top of page

Resultados de busca

182 resultados encontrados com uma busca vazia

  • As chamas de Borba Gato e a natureza dialógica da linguagem

    Ana Carolina Siani No dia 24 de julho de 2021, um incêndio tomou a estátua de Borba Gato em Santo Amaro, bairro localizado na zona sul da cidade de São Paulo[1]. O ato que se configurou como uma manifestação política foi assumido pelo grupo de ativistas nomeado como “Revolução Periférica”, o que culminou na criminalização e prisão de alguns de seus membros. Como se tem registro nos últimos anos, esta não foi a primeira vez que o monumento idealizado pelo escultor Júlio Guerra e inaugurado em 1957 como uma homenagem ao bandeirante Manuel de Borba Gato (1649-1718) foi alvo de protestos. Em 2016, a estátua de Borba Gato e o Monumento às Bandeiras, localizado no Parque do Ibirapuera, amanheceram pichados com tinta colorida[2]. Contextualizados por um debate atual que busca repensar e ressignificar monumentos que retratam personalidades históricas envolvidas com a dominação e exploração de povos subalternizados, esses diferentes atos de protesto nos revelam uma crítica ao papel dos bandeirantes na história brasileira, uma vez que o grupo esteve comprometido com missões em determinadas regiões do Brasil e que envolviam a caça e escravização das populações indígena e negra no período colonial. No bojo de uma disputa entre narrativas, as diferentes intervenções são valoradas diferentemente pela opinião pública, e no caso do incêndio da estátua de Borba Gato, o ato foi avaliado como “vandalismo” por uma parcela da população brasileira, ao mesmo tempo em que foi tido como “revolução” por outra, bem como instaurou debates entre especialistas acerca do real papel de Borba Gato na prática bandeirante e da necessidade de se preservar este monumento e outros por seu valor de registro histórico. Se considerarmos a natureza dialógica da linguagem tal como compreendiam os estudiosos do Círculo de Bakhtin (tomados aqui pelos escritos de Bakhtin, Volóchinov e Medviédev), podemos retomar seu papel como material dos fenômenos ideológicos, o que nos permite refletir acerca do caráter valorativo do monumento de Borba Gato enquanto um signo ideológico. Como uma perspectiva que leva em conta seu caráter de atividade e de mediação entre sujeitos socialmente organizados, os escritos do Círculo de Bakhtin nos possibilitam pensar a linguagem de forma ampla, o que nos permite conceber o monumento de Borba Gato como uma criação ideológica. Elaborada por um autor-criador, a estátua como uma obra de arte se estabelece como um enunciado artístico, o que também nos revela a natureza social da arte enquanto uma forma de linguagem. Na obra Marxismo e Filosofia da Linguagem, Volóchinov (2017) destaca a linguagem como materialidade por meio da qual encarnam-se as ideologias: “Qualquer fenômeno ideológico sígnico é dado em algum material: no som, na massa física, na cor, no movimento do corpo e assim por diante” (VOLOCHÍNOV, 2017, p. 94). Uma vez materializados pela/na linguagem, os fenômenos ideológicos podem ser considerados em sua dimensão sígnica, isto é, como elementos que constituem a realidade natural, ao mesmo tempo em que refletem e refratam uma outra realidade para além de seus limites. Por uma perspectiva dialógica, o monumento de Borba Gato como um ato de linguagem nos leva além de seus limites e de suas particularidades materiais, pois se encarado como um enunciado concreto, como fenômeno social e histórico carrega um valor, isto é, nos revela um determinado posicionamento social que se constitui pela relação que trava com outros posicionamentos e valores. Segundo Medviédev (2012), como povoado por signos, o meio ideológico é a consciência social que se encontra materialmente expressa. No caso da construção de monumentos como a estátua de Borba Gato, é válido contextualizarmos que a obra se inscreve na esteira de um processo histórico de “heroicização” da figura do bandeirante, que passa a ser valorado como “herói paulista” a partir do fim do século XIX e início do século XX, no contexto de ascensão econômica de São Paulo, um movimento de ressignificação que se materializa na forma de monumentos e estátuas, nomeação de ruas, avenidas, rodovias etc.[3]. Deste modo, podemos dizer que todo enunciado se constitui como uma orientação avaliativa frente à realidade, assim como participa de um diálogo social em larga escala. Se compreendida a ideia de diálogo por seu funcionamento amplo e como motor da comunicação entre sujeitos, podemos considerar que antes de consenso e concordância, a linguagem pressupõe relações de embate e divergência. Em seu teor avaliativo e de resposta ao horizonte ideológico de uma dada época, potenciais homenagens às figuras históricas comprometidas com o genocídio e dominação dos povos indígenas e negros na forma de monumentos comporta sempre duas faces, pois nos conta a história da colonização por um determinado ponto de vista: “O signo não é somente uma parte da realidade, mas também reflete e refrata uma outra realidade, sendo por isso mesmo capaz de distorcê-la, ser-lhe fiel, percebê-la de um ponto de vista específico e assim por diante” (VOLOCHÍNOV, 2017, p. 93). De fato, como colocado por Medviédev (2012), o horizonte ideológico de qualquer época não é constituído por uma única verdade, mas por várias verdades divergentes. Bakhtin (2010) nos diz que um mesmo acontecimento quando em relação com o “eu” e com o “outro” recebe uma valoração diferente, o que nos permite perceber que uma mesma realidade pode ser percebida diferentemente pelos grupos em disputa. A linguagem manifesta essa luta de classes, na qual a estátua de Borba Gato destaca-se como um palco do embate entre diferentes grupos sociais e seus interesses (VOLÓCHINOV, 2017). Neste contexto de disputa de narrativas e luta pelos sentidos, a compreensão e recepção de um determinado enunciado também se dá como uma resposta (BAKHTIN, 2011). Enquanto manifestação e ato de linguagem, o incêndio de uma estátua ou monumento também diz e está igualmente imbuído de valor. Como resultado de uma tendência global em que grupos historicamente subalternizados reivindicam novas formas de representação, bem como a ressignificação de determinados signos ideológicos; o próprio fato de tais figuras históricas e seus atos do passado estarem sendo revistos “responde” a um diálogo maior, pois situa-se na esteira de outras ações como propostas de mudança do nome de ruas, projetos de leis que propõem a retirada de determinados monumentos do espaço público e sua transferência para museus, a construção de outros monumentos para homenagear figuras históricas importantes que representariam o outro lado da história etc. Referências bibliográficas BAKHTIN, M. Para uma filosofia do ato responsável. Tradução de Valdemir Miotello e Carlos Alberto Faraco. São Carlos: Pedro e João Editores, 2010a. ______. Estética da criação verbal. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora Martins Fontes, 6ª ed., 2011. MEDVIÉDEV, P. M. O método formal nos estudos literários: uma introdução crítica a uma poética sociológica. Tradução de Sheila Camargo Grillo e Ekaterina Vólkova Américo São Paulo: Contexto, 2012. VOLÓCHINOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem. Tradução de Sheila Camargo Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. Rio de Janeiro: 34, 2017. [1] “Estátua de Borba Gato é incendiada em São Paulo”. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/noticia/2021/07/24/estatua-de-borba-gato-e-incendiada-por-grupo-em-sao-paulo.ghtml (Acesso em 14 de agosto de 2021). [2] “Monumentos amanhecem pichados com tinta colorida em SP”. Disponível em: http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2016/09/monumentos-amanhecem-pichados-com-tinta-colorida-em-sp.html (Acesso em 15 de agosto de 2021). [3] “Como os bandeirantes, cujas homenagens hoje são questionadas, foram alçados a ‘heróis paulistas’”. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53116270 (Acesso em 16 de agosto de 2021).

  • As chamas de Borba Gato e a natureza dialógica da linguagem

    Ana Carolina Siani No dia 24 de julho de 2021, um incêndio tomou a estátua de Borba Gato em Santo Amaro, bairro localizado na zona sul da cidade de São Paulo[1]. O ato que se configurou como uma manifestação política foi assumido pelo grupo de ativistas nomeado como “Revolução Periférica”, o que culminou na criminalização e prisão de alguns de seus membros. Como se tem registro nos últimos anos, esta não foi a primeira vez que o monumento idealizado pelo escultor Júlio Guerra e inaugurado em 1957 como uma homenagem ao bandeirante Manuel de Borba Gato (1649-1718) foi alvo de protestos. Em 2016, a estátua de Borba Gato e o Monumento às Bandeiras, localizado no Parque do Ibirapuera, amanheceram pichados com tinta colorida[2]. Contextualizados por um debate atual que busca repensar e ressignificar monumentos que retratam personalidades históricas envolvidas com a dominação e exploração de povos subalternizados, esses diferentes atos de protesto nos revelam uma crítica ao papel dos bandeirantes na história brasileira, uma vez que o grupo esteve comprometido com missões em determinadas regiões do Brasil e que envolviam a caça e escravização das populações indígena e negra no período colonial. No bojo de uma disputa entre narrativas, as diferentes intervenções são valoradas diferentemente pela opinião pública, e no caso do incêndio da estátua de Borba Gato, o ato foi avaliado como “vandalismo” por uma parcela da população brasileira, ao mesmo tempo em que foi tido como “revolução” por outra, bem como instaurou debates entre especialistas acerca do real papel de Borba Gato na prática bandeirante e da necessidade de se preservar este monumento e outros por seu valor de registro histórico. Se considerarmos a natureza dialógica da linguagem tal como compreendiam os estudiosos do Círculo de Bakhtin (tomados aqui pelos escritos de Bakhtin, Volóchinov e Medviédev), podemos retomar seu papel como material dos fenômenos ideológicos, o que nos permite refletir acerca do caráter valorativo do monumento de Borba Gato enquanto um signo ideológico. Como uma perspectiva que leva em conta seu caráter de atividade e de mediação entre sujeitos socialmente organizados, os escritos do Círculo de Bakhtin nos possibilitam pensar a linguagem de forma ampla, o que nos permite conceber o monumento de Borba Gato como uma criação ideológica. Elaborada por um autor-criador, a estátua como uma obra de arte se estabelece como um enunciado artístico, o que também nos revela a natureza social da arte enquanto uma forma de linguagem. Na obra Marxismo e Filosofia da Linguagem, Volóchinov (2017) destaca a linguagem como materialidade por meio da qual encarnam-se as ideologias: “Qualquer fenômeno ideológico sígnico é dado em algum material: no som, na massa física, na cor, no movimento do corpo e assim por diante” (VOLOCHÍNOV, 2017, p. 94). Uma vez materializados pela/na linguagem, os fenômenos ideológicos podem ser considerados em sua dimensão sígnica, isto é, como elementos que constituem a realidade natural, ao mesmo tempo em que refletem e refratam uma outra realidade para além de seus limites. Por uma perspectiva dialógica, o monumento de Borba Gato como um ato de linguagem nos leva além de seus limites e de suas particularidades materiais, pois se encarado como um enunciado concreto, como fenômeno social e histórico carrega um valor, isto é, nos revela um determinado posicionamento social que se constitui pela relação que trava com outros posicionamentos e valores. Segundo Medviédev (2012), como povoado por signos, o meio ideológico é a consciência social que se encontra materialmente expressa. No caso da construção de monumentos como a estátua de Borba Gato, é válido contextualizarmos que a obra se inscreve na esteira de um processo histórico de “heroicização” da figura do bandeirante, que passa a ser valorado como “herói paulista” a partir do fim do século XIX e início do século XX, no contexto de ascensão econômica de São Paulo, um movimento de ressignificação que se materializa na forma de monumentos e estátuas, nomeação de ruas, avenidas, rodovias etc.[3]. Deste modo, podemos dizer que todo enunciado se constitui como uma orientação avaliativa frente à realidade, assim como participa de um diálogo social em larga escala. Se compreendida a ideia de diálogo por seu funcionamento amplo e como motor da comunicação entre sujeitos, podemos considerar que antes de consenso e concordância, a linguagem pressupõe relações de embate e divergência. Em seu teor avaliativo e de resposta ao horizonte ideológico de uma dada época, potenciais homenagens às figuras históricas comprometidas com o genocídio e dominação dos povos indígenas e negros na forma de monumentos comporta sempre duas faces, pois nos conta a história da colonização por um determinado ponto de vista: “O signo não é somente uma parte da realidade, mas também reflete e refrata uma outra realidade, sendo por isso mesmo capaz de distorcê-la, ser-lhe fiel, percebê-la de um ponto de vista específico e assim por diante” (VOLOCHÍNOV, 2017, p. 93). De fato, como colocado por Medviédev (2012), o horizonte ideológico de qualquer época não é constituído por uma única verdade, mas por várias verdades divergentes. Bakhtin (2010) nos diz que um mesmo acontecimento quando em relação com o “eu” e com o “outro” recebe uma valoração diferente, o que nos permite perceber que uma mesma realidade pode ser percebida diferentemente pelos grupos em disputa. A linguagem manifesta essa luta de classes, na qual a estátua de Borba Gato destaca-se como um palco do embate entre diferentes grupos sociais e seus interesses (VOLÓCHINOV, 2017). Neste contexto de disputa de narrativas e luta pelos sentidos, a compreensão e recepção de um determinado enunciado também se dá como uma resposta (BAKHTIN, 2011). Enquanto manifestação e ato de linguagem, o incêndio de uma estátua ou monumento também diz e está igualmente imbuído de valor. Como resultado de uma tendência global em que grupos historicamente subalternizados reivindicam novas formas de representação, bem como a ressignificação de determinados signos ideológicos; o próprio fato de tais figuras históricas e seus atos do passado estarem sendo revistos “responde” a um diálogo maior, pois situa-se na esteira de outras ações como propostas de mudança do nome de ruas, projetos de leis que propõem a retirada de determinados monumentos do espaço público e sua transferência para museus, a construção de outros monumentos para homenagear figuras históricas importantes que representariam o outro lado da história etc. Referências bibliográficas BAKHTIN, M. Para uma filosofia do ato responsável. Tradução de Valdemir Miotello e Carlos Alberto Faraco. São Carlos: Pedro e João Editores, 2010a. ______. Estética da criação verbal. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora Martins Fontes, 6ª ed., 2011. MEDVIÉDEV, P. M. O método formal nos estudos literários: uma introdução crítica a uma poética sociológica. Tradução de Sheila Camargo Grillo e Ekaterina Vólkova Américo São Paulo: Contexto, 2012. VOLÓCHINOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem. Tradução de Sheila Camargo Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. Rio de Janeiro: 34, 2017. [1] “Estátua de Borba Gato é incendiada em São Paulo”. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/noticia/2021/07/24/estatua-de-borba-gato-e-incendiada-por-grupo-em-sao-paulo.ghtml (Acesso em 14 de agosto de 2021). [2] “Monumentos amanhecem pichados com tinta colorida em SP”. Disponível em: http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2016/09/monumentos-amanhecem-pichados-com-tinta-colorida-em-sp.html (Acesso em 15 de agosto de 2021). [3] “Como os bandeirantes, cujas homenagens hoje são questionadas, foram alçados a ‘heróis paulistas’”. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53116270 (Acesso em 16 de agosto de 2021).

  • REFLEXÕES BAKHTINIANAS SOBRE A PERSONAGEM PRINCIPAL DE A COR PÚRPURA.

    Isabella Lourenci Kojima Historicamente, pode-se afirmar que a mulher vem sendo socialmente oprimida conforme os valores de determinada época, com isso deve-se pensar no enunciado de acordo com o contexto de produção e as vivências, desse modo promovendo reflexões através dos signos que fazem parte de um produto ideológico e que refletem e refratam o mundo. O reflexo e a refração de determinada época e sociedade são exemplificados através de obras, filmes, livros, pinturas os quais não só mostram o papel da mulher, mas inúmeros modos e estilos de vidas desconhecidos por nós. Assim, à medida em que compreendemos um enunciado, as valorações se materializam nele a partir de uma palavra, cor, gesto, nota musical, etc. A obra, A cor púrpura (1982), romance escrito por Alice Walker, mulher negra, feminista e defensora dos direitos civis, traz escrevivências da protagonista através de cartas escritas para Deus e para a sua irmã. Portanto, esse texto propõe uma discussão a respeito da arte e da vida vivida, não apenas por Celie, mas por inúmeras mulheres negras que sofrem por não estar no seu país de origem, por simplesmente ser mulher ou por sua cor, destacando a relevância da obra, que reflete e refrata o mundo, reflete quando sabemos de uma realidade exterior e refrata quando o ser humano tem as suas experiências e interpretações diante de tudo. Com isso, as vozes sociais construídas por discursos ideológicos, faz com que as relações das personagens se tornem reais. Figura 1: Celie e sua irmã Nettie brincando. O enredo persegue, de uma forma bem sensível, questões sociais vividas por uma jovem negra, pobre e nascida em uma cidade segregada no sul dos Estados Unidos. Celie, foi estuprada pelo padrasto, foi obrigada a se separar dos filhos e da irmã, foi ofertada a casar com um homem mais velho que tinha mais filhos e nessa companhia sofreu todos os tipos possíveis de violência, assim foi vivendo um pesadelo constante. Entretanto, Shug Avery, amante de seu marido, proporcionou grandes mudanças em sua vida e foi através de seu olhar que aconteceu a libertação de si e de seus sofrimentos, que Celie teve mais voz e melhorou a sua vida. A construção do sujeito na narrativa se dá na amizade de Celie e Shug e essa alteridade deixa explícito que para ser sujeito nós precisamos estar organizados em coletividade, se comunicando, se inteirando pela linguagem, por conseguinte, o sujeito só é sujeito por meio da relação com o outro e essa necessidade do outro para se constituir como sujeito não torna idêntico a esse outro, mas mantém as relações dialógicas, sociais, os acontecimentos, as vivências, representações, que transformou a vida de Celie. Vale ressaltar que a inserção do feminismo negro foi tardia, ganhando força nos Estados Unidos na década de 70, com referências políticas e culturais europeias. Desse modo, essa resistência para se encontrar de fato em uma corrente é de extrema importância, assim essa interação social diante desse contexto histórico, ou seja, ideológico. Assim sendo, o pensamento feminista negro possibilita que as mulheres tenham diferentes visões de si, do seu âmbito social e do seu mundo, rearticulando o que já existe e resistindo as opressões. Infelizmente, não é de hoje que a mulher negra é silenciada, que seu espaço na sociedade é reprimido por causa da sua etnia, da sua classe social, da sua identidade de gênero e de padrões impossíveis de serem seguidos. As cartas confessionais de Celie é o que materializa a ideologia e a interação social, então o fluxo dos seus pensamentos fazem com que as consciências individuais se relacionam e criem signos para que o homem seja estimulado a adentrar nessa realidade e, consequentemente, ao ler os escritos conseguimos ter um senso crítico, um senso de empatia e uma comunicação. A narrativa de A cor púrpura se baseia na oralidade popular, as expressões são construídas através de uma significação e essa significação dá sentido à sua realidade por meio da linguagem, dessa maneira tanto Celie quanto Alice Walker, são vozes sociais que adentram na consciência coletiva. Segundo Volóchinov em Marxismo e Filosofia da Linguagem, a consciência se materializa por meio do signo ideológico, por consequência só é vista no processo de interação social. A construção do enunciado A cor púrpura demonstra a veracidade da situação vivida por muitas mulheres. Portanto, as ideologias em relação a mulher negra são materializadas por meio do signo ideológico, nesse sentido, no decorrer do enredo os valores dessas ideologias são retratados por meio de violência doméstica, estupro, violência psicológica e submissão, por ser mulher. No exemplo seguinte, nota-se uma questão que decorre na maior parte da história: Querido Deus, Ele me bateu hoje purque disse queu pisquei prum rapaz na igreja. Eu pudia ta cum coisa no olho, mas eu num pisquei. Eu nem olho pros home. Essa é que é a verdade Eu olho pras mulher, sim, purque num tenho medo delas. (WALKER, 1982. p 15) Há diversas vozes femininas no romance, todas em alguma parte da vida foram subordinadas ao homem negro, de forma que só serviam para satisfazê-lo, para ter uma posição de doméstica, mas em contrapartida elas deviam passar por esse sofrimento, o racismo é sustentado pela teoria de que uma raça é superior a outra, mas quando se trata da população negra diante dos brancos, as mulheres em si são mais violentadas, oprimidas, inferiorizadas, lideram em números de pobreza, desemprego, escolaridade baixa, por isso a relevância do feminismo negro, dessa luta para uma sociedade igualitária, assim desfazendo essa romantização de que as mulheres negras são mais fortes, bravas, independentes enquanto a mulher branca é delicada, inofensiva, fraca. Esses sujeitos representam um embate ideológico na concepção da época em que o livro foi publicado, do mundo atual, da sociedade, da cultura, típico de uma literatura crítica, sensível e real. Afinal, a língua revela o homem e por meio da personagem principal, Celie, que muitas mulheres se encontraram, tiveram forças para lutar contra a discriminação, a submissão, o racismo, a desigualdade de gênero, etc. Por fim, as cartas representam uma valoração do sujeito social e reflete na identidade de uma mulher que abriu olhos, renovou vidas e não se calou diante de uma sociedade racista, machista, patriarcal e opressora. A luta é constante, a resistência é sucessiva e a escrita faz parte desse processo ideológico, político, expressivo e reflexivo. Referências: WALKER, Alice. A cor púrpura. CÍRCULO DO LIVRO S.A. 1982. VOLÓCHINOV, Valentin Nikolaevich. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Editora 34, 2018. SANTAGO, Ana Rita. Vozes literárias de escritoras negras. Editora UFRB, 2012. #enunciado

  • REFLEXÕES BAKHTINIANAS SOBRE A PERSONAGEM PRINCIPAL DE A COR PÚRPURA.

    Isabella Lourenci Kojima Historicamente, pode-se afirmar que a mulher vem sendo socialmente oprimida conforme os valores de determinada época, com isso deve-se pensar no enunciado de acordo com o contexto de produção e as vivências, desse modo promovendo reflexões através dos signos que fazem parte de um produto ideológico e que refletem e refratam o mundo. O reflexo e a refração de determinada época e sociedade são exemplificados através de obras, filmes, livros, pinturas os quais não só mostram o papel da mulher, mas inúmeros modos e estilos de vidas desconhecidos por nós. Assim, à medida em que compreendemos um enunciado, as valorações se materializam nele a partir de uma palavra, cor, gesto, nota musical, etc. A obra, A cor púrpura (1982), romance escrito por Alice Walker, mulher negra, feminista e defensora dos direitos civis, traz escrevivências da protagonista através de cartas escritas para Deus e para a sua irmã. Portanto, esse texto propõe uma discussão a respeito da arte e da vida vivida, não apenas por Celie, mas por inúmeras mulheres negras que sofrem por não estar no seu país de origem, por simplesmente ser mulher ou por sua cor, destacando a relevância da obra, que reflete e refrata o mundo, reflete quando sabemos de uma realidade exterior e refrata quando o ser humano tem as suas experiências e interpretações diante de tudo. Com isso, as vozes sociais construídas por discursos ideológicos, faz com que as relações das personagens se tornem reais. Figura 1: Celie e sua irmã Nettie brincando. O enredo persegue, de uma forma bem sensível, questões sociais vividas por uma jovem negra, pobre e nascida em uma cidade segregada no sul dos Estados Unidos. Celie, foi estuprada pelo padrasto, foi obrigada a se separar dos filhos e da irmã, foi ofertada a casar com um homem mais velho que tinha mais filhos e nessa companhia sofreu todos os tipos possíveis de violência, assim foi vivendo um pesadelo constante. Entretanto, Shug Avery, amante de seu marido, proporcionou grandes mudanças em sua vida e foi através de seu olhar que aconteceu a libertação de si e de seus sofrimentos, que Celie teve mais voz e melhorou a sua vida. A construção do sujeito na narrativa se dá na amizade de Celie e Shug e essa alteridade deixa explícito que para ser sujeito nós precisamos estar organizados em coletividade, se comunicando, se inteirando pela linguagem, por conseguinte, o sujeito só é sujeito por meio da relação com o outro e essa necessidade do outro para se constituir como sujeito não torna idêntico a esse outro, mas mantém as relações dialógicas, sociais, os acontecimentos, as vivências, representações, que transformou a vida de Celie. Vale ressaltar que a inserção do feminismo negro foi tardia, ganhando força nos Estados Unidos na década de 70, com referências políticas e culturais europeias. Desse modo, essa resistência para se encontrar de fato em uma corrente é de extrema importância, assim essa interação social diante desse contexto histórico, ou seja, ideológico. Assim sendo, o pensamento feminista negro possibilita que as mulheres tenham diferentes visões de si, do seu âmbito social e do seu mundo, rearticulando o que já existe e resistindo as opressões. Infelizmente, não é de hoje que a mulher negra é silenciada, que seu espaço na sociedade é reprimido por causa da sua etnia, da sua classe social, da sua identidade de gênero e de padrões impossíveis de serem seguidos. As cartas confessionais de Celie é o que materializa a ideologia e a interação social, então o fluxo dos seus pensamentos fazem com que as consciências individuais se relacionam e criem signos para que o homem seja estimulado a adentrar nessa realidade e, consequentemente, ao ler os escritos conseguimos ter um senso crítico, um senso de empatia e uma comunicação. A narrativa de A cor púrpura se baseia na oralidade popular, as expressões são construídas através de uma significação e essa significação dá sentido à sua realidade por meio da linguagem, dessa maneira tanto Celie quanto Alice Walker, são vozes sociais que adentram na consciência coletiva. Segundo Volóchinov em Marxismo e Filosofia da Linguagem, a consciência se materializa por meio do signo ideológico, por consequência só é vista no processo de interação social. A construção do enunciado A cor púrpura demonstra a veracidade da situação vivida por muitas mulheres. Portanto, as ideologias em relação a mulher negra são materializadas por meio do signo ideológico, nesse sentido, no decorrer do enredo os valores dessas ideologias são retratados por meio de violência doméstica, estupro, violência psicológica e submissão, por ser mulher. No exemplo seguinte, nota-se uma questão que decorre na maior parte da história: Querido Deus, Ele me bateu hoje purque disse queu pisquei prum rapaz na igreja. Eu pudia ta cum coisa no olho, mas eu num pisquei. Eu nem olho pros home. Essa é que é a verdade Eu olho pras mulher, sim, purque num tenho medo delas. (WALKER, 1982. p 15) Há diversas vozes femininas no romance, todas em alguma parte da vida foram subordinadas ao homem negro, de forma que só serviam para satisfazê-lo, para ter uma posição de doméstica, mas em contrapartida elas deviam passar por esse sofrimento, o racismo é sustentado pela teoria de que uma raça é superior a outra, mas quando se trata da população negra diante dos brancos, as mulheres em si são mais violentadas, oprimidas, inferiorizadas, lideram em números de pobreza, desemprego, escolaridade baixa, por isso a relevância do feminismo negro, dessa luta para uma sociedade igualitária, assim desfazendo essa romantização de que as mulheres negras são mais fortes, bravas, independentes enquanto a mulher branca é delicada, inofensiva, fraca. Esses sujeitos representam um embate ideológico na concepção da época em que o livro foi publicado, do mundo atual, da sociedade, da cultura, típico de uma literatura crítica, sensível e real. Afinal, a língua revela o homem e por meio da personagem principal, Celie, que muitas mulheres se encontraram, tiveram forças para lutar contra a discriminação, a submissão, o racismo, a desigualdade de gênero, etc. Por fim, as cartas representam uma valoração do sujeito social e reflete na identidade de uma mulher que abriu olhos, renovou vidas e não se calou diante de uma sociedade racista, machista, patriarcal e opressora. A luta é constante, a resistência é sucessiva e a escrita faz parte desse processo ideológico, político, expressivo e reflexivo. Referências: WALKER, Alice. A cor púrpura. CÍRCULO DO LIVRO S.A. 1982. VOLÓCHINOV, Valentin Nikolaevich. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Editora 34, 2018. SANTAGO, Ana Rita. Vozes literárias de escritoras negras. Editora UFRB, 2012. #enunciado

  • A Distorção Do Monstro Burtoniano Em (A)Posto A Massa Bolsonarista.

    Bárbara Luqueti Tavares Vivemos em uma época de monstros, e eles estão bem à nossa frente. A princípio, pensando na significação de monstro como um conceito que nos permite uma perspectiva privilegiada sobre a sociedade humana, é inverossímil chegar em uma definição conclusiva do que é “monstro”. Pois, estes seres terríveis já não possuem necessariamente características diferentes do “normal”, sendo, portanto, associados a um conjunto de valores morais, que se sobrepõem ao aspecto físico. Tanto conceitualmente quanto relacionados aos temas abordados nas obras cinematográficas de Tim Burton, as quais estão repletas de incontáveis ​​figuras marginais e personagens estranhos. O fascinante em Burton, é a forma da criação de seu universo a partir de influências geralmente localizadas no Gótico ou do Terror, pois o mesmo dá início às criações por meio delas. A influência do diretor é usada para um propósito específico. Diante desse fato, Burton presta atenção especial aos personagens marginais e estranhos, que estão em um mundo onírico ou presos entre a realidade e a ilusão. O que de certa forma permite um maior aprofundamento nos temas essenciais em sua cinematográfica, como o grotesco, a loucura, as experiências científicas, a morte, a família e enfim, a solidão. Por conseguinte, esses personagens, que costumam ser vistos como vilões nas narrativas tradicionais, são apresentados como heróis incompreendidos. Deste modo, as obras Vincent (1982) e Frankenweenie (1984), ou criações mais recentes como Edward Scissorhands (1990), Big Fish (2003), The Corpse Bride (2005), entre outros filmes da mesma autoria, são todos considerados partes indispensáveis ​​deste mundo. Portanto, esse tipo de subversão deu um novo sentido à história, criando um espaço de integração para aqueles que estão alinhados à estrutura marginal da sociedade e que são incompreendidos por suas diferenças. Cada herói chega a ser uma voz-postura em um diálogo inacabado (Dostoiévski, Um pequeno herói, 1996, p. 367). O mundo concebido assim se modela em visões do mundo materializadas nas vozes (Dostoiévski, Um pequeno herói,1996, p. 354). Existe, por parte do realizador, um investimento estético e emocional nestas figuras em que, ao invés das habituais histórias de Horror, é notório as histórias sobre honestidade, abertura, integridade e a força da criatividade. Sendo assim, por outro lado, os mocinhos postos nas narrativas pela visão tradicional, são apresentados como vilões, que enganam e são saciados pelo desejo de ganância e de deturpação. Em vista dos fatos mencionados acima, o filme The Corpse Bride (2005), baseado em uma história russo-judaico do século XIX com a Inglaterra vitoriana fictícia como plano de fundo. Figura 1: The Corpse Bride (2005) – Lorde Barkis bebendo veneno. Fonte: https://aminoapps.com/c/walkersbramino/page/item/corpse-bride/1xJB_PsrIderrGmNLrMKZWN4k4eW8w4a8 O filme conta a história de Victor Van Dort, um jovem filho de novos-ricos comerciante de peixes, destinado a casar-se com com Victoria Everglot, filha de nobres falidos, em uma pequena aldeia europeia. Este casamento é desejado por ambos os pais, em razão do aumento do status dos pais de Victor na sociedade, e também na recuperação de um status grandioso dos pais de Victoria, os quais poderão usar o dote de sua filha para recuperar a glória da família. Durante o filme, Victor acaba interrompendo o ensaio do casamento devido à tensão, o que o levou a tentar repetir seus votos sozinho na floresta. Sem sucesso, ele repetiu sua promessa uma última vez, e o resultado foi perfeito. Contudo, ao repetir os votos acaba colocando a aliança no que parece ser um velho galho em forma de mão, que na verdade é o braço esquelético de Emily, uma noiva que foi assassinada quando tentou fugir com seu grande amor, tornando-se, portanto, a noiva cadáver. Victor e Emily vão para o mundo dos mortos, pois a mesma está convencida de que encontrou um novo amor e de que ficou noiva. Entretanto, na terra dos vivos, acreditavam que Victor tinha fugido da cidade com intenção de não se casar, diante do ocorrido, os pais de Victoria obrigam a jovem a se casar com Lorde Barkis. No final do filme durante a cerimônia de casamento, Victor encontra-se de novo com Victoria, acabando por ficar com esta. Lorde Barkis, um estranho enriquecido por ter matado Emily, a noiva cadáver, quando viva, ficando então com o seu dinheiro. Após o Lord ter sido desmascarado, morre bebendo o veneno destinado a Victor, confundindo-o com vinho. Emily aceita que Victor fique com Victoria e está finalmente fica em paz após terem descoberto quem era o seu assassino. Figura 2: The Corpse Bride (2005) – Lorde Barkis bebendo veneno. Fonte: https://aminoapps.com/c/walkersbramino/page/item/corpse-bride/1xJB_PsrIderrGmNLrMKZWN4k4eW8w4a8 Sendo assim, centralizando o personagem Lord Barkis, sendo visto tradicionalmente como um lorde, uma imagem de homem rico e admirado, perante a todos, contudo, este homem é um golpista que se casa, mata suas mulheres e rouba o dinheiro delas para viver de maneira luxuosa, não se esforçando e roubando daqueles que trabalham arduamente. Fez isso com Emily e tentou com Victoria, mas foi morto ao tomar veneno achando que era vinho. Age racionalmente em relação a fins ou objetivos quando mata as mulheres só pelo dinheiro delas a fim de ter suas riquezas para sempre. Sendo este, portando um enunciado evidente de Burton sobre os determinados grupos sociais e os olhares que o constitui referente ao mundo. As obras de Tim Burton sempre buscam questionar os valores e padrões sociais presentes e amplamente reproduzidos em determinados grupos, deste modo, esses valores sociais se dão por meio dos heróis e dos vilões, sendo eles personagens desajustados, deslocados do ponto de vista da normalidade padronizada. De acordo com o pensamento bakhtiniano, toda construção enunciativa possui caráter valorativo frente a outras produções enunciativas. Isso marca a função do enunciado e colabora para a compreensão de que um estilo autoral que não se define exclusivamente como individual, ainda que seja uma parte do ato singular. O traço de singularidade não exclui a marca social que caracteriza o estilo, uma vez que o autor-criador dá forma aos conteúdos temáticos de suas obras com seus traços específicos sem estar apartado da “realidade” social. Dito isso, vale ressaltar e dizer, no mesmo sentido, no contexto da situação atual do Brasil, que a gestão governamental bolsonarista construiu uma aliança com batistas, presbiterianos, metodistas e luteranos que historicamente exerceram influência nacional. Bem, como por seu desprezo pelo povo e pela falta de logística em uma crise pandêmica, ao mesmo tempo o genocídio diário a que o país está exposto também mancha as mãos dos líderes do cristianismo hegemônico que os apoiam desde 2018. A massa bolsonarista composta por membros das igrejas e fiéis simpatizantes do mundo evangélicos seguem como fonte de apoio inabalável. Esta cultura formou uma geração entre evangélicos e cristãos cuja expressão religiosa é ancorada em chavões, como por exemplo “Jair Messias Bolsonaro”, onde o Messias apresenta um significado muito forte para os mesmos seguidores com “aquele que foi enviado por Deus para nos salvar”. Perante o exposto, no início no ano de 2019, Jair Bolsonaro, em sua conta no Twitter, republicou um vídeo do religioso dizendo que os católicos têm o direito de usar armas para sua legítima defesa e a partir disso, o Padre Edvaldo Betioli, compartilhou em suas redes sociais vídeos e mensagens do Presidente, o Padre também atacou o ex-Presidente Luis Inácio Lula da Silva de “bandido” e “apedeuta”, além dos vários ataques ofensivos ao PT. Este mesmo sacerdote, postou um vídeo do Presidente Jair Bolsonaro defendendo a cloroquina como solução para a Covid-19 e anunciando que o exército começaria a produzir esse produto em larga escala, mesmo sem nenhuma prova de sua eficácia, além de dizer que a Organização Mundial de Saúde inventou a pandemia “que deixou o mundo louco”. Além disso, Betioli elogiou os evangélicos por continuarem a realizar cultos religiosos e a manter as igrejas abertas, visto que Bolsonaro indagou que a decisão do STF sobre as igrejas é “absurda por absurdo”. Ademais, são dois dos muitos religiosos católicos conservadores, os Padres Betioli e Paulo Ricardo estando extremamente ativos nas redes sociais que atuam como porta-vozes da agenda, daí a TV católica “é poder” e anunciaram que querem estar ao seu lado do Presidente e “caminhar juntos” e “Construindo um Brasil melhor”, pois o Governo Bolsonaro trará essa divindade. O indivíduo deve tornar-se inteiramente responsável: todos os seus momentos devem não só estar lado a lado na série temporal de sua vida, mas também penetrar uns aos outros na unidade da culpa e da responsabilidade. (BAKHTIN, 2011, p. XXXIV). Figura 3: Padres pró-Bolsonaro defendem uso de armas. Fonte: https://extra.globo.com/noticias/brasil/padres-pro-bolsonaro-defendem-uso-de-armas-para-legitima-defesa-23354568.html?topico=jair-bolsonaro A obra Marxismo e filosofia da linguagem, Bakhtin (1995) propõe um signo como um produto semiótico e ideológico da realidade. Para ser semiótico, todo signo precisa de um corpo físico ou material e de uma significação, as palavras representam signos ideológicos socialmente estabelecidos enquanto forem usados, ou seja, toda criação ideológica deve ser vivida pelo discurso. Assim, para o círculo, o discurso produz uma imanência a partir da estrutura de ideologias pré-formadas, respaldadas por palavras que são verdadeiros signos de ideologia. Cada signo ideológico não é um simples reflexo da realidade, mas também seu fragmento material, de modo que o mesmo reflete e refrata a realidade de cada esfera ideológica, podendo distorcê-la, ratificá-la ou capturá-la de um ponto de vista específico, assim como o próprio discurso manipulador do Presidente Bolsonaro, além da cópia e da transmissão da massa bolsonarista. Diante desta discussão, a semelhança que temos entre o personagem Lorde Barkis em, The Corpse Bride (2005), com os religiosos mencionados acima, é de que, tradicionalmente por uma visão social instaurada é uma alegoria exemplar, que mostra uma imagem de pureza, de grandeza, bondade e paz, quando na verdade se têm o oposto, um lado hipócrita, uma personificação de ódio, de discursos e ações que menosprezam e agridem a segurança do outro. Desta forma, não só estes seguidores compactuam com a mesma linguagem do Presidente, mas também como foram postos pelo próprio governante figuras religiosas, Padres em específico, nos órgãos governamentais, como o Ministro da Justiça, André Mendonça e também o Ministro da Educação, Milton Ribeiro, os quais vão ao encontro das ordens do Presidente. Por fim, o discurso de uma imagem governamental influencia e manipula, muitas pessoas, e é de se estranhar que a maioria das entidades religiosas, que deveriam pregar a segurança e o amor ao próximo, estão ao lado de um homem que menospreza e ri da população brasileira, sendo enfim, ele mesmo o verdadeiro monstro. Figura 4: O verdadeiro monstro Fonte: https://istoe.com.br/os-23-pecados-capitais-do-governo/ Referências Bibliográficas VOLÓCHINOV, V. Marxismo e Filosofia da Linguagem. Trad. Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Editora 34, 2017. PAULA, Luciane de. Círculo de Bakhtin: uma análise dialógica de discurso. Revista de Estudos da Linguagem, v. 21, n. 1, p. 239-257, 2013. Disponível em: http://hdl.handle.net/11449/125169. Padres pró-Bolsonaro defendem uso de armas para legítima defesa, 2019. Disponível em: https://extra.globo.com/noticias/brasil/padres-pro-bolsonaro-defendem-uso-de-armas-para-legitima-defesa-23354568.html?topico=jair-bolsonaro #diálogo

  • A Distorção Do Monstro Burtoniano Em (A)Posto A Massa Bolsonarista.

    Bárbara Luqueti Tavares Vivemos em uma época de monstros, e eles estão bem à nossa frente. A princípio, pensando na significação de monstro como um conceito que nos permite uma perspectiva privilegiada sobre a sociedade humana, é inverossímil chegar em uma definição conclusiva do que é “monstro”. Pois, estes seres terríveis já não possuem necessariamente características diferentes do “normal”, sendo, portanto, associados a um conjunto de valores morais, que se sobrepõem ao aspecto físico. Tanto conceitualmente quanto relacionados aos temas abordados nas obras cinematográficas de Tim Burton, as quais estão repletas de incontáveis ​​figuras marginais e personagens estranhos. O fascinante em Burton, é a forma da criação de seu universo a partir de influências geralmente localizadas no Gótico ou do Terror, pois o mesmo dá início às criações por meio delas. A influência do diretor é usada para um propósito específico. Diante desse fato, Burton presta atenção especial aos personagens marginais e estranhos, que estão em um mundo onírico ou presos entre a realidade e a ilusão. O que de certa forma permite um maior aprofundamento nos temas essenciais em sua cinematográfica, como o grotesco, a loucura, as experiências científicas, a morte, a família e enfim, a solidão. Por conseguinte, esses personagens, que costumam ser vistos como vilões nas narrativas tradicionais, são apresentados como heróis incompreendidos. Deste modo, as obras Vincent (1982) e Frankenweenie (1984), ou criações mais recentes como Edward Scissorhands (1990), Big Fish (2003), The Corpse Bride (2005), entre outros filmes da mesma autoria, são todos considerados partes indispensáveis ​​deste mundo. Portanto, esse tipo de subversão deu um novo sentido à história, criando um espaço de integração para aqueles que estão alinhados à estrutura marginal da sociedade e que são incompreendidos por suas diferenças. Cada herói chega a ser uma voz-postura em um diálogo inacabado (Dostoiévski, Um pequeno herói, 1996, p. 367). O mundo concebido assim se modela em visões do mundo materializadas nas vozes (Dostoiévski, Um pequeno herói,1996, p. 354). Existe, por parte do realizador, um investimento estético e emocional nestas figuras em que, ao invés das habituais histórias de Horror, é notório as histórias sobre honestidade, abertura, integridade e a força da criatividade. Sendo assim, por outro lado, os mocinhos postos nas narrativas pela visão tradicional, são apresentados como vilões, que enganam e são saciados pelo desejo de ganância e de deturpação. Em vista dos fatos mencionados acima, o filme The Corpse Bride (2005), baseado em uma história russo-judaico do século XIX com a Inglaterra vitoriana fictícia como plano de fundo. Figura 1: The Corpse Bride (2005) – Lorde Barkis bebendo veneno. Fonte: https://aminoapps.com/c/walkersbramino/page/item/corpse-bride/1xJB_PsrIderrGmNLrMKZWN4k4eW8w4a8 O filme conta a história de Victor Van Dort, um jovem filho de novos-ricos comerciante de peixes, destinado a casar-se com com Victoria Everglot, filha de nobres falidos, em uma pequena aldeia europeia. Este casamento é desejado por ambos os pais, em razão do aumento do status dos pais de Victor na sociedade, e também na recuperação de um status grandioso dos pais de Victoria, os quais poderão usar o dote de sua filha para recuperar a glória da família. Durante o filme, Victor acaba interrompendo o ensaio do casamento devido à tensão, o que o levou a tentar repetir seus votos sozinho na floresta. Sem sucesso, ele repetiu sua promessa uma última vez, e o resultado foi perfeito. Contudo, ao repetir os votos acaba colocando a aliança no que parece ser um velho galho em forma de mão, que na verdade é o braço esquelético de Emily, uma noiva que foi assassinada quando tentou fugir com seu grande amor, tornando-se, portanto, a noiva cadáver. Victor e Emily vão para o mundo dos mortos, pois a mesma está convencida de que encontrou um novo amor e de que ficou noiva. Entretanto, na terra dos vivos, acreditavam que Victor tinha fugido da cidade com intenção de não se casar, diante do ocorrido, os pais de Victoria obrigam a jovem a se casar com Lorde Barkis. No final do filme durante a cerimônia de casamento, Victor encontra-se de novo com Victoria, acabando por ficar com esta. Lorde Barkis, um estranho enriquecido por ter matado Emily, a noiva cadáver, quando viva, ficando então com o seu dinheiro. Após o Lord ter sido desmascarado, morre bebendo o veneno destinado a Victor, confundindo-o com vinho. Emily aceita que Victor fique com Victoria e está finalmente fica em paz após terem descoberto quem era o seu assassino. Figura 2: The Corpse Bride (2005) – Lorde Barkis bebendo veneno. Fonte: https://aminoapps.com/c/walkersbramino/page/item/corpse-bride/1xJB_PsrIderrGmNLrMKZWN4k4eW8w4a8 Sendo assim, centralizando o personagem Lord Barkis, sendo visto tradicionalmente como um lorde, uma imagem de homem rico e admirado, perante a todos, contudo, este homem é um golpista que se casa, mata suas mulheres e rouba o dinheiro delas para viver de maneira luxuosa, não se esforçando e roubando daqueles que trabalham arduamente. Fez isso com Emily e tentou com Victoria, mas foi morto ao tomar veneno achando que era vinho. Age racionalmente em relação a fins ou objetivos quando mata as mulheres só pelo dinheiro delas a fim de ter suas riquezas para sempre. Sendo este, portando um enunciado evidente de Burton sobre os determinados grupos sociais e os olhares que o constitui referente ao mundo. As obras de Tim Burton sempre buscam questionar os valores e padrões sociais presentes e amplamente reproduzidos em determinados grupos, deste modo, esses valores sociais se dão por meio dos heróis e dos vilões, sendo eles personagens desajustados, deslocados do ponto de vista da normalidade padronizada. De acordo com o pensamento bakhtiniano, toda construção enunciativa possui caráter valorativo frente a outras produções enunciativas. Isso marca a função do enunciado e colabora para a compreensão de que um estilo autoral que não se define exclusivamente como individual, ainda que seja uma parte do ato singular. O traço de singularidade não exclui a marca social que caracteriza o estilo, uma vez que o autor-criador dá forma aos conteúdos temáticos de suas obras com seus traços específicos sem estar apartado da “realidade” social. Dito isso, vale ressaltar e dizer, no mesmo sentido, no contexto da situação atual do Brasil, que a gestão governamental bolsonarista construiu uma aliança com batistas, presbiterianos, metodistas e luteranos que historicamente exerceram influência nacional. Bem, como por seu desprezo pelo povo e pela falta de logística em uma crise pandêmica, ao mesmo tempo o genocídio diário a que o país está exposto também mancha as mãos dos líderes do cristianismo hegemônico que os apoiam desde 2018. A massa bolsonarista composta por membros das igrejas e fiéis simpatizantes do mundo evangélicos seguem como fonte de apoio inabalável. Esta cultura formou uma geração entre evangélicos e cristãos cuja expressão religiosa é ancorada em chavões, como por exemplo “Jair Messias Bolsonaro”, onde o Messias apresenta um significado muito forte para os mesmos seguidores com “aquele que foi enviado por Deus para nos salvar”. Perante o exposto, no início no ano de 2019, Jair Bolsonaro, em sua conta no Twitter, republicou um vídeo do religioso dizendo que os católicos têm o direito de usar armas para sua legítima defesa e a partir disso, o Padre Edvaldo Betioli, compartilhou em suas redes sociais vídeos e mensagens do Presidente, o Padre também atacou o ex-Presidente Luis Inácio Lula da Silva de “bandido” e “apedeuta”, além dos vários ataques ofensivos ao PT. Este mesmo sacerdote, postou um vídeo do Presidente Jair Bolsonaro defendendo a cloroquina como solução para a Covid-19 e anunciando que o exército começaria a produzir esse produto em larga escala, mesmo sem nenhuma prova de sua eficácia, além de dizer que a Organização Mundial de Saúde inventou a pandemia “que deixou o mundo louco”. Além disso, Betioli elogiou os evangélicos por continuarem a realizar cultos religiosos e a manter as igrejas abertas, visto que Bolsonaro indagou que a decisão do STF sobre as igrejas é “absurda por absurdo”. Ademais, são dois dos muitos religiosos católicos conservadores, os Padres Betioli e Paulo Ricardo estando extremamente ativos nas redes sociais que atuam como porta-vozes da agenda, daí a TV católica “é poder” e anunciaram que querem estar ao seu lado do Presidente e “caminhar juntos” e “Construindo um Brasil melhor”, pois o Governo Bolsonaro trará essa divindade. O indivíduo deve tornar-se inteiramente responsável: todos os seus momentos devem não só estar lado a lado na série temporal de sua vida, mas também penetrar uns aos outros na unidade da culpa e da responsabilidade. (BAKHTIN, 2011, p. XXXIV). Figura 3: Padres pró-Bolsonaro defendem uso de armas. Fonte: https://extra.globo.com/noticias/brasil/padres-pro-bolsonaro-defendem-uso-de-armas-para-legitima-defesa-23354568.html?topico=jair-bolsonaro A obra Marxismo e filosofia da linguagem, Bakhtin (1995) propõe um signo como um produto semiótico e ideológico da realidade. Para ser semiótico, todo signo precisa de um corpo físico ou material e de uma significação, as palavras representam signos ideológicos socialmente estabelecidos enquanto forem usados, ou seja, toda criação ideológica deve ser vivida pelo discurso. Assim, para o círculo, o discurso produz uma imanência a partir da estrutura de ideologias pré-formadas, respaldadas por palavras que são verdadeiros signos de ideologia. Cada signo ideológico não é um simples reflexo da realidade, mas também seu fragmento material, de modo que o mesmo reflete e refrata a realidade de cada esfera ideológica, podendo distorcê-la, ratificá-la ou capturá-la de um ponto de vista específico, assim como o próprio discurso manipulador do Presidente Bolsonaro, além da cópia e da transmissão da massa bolsonarista. Diante desta discussão, a semelhança que temos entre o personagem Lorde Barkis em, The Corpse Bride (2005), com os religiosos mencionados acima, é de que, tradicionalmente por uma visão social instaurada é uma alegoria exemplar, que mostra uma imagem de pureza, de grandeza, bondade e paz, quando na verdade se têm o oposto, um lado hipócrita, uma personificação de ódio, de discursos e ações que menosprezam e agridem a segurança do outro. Desta forma, não só estes seguidores compactuam com a mesma linguagem do Presidente, mas também como foram postos pelo próprio governante figuras religiosas, Padres em específico, nos órgãos governamentais, como o Ministro da Justiça, André Mendonça e também o Ministro da Educação, Milton Ribeiro, os quais vão ao encontro das ordens do Presidente. Por fim, o discurso de uma imagem governamental influencia e manipula, muitas pessoas, e é de se estranhar que a maioria das entidades religiosas, que deveriam pregar a segurança e o amor ao próximo, estão ao lado de um homem que menospreza e ri da população brasileira, sendo enfim, ele mesmo o verdadeiro monstro. Figura 4: O verdadeiro monstro Fonte: https://istoe.com.br/os-23-pecados-capitais-do-governo/ Referências Bibliográficas VOLÓCHINOV, V. Marxismo e Filosofia da Linguagem. Trad. Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Editora 34, 2017. PAULA, Luciane de. Círculo de Bakhtin: uma análise dialógica de discurso. Revista de Estudos da Linguagem, v. 21, n. 1, p. 239-257, 2013. Disponível em: http://hdl.handle.net/11449/125169. Padres pró-Bolsonaro defendem uso de armas para legítima defesa, 2019. Disponível em: https://extra.globo.com/noticias/brasil/padres-pro-bolsonaro-defendem-uso-de-armas-para-legitima-defesa-23354568.html?topico=jair-bolsonaro #diálogo

  • A Re-Descoberta de Sollertinsky: Um Movimento Artístico e Crítico de Contra Tendência

    Vinicius Fernandes do Carmo O vigente vem como exposto do que se tratará, sob glosa, em o XV I CED (Colóquio de Estudos Discursivos), organizado pela Prof.ª Dra. Luciane de Paula e regido pelo pesquisador Dr. Samuel Manzoni, por uma coligação entre a Universidade Estadual Paulista “Júlio Mesquita Filho” (UNESP) e a Universidade de Zurique, o qual se nomeara como “Re-Discovery Sollertinsky”, aos 15 (quinze) dias de julho do ano de 2021 (dois mil e vinte e um), transmitido pela plataforma YouTube e acessível pelo link https://youtu.be/dT8o5WfSgr4. Partindo de um ponto que lhe aproxima como pesquisador, Samuel Manzoni traz à baila perspectivas da musicologia ocidental enquanto importantíssimas para a reflexão comuta de autores outros que aqueles prestigiosamente quistos. Tendencialmente, na Europa, onde vive, fala-se sempre negativamente daquilo que foi e ainda se reflete hoje como a União Soviética, uma vez abordada de forma generalizada; tende-se a definir por pontos fabulares ou exotéricos o que fora, principalmente, a arte produzida no dado território. Segundo Mazoni, tal abordagem configura-se como uma análise crítica errônea, uma vez que descarta diversos fatores consideráveis. Dessa forma, o pesquisador serve-se, por contra tendência, de autores como Šostakovič e Sollertinsky, pois é, justamente, no interior desses que se encontram aspectos peculiares da cultura soviética nunca antes tão exploradas, mas de grande teor reflexivo para as teorias musicológicas e de quebra paradigmática de um estereótipo ainda muito disseminado na análise crítica perspectivamente ocidental. A partir dessa linha, ocupa-se por 13 anos de avaliar, ainda pelos textos originais aos quais teve acesso, a vida e obra de Sollertinsky, estruturando um volume onde são reunidos uma dezena de seus principais ensaios para o teor da discussão. No interior do mesmo, procura oferecer um quadro sobre a figura do compositor que, por mais quer morto cedo, aos 41 anos, criara, além de uma vasta composição musical, intervenções críticas diversas através da escrita onde conseguira reunir todas as artes, principalmente a música; cerca de 256 ensaios. Portanto, com uma vasta produção de tamanho a qual nenhum pesquisador sonharia sequer em compor, a importância do autor para a compreensão das produções e, logo, mundo soviético outro àquele generalizado pelo pensamento tendencioso ocidental é inegável. Na realidade, é justamente ao analisar suas diversas faces que é possível perceber suas relações com outras figuras que lhe comporiam como aquilo que foi e é. Conforme dado, estabelece, em seu eixo composicional, uma forte relação com Šostakovič e, em aquele crítico, Bakhtin. O ponto de encontro entre tais pensadores soviéticos traz um fator peculiar à análise crítica das diversas produções. A preocupação musical que apresenta Sollertinsky, por exemplo, por não somente uma perspectiva sígnica partida do nível verbal, mas principalmente por aquele sinfônico, que se manifesta pelo arranjo harmônico dos sons produzidos pelos instrumentos, demonstra, além de uma forte relação com os pensamentos bakhtinianos, um grande avanço nos estudos discursivos, principalmente aquele realizado através da música. Buscando definir aquilo que se tratava de um eixo somente sinfônico e, por extensão, acústico não verbal (não acompanhada de letra cantada por voz), o compositor consegue isolar seu objeto para uma mais precisa análise, o que mais avante, em contato com as mais diversas manifestações artísticas, repetem-se por forma. Sua abordagem, assim, também não foge daquilo que fora a intenção soviética da época: recolher toda cultura passada e tradicional e tentar superá-la por melhor, antes que se embrione em algo culturalmente irreversível. A partir dos pontos em comum entre tais pensadores críticos soviéticos, Sollertinsky demonstra grande interesse na repartição circular que faz Bakhtin, mas, por mais que saindo do círculo, carrega toda sua influência e reparte, ainda preocupado com as noções de compreensão dos dados níveis supracitados, sua metodologia em eixos que partem de um ponto muito comum àquele inspirado pela linha bakhtiniana. Dessa forma, é carregada uma grande importância de estudo comuto entre tais pensadores, justamente, em percepção de um método dialético-dialógico que os movimenta através dessas faces. Criando uma tripartição por fases, Sollertinsky tenta compreender, sob a perspectiva de todas, os diversos extratos manifestados pelas produções as quais estudava. Sai de uma dicotômica primeira fase entre o que se traz como o “épico” (a narração, no caso, heroica, centralizada em uma tradição, principalmente lendária) e o “cognitivo” (como se é entendido a dada face narrativa). Desse ponto, vai para um segundo onde se aborda, já, uma preocupação mais externa à produção: dada uma entre os próprios ditos “ética” (movimentos, principalmente, sociais que interferem na natureza não só própria da vigente, mas comum entre as demais; morais e dialógicas) e “percepção” (movimento externo, mas, neste momento, pessoal daqueles presos pela consciência ditada pela ética). Todos os pontos abordados, junto àqueles históricos, são riquíssimos para uma compreensão não somente das noções apresentadas por Sollertinsky, mas, como visto, todo um pensamento soviético sincrônico que, de grande modo, influencia toda a diacronia de produção artística definida por além de tais limites. Assim, dar-se-ão reflexões Marxistas, Shakespearianas, Akmimovista, de Šostakovič, de Bakhtin ou mesmo de Dostoievski, como mesmo aponta Manzoni em toda sua mais aplicada fala. Preocupações que refletem até hoje pontos essenciais e previstos por tais teóricos: sinfonia que significa, percepta, narra e suporta toda uma carga externa também social tanto quanto outras modalidades artísticas e, inclusive, verbal; uma manifestação verbivocovisual. Aliás, os pontos em comuns entre tais autores soviéticos não morrem no interior da dada teoria. Na realidade, circula em todo seu contexto: a forma que são tratados tais autores (por uma perspectiva predominantemente ocidental) demonstra não só um tratamento errôneo em sua abordagem crítica, mas uma estrutura de preconceito estabelecida sobre o que foi e o que ainda se reflete hoje a dada União Soviética e, por extensão, suas produções. Portanto, cabendo a nós, não só os estudiosos, mas também os apreciadores de dadas manifestações artísticas, fugir, através de uma contra tendência, dos pontos de vistas que nos impedem de descobrir mundos novos acerca de pontos jamais pensados, mas, quando finalmente, enriquecedores à teoria e à própria produção. Ademais, ao próprio interno dessas é possível percebermos a dialogia entre as diversas vozes e, assim suas influências que, por mais que negadas, vêm-nos em muita importância de aprofundamento. #cículobmvsollertínsk

  • A Re-Descoberta de Sollertinsky: Um Movimento Artístico e Crítico de Contra Tendência

    Vinicius Fernandes do Carmo O vigente vem como exposto do que se tratará, sob glosa, em o XV I CED (Colóquio de Estudos Discursivos), organizado pela Prof.ª Dra. Luciane de Paula e regido pelo pesquisador Dr. Samuel Manzoni, por uma coligação entre a Universidade Estadual Paulista “Júlio Mesquita Filho” (UNESP) e a Universidade de Zurique, o qual se nomeara como “Re-Discovery Sollertinsky”, aos 15 (quinze) dias de julho do ano de 2021 (dois mil e vinte e um), transmitido pela plataforma YouTube e acessível pelo link https://youtu.be/dT8o5WfSgr4. Partindo de um ponto que lhe aproxima como pesquisador, Samuel Manzoni traz à baila perspectivas da musicologia ocidental enquanto importantíssimas para a reflexão comuta de autores outros que aqueles prestigiosamente quistos. Tendencialmente, na Europa, onde vive, fala-se sempre negativamente daquilo que foi e ainda se reflete hoje como a União Soviética, uma vez abordada de forma generalizada; tende-se a definir por pontos fabulares ou exotéricos o que fora, principalmente, a arte produzida no dado território. Segundo Mazoni, tal abordagem configura-se como uma análise crítica errônea, uma vez que descarta diversos fatores consideráveis. Dessa forma, o pesquisador serve-se, por contra tendência, de autores como Šostakovič e Sollertinsky, pois é, justamente, no interior desses que se encontram aspectos peculiares da cultura soviética nunca antes tão exploradas, mas de grande teor reflexivo para as teorias musicológicas e de quebra paradigmática de um estereótipo ainda muito disseminado na análise crítica perspectivamente ocidental. A partir dessa linha, ocupa-se por 13 anos de avaliar, ainda pelos textos originais aos quais teve acesso, a vida e obra de Sollertinsky, estruturando um volume onde são reunidos uma dezena de seus principais ensaios para o teor da discussão. No interior do mesmo, procura oferecer um quadro sobre a figura do compositor que, por mais quer morto cedo, aos 41 anos, criara, além de uma vasta composição musical, intervenções críticas diversas através da escrita onde conseguira reunir todas as artes, principalmente a música; cerca de 256 ensaios. Portanto, com uma vasta produção de tamanho a qual nenhum pesquisador sonharia sequer em compor, a importância do autor para a compreensão das produções e, logo, mundo soviético outro àquele generalizado pelo pensamento tendencioso ocidental é inegável. Na realidade, é justamente ao analisar suas diversas faces que é possível perceber suas relações com outras figuras que lhe comporiam como aquilo que foi e é. Conforme dado, estabelece, em seu eixo composicional, uma forte relação com Šostakovič e, em aquele crítico, Bakhtin. O ponto de encontro entre tais pensadores soviéticos traz um fator peculiar à análise crítica das diversas produções. A preocupação musical que apresenta Sollertinsky, por exemplo, por não somente uma perspectiva sígnica partida do nível verbal, mas principalmente por aquele sinfônico, que se manifesta pelo arranjo harmônico dos sons produzidos pelos instrumentos, demonstra, além de uma forte relação com os pensamentos bakhtinianos, um grande avanço nos estudos discursivos, principalmente aquele realizado através da música. Buscando definir aquilo que se tratava de um eixo somente sinfônico e, por extensão, acústico não verbal (não acompanhada de letra cantada por voz), o compositor consegue isolar seu objeto para uma mais precisa análise, o que mais avante, em contato com as mais diversas manifestações artísticas, repetem-se por forma. Sua abordagem, assim, também não foge daquilo que fora a intenção soviética da época: recolher toda cultura passada e tradicional e tentar superá-la por melhor, antes que se embrione em algo culturalmente irreversível. A partir dos pontos em comum entre tais pensadores críticos soviéticos, Sollertinsky demonstra grande interesse na repartição circular que faz Bakhtin, mas, por mais que saindo do círculo, carrega toda sua influência e reparte, ainda preocupado com as noções de compreensão dos dados níveis supracitados, sua metodologia em eixos que partem de um ponto muito comum àquele inspirado pela linha bakhtiniana. Dessa forma, é carregada uma grande importância de estudo comuto entre tais pensadores, justamente, em percepção de um método dialético-dialógico que os movimenta através dessas faces. Criando uma tripartição por fases, Sollertinsky tenta compreender, sob a perspectiva de todas, os diversos extratos manifestados pelas produções as quais estudava. Sai de uma dicotômica primeira fase entre o que se traz como o “épico” (a narração, no caso, heroica, centralizada em uma tradição, principalmente lendária) e o “cognitivo” (como se é entendido a dada face narrativa). Desse ponto, vai para um segundo onde se aborda, já, uma preocupação mais externa à produção: dada uma entre os próprios ditos “ética” (movimentos, principalmente, sociais que interferem na natureza não só própria da vigente, mas comum entre as demais; morais e dialógicas) e “percepção” (movimento externo, mas, neste momento, pessoal daqueles presos pela consciência ditada pela ética). Todos os pontos abordados, junto àqueles históricos, são riquíssimos para uma compreensão não somente das noções apresentadas por Sollertinsky, mas, como visto, todo um pensamento soviético sincrônico que, de grande modo, influencia toda a diacronia de produção artística definida por além de tais limites. Assim, dar-se-ão reflexões Marxistas, Shakespearianas, Akmimovista, de Šostakovič, de Bakhtin ou mesmo de Dostoievski, como mesmo aponta Manzoni em toda sua mais aplicada fala. Preocupações que refletem até hoje pontos essenciais e previstos por tais teóricos: sinfonia que significa, percepta, narra e suporta toda uma carga externa também social tanto quanto outras modalidades artísticas e, inclusive, verbal; uma manifestação verbivocovisual. Aliás, os pontos em comuns entre tais autores soviéticos não morrem no interior da dada teoria. Na realidade, circula em todo seu contexto: a forma que são tratados tais autores (por uma perspectiva predominantemente ocidental) demonstra não só um tratamento errôneo em sua abordagem crítica, mas uma estrutura de preconceito estabelecida sobre o que foi e o que ainda se reflete hoje a dada União Soviética e, por extensão, suas produções. Portanto, cabendo a nós, não só os estudiosos, mas também os apreciadores de dadas manifestações artísticas, fugir, através de uma contra tendência, dos pontos de vistas que nos impedem de descobrir mundos novos acerca de pontos jamais pensados, mas, quando finalmente, enriquecedores à teoria e à própria produção. Ademais, ao próprio interno dessas é possível percebermos a dialogia entre as diversas vozes e, assim suas influências que, por mais que negadas, vêm-nos em muita importância de aprofundamento. #cículobmvsollertínsk

  • O USO DE ATAQUES MACHISTAS PARA O SILENCIAMENTO DAS VOZES DAS MULHERES

    Carolina Gomes Sant’ana No dia 11 de fevereiro de 2020, o deputado estadual bolsonarista André Fernandes (Republicanos-CE) postou em sua conta do twitter: “Se você acha que está na pior, lembre-se da jornalista do Folha de SP que oferece sexo em troca de alguma matéria para prejudicar Jair Bolsonaro. Depois de hoje, vai chover falsos informantes pra cima desta senhora. Força, coragem e dedicação Patrícia, você vai precisar!”. Referia-se à jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S. Paulo. Todavia, em julho de 2021, ele foi condenado a pagar indenização à vítima de R$ 50 mil. Entretanto, apesar de ser um caso em que o réu não passa impune (pelo menos legalmente, já que o deputado continua em seu cargo e o caso parece não ter repercutido mais do que isso), o uso de ataques machistas como forma de silenciamento da mulher continua sendo uma prática social comum, ainda mais no atual contexto do Brasil bolsonarista, que vive por uma onda de crescimento da extrema-direita conservadora. Esta forma de ridicularização da mulher, como forma de desvalorização e silenciamento de sua voz pode ser observada com qualquer mulher que atinge uma posição alta em seu trabalho. Se continuarmos na esfera política podemos observar como Dilma Rousseff (PT), enquanto ocupava cargo de presidente do Brasil, era representada por aqueles contrários ao seu governo, de formas pejorativas, em ataque a sua honra como indivíduo, não governante. Podiam ser vistos adesivos e imagens que a representavam de pernas abertas na entrada de combustível de carros [1], além de receber ataques verbais, chamando-a de vadia, louca, etc. A mulher considerada como “vadia” dentro do patriarcado, é vista como fraca, e digna de desprezo e exclusão social (BEAUVOIR). Mesmo mulheres que assumem posicionamento axiológico semelhante, associando-se à direita conservadora, como a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP), é vítima de ataques, como comparações a uma porca [2]. A questão da honra do homem é vista como superior, a ponto que o assassinato de uma mulher em legítima defesa da honra do homem era permitido, e em 2016 um homem foi absolvido do assassinato de sua ex-companheira com tal justificativa em Minas Gerais, e em 2020 o STF acatou essa absolvição. O ato (de feminicídio em legítima defesa da honra) só foi proibido em março de 2021. Mesmo que, com o decorrer do tempo e com muitas lutas, ela tenha conquistado direitos perante à lei, que lhe possibilitam mais independência e liberdade do homem, ela ainda é vista socialmente como sujeito inferior e secundário (BEAUVOIR), dentro de um sistema que aceita uma ideologia que atua em detrimento à ela. Beauvoir (1980, p.663) ainda afirma: “A mulher que se liberta economicamente do homem nem por isso alcança uma situação moral, social e psicológica idêntica à dele.” Segundo Saffioti, mudanças sociais devem acontecer junto com mudanças legislativas, já que, por mais que estas sejam importantes, enquanto perdurarem discriminações perpetuadas pelas ideologias dominantes, aqueles sujeitos prejudicados pelo sistema continuarão sofrendo, já que, aqueles que aplicam as leis, podem optar por ignorar denúncias de vítimas de discriminação. Assim, observamos como este embate entre ideologias patriarcais (vinda da classe dominante, no caso homens, principalmente brancos e héteros, que impõe a dominação das mulheres, colocando-as em papéis de inferiores e subservientes) e subversivas feministas (que propõe igualdade e empoderamento para as mulheres) se dão no cotidiano, através do discurso, da linguagem. Para Volóchinov: Todo sistema de normas sociais encontra-se em posição análoga. Ele existe apenas em relação à consciência subjetiva dos indivíduos que pertencem a uma dada coletividade, direcionada por certas normas. O mesmo pode ser dito sobre o sistema de normas morais, jurídicas, do gosto estético […], etc. (2018, p. 175) Entendemos então que estas ideologias, como construções sociais, existem decorrentes de uma sociedade organizada e capaz de comunicação. Portanto, uma ideologia não é inata, natural e pode mudar com o tempo. Cabe ao sujeito, como indivíduo que é responsável pelos seus atos e que ocupa lugar único na existência (VOLÓCHINOV) tomar consciência das ideologias que os rodeiam para que possa agir de forma ética perante à elas, já que: Ninguém pode ocupar uma posição neutra em relação a mim e ao outro; o ponto de vista abstrato-cognitivo carece de um enfoque axiológico, a diretriz axiológica necessita de que ocupemos uma posição singular no acontecimento único da existência, de que nos encarnemos. Todo juízo de valor é sempre uma tomada de posição individual na existência; até Deus precisou encarnar-se para amar, sofrer e perdoar, teve, por assim dizer, de abandonar o ponto de vista abstrato sobre a justiça. (VOLÓCHINOV, 2018, p. 117) [1] Imagem disponível em: Acesso em: 01 de ago. de 2021. [2] Imagem disponível em: Acesso em: 01 de ago. de 2021. REFERÊNCIAS BEAUVOIR, S. O segundo Sexo: Fatos e Mitos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980a. BEAUVOIR, S. O Segundo Sexo: A Experiência Vivida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980b. CASTRO, R. Deputado bolsonarista é condenado a indenizar jornalista em R$ 50 mil por ataques machistas. O Globo. Disponível em: Acesso em: 01 de ago. de 2021. SAFFIOTI, H. I. B. O poder do macho. São Paulo: Moderna, 1987. VOLÓCHINOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem. Rio de Janeiro: 34, 2018.

  • O USO DE ATAQUES MACHISTAS PARA O SILENCIAMENTO DAS VOZES DAS MULHERES

    Carolina Gomes Sant’ana No dia 11 de fevereiro de 2020, o deputado estadual bolsonarista André Fernandes (Republicanos-CE) postou em sua conta do twitter: “Se você acha que está na pior, lembre-se da jornalista do Folha de SP que oferece sexo em troca de alguma matéria para prejudicar Jair Bolsonaro. Depois de hoje, vai chover falsos informantes pra cima desta senhora. Força, coragem e dedicação Patrícia, você vai precisar!”. Referia-se à jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S. Paulo. Todavia, em julho de 2021, ele foi condenado a pagar indenização à vítima de R$ 50 mil. Entretanto, apesar de ser um caso em que o réu não passa impune (pelo menos legalmente, já que o deputado continua em seu cargo e o caso parece não ter repercutido mais do que isso), o uso de ataques machistas como forma de silenciamento da mulher continua sendo uma prática social comum, ainda mais no atual contexto do Brasil bolsonarista, que vive por uma onda de crescimento da extrema-direita conservadora. Esta forma de ridicularização da mulher, como forma de desvalorização e silenciamento de sua voz pode ser observada com qualquer mulher que atinge uma posição alta em seu trabalho. Se continuarmos na esfera política podemos observar como Dilma Rousseff (PT), enquanto ocupava cargo de presidente do Brasil, era representada por aqueles contrários ao seu governo, de formas pejorativas, em ataque a sua honra como indivíduo, não governante. Podiam ser vistos adesivos e imagens que a representavam de pernas abertas na entrada de combustível de carros [1], além de receber ataques verbais, chamando-a de vadia, louca, etc. A mulher considerada como “vadia” dentro do patriarcado, é vista como fraca, e digna de desprezo e exclusão social (BEAUVOIR). Mesmo mulheres que assumem posicionamento axiológico semelhante, associando-se à direita conservadora, como a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP), é vítima de ataques, como comparações a uma porca [2]. A questão da honra do homem é vista como superior, a ponto que o assassinato de uma mulher em legítima defesa da honra do homem era permitido, e em 2016 um homem foi absolvido do assassinato de sua ex-companheira com tal justificativa em Minas Gerais, e em 2020 o STF acatou essa absolvição. O ato (de feminicídio em legítima defesa da honra) só foi proibido em março de 2021. Mesmo que, com o decorrer do tempo e com muitas lutas, ela tenha conquistado direitos perante à lei, que lhe possibilitam mais independência e liberdade do homem, ela ainda é vista socialmente como sujeito inferior e secundário (BEAUVOIR), dentro de um sistema que aceita uma ideologia que atua em detrimento à ela. Beauvoir (1980, p.663) ainda afirma: “A mulher que se liberta economicamente do homem nem por isso alcança uma situação moral, social e psicológica idêntica à dele.” Segundo Saffioti, mudanças sociais devem acontecer junto com mudanças legislativas, já que, por mais que estas sejam importantes, enquanto perdurarem discriminações perpetuadas pelas ideologias dominantes, aqueles sujeitos prejudicados pelo sistema continuarão sofrendo, já que, aqueles que aplicam as leis, podem optar por ignorar denúncias de vítimas de discriminação. Assim, observamos como este embate entre ideologias patriarcais (vinda da classe dominante, no caso homens, principalmente brancos e héteros, que impõe a dominação das mulheres, colocando-as em papéis de inferiores e subservientes) e subversivas feministas (que propõe igualdade e empoderamento para as mulheres) se dão no cotidiano, através do discurso, da linguagem. Para Volóchinov: Todo sistema de normas sociais encontra-se em posição análoga. Ele existe apenas em relação à consciência subjetiva dos indivíduos que pertencem a uma dada coletividade, direcionada por certas normas. O mesmo pode ser dito sobre o sistema de normas morais, jurídicas, do gosto estético […], etc. (2018, p. 175) Entendemos então que estas ideologias, como construções sociais, existem decorrentes de uma sociedade organizada e capaz de comunicação. Portanto, uma ideologia não é inata, natural e pode mudar com o tempo. Cabe ao sujeito, como indivíduo que é responsável pelos seus atos e que ocupa lugar único na existência (VOLÓCHINOV) tomar consciência das ideologias que os rodeiam para que possa agir de forma ética perante à elas, já que: Ninguém pode ocupar uma posição neutra em relação a mim e ao outro; o ponto de vista abstrato-cognitivo carece de um enfoque axiológico, a diretriz axiológica necessita de que ocupemos uma posição singular no acontecimento único da existência, de que nos encarnemos. Todo juízo de valor é sempre uma tomada de posição individual na existência; até Deus precisou encarnar-se para amar, sofrer e perdoar, teve, por assim dizer, de abandonar o ponto de vista abstrato sobre a justiça. (VOLÓCHINOV, 2018, p. 117) [1] Imagem disponível em: Acesso em: 01 de ago. de 2021. [2] Imagem disponível em: Acesso em: 01 de ago. de 2021. REFERÊNCIAS BEAUVOIR, S. O segundo Sexo: Fatos e Mitos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980a. BEAUVOIR, S. O Segundo Sexo: A Experiência Vivida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980b. CASTRO, R. Deputado bolsonarista é condenado a indenizar jornalista em R$ 50 mil por ataques machistas. O Globo. Disponível em: Acesso em: 01 de ago. de 2021. SAFFIOTI, H. I. B. O poder do macho. São Paulo: Moderna, 1987. VOLÓCHINOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem. Rio de Janeiro: 34, 2018.

  • AS MAIS OUVIDAS NO BRASIL – CANÇÃO, SENTIDOS E MERCADO

    Fábio Augusto Alves de Oliveira Dados1 apontam para o crescimento do forró em rankings de streaming no Brasil. Segundo análise do G1, o sertanejo lidera as paradas, mas perde espaço para o forró nos últimos anos. Nesse estilo, destacam-se, entre outros, Os Barões da Pisadinha, duo musical mais tocado no primeiro semestre de 2021. Tendo em vista, então, esse crescimento, faço alguns apontamentos sobre a letra da canção Recairei2 interpretada pela dupla citada, discutindo o processo de superação amorosa. A presença em mais ouvidos, reproduzidos e tocados é importante, em sentido discursivo, para avaliar, analisar, estudar e compreender o que circula nas canções como valor, sentido e mercado. Pensando com o Círculo, é possível dizer que o enunciado, a canção, é repleto de significação que circula socialmente e se relaciona com outras canções e, mais amplamente, com produções diversas, na arte e fora dela. Com o princípio de que a palavra, o enunciado e a linguagem são sociais e ideológicos, cada produção artística está inserida em determinado espaço-tempo e produz sentidos, a partir de um projeto de dizer. Nesse caso, uma canção muito escutada, cujo autor é largamente reproduzido, demarca uma série de respostas na comunicação social, porque determina quais narrativas, estilos, vozes e construções vendem e se tornam “sucesso”. O canal oficial3 da dupla possui cerca de 4,9 milhões de inscrição, e o vídeo de Recairei (ao vivo), 330 milhões de visualização, um dos mais vistos do canal. São números que, novamente, atestam grande circulação e popularidade, fator que explica a escolha e a relevância da discussão em torno dessa canção, estilo e autores. Recairei trata de um sujeito em estado de superação amorosa, tema presente em demais estilos e em momentos históricos variados da canção brasileira. A narrativa aborda uma certeza de superação em contraste com uma condição de volta. Se pensarmos com o Círculo, que compreende o sujeito constituído pelas relações que mantém com os “outros”, via alteridade, portanto, é possível dizer que na canção o “você” constitui o “eu” como ser em processo de superação e vice-versa. De início, na canção, há uma demarcação temporal de distância entre o “eu” que supera e o “você” a ser superado. A forma na língua (“estar limpo”) escolhida para tanto expressa um valor: estar próximo e ter contato com “você” significa estar não-limpo/sujo (negativo), caracterizando, assim, esse processo e os sujeitos envolvidos. Os versos seguintes da letra mostram práticas superadas, como “olhar histories”, sentir saudades e afins. A distância descrita (uma semana) se concretiza em tais práticas, que implicam determinada memória da relação. Fator relevante é a presença de redes sociais nesse processo de superação, certeza e distanciamento. “Histories” e “curtidas” são recursos oriundos de espaços digitais, que também demarcam e caracterizam como o sofrimento e a superação ocorrem. Da mesma forma, a “mensagem” significa essa presença de tecnologias digitais em relações e processos amorosos. Nesse caso, são formas de contato entre o “eu” que supera e o “você” superado. O tempo e o modo verbal (superei) expressam algo concluído e feito no passado, reforçado também com o advérbio temporal “já”. Essas construções de língua afirmam uma posição do sujeito de superação completa. Nos versos seguintes, há outro reforço: a repetição e a “certeza”. Porém, essa assertividade é tensionada por uma condição: o envio, outra vez, de mensagem. O “mas” é responsável por fazer essa tensão, pois expressa um sentido adversativo e causa instabilidade na certeza da superação. A superação, pois, fica à mercê da condição da “mensagem”. Outra vez e o próprio sentido de recair revelam acontecimentos anteriores. Com isso, é possível pensar em um processo de superação – contato – recaída, tendo em vista o tempo de distância (uma semana) e a possibilidade de outra vez. Assim, na canção, não se trata de um estado estável de superação, mas instável e tenso, marcado por aspectos adversativos e condicionais, no qual há a negação do “outro”. De acordo com Volóchinov (2017), todo enunciado é orientado, significa e avalia socialmente. Recairei, desse modo, está em interação com outros enunciados e sujeitos, construindo valor e significações sobre o processo de superação, a partir de uma construção específica de língua4 (instrumentos, vocais e procedimentos musicais etc.). A grande circulação dessa canção revela que e como a narrativa de superação vende e é consumida no Brasil, produzindo respostas e sentidos variados na esfera artística, na jornalística, na científica e afins. [1] Disponível em: ‘Batom de cereja’, de Israel e Rodolffo, é o maior hit do 1º semestre do Brasil em streaming | Música | G1 (globo.com). Acesso em: 25. Jul. 2021. [2] Disponível em: Os Barões da Pisadinha – Recairei (Ao Vivo) – YouTube. Acesso em: 25. Jul. 2021. [3] Disponível em: Os Barões da Pisadinha Oficial – YouTube. Acesso em: 25. Jul. 2021. [4] Como tratei brevemente da letra, mencionei apenas construções de língua. Se se adotado outro corte metodológico, por analisar o gênero canção “completo”, outros pontos e construções desse tipo relativamente estável devem entrar na análise, como mencionado no texto. #CirculodeBakhtin #Volochinov

  • AS MAIS OUVIDAS NO BRASIL – CANÇÃO, SENTIDOS E MERCADO

    Fábio Augusto Alves de Oliveira Dados1 apontam para o crescimento do forró em rankings de streaming no Brasil. Segundo análise do G1, o sertanejo lidera as paradas, mas perde espaço para o forró nos últimos anos. Nesse estilo, destacam-se, entre outros, Os Barões da Pisadinha, duo musical mais tocado no primeiro semestre de 2021. Tendo em vista, então, esse crescimento, faço alguns apontamentos sobre a letra da canção Recairei2 interpretada pela dupla citada, discutindo o processo de superação amorosa. A presença em mais ouvidos, reproduzidos e tocados é importante, em sentido discursivo, para avaliar, analisar, estudar e compreender o que circula nas canções como valor, sentido e mercado. Pensando com o Círculo, é possível dizer que o enunciado, a canção, é repleto de significação que circula socialmente e se relaciona com outras canções e, mais amplamente, com produções diversas, na arte e fora dela. Com o princípio de que a palavra, o enunciado e a linguagem são sociais e ideológicos, cada produção artística está inserida em determinado espaço-tempo e produz sentidos, a partir de um projeto de dizer. Nesse caso, uma canção muito escutada, cujo autor é largamente reproduzido, demarca uma série de respostas na comunicação social, porque determina quais narrativas, estilos, vozes e construções vendem e se tornam “sucesso”. O canal oficial3 da dupla possui cerca de 4,9 milhões de inscrição, e o vídeo de Recairei (ao vivo), 330 milhões de visualização, um dos mais vistos do canal. São números que, novamente, atestam grande circulação e popularidade, fator que explica a escolha e a relevância da discussão em torno dessa canção, estilo e autores. Recairei trata de um sujeito em estado de superação amorosa, tema presente em demais estilos e em momentos históricos variados da canção brasileira. A narrativa aborda uma certeza de superação em contraste com uma condição de volta. Se pensarmos com o Círculo, que compreende o sujeito constituído pelas relações que mantém com os “outros”, via alteridade, portanto, é possível dizer que na canção o “você” constitui o “eu” como ser em processo de superação e vice-versa. De início, na canção, há uma demarcação temporal de distância entre o “eu” que supera e o “você” a ser superado. A forma na língua (“estar limpo”) escolhida para tanto expressa um valor: estar próximo e ter contato com “você” significa estar não-limpo/sujo (negativo), caracterizando, assim, esse processo e os sujeitos envolvidos. Os versos seguintes da letra mostram práticas superadas, como “olhar histories”, sentir saudades e afins. A distância descrita (uma semana) se concretiza em tais práticas, que implicam determinada memória da relação. Fator relevante é a presença de redes sociais nesse processo de superação, certeza e distanciamento. “Histories” e “curtidas” são recursos oriundos de espaços digitais, que também demarcam e caracterizam como o sofrimento e a superação ocorrem. Da mesma forma, a “mensagem” significa essa presença de tecnologias digitais em relações e processos amorosos. Nesse caso, são formas de contato entre o “eu” que supera e o “você” superado. O tempo e o modo verbal (superei) expressam algo concluído e feito no passado, reforçado também com o advérbio temporal “já”. Essas construções de língua afirmam uma posição do sujeito de superação completa. Nos versos seguintes, há outro reforço: a repetição e a “certeza”. Porém, essa assertividade é tensionada por uma condição: o envio, outra vez, de mensagem. O “mas” é responsável por fazer essa tensão, pois expressa um sentido adversativo e causa instabilidade na certeza da superação. A superação, pois, fica à mercê da condição da “mensagem”. Outra vez e o próprio sentido de recair revelam acontecimentos anteriores. Com isso, é possível pensar em um processo de superação – contato – recaída, tendo em vista o tempo de distância (uma semana) e a possibilidade de outra vez. Assim, na canção, não se trata de um estado estável de superação, mas instável e tenso, marcado por aspectos adversativos e condicionais, no qual há a negação do “outro”. De acordo com Volóchinov (2017), todo enunciado é orientado, significa e avalia socialmente. Recairei, desse modo, está em interação com outros enunciados e sujeitos, construindo valor e significações sobre o processo de superação, a partir de uma construção específica de língua4 (instrumentos, vocais e procedimentos musicais etc.). A grande circulação dessa canção revela que e como a narrativa de superação vende e é consumida no Brasil, produzindo respostas e sentidos variados na esfera artística, na jornalística, na científica e afins. [1] Disponível em: ‘Batom de cereja’, de Israel e Rodolffo, é o maior hit do 1º semestre do Brasil em streaming | Música | G1 (globo.com). Acesso em: 25. Jul. 2021. [2] Disponível em: Os Barões da Pisadinha – Recairei (Ao Vivo) – YouTube. Acesso em: 25. Jul. 2021. [3] Disponível em: Os Barões da Pisadinha Oficial – YouTube. Acesso em: 25. Jul. 2021. [4] Como tratei brevemente da letra, mencionei apenas construções de língua. Se se adotado outro corte metodológico, por analisar o gênero canção “completo”, outros pontos e construções desse tipo relativamente estável devem entrar na análise, como mencionado no texto. #CirculodeBakhtin #Volochinov

bottom of page