e seus interesses (VOLÓCHINOV, 2017). Neste contexto de disputa de narrativas e luta pelos sentidos, a compreensão e recepção de um determinado enunciado também se dá como uma resposta (BAKHTIN, 2011). Enquanto manifestação e ato de linguagem, o incêndio de uma estátua ou monumento também diz e está igualmente imbuído de valor. Como resultado de uma tendência global em que grupos historicamente subalternizados reivindicam novas formas de representação, bem como a ressignificação de determinados signos ideológicos; o próprio fato de tais figuras históricas e seus atos do passado estarem sendo revistos “responde” a um diálogo maior, pois situa-se na esteira de outras ações como propostas de mudança do nome de ruas, projetos de leis que propõem a retirada de determinados monumentos do espaço público e sua transferência para museus, a construção de outros monumentos para homenagear figuras históricas importantes que representariam o outro lado da história etc. Referências bibliográficas BAKHTIN, M. Para uma filosofia do ato responsável. Tradução de Valdemir Miotello e Carlos Alberto Faraco. São Carlos: Pedro e João Editores, 2010a. ______. Estética da criação verbal. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora Martins Fontes, 6ª ed., 2011. MEDVIÉDEV, P. M. O método formal nos estudos literários: uma introdução crítica a uma poética sociológica. Tradução de Sheila Camargo Grillo e Ekaterina Vólkova Américo São Paulo: Contexto, 2012. VOLÓCHINOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem. Tradução de Sheila Camargo Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. Rio de Janeiro: 34, 2017. [1] “Estátua de Borba Gato é incendiada em São Paulo”. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/noticia/2021/07/24/estatua-de-borba-gato-e-incendiada-por-grupo-em-sao-paulo.ghtml (Acesso em 14 de agosto de 2021). [2] “Monumentos amanhecem pichados com tinta colorida em SP”. Disponível em: http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2016/09/monumentos-amanhecem-pichados-com-tinta-colorida-em-sp.html (Acesso em 15 de agosto de 2021). [3] “Como os bandeirantes, cujas homenagens hoje são questionadas, foram alçados a ‘heróis paulistas’”. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53116270 (Acesso em 16 de agosto de 2021).
- REFLEXÕES BAKHTINIANAS SOBRE A PERSONAGEM PRINCIPAL DE A COR PÚRPURA.
Isabella Lourenci Kojima Historicamente, pode-se afirmar que a mulher vem sendo socialmente oprimida conforme os valores de determinada época, com isso deve-se pensar no enunciado de acordo com o contexto de produção e as vivências, desse modo promovendo reflexões através dos signos que fazem parte de um produto ideológico e que refletem e refratam o mundo. O reflexo e a refração de determinada época e sociedade são exemplificados através de obras, filmes, livros, pinturas os quais não só mostram o papel da mulher, mas inúmeros modos e estilos de vidas desconhecidos por nós. Assim, à medida em que compreendemos um enunciado, as valorações se materializam nele a partir de uma palavra, cor, gesto, nota musical, etc. A obra, A cor púrpura (1982), romance escrito por Alice Walker, mulher negra, feminista e defensora dos direitos civis, traz escrevivências da protagonista através de cartas escritas para Deus e para a sua irmã. Portanto, esse texto propõe uma discussão a respeito da arte e da vida vivida, não apenas por Celie, mas por inúmeras mulheres negras que sofrem por não estar no seu país de origem, por simplesmente ser mulher ou por sua cor, destacando a relevância da obra, que reflete e refrata o mundo, reflete quando sabemos de uma realidade exterior e refrata quando o ser humano tem as suas experiências e interpretações diante de tudo. Com isso, as vozes sociais construídas por discursos ideológicos, faz com que as relações das personagens se tornem reais. Figura 1: Celie e sua irmã Nettie brincando. O enredo persegue, de uma forma bem sensível, questões sociais vividas por uma jovem negra, pobre e nascida em uma cidade segregada no sul dos Estados Unidos. Celie, foi estuprada pelo padrasto, foi obrigada a se separar dos filhos e da irmã, foi ofertada a casar com um homem mais velho que tinha mais filhos e nessa companhia sofreu todos os tipos possíveis de violência, assim foi vivendo um pesadelo constante. Entretanto, Shug Avery, amante de seu marido, proporcionou grandes mudanças em sua vida e foi através de seu olhar que aconteceu a libertação de si e de seus sofrimentos, que Celie teve mais voz e melhorou a sua vida. A construção do sujeito na narrativa se dá na amizade de Celie e Shug e essa alteridade deixa explícito que para ser sujeito nós precisamos estar organizados em coletividade, se comunicando, se inteirando pela linguagem, por conseguinte, o sujeito só é sujeito por meio da relação com o outro e essa necessidade do outro para se constituir como sujeito não torna idêntico a esse outro, mas mantém as relações dialógicas, sociais, os acontecimentos, as vivências, representações, que transformou a vida de Celie. Vale ressaltar que a inserção do feminismo negro foi tardia, ganhando força nos Estados Unidos na década de 70, com referências políticas e culturais europeias. Desse modo, essa resistência para se encontrar de fato em uma corrente é de extrema importância, assim essa interação social diante desse contexto histórico, ou seja, ideológico. Assim sendo, o pensamento feminista negro possibilita que as mulheres tenham diferentes visões de si, do seu âmbito social e do seu mundo, rearticulando o que já existe e resistindo as opressões. Infelizmente, não é de hoje que a mulher negra é silenciada, que seu espaço na sociedade é reprimido por causa da sua etnia, da sua classe social, da sua identidade de gênero e de padrões impossíveis de serem seguidos. As cartas confessionais de Celie é o que materializa a ideologia e a interação social, então o fluxo dos seus pensamentos fazem com que as consciências individuais se relacionam e criem signos para que o homem seja estimulado a adentrar nessa realidade e, consequentemente, ao ler os escritos conseguimos ter um senso crítico, um senso de empatia e uma comunicação. A narrativa de A cor púrpura se baseia na oralidade popular, as expressões são construídas através de uma significação e essa significação dá sentido à sua realidade por meio da linguagem, dessa maneira tanto Celie quanto Alice Walker, são vozes sociais que adentram na consciência coletiva. Segundo Volóchinov em Marxismo e Filosofia da Linguagem, a consciência se materializa por meio do signo ideológico, por consequência só é vista no processo de interação social. A construção do enunciado A cor púrpura demonstra a veracidade da situação vivida por muitas mulheres. Portanto, as ideologias em relação a mulher negra são materializadas por meio do signo ideológico, nesse sentido, no decorrer do enredo os valores dessas ideologias são retratados por meio de violência doméstica, estupro, violência psicológica e submissão, por ser mulher. No exemplo seguinte, nota-se uma questão que decorre na maior parte da história: Querido Deus, Ele me bateu hoje purque disse queu pisquei prum rapaz na igreja. Eu pudia ta cum coisa no olho, mas eu num pisquei. Eu nem olho pros home. Essa é que é a verdade Eu olho pras mulher, sim, purque num tenho medo delas. (WALKER, 1982. p 15) Há diversas vozes femininas no romance, todas em alguma parte da vida foram subordinadas ao homem negro, de forma que só serviam para satisfazê-lo, para ter uma posição de doméstica, mas em contrapartida elas deviam passar por esse sofrimento, o racismo é sustentado pela teoria de que uma raça é superior a outra, mas quando se trata da população negra diante dos brancos, as mulheres em si são mais violentadas, oprimidas, inferiorizadas, lideram em números de pobreza, desemprego, escolaridade baixa, por isso a relevância do feminismo negro, dessa luta para uma sociedade igualitária, assim desfazendo essa romantização de que as mulheres negras são mais fortes, bravas, independentes enquanto a mulher branca é delicada, inofensiva, fraca. Esses sujeitos representam um embate ideológico na concepção da época em que o livro foi publicado, do mundo atual, da sociedade, da cultura, típico de uma literatura crítica, sensível e real. Afinal, a língua revela o homem e por meio da personagem principal, Celie, que muitas mulheres se encontraram, tiveram forças para lutar contra a discriminação, a submissão, o racismo, a desigualdade de gênero, etc. Por fim, as cartas representam uma valoração do sujeito social e reflete na identidade de uma mulher que abriu olhos, renovou vidas e não se calou diante de uma sociedade racista, machista, patriarcal e opressora. A luta é constante, a resistência é sucessiva e a escrita faz parte desse processo ideológico, político, expressivo e reflexivo. Referências: WALKER, Alice. A cor púrpura. CÍRCULO DO LIVRO S.A. 1982. VOLÓCHINOV, Valentin Nikolaevich. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Editora 34, 2018. SANTAGO, Ana Rita. Vozes literárias de escritoras negras. Editora UFRB, 2012. #enunciado
- REFLEXÕES BAKHTINIANAS SOBRE A PERSONAGEM PRINCIPAL DE A COR PÚRPURA.
Isabella Lourenci Kojima Historicamente, pode-se afirmar que a mulher vem sendo socialmente oprimida conforme os valores de determinada época, com isso deve-se pensar no enunciado de acordo com o contexto de produção e as vivências, desse modo promovendo reflexões através dos signos que fazem parte de um produto ideológico e que refletem e refratam o mundo. O reflexo e a refração de determinada época e sociedade são exemplificados através de obras, filmes, livros, pinturas os quais não só mostram o papel da mulher, mas inúmeros modos e estilos de vidas desconhecidos por nós. Assim, à medida em que compreendemos um enunciado, as valorações se materializam nele a partir de uma palavra, cor, gesto, nota musical, etc. A obra, A cor púrpura (1982), romance escrito por Alice Walker, mulher negra, feminista e defensora dos direitos civis, traz escrevivências da protagonista através de cartas escritas para Deus e para a sua irmã. Portanto, esse texto propõe uma discussão a respeito da arte e da vida vivida, não apenas por Celie, mas por inúmeras mulheres negras que sofrem por não estar no seu país de origem, por simplesmente ser mulher ou por sua cor, destacando a relevância da obra, que reflete e refrata o mundo, reflete quando sabemos de uma realidade exterior e refrata quando o ser humano tem as suas experiências e interpretações diante de tudo. Com isso, as vozes sociais construídas por discursos ideológicos, faz com que as relações das personagens se tornem reais. Figura 1: Celie e sua irmã Nettie brincando. O enredo persegue, de uma forma bem sensível, questões sociais vividas por uma jovem negra, pobre e nascida em uma cidade segregada no sul dos Estados Unidos. Celie, foi estuprada pelo padrasto, foi obrigada a se separar dos filhos e da irmã, foi ofertada a casar com um homem mais velho que tinha mais filhos e nessa companhia sofreu todos os tipos possíveis de violência, assim foi vivendo um pesadelo constante. Entretanto, Shug Avery, amante de seu marido, proporcionou grandes mudanças em sua vida e foi através de seu olhar que aconteceu a libertação de si e de seus sofrimentos, que Celie teve mais voz e melhorou a sua vida. A construção do sujeito na narrativa se dá na amizade de Celie e Shug e essa alteridade deixa explícito que para ser sujeito nós precisamos estar organizados em coletividade, se comunicando, se inteirando pela linguagem, por conseguinte, o sujeito só é sujeito por meio da relação com o outro e essa necessidade do outro para se constituir como sujeito não torna idêntico a esse outro, mas mantém as relações dialógicas, sociais, os acontecimentos, as vivências, representações, que transformou a vida de Celie. Vale ressaltar que a inserção do feminismo negro foi tardia, ganhando força nos Estados Unidos na década de 70, com referências políticas e culturais europeias. Desse modo, essa resistência para se encontrar de fato em uma corrente é de extrema importância, assim essa interação social diante desse contexto histórico, ou seja, ideológico. Assim sendo, o pensamento feminista negro possibilita que as mulheres tenham diferentes visões de si, do seu âmbito social e do seu mundo, rearticulando o que já existe e resistindo as opressões. Infelizmente, não é de hoje que a mulher negra é silenciada, que seu espaço na sociedade é reprimido por causa da sua etnia, da sua classe social, da sua identidade de gênero e de padrões impossíveis de serem seguidos. As cartas confessionais de Celie é o que materializa a ideologia e a interação social, então o fluxo dos seus pensamentos fazem com que as consciências individuais se relacionam e criem signos para que o homem seja estimulado a adentrar nessa realidade e, consequentemente, ao ler os escritos conseguimos ter um senso crítico, um senso de empatia e uma comunicação. A narrativa de A cor púrpura se baseia na oralidade popular, as expressões são construídas através de uma significação e essa significação dá sentido à sua realidade por meio da linguagem, dessa maneira tanto Celie quanto Alice Walker, são vozes sociais que adentram na consciência coletiva. Segundo Volóchinov em Marxismo e Filosofia da Linguagem, a consciência se materializa por meio do signo ideológico, por consequência só é vista no processo de interação social. A construção do enunciado A cor púrpura demonstra a veracidade da situação vivida por muitas mulheres. Portanto, as ideologias em relação a mulher negra são materializadas por meio do signo ideológico, nesse sentido, no decorrer do enredo os valores dessas ideologias são retratados por meio de violência doméstica, estupro, violência psicológica e submissão, por ser mulher. No exemplo seguinte, nota-se uma questão que decorre na maior parte da história: Querido Deus, Ele me bateu hoje purque disse queu pisquei prum rapaz na igreja. Eu pudia ta cum coisa no olho, mas eu num pisquei. Eu nem olho pros home. Essa é que é a verdade Eu olho pras mulher, sim, purque num tenho medo delas. (WALKER, 1982. p 15) Há diversas vozes femininas no romance, todas em alguma parte da vida foram subordinadas ao homem negro, de forma que só serviam para satisfazê-lo, para ter uma posição de doméstica, mas em contrapartida elas deviam passar por esse sofrimento, o racismo é sustentado pela teoria de que uma raça é superior a outra, mas quando se trata da população negra diante dos brancos, as mulheres em si são mais violentadas, oprimidas, inferiorizadas, lideram em números de pobreza, desemprego, escolaridade baixa, por isso a relevância do feminismo negro, dessa luta para uma sociedade igualitária, assim desfazendo essa romantização de que as mulheres negras são mais fortes, bravas, independentes enquanto a mulher branca é delicada, inofensiva, fraca. Esses sujeitos representam um embate ideológico na concepção da época em que o livro foi publicado, do mundo atual, da sociedade, da cultura, típico de uma literatura crítica, sensível e real. Afinal, a língua revela o homem e por meio da personagem principal, Celie, que muitas mulheres se encontraram, tiveram forças para lutar contra a discriminação, a submissão, o racismo, a desigualdade de gênero, etc. Por fim, as cartas representam uma valoração do sujeito social e reflete na identidade de uma mulher que abriu olhos, renovou vidas e não se calou diante de uma sociedade racista, machista, patriarcal e opressora. A luta é constante, a resistência é sucessiva e a escrita faz parte desse processo ideológico, político, expressivo e reflexivo. Referências: WALKER, Alice. A cor púrpura. CÍRCULO DO LIVRO S.A. 1982. VOLÓCHINOV, Valentin Nikolaevich. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Editora 34, 2018. SANTAGO, Ana Rita. Vozes literárias de escritoras negras. Editora UFRB, 2012. #enunciado
- A Distorção Do Monstro Burtoniano Em (A)Posto A Massa Bolsonarista.
Bárbara Luqueti Tavares Vivemos em uma época de monstros, e eles estão bem à nossa frente. A princípio, pensando na significação de monstro como um conceito que nos permite uma perspectiva privilegiada sobre a sociedade humana, é inverossímil chegar em uma definição conclusiva do que é “monstro”. Pois, estes seres terríveis já não possuem necessariamente características diferentes do “normal”, sendo, portanto, associados a um conjunto de valores morais, que se sobrepõem ao aspecto físico. Tanto conceitualmente quanto relacionados aos temas abordados nas obras cinematográficas de Tim Burton, as quais estão repletas de incontáveis figuras marginais e personagens estranhos. O fascinante em Burton, é a forma da criação de seu universo a partir de influências geralmente localizadas no Gótico ou do Terror, pois o mesmo dá início às criações por meio delas. A influência do diretor é usada para um propósito específico. Diante desse fato, Burton presta atenção especial aos personagens marginais e estranhos, que estão em um mundo onírico ou presos entre a realidade e a ilusão. O que de certa forma permite um maior aprofundamento nos temas essenciais em sua cinematográfica, como o grotesco, a loucura, as experiências científicas, a morte, a família e enfim, a solidão. Por conseguinte, esses personagens, que costumam ser vistos como vilões nas narrativas tradicionais, são apresentados como heróis incompreendidos. Deste modo, as obras Vincent (1982) e Frankenweenie (1984), ou criações mais recentes como Edward Scissorhands (1990), Big Fish (2003), The Corpse Bride (2005), entre outros filmes da mesma autoria, são todos considerados partes indispensáveis deste mundo. Portanto, esse tipo de subversão deu um novo sentido à história, criando um espaço de integração para aqueles que estão alinhados à estrutura marginal da sociedade e que são incompreendidos por suas diferenças. Cada herói chega a ser uma voz-postura em um diálogo inacabado (Dostoiévski, Um pequeno herói, 1996, p. 367). O mundo concebido assim se modela em visões do mundo materializadas nas vozes (Dostoiévski, Um pequeno herói,1996, p. 354). Existe, por parte do realizador, um investimento estético e emocional nestas figuras em que, ao invés das habituais histórias de Horror, é notório as histórias sobre honestidade, abertura, integridade e a força da criatividade. Sendo assim, por outro lado, os mocinhos postos nas narrativas pela visão tradicional, são apresentados como vilões, que enganam e são saciados pelo desejo de ganância e de deturpação. Em vista dos fatos mencionados acima, o filme The Corpse Bride (2005), baseado em uma história russo-judaico do século XIX com a Inglaterra vitoriana fictícia como plano de fundo. Figura 1: The Corpse Bride (2005) – Lorde Barkis bebendo veneno. Fonte: https://aminoapps.com/c/walkersbramino/page/item/corpse-bride/1xJB_PsrIderrGmNLrMKZWN4k4eW8w4a8 O filme conta a história de Victor Van Dort, um jovem filho de novos-ricos comerciante de peixes, destinado a casar-se com com Victoria Everglot, filha de nobres falidos, em uma pequena aldeia europeia. Este casamento é desejado por ambos os pais, em razão do aumento do status dos pais de Victor na sociedade, e também na recuperação de um status grandioso dos pais de Victoria, os quais poderão usar o dote de sua filha para recuperar a glória da família. Durante o filme, Victor acaba interrompendo o ensaio do casamento devido à tensão, o que o levou a tentar repetir seus votos sozinho na floresta. Sem sucesso, ele repetiu sua promessa uma última vez, e o resultado foi perfeito. Contudo, ao repetir os votos acaba colocando a aliança no que parece ser um velho galho em forma de mão, que na verdade é o braço esquelético de Emily, uma noiva que foi assassinada quando tentou fugir com seu grande amor, tornando-se, portanto, a noiva cadáver. Victor e Emily vão para o mundo dos mortos, pois a mesma está convencida de que encontrou um novo amor e de que ficou noiva. Entretanto, na terra dos vivos, acreditavam que Victor tinha fugido da cidade com intenção de não se casar, diante do ocorrido, os pais de Victoria obrigam a jovem a se casar com Lorde Barkis. No final do filme durante a cerimônia de casamento, Victor encontra-se de novo com Victoria, acabando por ficar com esta. Lorde Barkis, um estranho enriquecido por ter matado Emily, a noiva cadáver, quando viva, ficando então com o seu dinheiro. Após o Lord ter sido desmascarado, morre bebendo o veneno destinado a Victor, confundindo-o com vinho. Emily aceita que Victor fique com Victoria e está finalmente fica em paz após terem descoberto quem era o seu assassino. Figura 2: The Corpse Bride (2005) – Lorde Barkis bebendo veneno. Fonte: https://aminoapps.com/c/walkersbramino/page/item/corpse-bride/1xJB_PsrIderrGmNLrMKZWN4k4eW8w4a8 Sendo assim, centralizando o personagem Lord Barkis, sendo visto tradicionalmente como um lorde, uma imagem de homem rico e admirado, perante a todos, contudo, este homem é um golpista que se casa, mata suas mulheres e rouba o dinheiro delas para viver de maneira luxuosa, não se esforçando e roubando daqueles que trabalham arduamente. Fez isso com Emily e tentou com Victoria, mas foi morto ao tomar veneno achando que era vinho. Age racionalmente em relação a fins ou objetivos quando mata as mulheres só pelo dinheiro delas a fim de ter suas riquezas para sempre. Sendo este, portando um enunciado evidente de Burton sobre os determinados grupos sociais e os olhares que o constitui referente ao mundo. As obras de Tim Burton sempre buscam questionar os valores e padrões sociais presentes e amplamente reproduzidos em determinados grupos, deste modo, esses valores sociais se dão por meio dos heróis e dos vilões, sendo eles personagens desajustados, deslocados do ponto de vista da normalidade padronizada. De acordo com o pensamento bakhtiniano, toda construção enunciativa possui caráter valorativo frente a outras produções enunciativas. Isso marca a função do enunciado e colabora para a compreensão de que um estilo autoral que não se define exclusivamente como individual, ainda que seja uma parte do ato singular. O traço de singularidade não exclui a marca social que caracteriza o estilo, uma vez que o autor-criador dá forma aos conteúdos temáticos de suas obras com seus traços específicos sem estar apartado da “realidade” social. Dito isso, vale ressaltar e dizer, no mesmo sentido, no contexto da situação atual do Brasil, que a gestão governamental bolsonarista construiu uma aliança com batistas, presbiterianos, metodistas e luteranos que historicamente exerceram influência nacional. Bem, como por seu desprezo pelo povo e pela falta de logística em uma crise pandêmica, ao mesmo tempo o genocídio diário a que o país está exposto também mancha as mãos dos líderes do cristianismo hegemônico que os apoiam desde 2018. A massa bolsonarista composta por membros das igrejas e fiéis simpatizantes do mundo evangélicos seguem como fonte de apoio inabalável. Esta cultura formou uma geração entre evangélicos e cristãos cuja expressão religiosa é ancorada em chavões, como por exemplo “Jair Messias Bolsonaro”, onde o Messias apresenta um significado muito forte para os mesmos seguidores com “aquele que foi enviado por Deus para nos salvar”. Perante o exposto, no início no ano de 2019, Jair Bolsonaro, em sua conta no Twitter, republicou um vídeo do religioso dizendo que os católicos têm o direito de usar armas para sua legítima defesa e a partir disso, o Padre Edvaldo Betioli, compartilhou em suas redes sociais vídeos e mensagens do Presidente, o Padre também atacou o ex-Presidente Luis Inácio Lula da Silva de “bandido” e “apedeuta”, além dos vários ataques ofensivos ao PT. Este mesmo sacerdote, postou um vídeo do Presidente Jair Bolsonaro defendendo a cloroquina como solução para a Covid-19 e anunciando que o exército começaria a produzir esse produto em larga escala, mesmo sem nenhuma prova de sua eficácia, além de dizer que a Organização Mundial de Saúde inventou a pandemia “que deixou o mundo louco”. Além disso, Betioli elogiou os evangélicos por continuarem a realizar cultos religiosos e a manter as igrejas abertas, visto que Bolsonaro indagou que a decisão do STF sobre as igrejas é “absurda por absurdo”. Ademais, são dois dos muitos religiosos católicos conservadores, os Padres Betioli e Paulo Ricardo estando extremamente ativos nas redes sociais que atuam como porta-vozes da agenda, daí a TV católica “é poder” e anunciaram que querem estar ao seu lado do Presidente e “caminhar juntos” e “Construindo um Brasil melhor”, pois o Governo Bolsonaro trará essa divindade. O indivíduo deve tornar-se inteiramente responsável: todos os seus momentos devem não só estar lado a lado na série temporal de sua vida, mas também penetrar uns aos outros na unidade da culpa e da responsabilidade. (BAKHTIN, 2011, p. XXXIV). Figura 3: Padres pró-Bolsonaro defendem uso de armas. Fonte: https://extra.globo.com/noticias/brasil/padres-pro-bolsonaro-defendem-uso-de-armas-para-legitima-defesa-23354568.html?topico=jair-bolsonaro A obra Marxismo e filosofia da linguagem, Bakhtin (1995) propõe um signo como um produto semiótico e ideológico da realidade. Para ser semiótico, todo signo precisa de um corpo físico ou material e de uma significação, as palavras representam signos ideológicos socialmente estabelecidos enquanto forem usados, ou seja, toda criação ideológica deve ser vivida pelo discurso. Assim, para o círculo, o discurso produz uma imanência a partir da estrutura de ideologias pré-formadas, respaldadas por palavras que são verdadeiros signos de ideologia. Cada signo ideológico não é um simples reflexo da realidade, mas também seu fragmento material, de modo que o mesmo reflete e refrata a realidade de cada esfera ideológica, podendo distorcê-la, ratificá-la ou capturá-la de um ponto de vista específico, assim como o próprio discurso manipulador do Presidente Bolsonaro, além da cópia e da transmissão da massa bolsonarista. Diante desta discussão, a semelhança que temos entre o personagem Lorde Barkis em, The Corpse Bride (2005), com os religiosos mencionados acima, é de que, tradicionalmente por uma visão social instaurada é uma alegoria exemplar, que mostra uma imagem de pureza, de grandeza, bondade e paz, quando na verdade se têm o oposto, um lado hipócrita, uma personificação de ódio, de discursos e ações que menosprezam e agridem a segurança do outro. Desta forma, não só estes seguidores compactuam com a mesma linguagem do Presidente, mas também como foram postos pelo próprio governante figuras religiosas, Padres em específico, nos órgãos governamentais, como o Ministro da Justiça, André Mendonça e também o Ministro da Educação, Milton Ribeiro, os quais vão ao encontro das ordens do Presidente. Por fim, o discurso de uma imagem governamental influencia e manipula, muitas pessoas, e é de se estranhar que a maioria das entidades religiosas, que deveriam pregar a segurança e o amor ao próximo, estão ao lado de um homem que menospreza e ri da população brasileira, sendo enfim, ele mesmo o verdadeiro monstro. Figura 4: O verdadeiro monstro Fonte: https://istoe.com.br/os-23-pecados-capitais-do-governo/ Referências Bibliográficas VOLÓCHINOV, V. Marxismo e Filosofia da Linguagem. Trad. Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Editora 34, 2017. PAULA, Luciane de. Círculo de Bakhtin: uma análise dialógica de discurso. Revista de Estudos da Linguagem, v. 21, n. 1, p. 239-257, 2013. Disponível em: http://hdl.handle.net/11449/125169. Padres pró-Bolsonaro defendem uso de armas para legítima defesa, 2019. Disponível em: https://extra.globo.com/noticias/brasil/padres-pro-bolsonaro-defendem-uso-de-armas-para-legitima-defesa-23354568.html?topico=jair-bolsonaro #diálogo
