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  • A razão humana

    Éderson Luis da Silveira A razão humana, num determinado domínio dos seus conhecimentos, possui o singular destino de se ver atormentada por questões que não pode evitar, pois lhe são impostas pela sua natureza, mas às quais também não pode dar resposta por ultrapassarem completamente suas possibilidades. (Kant) Já se falou tanto em reticências, em olhares que se estendem ao infinito, em lugares incompletos, inalcançáveis, obscuros. Já se falou em complexidade, mencionaram-se solos plenos de estabilidade, lugares firmes para pisar, caminhar e se situar. Já se falou em planetas e em linguagem animal, já se falou e se desmitificou os rituais das abelhas e Benveniste a nos sussurrar do túmulo que não há língua(gem) sem homem que a utilize… Descobriu-se que nem tudo era estável no terreno da significação. Descobriu-se que nem sempre aquilo que digo é exatamente como eu vejo e que nossas visadas estão suscetíveis a posicionamentos. Depois disso, ou não necessariamente nesta ordem, Durkheim complicou mais ainda as evidências mencionando que o homem é um animal preso a uma teia de significados que ele mesmo teceu. E Darwin vem nos tirar a divindade e mostrar alguns ancestrais que não vieram de lendas e sopros divinos, tirou-nos do barro, não sem por isso ter sido penalizado pela loucura. Galileu e Copérnico tiraram-nos da órbita do universo. A psicanálise tirou-nos a primazia da razão. E as ciências cognitivas foram aos poucos estudando as maiores complexidades inerentes aos processos de significação. Processos, no plural… e assim as áreas foram alinhavando seus pontos de vista sobre a linguagem. Há até hoje quem acredite num modelo formal de comunicação em que uma pessoa diz algo que passa por um canal de comunicação e chega intacto tal qual foi mencionado. Também há quem veja nuances maiores e palavras por trás de palavras. Coisas ditas por trás do silêncio e até um deus de duas faces é acolhido como exemplo de cada verbo que traz seu oposto. Aqueles que leram parte do Gênesis, se não estiverem muito distraídos talvez percebam a importância da palavra, do signo, que cria mundos, que desconstrói, que destoa e imagina concretudes, tão abstratas quanto as visões daqueles que as imaginam. E então: quantas maçãs é preciso que eu tenha na minha frente para saber explicar o que é uma maçã? As concredutes podem beirar a abstração as significações podem ocorrer in absentia. E os valores que atribuímos às coisas: elas existem porque a elas fazemos referência ou fazemos referência porque elas existem (e lá vêm os gregos…). E então, entramos num terreno de perguntas e indecisões: como estudar o sentido (esta coisa sempre em movimento que nos escapa quando o tentamos engaiolar em certezas)? Qual o sentido que pode emergir de palavras ditas, ou desditas? E quanto à ironia (algo que se diz – na tentativa de – significar o oposto)? E quando houver intervalos que extrapolam as intenções do falante? As lacunas vão desregrando mundos inteiros, palavras que vão ampliando horizontes de significação e desestabilizando. Entramos no terreno das reticências. Quanto daquilo que escrevo é realmente meu? Existe algo que seja meu de fato? Conseguirei eu manter impregnadas àquilo que escrevo marcas de autoria suficientes que me tornem possível o reconhecimento dos leitores daquele que escreve? Percorrer caminhos de significação é descobrir limites, ampliar expectativas, relutar em perceber intervalos de significado e constituição de saberes além-dito, além sentido, além-evocado, além-interpretado…além-mar. E nesta multidão de hifenizações vou aos poucos me descobrindo tal qual identidade múltipla que pode vir a ser outra coisa a cada instante, tal qual fluidez que vai caracterizando aquilo que digo e sou. E manter o pé no chão… por tanto tempo foi o que se quis alcançar. Mas por baixo do solo se #discurso #linguagem #sujeito

  • A razão humana

    Éderson Luis da Silveira A razão humana, num determinado domínio dos seus conhecimentos, possui o singular destino de se ver atormentada por questões que não pode evitar, pois lhe são impostas pela sua natureza, mas às quais também não pode dar resposta por ultrapassarem completamente suas possibilidades. (Kant) Já se falou tanto em reticências, em olhares que se estendem ao infinito, em lugares incompletos, inalcançáveis, obscuros. Já se falou em complexidade, mencionaram-se solos plenos de estabilidade, lugares firmes para pisar, caminhar e se situar. Já se falou em planetas e em linguagem animal, já se falou e se desmitificou os rituais das abelhas e Benveniste a nos sussurrar do túmulo que não há língua(gem) sem homem que a utilize… Descobriu-se que nem tudo era estável no terreno da significação. Descobriu-se que nem sempre aquilo que digo é exatamente como eu vejo e que nossas visadas estão suscetíveis a posicionamentos. Depois disso, ou não necessariamente nesta ordem, Durkheim complicou mais ainda as evidências mencionando que o homem é um animal preso a uma teia de significados que ele mesmo teceu. E Darwin vem nos tirar a divindade e mostrar alguns ancestrais que não vieram de lendas e sopros divinos, tirou-nos do barro, não sem por isso ter sido penalizado pela loucura. Galileu e Copérnico tiraram-nos da órbita do universo. A psicanálise tirou-nos a primazia da razão. E as ciências cognitivas foram aos poucos estudando as maiores complexidades inerentes aos processos de significação. Processos, no plural… e assim as áreas foram alinhavando seus pontos de vista sobre a linguagem. Há até hoje quem acredite num modelo formal de comunicação em que uma pessoa diz algo que passa por um canal de comunicação e chega intacto tal qual foi mencionado. Também há quem veja nuances maiores e palavras por trás de palavras. Coisas ditas por trás do silêncio e até um deus de duas faces é acolhido como exemplo de cada verbo que traz seu oposto. Aqueles que leram parte do Gênesis, se não estiverem muito distraídos talvez percebam a importância da palavra, do signo, que cria mundos, que desconstrói, que destoa e imagina concretudes, tão abstratas quanto as visões daqueles que as imaginam. E então: quantas maçãs é preciso que eu tenha na minha frente para saber explicar o que é uma maçã? As concredutes podem beirar a abstração as significações podem ocorrer in absentia. E os valores que atribuímos às coisas: elas existem porque a elas fazemos referência ou fazemos referência porque elas existem (e lá vêm os gregos…). E então, entramos num terreno de perguntas e indecisões: como estudar o sentido (esta coisa sempre em movimento que nos escapa quando o tentamos engaiolar em certezas)? Qual o sentido que pode emergir de palavras ditas, ou desditas? E quanto à ironia (algo que se diz – na tentativa de – significar o oposto)? E quando houver intervalos que extrapolam as intenções do falante? As lacunas vão desregrando mundos inteiros, palavras que vão ampliando horizontes de significação e desestabilizando. Entramos no terreno das reticências. Quanto daquilo que escrevo é realmente meu? Existe algo que seja meu de fato? Conseguirei eu manter impregnadas àquilo que escrevo marcas de autoria suficientes que me tornem possível o reconhecimento dos leitores daquele que escreve? Percorrer caminhos de significação é descobrir limites, ampliar expectativas, relutar em perceber intervalos de significado e constituição de saberes além-dito, além sentido, além-evocado, além-interpretado…além-mar. E nesta multidão de hifenizações vou aos poucos me descobrindo tal qual identidade múltipla que pode vir a ser outra coisa a cada instante, tal qual fluidez que vai caracterizando aquilo que digo e sou. E manter o pé no chão… por tanto tempo foi o que se quis alcançar. Mas por baixo do solo se #discurso #linguagem #sujeito

  • O título ainda vai ser tecido

    Danyllo Ferreira Leite Basso Co-labor-ação: Luciane de Paula Ano ultimo. Último ano. Ano de despedida. Despedida de anos. Emoções desimpedidas são rompidas. E tantas rupturas e cisões comedidas. Ah, outras são impedidas. Entre as mais pedidas: as desentendidas. Como entender as idas e as vindas, voltas e re-voltas pelas quais passa o universitário sujeito em seu uni-verso solitário!? O itinerário vai do árido ao hilário. Tudo tão bizarro! Atam-se nós, desatam-se nós, articulam-se novos e antigos nós, amarrados até as entranhas. Nós cegos e também os frouxos que estrangulam-se uns aos outros. E assim se vão tecendo todos nós. Nós todos, tecidos nós. A sós, muito embora pareça-nos que o só sempre é, pelos menos, três nós: os nós de ontem, os nós de hoje e os nós de amanhã. Nunca os mesmos. Nós que se atam e desatam em nós, continuamente descontínuos. Passado, presente e futuro num só tempo: o tempo da mente, que mente e sente verdadeira-mente. Cria passado e futuro a partir do presente. Presente ente. Entes ados e urros: presente inexistente, pois liame histórico entre passados e futuros perpétuos e em constante construção. Memória criativa. Recriativa. Recreativa. Que cativa e ativa o que bem entende a partir dos moldes do ente e de sua história. Figurativa, representativa. Re(a)presenta e faz o passado voltar à ativa. Tudo de novo, novo. Renovo. E nesse renovo há o ovo pra nascitura da tessitura futura. Tecido em fios. Filigranas de nós. Nossos novos nós. Então, talvez, o passado e o futuro, até mesmo presente, são inexistentes. Não. São existentes na mente, no coração e no estômago do ente. Ora doente, ora carente, ora paciente, ora agente. A gente re-a-gente. Gente. Ficção. Fixação no homem. Fixação do homem. Dos homens. Assim, o tempo é ficção a-temporal. Parecia que ia durar. Ia. Não foi. Nem é. Para sempre que sempre acaba. Mas, independente do tempo que dura, ele perdura e perfura as paredes da memória. Sempre transitória. Em trânsito. Em movimento. Em curso! Dis-curso! Assim, segue esse meu eu, não só meu, mas também teu, que busca, na parede da lembrança, a esperança para a futura dança. Dança que traz, em sua elegância, a superação dessa ânsia. Busco em cada canto, e em cada encanto, o canto, o riso e o sorriso da minha memória despedaçada. A todos jogada. Refratada. Cada um, com sua parte dela, que é também minha e exatamente o que a faz mais bela nessa tela. Ao mesmo tempo que do presente olho o que já se desenhou, encorajo-me e, pela janela, olho o futuro que, por vezes, parece-me duro, mas está decidido. Cindido. Tido dito e não-dito. Mal-dito. Bem-dito. Qualquer coisa, depois me curo. Vou correr os riscos. Vou lançar ao mundo meus novos riscos. Vou desenhar ao passo que me desenho. Vou escrever como sou escrito. Estou, nessa vida, inscrito. Não pedirei aos céus as contas. Aos poucos, seguro as pontas. Amarro todas elas e malho novo tecido. Tecido de pano. Tecido de carne. Tecido de alma. Enfeite. Rede. Pra deitar e descansar. Tecido protetor. Pra /fazer–crer/. Tecido estendido aos que jamais serão esquecidos. Bandeira branca e negra, a mim e a quem mais as merecer. Eu-outro nós! #diálogo #eu #outro

  • O título ainda vai ser tecido

    Danyllo Ferreira Leite Basso Co-labor-ação: Luciane de Paula Ano ultimo. Último ano. Ano de despedida. Despedida de anos. Emoções desimpedidas são rompidas. E tantas rupturas e cisões comedidas. Ah, outras são impedidas. Entre as mais pedidas: as desentendidas. Como entender as idas e as vindas, voltas e re-voltas pelas quais passa o universitário sujeito em seu uni-verso solitário!? O itinerário vai do árido ao hilário. Tudo tão bizarro! Atam-se nós, desatam-se nós, articulam-se novos e antigos nós, amarrados até as entranhas. Nós cegos e também os frouxos que estrangulam-se uns aos outros. E assim se vão tecendo todos nós. Nós todos, tecidos nós. A sós, muito embora pareça-nos que o só sempre é, pelos menos, três nós: os nós de ontem, os nós de hoje e os nós de amanhã. Nunca os mesmos. Nós que se atam e desatam em nós, continuamente descontínuos. Passado, presente e futuro num só tempo: o tempo da mente, que mente e sente verdadeira-mente. Cria passado e futuro a partir do presente. Presente ente. Entes ados e urros: presente inexistente, pois liame histórico entre passados e futuros perpétuos e em constante construção. Memória criativa. Recriativa. Recreativa. Que cativa e ativa o que bem entende a partir dos moldes do ente e de sua história. Figurativa, representativa. Re(a)presenta e faz o passado voltar à ativa. Tudo de novo, novo. Renovo. E nesse renovo há o ovo pra nascitura da tessitura futura. Tecido em fios. Filigranas de nós. Nossos novos nós. Então, talvez, o passado e o futuro, até mesmo presente, são inexistentes. Não. São existentes na mente, no coração e no estômago do ente. Ora doente, ora carente, ora paciente, ora agente. A gente re-a-gente. Gente. Ficção. Fixação no homem. Fixação do homem. Dos homens. Assim, o tempo é ficção a-temporal. Parecia que ia durar. Ia. Não foi. Nem é. Para sempre que sempre acaba. Mas, independente do tempo que dura, ele perdura e perfura as paredes da memória. Sempre transitória. Em trânsito. Em movimento. Em curso! Dis-curso! Assim, segue esse meu eu, não só meu, mas também teu, que busca, na parede da lembrança, a esperança para a futura dança. Dança que traz, em sua elegância, a superação dessa ânsia. Busco em cada canto, e em cada encanto, o canto, o riso e o sorriso da minha memória despedaçada. A todos jogada. Refratada. Cada um, com sua parte dela, que é também minha e exatamente o que a faz mais bela nessa tela. Ao mesmo tempo que do presente olho o que já se desenhou, encorajo-me e, pela janela, olho o futuro que, por vezes, parece-me duro, mas está decidido. Cindido. Tido dito e não-dito. Mal-dito. Bem-dito. Qualquer coisa, depois me curo. Vou correr os riscos. Vou lançar ao mundo meus novos riscos. Vou desenhar ao passo que me desenho. Vou escrever como sou escrito. Estou, nessa vida, inscrito. Não pedirei aos céus as contas. Aos poucos, seguro as pontas. Amarro todas elas e malho novo tecido. Tecido de pano. Tecido de carne. Tecido de alma. Enfeite. Rede. Pra deitar e descansar. Tecido protetor. Pra /fazer–crer/. Tecido estendido aos que jamais serão esquecidos. Bandeira branca e negra, a mim e a quem mais as merecer. Eu-outro nós! #diálogo #eu #outro

  • Com licença a palavra poética

    Bruna de Souza Silva “Ninguém entra num mesmo rio uma segunda vez, mas quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como as águas que já serão outras… O fluxo eterno das coisas, é a própria essência do mundo”. (Heráclito de Éfeso, Filósofo Grego, Séc. V a. C) A palavra vive. Saltita, vibra, seduz, envolve, agita, age, branda, adocica, amarga, atinge, tinge, molda, transforma, soma, posiciona, assume, de dentro ou por fora, o fato é que, de certa maneira, a palavra que se fez torna-se, em qualquer modalidade, necessariamente ativa. Sentido este que a considera tecida por meio de um processo, não limitada em si como uma estrutura linguístico-gramatical distanciada da realidade da vida, mas sim, em confronto e diálogo, com valores ideológicos, históricos e sociais. O circulo russo de Bakhtin não possuiu especificidades relativas propriamente à poesia, entretanto, suas discussões vinculadas à linguagem são tão abrangentes que satisfazê-las somente com a prosa seria limitá-las e não compreender as interdependências nas relações conceituais – impossíveis de serem dissociadas, pertencentes a um projeto filosófico dimensionado, em principal, entre diálogo, cultura e vida. Poética, nesse prisma, aborda toda linguagem ou discurso poético, de maneira ampla e influenciada – notoriamente – pela prosaica, em realce, de sua relação com a semântica. Conforme o teórico Cristovão Tezza ressalta (2006, p. 216), “para Bakhtin, o poético é a expressão completa de um olhar sobre o mundo que chama a si a responsabilidade total de suas palavras”. A palavra poética de Arnaldo Antunes, como exemplar dessas considerações, será aqui proposta a uma breve reflexão, diante das variações de sentidos ocasionados, em prioritário, por sua maneira própria (estilística) de se relacionar e expressar as palavras. Nesse caso, por meio do poema “Rio: o ir” (1997, p. 45), um trabalho específico entre sentido, palavra e imagem. Nesse ato artístico há um posicionamento particular do poeta com a linguagem, muito usual no percorrer de suas obras. Com camadas múltiplas de significação, a procura de clareza expressiva atrelada à “coerência de esquemas lógicos”, André Gardel (2006) salienta que “No ato de desentranhar poético do não-poético, Arnaldo Antunes negocia com métodos, vocábulos e composições das ciências naturais, principalmente a física e a biologia”. Na construção artística mencionada, salienta-se a estrutura poética formada por base da dupla apresentação: o poema visual é exibido a partir da palavra rio, disposta de forma circular para, infere-se, aludir ao caráter cíclico e contínuo das águas, em metáfora à vida, ao qual os rios levam ao mar (como um ralo natural) que é, simultaneamente, ponto de partida e de chegada; sucessivo e sequente. O verso–titulo que compõe o poema, por sua vez, esta posicionado em uma espécie de equação onde a palavra rio esta exposta compatível à sua constituição inversa (o ir), de modo a sugerir a ênfase aos movimentos de ida e volta em representação à confluência natural e contínua do rio. Portanto, em complementação ou completude a outra parte do poema – que pode ser lido do interior ao exterior ou do exterior ao interior. Percepções plausíveis a partir do todo discursivo que tende a apresentar liames com outros discursos ou uma cadeia verbal constituída de enunciações, ao qual, um enunciado provoca outro. Nas palavras de Bakhtin/Volochínov, a enunciação realizada é como uma ilha emergindo de um oceano sem limites (2012, p. 129); afinal, a enunciação é de natureza social (2012, p. 113) e a situação social mais imediata e o meio social mais amplo determinam completamente e, por assim dizer, a partir do seu próprio interior, a estrutura da enunciação. (2012, p. 117). É conveniente ressalvar, contudo, entre as inúmeras relações entre enunciados de momentos históricos distintos associados à obra em análise, dentre variadas experimentações estéticas e parcerias, em conscientização, é claro, de que os diálogos existentes em um dado enunciado são inesgotáveis, a conveniente ligação com a canção “O rio” (2006), composta por Arnaldo Antunes, Marisa Monte, Carlinhos Brown e Seu Jorge. Ouve o barulho do rio, meu filho Deixa esse som te embalar As folhas que caem no rio, meu filho Terminam nas águas do mar Quando amanhã por acaso faltar Uma alegria no seu coração Lembra do som dessas águas de lá Faz desse rio a sua oração Lembra, meu filho, passou, passará Essa certeza, a ciência nos dá Que vai chover quando o sol se cansar Para que flores não faltem Para que flores não faltem jamais (http://www.marisamonte.com.br/pt/musica/infinito-particular/cifras/infinito-particular-o-rio. Segue link da canção para ser lida/ouvida, uma vez que o gênero é composto de, no mínimo, letra e música e, nesse caso, tratar de um enunciado construído a partir de um outro, anteriormente existente. Processo típico em AA, já iniciado quando ele se encontrava nos Titãs. Exemplo: Poema e canção “O que”, em análise por Luciane de Paula) Por meio da letra aludida, nota-se que o sujeito da canção revela um apelo ao outro (ouve o barulho do rio, meu filho) sugestionado por inúmeras metáforas. O sujeito lírico apresenta, ao percorrer a canção, a atenção ao som típico do rio (como uma canção de acalanto – Deixa esse som te embalar) destinado a se deixar levar pelo curso da vida, por uma espécie de “destino”, marcado, aqui, pela natureza e, especificamente, pelo rio às ondas do mar. O rio é outra vez citado por seu caráter sequente em menção a elementos físicos e lógicos, em paralelo, neste plano de sentido, com a simbologia à passagem “indispensável” do tempo (lembra, meu filho, passou, passará). O rio, em suma, é equiparado a uma oração por transmitir serenidade sonora e prosseguir em um processo natural imprescindível para vida (Que vai chover quando o sol se cansar / Para que flores não faltem / Jamais). O acontecimento poético, mesmo em gêneros diferentes, é, portanto, ocasionada por uma re-significação semântica atrelada à forma de expressão, ao trabalho com a palavra, ao agir na linguagem e como ou quem atribui-lhe sentidos – a compreensão com a promoção de diálogos específicos inexauríveis que se complementam entre si e, solicitam, em seu todo, a harmonização de sentidos. Em essência de texto, por fim, se alude ao poeta Paes (1996) que, por sua vez, remete à máxima filosófica de Heráclito, aqui exposta como epígrafe inspiradora desta breve reflexão, pois a palavra poética nunca se gasta por completo: “quanto mais se brinca com elas, mais novas ficam / como a água do rio que é água sempre nova / como cada dia que é sempre um novo dia / Vamos brincar de poesia?” Referências bibliográficas principais: Antunes, Arnaldo. Dois ou mais corpos no mesmo espaço. São Paulo: Perspectiva, 1997. Bakhtin, M. M. (MEDVEDEV). (1920-1974). Estética da Criação Verbal. (Edição traduzida a partir do russo). São Paulo: Martins Fontes, 2003. Bakhtin, M. M. (VOLOCHINOV). (1929). Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 2012. PAES, José Paulo. Quem, eu? São Paulo: Atual, 1996. http://www.arnaldoantunes.com.br/ http://www.marisamonte.com.br/pt #poética #palavra #arnaldoantunes #bakhtin #marisamonte #diálogo

  • Com licença a palavra poética

    Bruna de Souza Silva “Ninguém entra num mesmo rio uma segunda vez, mas quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como as águas que já serão outras… O fluxo eterno das coisas, é a própria essência do mundo”. (Heráclito de Éfeso, Filósofo Grego, Séc. V a. C) A palavra vive. Saltita, vibra, seduz, envolve, agita, age, branda, adocica, amarga, atinge, tinge, molda, transforma, soma, posiciona, assume, de dentro ou por fora, o fato é que, de certa maneira, a palavra que se fez torna-se, em qualquer modalidade, necessariamente ativa. Sentido este que a considera tecida por meio de um processo, não limitada em si como uma estrutura linguístico-gramatical distanciada da realidade da vida, mas sim, em confronto e diálogo, com valores ideológicos, históricos e sociais. O circulo russo de Bakhtin não possuiu especificidades relativas propriamente à poesia, entretanto, suas discussões vinculadas à linguagem são tão abrangentes que satisfazê-las somente com a prosa seria limitá-las e não compreender as interdependências nas relações conceituais – impossíveis de serem dissociadas, pertencentes a um projeto filosófico dimensionado, em principal, entre diálogo, cultura e vida. Poética, nesse prisma, aborda toda linguagem ou discurso poético, de maneira ampla e influenciada – notoriamente – pela prosaica, em realce, de sua relação com a semântica. Conforme o teórico Cristovão Tezza ressalta (2006, p. 216), “para Bakhtin, o poético é a expressão completa de um olhar sobre o mundo que chama a si a responsabilidade total de suas palavras”. A palavra poética de Arnaldo Antunes, como exemplar dessas considerações, será aqui proposta a uma breve reflexão, diante das variações de sentidos ocasionados, em prioritário, por sua maneira própria (estilística) de se relacionar e expressar as palavras. Nesse caso, por meio do poema “Rio: o ir” (1997, p. 45), um trabalho específico entre sentido, palavra e imagem. Nesse ato artístico há um posicionamento particular do poeta com a linguagem, muito usual no percorrer de suas obras. Com camadas múltiplas de significação, a procura de clareza expressiva atrelada à “coerência de esquemas lógicos”, André Gardel (2006) salienta que “No ato de desentranhar poético do não-poético, Arnaldo Antunes negocia com métodos, vocábulos e composições das ciências naturais, principalmente a física e a biologia”. Na construção artística mencionada, salienta-se a estrutura poética formada por base da dupla apresentação: o poema visual é exibido a partir da palavra rio, disposta de forma circular para, infere-se, aludir ao caráter cíclico e contínuo das águas, em metáfora à vida, ao qual os rios levam ao mar (como um ralo natural) que é, simultaneamente, ponto de partida e de chegada; sucessivo e sequente. O verso–titulo que compõe o poema, por sua vez, esta posicionado em uma espécie de equação onde a palavra rio esta exposta compatível à sua constituição inversa (o ir), de modo a sugerir a ênfase aos movimentos de ida e volta em representação à confluência natural e contínua do rio. Portanto, em complementação ou completude a outra parte do poema – que pode ser lido do interior ao exterior ou do exterior ao interior. Percepções plausíveis a partir do todo discursivo que tende a apresentar liames com outros discursos ou uma cadeia verbal constituída de enunciações, ao qual, um enunciado provoca outro. Nas palavras de Bakhtin/Volochínov, a enunciação realizada é como uma ilha emergindo de um oceano sem limites (2012, p. 129); afinal, a enunciação é de natureza social (2012, p. 113) e a situação social mais imediata e o meio social mais amplo determinam completamente e, por assim dizer, a partir do seu próprio interior, a estrutura da enunciação. (2012, p. 117). É conveniente ressalvar, contudo, entre as inúmeras relações entre enunciados de momentos históricos distintos associados à obra em análise, dentre variadas experimentações estéticas e parcerias, em conscientização, é claro, de que os diálogos existentes em um dado enunciado são inesgotáveis, a conveniente ligação com a canção “O rio” (2006), composta por Arnaldo Antunes, Marisa Monte, Carlinhos Brown e Seu Jorge. Ouve o barulho do rio, meu filho Deixa esse som te embalar As folhas que caem no rio, meu filho Terminam nas águas do mar Quando amanhã por acaso faltar Uma alegria no seu coração Lembra do som dessas águas de lá Faz desse rio a sua oração Lembra, meu filho, passou, passará Essa certeza, a ciência nos dá Que vai chover quando o sol se cansar Para que flores não faltem Para que flores não faltem jamais (http://www.marisamonte.com.br/pt/musica/infinito-particular/cifras/infinito-particular-o-rio. Segue link da canção para ser lida/ouvida, uma vez que o gênero é composto de, no mínimo, letra e música e, nesse caso, tratar de um enunciado construído a partir de um outro, anteriormente existente. Processo típico em AA, já iniciado quando ele se encontrava nos Titãs. Exemplo: Poema e canção “O que”, em análise por Luciane de Paula) Por meio da letra aludida, nota-se que o sujeito da canção revela um apelo ao outro (ouve o barulho do rio, meu filho) sugestionado por inúmeras metáforas. O sujeito lírico apresenta, ao percorrer a canção, a atenção ao som típico do rio (como uma canção de acalanto – Deixa esse som te embalar) destinado a se deixar levar pelo curso da vida, por uma espécie de “destino”, marcado, aqui, pela natureza e, especificamente, pelo rio às ondas do mar. O rio é outra vez citado por seu caráter sequente em menção a elementos físicos e lógicos, em paralelo, neste plano de sentido, com a simbologia à passagem “indispensável” do tempo (lembra, meu filho, passou, passará). O rio, em suma, é equiparado a uma oração por transmitir serenidade sonora e prosseguir em um processo natural imprescindível para vida (Que vai chover quando o sol se cansar / Para que flores não faltem / Jamais). O acontecimento poético, mesmo em gêneros diferentes, é, portanto, ocasionada por uma re-significação semântica atrelada à forma de expressão, ao trabalho com a palavra, ao agir na linguagem e como ou quem atribui-lhe sentidos – a compreensão com a promoção de diálogos específicos inexauríveis que se complementam entre si e, solicitam, em seu todo, a harmonização de sentidos. Em essência de texto, por fim, se alude ao poeta Paes (1996) que, por sua vez, remete à máxima filosófica de Heráclito, aqui exposta como epígrafe inspiradora desta breve reflexão, pois a palavra poética nunca se gasta por completo: “quanto mais se brinca com elas, mais novas ficam / como a água do rio que é água sempre nova / como cada dia que é sempre um novo dia / Vamos brincar de poesia?” Referências bibliográficas principais: Antunes, Arnaldo. Dois ou mais corpos no mesmo espaço. São Paulo: Perspectiva, 1997. Bakhtin, M. M. (MEDVEDEV). (1920-1974). Estética da Criação Verbal. (Edição traduzida a partir do russo). São Paulo: Martins Fontes, 2003. Bakhtin, M. M. (VOLOCHINOV). (1929). Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 2012. PAES, José Paulo. Quem, eu? São Paulo: Atual, 1996. http://www.arnaldoantunes.com.br/ http://www.marisamonte.com.br/pt #poética #palavra #arnaldoantunes #bakhtin #marisamonte #diálogo

  • Para ser: viver o paradoxo

    Bárbara Melissa Santana e Luciane de Paula “O ser humano contemporâneo se sente seguro, com inteira liberdade e conhecedor de si, precisamente lá onde ele, por princípio, não está, isto é, no mundo autônomo de um domínio cultural e da sua lei imanente de criação; mas se sente inseguro, privado de recursos e desanimado quando se trata dele mesmo, quando ele é o centro da origem do ato, na vida real e única. Ou seja, agimos com segurança quando o fazemos não partindo de nós mesmos, mas como alguém possuído da necessidade imanente do sentido deste ou de outro domínio da cultura.” (Para uma filosofia do ato responsável, Bakhtin) Do início, o ponto de partida da dúvida: quem somos nós? Sujeitos constituintes e constituídos por uma sociedade composta por modelos, padrões e diversas ideologias. Valores incutidos a determinadas formas de pensamento que geram e regeneram pontos de vista de grupos, partes configuradas em um complexo cultural com perspectivas dominantes e cotidianas, bem como por defensores autônomos de “verdades”, muitas vezes, impostas, aceitas e veementemente reproduzidas. Mas, como somos constituintes e constituídos? Por meio de discursos que se concretizam em textos. Enunciados amalgamados em um extrato superior homogêneo determinante, tanto quanto no dia-a-dia, numa perspectiva sócio-individual. O olhar dos sujeitos se constrói sob as sombras de superestruturas sociais em embate constante com a experiência vivida na infraestrutura, em grupos sociais cotidianos. O individual também se compõe de maneira dialética com o social. E os sujeitos assim se constituem em nós. O posicionamento individual é concebido, nessa sociedade e nessa época em que vivemos, mascaradamente, como perspectiva particular, interiormente indivisível. O “Eu” é a base de uma sociedade narcísica, voltada à ilusão de sua unidade, calcada em traumas e neuroses centradas na visão unilateral do “ego sunt”. Entretanto, os estudos do Círculo revelam que não há “eu” sem “outro”, assim como não existe discurso individual que não responda a discursos existentes ou por-vir, uma vez que tanto a constituição dos sujeitos quanto a dos discursos ocorre de maneira indissociável (os sujeitos só existem quando enunciados e os enunciados só existem quando proferidos por sujeitos). Bakhtin e o os demais filósofos do Círculo concebem a constituição dos sujeitos e dos discursos por meio da ligação desmesurável com outros discursos e sujeitos, tanto aqueles já proferidos quanto os ainda não construídos, constituintes de nossa “memória de futuro”. Essa perspectiva salienta o caráter não-individual (no sentido imanente e gramatical do termo) dos enunciados e dos sujeitos. Para os filósofos russos, um é sempre, no mínimo, dois. O “eu” é, ao mesmo tempo, “eu”-“outro”, tanto sujeito quanto enunciado. Desse ponto de vista, o sujeito atua sob e sobre uma gama de fatores ideológicos que delineiam sua “realidade”. Nesse cenário, verificamos o “sentir-se seguro” relatado por Bakhtin em Para uma Filosofia do Ato Responsável. “Ser livre”, mas pensar a partir do pré-concebido ou permitido consensualmente; a expressão da “própria opinião” que reproduz uma perspectiva já digerida; “certezas” que compõem uma comodidade falha e fugidia que garante a reprodução sistêmica. Por isso, Bakhtin “prega” o “não-álibi da existência” como /dever-fazer/ para o despertar da consciência, atado a uma realidade, mediante um discurso de alienação de si, do outro e da relação ente-espécie. A ética responsiva e consciente como possibilidade única de enfrentamento e ruptura com a hegemonia reinante, que adormece os sujeitos e transforma seus atos em ações. O filósofo russo propõe uma inversão enunciativa: tornar-se sujeito como tornar-se autor, dono de seu nariz nessa rede tramada por fios invisíveis que nos faz marionetes em nossas ações. Agir com consciência: atuar. O ato, não como resultado, mas como processo constitutivo responsivo e responsável dos sujeitos é, sem dúvidas, para o Círculo, a expressão sem álibi e de total encargo de nossas tramas sujeito-enunciativas. Afinal, o sujeito não é apenas um. Sua unidade é divisível. Melhor, multiplicável, como declamou Pessoa em uma de suas pessoas (Álvaro de Campos): “Multipliquei-me para me sentir / Para me sentir, precisei sentir tudo / Transbordei, não fiz senão extravasar-me”. O sujeito (“eu”) é uma infinidade de “outros” que emanam de seu “eu” e de demais direções, um complexo de aspectos provenientes de “outros”. Esses “outros” que constituem o “eu” são discursos e estes, encadeamentos de inúmeras opiniões divergentes que elaboram o mundo. Somos, portanto, fragmentos de totalidades de sujeitos (e) enunciados que constroem o mundo que nos envolve. Somos mosaico formados na relação de diálogo que nos transforma, reforma, dá forma e não nos delineia. De-linear, impor linha, limite e isso, de limites e ponto final, não nos envolve. Acima de tudo por sermos in-acabados. Sem limiar entre “eu” e o “outro”. Sem bordas, sem ser fôrma, em forma-ação, constantemente, em infinita construção. Temos, nesse espaço de “ser” múltiplo, a responsabilidade do que somos ao mesmo tempo em que somos em um espaço que não é completamente nosso. Somos influenciados e construídos nessa arena de discursos que também construímos e influenciamos. Sentimo-nos confortáveis ao agirmos, sentimos confiança em ser sem pensar sobre o sentido de nossa existência, em vir-a-ser sendo, no ato de nossa existência. Muitos acreditam que se é quem se quer ser, livremente. Contudo, como não contestar e questionar nosso aprisionamento à linguagem – essa mesma linguagem que nos faz humanos – que nos reformula por meio dos discursos que também nos constituem, sempre ideológicos, ao determinar tons e sobretons às cores que nos compõem como sujeitos-enunciados que somos? Atuamos pelo que somos ao mesmo tempo em que somos o que fazemos e dizemos. Discursivamente fundidos, de maneira complexa. Pensar fora desse paradoxo seria desconectar-se daquilo que nos torna vivos. A essência do mundo envolve nosso discurso e neles [mundo (e) discurso] vive o homem, constituindo-se como sujeitos. Nesse espaço-tempo é que somos construídos e construímos, de maneira responsável por seus atos, responsivamente. Viver o paradoxo de nossa essência-existência é assumir quem somos, em processo contínuo e descontínuo de construção e desconstrução enunciativa. Antes de tudo, somos vir-a-ser, sempre, seres sígnicos que, para serem-sentidos falam e falham. Afinal, ser humano é isso: falar e falhar em ato, calado, visual e/ou sonoro, mas sempre em atuação sócio-cultural-enunciativa. #discurso #ato #outro #sujeito #ideologia #responsabilidade

  • Para ser: viver o paradoxo

    Bárbara Melissa Santana e Luciane de Paula “O ser humano contemporâneo se sente seguro, com inteira liberdade e conhecedor de si, precisamente lá onde ele, por princípio, não está, isto é, no mundo autônomo de um domínio cultural e da sua lei imanente de criação; mas se sente inseguro, privado de recursos e desanimado quando se trata dele mesmo, quando ele é o centro da origem do ato, na vida real e única. Ou seja, agimos com segurança quando o fazemos não partindo de nós mesmos, mas como alguém possuído da necessidade imanente do sentido deste ou de outro domínio da cultura.” (Para uma filosofia do ato responsável, Bakhtin) Do início, o ponto de partida da dúvida: quem somos nós? Sujeitos constituintes e constituídos por uma sociedade composta por modelos, padrões e diversas ideologias. Valores incutidos a determinadas formas de pensamento que geram e regeneram pontos de vista de grupos, partes configuradas em um complexo cultural com perspectivas dominantes e cotidianas, bem como por defensores autônomos de “verdades”, muitas vezes, impostas, aceitas e veementemente reproduzidas. Mas, como somos constituintes e constituídos? Por meio de discursos que se concretizam em textos. Enunciados amalgamados em um extrato superior homogêneo determinante, tanto quanto no dia-a-dia, numa perspectiva sócio-individual. O olhar dos sujeitos se constrói sob as sombras de superestruturas sociais em embate constante com a experiência vivida na infraestrutura, em grupos sociais cotidianos. O individual também se compõe de maneira dialética com o social. E os sujeitos assim se constituem em nós. O posicionamento individual é concebido, nessa sociedade e nessa época em que vivemos, mascaradamente, como perspectiva particular, interiormente indivisível. O “Eu” é a base de uma sociedade narcísica, voltada à ilusão de sua unidade, calcada em traumas e neuroses centradas na visão unilateral do “ego sunt”. Entretanto, os estudos do Círculo revelam que não há “eu” sem “outro”, assim como não existe discurso individual que não responda a discursos existentes ou por-vir, uma vez que tanto a constituição dos sujeitos quanto a dos discursos ocorre de maneira indissociável (os sujeitos só existem quando enunciados e os enunciados só existem quando proferidos por sujeitos). Bakhtin e o os demais filósofos do Círculo concebem a constituição dos sujeitos e dos discursos por meio da ligação desmesurável com outros discursos e sujeitos, tanto aqueles já proferidos quanto os ainda não construídos, constituintes de nossa “memória de futuro”. Essa perspectiva salienta o caráter não-individual (no sentido imanente e gramatical do termo) dos enunciados e dos sujeitos. Para os filósofos russos, um é sempre, no mínimo, dois. O “eu” é, ao mesmo tempo, “eu”-“outro”, tanto sujeito quanto enunciado. Desse ponto de vista, o sujeito atua sob e sobre uma gama de fatores ideológicos que delineiam sua “realidade”. Nesse cenário, verificamos o “sentir-se seguro” relatado por Bakhtin em Para uma Filosofia do Ato Responsável. “Ser livre”, mas pensar a partir do pré-concebido ou permitido consensualmente; a expressão da “própria opinião” que reproduz uma perspectiva já digerida; “certezas” que compõem uma comodidade falha e fugidia que garante a reprodução sistêmica. Por isso, Bakhtin “prega” o “não-álibi da existência” como /dever-fazer/ para o despertar da consciência, atado a uma realidade, mediante um discurso de alienação de si, do outro e da relação ente-espécie. A ética responsiva e consciente como possibilidade única de enfrentamento e ruptura com a hegemonia reinante, que adormece os sujeitos e transforma seus atos em ações. O filósofo russo propõe uma inversão enunciativa: tornar-se sujeito como tornar-se autor, dono de seu nariz nessa rede tramada por fios invisíveis que nos faz marionetes em nossas ações. Agir com consciência: atuar. O ato, não como resultado, mas como processo constitutivo responsivo e responsável dos sujeitos é, sem dúvidas, para o Círculo, a expressão sem álibi e de total encargo de nossas tramas sujeito-enunciativas. Afinal, o sujeito não é apenas um. Sua unidade é divisível. Melhor, multiplicável, como declamou Pessoa em uma de suas pessoas (Álvaro de Campos): “Multipliquei-me para me sentir / Para me sentir, precisei sentir tudo / Transbordei, não fiz senão extravasar-me”. O sujeito (“eu”) é uma infinidade de “outros” que emanam de seu “eu” e de demais direções, um complexo de aspectos provenientes de “outros”. Esses “outros” que constituem o “eu” são discursos e estes, encadeamentos de inúmeras opiniões divergentes que elaboram o mundo. Somos, portanto, fragmentos de totalidades de sujeitos (e) enunciados que constroem o mundo que nos envolve. Somos mosaico formados na relação de diálogo que nos transforma, reforma, dá forma e não nos delineia. De-linear, impor linha, limite e isso, de limites e ponto final, não nos envolve. Acima de tudo por sermos in-acabados. Sem limiar entre “eu” e o “outro”. Sem bordas, sem ser fôrma, em forma-ação, constantemente, em infinita construção. Temos, nesse espaço de “ser” múltiplo, a responsabilidade do que somos ao mesmo tempo em que somos em um espaço que não é completamente nosso. Somos influenciados e construídos nessa arena de discursos que também construímos e influenciamos. Sentimo-nos confortáveis ao agirmos, sentimos confiança em ser sem pensar sobre o sentido de nossa existência, em vir-a-ser sendo, no ato de nossa existência. Muitos acreditam que se é quem se quer ser, livremente. Contudo, como não contestar e questionar nosso aprisionamento à linguagem – essa mesma linguagem que nos faz humanos – que nos reformula por meio dos discursos que também nos constituem, sempre ideológicos, ao determinar tons e sobretons às cores que nos compõem como sujeitos-enunciados que somos? Atuamos pelo que somos ao mesmo tempo em que somos o que fazemos e dizemos. Discursivamente fundidos, de maneira complexa. Pensar fora desse paradoxo seria desconectar-se daquilo que nos torna vivos. A essência do mundo envolve nosso discurso e neles [mundo (e) discurso] vive o homem, constituindo-se como sujeitos. Nesse espaço-tempo é que somos construídos e construímos, de maneira responsável por seus atos, responsivamente. Viver o paradoxo de nossa essência-existência é assumir quem somos, em processo contínuo e descontínuo de construção e desconstrução enunciativa. Antes de tudo, somos vir-a-ser, sempre, seres sígnicos que, para serem-sentidos falam e falham. Afinal, ser humano é isso: falar e falhar em ato, calado, visual e/ou sonoro, mas sempre em atuação sócio-cultural-enunciativa. #discurso #ato #outro #sujeito #ideologia #responsabilidade

  • O mito do respeito e do sucesso. Resta saber: a que e a quem

    Ana Paula Lopes Cardoso Desde sempre, vivemos numa sociedade que, constantemente, nos impôs modelos a serem seguidos, nas mais diversas esferas como exemplos de “perfeição contemporânea” que vêm com a intenção de formatar o pensamento e minimizar a capacidade crítica da sociedade, de modo a fazer dela uma grande massa “bela”, do ponto de vista da homogeneização social, idealista, castradora e machista – basta nos atentarmos ao “Mito da Beleza”, de Naomi Wolf. As indústrias da moda e da beleza nunca estiveram tão em alta e nunca se disseram tão democráticas como se dizem agora: “a moda para todos”, “a beleza de todos, em qualquer idade”! Mas bastam breves passeios pelos outdoors da cidade, pelas páginas das revistas ou mesmo alguns minutos em frente à televisão para notarmos que a principal intenção das marcas, por meio da mídia, é a difusão de pensamentos hegemônicos ditatoriais: o massacre da ideologia dominante sobre o cotidiano. Tomemos, como exemplos, duas peças publicitárias televisivas, sendo uma de Chronos (Natura Chronos 70+) e uma de Renew (Avon Renew Platinum), linhas de duas grandes marcas de cosméticos do patamar nacional atual. Ambas são marcas de tradição, consagradas no Brasil e com um público consumidor já bem definido. Suas peças publicitárias nos revelam, no entanto, certa “fragilidade” por parte das marcas: a necessidade de conquistar (no sentido de “pescar”, “capturar”, como numa disputa) seus clientes, por meio de táticas que, de certa forma, não se focam tanto na venda dos produtos em si, mas sim na imposição de um discurso valorativo de empatia, seja com o politicamente correto (Natura) seja com a fama (Avon). Segundo a concepção bakhtiniana, o discurso é carregado de valores do sujeito. Por meio da ideologia, ele se afirma e se concretiza no e por meio do signo. Dessa forma, as marcas escolhem qual é a imagem que pretendem passar ao seu público, a imagem que, dadas pesquisas mercadológicas extremamente bem realizadas, convencerá e, mais que isso, persuadirá o consumidor, fazendo-o crer no discurso das empresas e, com isso, via peça publicitária, as marcas atingem seus objetivos: vender. Com os objetivos “declarados” (a conquista de clientes e, consequentemente, as possíveis vendas), Natura e Avon exaltam e veiculam os ideais nos quais esperam que seus públicos, cada vez maiores, acreditem: uma, a Natura, volta-se a uma suposta postura de empresa preocupada com o meio ambiente, com as diferenças étnicas, com a diversidade física do povo brasileiro, com o respeito à diversidade e às fases da vida. A peça publicitária televisiva da Natura aqui mencionada traz à cena diversas mulheres, de idades variadas (as quais são, inclusive, reveladas, juntamente com os seus nomes), com diferentes estilos de vida, modos de se vestir e de se comportar, além das diferentes etnias contempladas: observam-se, no comercial, mulheres claras, loiras, morenas, de olhos claros e uma negra (apenas uma). Todas aparecem em momentos de descontração, muitas vezes, ao ar livre, compartilhando uma suposta alegria por serem como são, mulheres maduras e bonitas em suas particularidades. Além disso, essa peça publicitária televisiva de Chronos, que lança um novo antissinais na linha, o 70+ (indicado para mulheres acima de setenta anos), apresenta um jogo de sentidos quando a voz do comercial (que, por acaso, é masculina) diz “A história da mulher de setenta…”. Nesse momento, pode-se fazer uma ligação não apenas com a mulher de setenta anos, mas também com a mulher dos anos setenta, que desenvolveu um papel importante na economia e, consequentemente, na história. A outra, da Avon, explicita a voz de uma empresa que quer ser vista como aquela que “veste”, supostamente, valor “profissional” de “sucesso” à mulher e pretende voltar-se única e exclusivamente à sua “fama”, mas o que parece ser “descolado”, é machista e pessoal. Na peça publicitária televisiva em questão, a marca apresenta a atriz britânica Jacqueline Bisset, que encena o papel de mulher poderosa e sensual, mesmo acima dos sessenta anos, como modelo a ser seguido. Ela aparece em uma espécie de estúdio de fotografia/filmagem e, maquiada e vestida “para matar”, encara a telespectadora, fazendo poses sensuais, embalada por uma música agitada. Logo no início, a voz que é, aparentemente, dela diz: “Eu não minto a minha idade. A minha pele, sim”. Em seguida, a apresentação do produto e de seus benefícios é realizada (diferentemente do que ocorre em “Natura Chronos 70+”, em que o produto só é apresentado ao final da peça). Pela breve descrição acima, pode-se notar que, por um lado, o comercial da Natura tem a intenção de representar uma empresa “limpa”, “responsável” socialmente, que aceita os diferentes estilos e modos de ser e que, inclusive, apoia as diferenças, até como se insistisse para o consumidor assumir sua personalidade. O fato de quase não mencionar o produto, a não ser no final da peça, quando a voz masculina (que soa, aqui, como o reconhecimento da importância da mulher na sociedade e também como o valor atribuído a ela pelo homem, quem a julga – uma duplicidade de significações que nos leva a pensar o papel na mulher numa sociedade patriarcal) entoa “Natura Chronos 70+. Agora, tem um para a sua história.”, nos remete ao fato de a empresa vender apenas uma ideologia, não necessariamente em que acredita, mas com a qual potencializa conquistar clientes e vendas, “deixando de lado” o produto que é porta-voz dessa ideologia de empresa “responsável”, “respeitosa”, “limpa” e “honesta”. Pretexto para atingir um público cada vez maior e mais amplo. Por outro lado, o comercial da Avon nos remete a um discurso capitalista, hegemônico, preconceituoso com “cara” de feminista, mas extremamente machista, pois, de certa forma, cobra da mulher que ela seja como a imagem da atriz apresentada: uma mulher poderosa e segura de si, capaz de alcançar seus objetivos e de ter quem quiser aos seus pés. Soa como uma empresa mais prática, que sabe o que quer: vender um produto que cuide da pele da consumidora e que a faça se sentir segura e confiante, o que se confirma pelo slogan entoado ao fim, pela mesma voz que representa Jacqueline Bisset: “Você quer? Agora você pode!” e, depois, pela voz feminina que narra o comercial: “Fale com uma revendedora Avon e peça Renew Platinum!”. Se Natura e Avon fazem escolhas tão distintas nas peças publicitárias televisivas em questão, se vestem ideologias tão opostas, fica claro que pretendem atingir diferentes públicos e, consequentemente, diferentes camadas da sociedade. Dessa forma, suas escolhas (de vocabulário, de imagens, de pessoas, de música, de informações veiculadas, etc.) refletem e refratam ideologias que acreditam serem dos públicos que pretendem atingir por empatia. As empresas são sujeitos discursivos responsáveis por suas ações (concretizadas por meio da linguagem). Sujeitos profusores de ideologias capitais com “maquiadas” de “verdades”. Mais do que isso, sujeitos que incutem valores e homogeneízam o seu público, assolando as diferenças como se as respeitassem (Natura) e impondo um modelo de sucesso canônico (Avon). Com isso, reproduzem valores que continuam vendo a mulher como objeto. Sujeitos que ecoam outros e vão ser ecoados por outros, constituindo, assim, um longo processo de construção de sentidos, de atuação e colocação no mundo. Aqui, Natura e Avon interagem e, com isso, criam seus lugares no mundo e se responsabilizam por seus atos-ações, tanto quanto nós, ao consumirmos e, com isso, assumirmos nossos valores, em empatia ou não com o que nos é “imposto”. Será mesmo que só há uma beleza? E que as belezas precisam ser “retocadas”? Será mesmo que o “cuidado” de si, com a pele, o tempo etc é amar-se? Ou será que é falta de amor-próprio? Assumir nossas heterogeneidades e belezas também passou a ser filão vendável. E como vende! Resta-nos refletir sobre como esses valores nos constituem, bem como em que sentido nós os garantimos, por reproduzi-los em nosso cotidiano. #discurso #ideologia #publicidade #sujeito

  • O mito do respeito e do sucesso. Resta saber: a que e a quem

    Ana Paula Lopes Cardoso Desde sempre, vivemos numa sociedade que, constantemente, nos impôs modelos a serem seguidos, nas mais diversas esferas como exemplos de “perfeição contemporânea” que vêm com a intenção de formatar o pensamento e minimizar a capacidade crítica da sociedade, de modo a fazer dela uma grande massa “bela”, do ponto de vista da homogeneização social, idealista, castradora e machista – basta nos atentarmos ao “Mito da Beleza”, de Naomi Wolf. As indústrias da moda e da beleza nunca estiveram tão em alta e nunca se disseram tão democráticas como se dizem agora: “a moda para todos”, “a beleza de todos, em qualquer idade”! Mas bastam breves passeios pelos outdoors da cidade, pelas páginas das revistas ou mesmo alguns minutos em frente à televisão para notarmos que a principal intenção das marcas, por meio da mídia, é a difusão de pensamentos hegemônicos ditatoriais: o massacre da ideologia dominante sobre o cotidiano. Tomemos, como exemplos, duas peças publicitárias televisivas, sendo uma de Chronos (Natura Chronos 70+) e uma de Renew (Avon Renew Platinum), linhas de duas grandes marcas de cosméticos do patamar nacional atual. Ambas são marcas de tradição, consagradas no Brasil e com um público consumidor já bem definido. Suas peças publicitárias nos revelam, no entanto, certa “fragilidade” por parte das marcas: a necessidade de conquistar (no sentido de “pescar”, “capturar”, como numa disputa) seus clientes, por meio de táticas que, de certa forma, não se focam tanto na venda dos produtos em si, mas sim na imposição de um discurso valorativo de empatia, seja com o politicamente correto (Natura) seja com a fama (Avon). Segundo a concepção bakhtiniana, o discurso é carregado de valores do sujeito. Por meio da ideologia, ele se afirma e se concretiza no e por meio do signo. Dessa forma, as marcas escolhem qual é a imagem que pretendem passar ao seu público, a imagem que, dadas pesquisas mercadológicas extremamente bem realizadas, convencerá e, mais que isso, persuadirá o consumidor, fazendo-o crer no discurso das empresas e, com isso, via peça publicitária, as marcas atingem seus objetivos: vender. Com os objetivos “declarados” (a conquista de clientes e, consequentemente, as possíveis vendas), Natura e Avon exaltam e veiculam os ideais nos quais esperam que seus públicos, cada vez maiores, acreditem: uma, a Natura, volta-se a uma suposta postura de empresa preocupada com o meio ambiente, com as diferenças étnicas, com a diversidade física do povo brasileiro, com o respeito à diversidade e às fases da vida. A peça publicitária televisiva da Natura aqui mencionada traz à cena diversas mulheres, de idades variadas (as quais são, inclusive, reveladas, juntamente com os seus nomes), com diferentes estilos de vida, modos de se vestir e de se comportar, além das diferentes etnias contempladas: observam-se, no comercial, mulheres claras, loiras, morenas, de olhos claros e uma negra (apenas uma). Todas aparecem em momentos de descontração, muitas vezes, ao ar livre, compartilhando uma suposta alegria por serem como são, mulheres maduras e bonitas em suas particularidades. Além disso, essa peça publicitária televisiva de Chronos, que lança um novo antissinais na linha, o 70+ (indicado para mulheres acima de setenta anos), apresenta um jogo de sentidos quando a voz do comercial (que, por acaso, é masculina) diz “A história da mulher de setenta…”. Nesse momento, pode-se fazer uma ligação não apenas com a mulher de setenta anos, mas também com a mulher dos anos setenta, que desenvolveu um papel importante na economia e, consequentemente, na história. A outra, da Avon, explicita a voz de uma empresa que quer ser vista como aquela que “veste”, supostamente, valor “profissional” de “sucesso” à mulher e pretende voltar-se única e exclusivamente à sua “fama”, mas o que parece ser “descolado”, é machista e pessoal. Na peça publicitária televisiva em questão, a marca apresenta a atriz britânica Jacqueline Bisset, que encena o papel de mulher poderosa e sensual, mesmo acima dos sessenta anos, como modelo a ser seguido. Ela aparece em uma espécie de estúdio de fotografia/filmagem e, maquiada e vestida “para matar”, encara a telespectadora, fazendo poses sensuais, embalada por uma música agitada. Logo no início, a voz que é, aparentemente, dela diz: “Eu não minto a minha idade. A minha pele, sim”. Em seguida, a apresentação do produto e de seus benefícios é realizada (diferentemente do que ocorre em “Natura Chronos 70+”, em que o produto só é apresentado ao final da peça). Pela breve descrição acima, pode-se notar que, por um lado, o comercial da Natura tem a intenção de representar uma empresa “limpa”, “responsável” socialmente, que aceita os diferentes estilos e modos de ser e que, inclusive, apoia as diferenças, até como se insistisse para o consumidor assumir sua personalidade. O fato de quase não mencionar o produto, a não ser no final da peça, quando a voz masculina (que soa, aqui, como o reconhecimento da importância da mulher na sociedade e também como o valor atribuído a ela pelo homem, quem a julga – uma duplicidade de significações que nos leva a pensar o papel na mulher numa sociedade patriarcal) entoa “Natura Chronos 70+. Agora, tem um para a sua história.”, nos remete ao fato de a empresa vender apenas uma ideologia, não necessariamente em que acredita, mas com a qual potencializa conquistar clientes e vendas, “deixando de lado” o produto que é porta-voz dessa ideologia de empresa “responsável”, “respeitosa”, “limpa” e “honesta”. Pretexto para atingir um público cada vez maior e mais amplo. Por outro lado, o comercial da Avon nos remete a um discurso capitalista, hegemônico, preconceituoso com “cara” de feminista, mas extremamente machista, pois, de certa forma, cobra da mulher que ela seja como a imagem da atriz apresentada: uma mulher poderosa e segura de si, capaz de alcançar seus objetivos e de ter quem quiser aos seus pés. Soa como uma empresa mais prática, que sabe o que quer: vender um produto que cuide da pele da consumidora e que a faça se sentir segura e confiante, o que se confirma pelo slogan entoado ao fim, pela mesma voz que representa Jacqueline Bisset: “Você quer? Agora você pode!” e, depois, pela voz feminina que narra o comercial: “Fale com uma revendedora Avon e peça Renew Platinum!”. Se Natura e Avon fazem escolhas tão distintas nas peças publicitárias televisivas em questão, se vestem ideologias tão opostas, fica claro que pretendem atingir diferentes públicos e, consequentemente, diferentes camadas da sociedade. Dessa forma, suas escolhas (de vocabulário, de imagens, de pessoas, de música, de informações veiculadas, etc.) refletem e refratam ideologias que acreditam serem dos públicos que pretendem atingir por empatia. As empresas são sujeitos discursivos responsáveis por suas ações (concretizadas por meio da linguagem). Sujeitos profusores de ideologias capitais com “maquiadas” de “verdades”. Mais do que isso, sujeitos que incutem valores e homogeneízam o seu público, assolando as diferenças como se as respeitassem (Natura) e impondo um modelo de sucesso canônico (Avon). Com isso, reproduzem valores que continuam vendo a mulher como objeto. Sujeitos que ecoam outros e vão ser ecoados por outros, constituindo, assim, um longo processo de construção de sentidos, de atuação e colocação no mundo. Aqui, Natura e Avon interagem e, com isso, criam seus lugares no mundo e se responsabilizam por seus atos-ações, tanto quanto nós, ao consumirmos e, com isso, assumirmos nossos valores, em empatia ou não com o que nos é “imposto”. Será mesmo que só há uma beleza? E que as belezas precisam ser “retocadas”? Será mesmo que o “cuidado” de si, com a pele, o tempo etc é amar-se? Ou será que é falta de amor-próprio? Assumir nossas heterogeneidades e belezas também passou a ser filão vendável. E como vende! Resta-nos refletir sobre como esses valores nos constituem, bem como em que sentido nós os garantimos, por reproduzi-los em nosso cotidiano. #discurso #ideologia #publicidade #sujeito

  • A leveza insustentável da vida e o peso de viver

    Aline do Prado Aleixo Soares e Luciane de Paula “Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é viver, mesmo” (Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa) “A vida humana só acontece uma vez e não poderemos nunca verificar qual seria a boa ou a má decisão, porque, em todas as situações, só podemos decidir uma vez. Não nos é dada uma segunda, uma terceira, uma quarta vida para que possamos comparar decisões diferentes” (A insustentável leveza do ser, Milan Kundera) Em A insustentável leveza do ser, lemos, em suas diversas (e frequentes) digressões, ideias acerca da vida que não se repete: a vida, essa mesma, que todos nós vivemos e que é semiotizada no romance de Kundera, por meio de suas personagens. Essa vida é descrita, no romance, por meio de um discurso ambíguo que parte do narrador, como sendo pesada e, ao mesmo tempo, leve. Essa contradição eterna se estende à vida de cada um, de cada sujeito, responsável, na acepção bakhtiniana do termo, já que a arte e a vida são duas instâncias que dialogam em suas constituições. A arte, segundo as ideias do Círculo, só adquire sentido quando incorporada, pelos sujeitos responsáveis que a experimentam, às suas vidas e passam, assim, a formar uma unidade com ela. Contraditoriamente. Como o ser humano o é: eufórico e disfórico, entusiasta e depressivo, amoroso e detestável, crítico e submisso, resistente e entregue…conflituoso (e) complexus. Esse ser humano só vive, com todas as suas mazelas e ideais, quando trans-formado em linguagem. A linguagem o constitui tanto quanto ele constitui a linguagem. Por meio dela (e só por meio dela) sua existência passa a fazer sentido. Sentido enunciado sentido. Apenas na linguagem, o ser existe como sujeito. Não um sujeito qualquer, mas um sujeito ativo. Em atividade enunciada responsiva. Sujeito como pensado por Bakhtin: sem álibi na existência. Isto é, consciente de seus atos e, portanto, indesculpável. Sujeito que deve arcar com a responsabilidade de viver. E, pior, viver bem; bem viver. O que eu faço vai de encontro ao e ao encontro do que outros fizeram, fazem e farão: os meus atos possuem consequências e eles são, querendo ou não, responsabilidade minha. Afinal, é na interação entre os diversos sujeitos que esses se constituem. O diálogo entre mim e o outro (todos os outros: o que existe em mim e os externos) é que constitui os sujeitos, já que sozinhos somos incompletos: falta a mim o excedente de visão, que apenas o outro tem, de mim e outros-outros. Excedente que permite a ele – e somente a ele – me ver com completude. Se somos, então, conscientes e responsáveis por nossos atos, ainda que incompletos e inacabados, em constante processo de vir-a-ser, como saber de que maneira responder à vida, numa existência em construção, que não se sabe viver exatamente porque processo de nossos atos e não produto a ser contemplado de fora? Os meus atos têm consequências não só para mim, mas também – e isso é o que parece tornar a vida mais difícil – para o outro. Como saber viver, se a vida que vivemos uma única vez é esse eterno ensaio em concretização e sem rascunho de uma obra que se quer prima ao mesmo tempo em que o seu projeto de dizer se encontra em formação? Essa é a leveza e ao mesmo tempo o peso da vida: só se vive uma vez. E isso implica, justamente, em duas coisas: como não podemos saber viver, tudo o que fazemos parece ser desculpado, destituído da responsabilidade de antemão – daí a leveza; e como devemos saber viver, ou seja, devemos escolher um caminho, tomar decisões, o peso da escolha e da responsabilidade recai, inevitavelmente, sobre os nossos atos, uma vez que temos consciência, no processo da vida, do que é ético e do que não é; do que queremos para nós e para os outros e do que não queremos e não devemos fazer. Nesse sentido, os nossos atos nos aprisionam e, ao mesmo tempo, libertam. Atos de linguagem, já concretos desde a raiz, em pensamento. Afinal, se somos seres enunciados, seres de linguagem, semiotizados, a expressão de nossos anseios já re-vela nossa representatividade e, portanto, nos liberta de determinadas amarras e nos enlaça em outras correntes. Seja como for, a vida, inacabada, é reflexo e refração humana. Causa e consequência de nossos atos. Também linguagem em construção junto com os sujeitos. História em percurso. E, por isso, sempre, peso e leveza. Viver-se. Perigo de se ser, sendo-se. E assim, é. Já foi e será. Impossível querer apenas uma ponta, a delícia da leveza que liberta e libera. Somos viventes em construção como a vida se constrói em nós. Nós, não laços. Apertados e sufocantes, às vezes. Outras, brandos e frouxos. Diálogo entre vidas que se tecem em conjunto, de retalhos, por fios translúcidos, ao mesmo tempo, frágeis e flexíveis. Fios-bambus, difíceis de serem rompidos, mas, uma vez a ruptura realizada, jamais um remendo pode fazer fluir o ponto como outrora. Nesse sentido, somos todos moiras da linguagem cosendo-a, sem saber ao certo o que tricotamos, tendo como fim aprender-viver na vida que nos torna e já-é vir-a-ser. Esse é o deleite humano: ser sem ter sido. Essa também (é) a sua contenção: responder por seu fazer sem saber exatamente onde o rio da vida vai desembocar. Ainda que, no fim, todos saibamos: tecido findo, ponto final colocado, não mais espaço para se enunciar…morte do sujeito, morte do homem. A leveza da vida recém-nascida se transforma com o peso da responsabilidade de vivê-la e bem. Peso que se quer leve, bem viver e que é constante, sempre a balizar todas as nossas de-cisões, os nossos atos responsáveis e responsivos. Como apender a viver com o peso da responsabilidade? Vivendo. Sem álibi da existência. De maneira leve e pesada, livre e enlaçada nas tramas tecidas full time por todos nós. E, com isso, aprender a viver, vivendo. Aprender que os atos são repercussão de outros atos, proprios e de outros, ontem, hoje e amanhã. E assim, a vida segue sendo tecida pelos sujeitos que nela vivem e a bordam. Mesmo sem que saibamos o que está por vir, devemos, inevitavelmente, encarar a responsabilidade dos nossos atos. Esse é o não-álibi no viver. Sua delicadeza e, como cantaria Caetano (“Dom de Iludir”), a “delícia de ser o que é”. Afinal, “Eu tentei compreender a costura da vida / Me enrolei porque a linha era muito comprida / E como é que eu vou fazer para desenrolar?” (“Costura da vida”, Interior – A 4 vozes). Desenrolar enrola. E enrolar dá (em) nó(s). Não há compreensão apenas mental da vida. Compreendê-la pede ato ou, como diria Clarice (Lispector), “Viver ultrapassa todo o entendimento”. #sujeito #ética #responsabilidade #exotopia #diálogo

  • A leveza insustentável da vida e o peso de viver

    Aline do Prado Aleixo Soares e Luciane de Paula “Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é viver, mesmo” (Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa) “A vida humana só acontece uma vez e não poderemos nunca verificar qual seria a boa ou a má decisão, porque, em todas as situações, só podemos decidir uma vez. Não nos é dada uma segunda, uma terceira, uma quarta vida para que possamos comparar decisões diferentes” (A insustentável leveza do ser, Milan Kundera) Em A insustentável leveza do ser, lemos, em suas diversas (e frequentes) digressões, ideias acerca da vida que não se repete: a vida, essa mesma, que todos nós vivemos e que é semiotizada no romance de Kundera, por meio de suas personagens. Essa vida é descrita, no romance, por meio de um discurso ambíguo que parte do narrador, como sendo pesada e, ao mesmo tempo, leve. Essa contradição eterna se estende à vida de cada um, de cada sujeito, responsável, na acepção bakhtiniana do termo, já que a arte e a vida são duas instâncias que dialogam em suas constituições. A arte, segundo as ideias do Círculo, só adquire sentido quando incorporada, pelos sujeitos responsáveis que a experimentam, às suas vidas e passam, assim, a formar uma unidade com ela. Contraditoriamente. Como o ser humano o é: eufórico e disfórico, entusiasta e depressivo, amoroso e detestável, crítico e submisso, resistente e entregue…conflituoso (e) complexus. Esse ser humano só vive, com todas as suas mazelas e ideais, quando trans-formado em linguagem. A linguagem o constitui tanto quanto ele constitui a linguagem. Por meio dela (e só por meio dela) sua existência passa a fazer sentido. Sentido enunciado sentido. Apenas na linguagem, o ser existe como sujeito. Não um sujeito qualquer, mas um sujeito ativo. Em atividade enunciada responsiva. Sujeito como pensado por Bakhtin: sem álibi na existência. Isto é, consciente de seus atos e, portanto, indesculpável. Sujeito que deve arcar com a responsabilidade de viver. E, pior, viver bem; bem viver. O que eu faço vai de encontro ao e ao encontro do que outros fizeram, fazem e farão: os meus atos possuem consequências e eles são, querendo ou não, responsabilidade minha. Afinal, é na interação entre os diversos sujeitos que esses se constituem. O diálogo entre mim e o outro (todos os outros: o que existe em mim e os externos) é que constitui os sujeitos, já que sozinhos somos incompletos: falta a mim o excedente de visão, que apenas o outro tem, de mim e outros-outros. Excedente que permite a ele – e somente a ele – me ver com completude. Se somos, então, conscientes e responsáveis por nossos atos, ainda que incompletos e inacabados, em constante processo de vir-a-ser, como saber de que maneira responder à vida, numa existência em construção, que não se sabe viver exatamente porque processo de nossos atos e não produto a ser contemplado de fora? Os meus atos têm consequências não só para mim, mas também – e isso é o que parece tornar a vida mais difícil – para o outro. Como saber viver, se a vida que vivemos uma única vez é esse eterno ensaio em concretização e sem rascunho de uma obra que se quer prima ao mesmo tempo em que o seu projeto de dizer se encontra em formação? Essa é a leveza e ao mesmo tempo o peso da vida: só se vive uma vez. E isso implica, justamente, em duas coisas: como não podemos saber viver, tudo o que fazemos parece ser desculpado, destituído da responsabilidade de antemão – daí a leveza; e como devemos saber viver, ou seja, devemos escolher um caminho, tomar decisões, o peso da escolha e da responsabilidade recai, inevitavelmente, sobre os nossos atos, uma vez que temos consciência, no processo da vida, do que é ético e do que não é; do que queremos para nós e para os outros e do que não queremos e não devemos fazer. Nesse sentido, os nossos atos nos aprisionam e, ao mesmo tempo, libertam. Atos de linguagem, já concretos desde a raiz, em pensamento. Afinal, se somos seres enunciados, seres de linguagem, semiotizados, a expressão de nossos anseios já re-vela nossa representatividade e, portanto, nos liberta de determinadas amarras e nos enlaça em outras correntes. Seja como for, a vida, inacabada, é reflexo e refração humana. Causa e consequência de nossos atos. Também linguagem em construção junto com os sujeitos. História em percurso. E, por isso, sempre, peso e leveza. Viver-se. Perigo de se ser, sendo-se. E assim, é. Já foi e será. Impossível querer apenas uma ponta, a delícia da leveza que liberta e libera. Somos viventes em construção como a vida se constrói em nós. Nós, não laços. Apertados e sufocantes, às vezes. Outras, brandos e frouxos. Diálogo entre vidas que se tecem em conjunto, de retalhos, por fios translúcidos, ao mesmo tempo, frágeis e flexíveis. Fios-bambus, difíceis de serem rompidos, mas, uma vez a ruptura realizada, jamais um remendo pode fazer fluir o ponto como outrora. Nesse sentido, somos todos moiras da linguagem cosendo-a, sem saber ao certo o que tricotamos, tendo como fim aprender-viver na vida que nos torna e já-é vir-a-ser. Esse é o deleite humano: ser sem ter sido. Essa também (é) a sua contenção: responder por seu fazer sem saber exatamente onde o rio da vida vai desembocar. Ainda que, no fim, todos saibamos: tecido findo, ponto final colocado, não mais espaço para se enunciar…morte do sujeito, morte do homem. A leveza da vida recém-nascida se transforma com o peso da responsabilidade de vivê-la e bem. Peso que se quer leve, bem viver e que é constante, sempre a balizar todas as nossas de-cisões, os nossos atos responsáveis e responsivos. Como apender a viver com o peso da responsabilidade? Vivendo. Sem álibi da existência. De maneira leve e pesada, livre e enlaçada nas tramas tecidas full time por todos nós. E, com isso, aprender a viver, vivendo. Aprender que os atos são repercussão de outros atos, proprios e de outros, ontem, hoje e amanhã. E assim, a vida segue sendo tecida pelos sujeitos que nela vivem e a bordam. Mesmo sem que saibamos o que está por vir, devemos, inevitavelmente, encarar a responsabilidade dos nossos atos. Esse é o não-álibi no viver. Sua delicadeza e, como cantaria Caetano (“Dom de Iludir”), a “delícia de ser o que é”. Afinal, “Eu tentei compreender a costura da vida / Me enrolei porque a linha era muito comprida / E como é que eu vou fazer para desenrolar?” (“Costura da vida”, Interior – A 4 vozes). Desenrolar enrola. E enrolar dá (em) nó(s). Não há compreensão apenas mental da vida. Compreendê-la pede ato ou, como diria Clarice (Lispector), “Viver ultrapassa todo o entendimento”. #sujeito #ética #responsabilidade #exotopia #diálogo

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