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Ordem, sem cessar

Mirian Valéria Gomes Sabeh Luciane de Paula

Durante todo esse tempo em sala de aula, em escola pública, venho refletindo sobre a educação, sobre os métodos, sobre o meu sujeito-aluno, enfim, o que se faz necessário em todos esses aspectos na vida não apenas desse sujeito, mas também na de todos os envolvido no processo educacional – e isso significa: a sociedade toda.

Todos os dias, sem cessar, ao final do expediente, é inevitável a presença dos questionamentos em minha mente, sobre os sujeitos envolvido mais diretamente no processo institucional escolar, ou seja, o educador e o estudante. Este, mais especificamente, visto, muitas vezes e por muitos (inclusive, por muitos que se dizem educadores), como aquele que engole (ou deve) tudo o que lhe é imposto, quer seja de maneira passiva quer não (e se protestar pelo que julga não ser benéfico, é mal visto, punido etc). Acredito, pelos diálogos, pela escuta ativa à sua voz, pela observação de seu comportamento e pelo interesse demonstrado, que não queira mesmo que o processo continue como tem sido realizado. Mas, apesar de visível o seu descontentamento, nada tem sido modificado, ainda que teorias e métodos surjam como “milagres” “salvadores” do caos da educação, não apenas no Brasil, mas de maneira mundial. Isso angustia e fico me perguntando o motivo, qual a solução, o meu papel nisso tudo como educadora questionadora e criteriosa que tento ser.

Perfilados em suas salas, presos em suas carteiras, sem conversa, os alunos são moldados, a gosto do poder que emana de uma sociedade hierárquica e hegemônica, robotizada e reprodutora, como reflete e refrata o clipe da canção “Another brick in the wall”, da banda Pink Floyd, que demonstra a opressão sistêmica do que alguns teimam em chamar de “educação escolar”. A canção quase soa como um slogan atemporal que muito lembra Ramonet:

Os colonizadores e seus opressores sabem que a relação de domínio não está fundada apenas na supremacia da força. Passado o tempo da conquista, soa a hora do controle dos espíritos. E é tanto mais fácil dominar, quando o domínio permanece inconsciente. Daí a importância da persuasão clandestina e da propaganda secreta, pois, a longo prazo, para todo império que deseja durar, a grande aposta consiste em domesticar as almas, torná-las dóceis e depois subjuga-las. (2002, p.21)

A fala de Ramonet, que vai ao encontro das reflexões de Foucault sobre as estratégias da microfísica do poder e vigiar e punir, faz-me pensar ainda mais na escola como estrutura de poder e no papel do professor. Este – e isso me horroriza – metaforizado como o carrasco, aquele que age em nome do poder, o que dá a sua “cara a tapa” ao executar as ordens advindas de cima (no caso, o Estado – sistema de avaliação, “escolha” de livro didático, preenchimento de fichas, sistema de presença/ausência, notas, aquele que “domina” a sala com silêncio e dá exemplo de comportamento “exemplar” com seus alunos, transformando-os em agentes passivos que não pensam, enfim, robôs que respiram e só obedecem), aquele que solta a guilhotina, enforca, mutila, dociliza corpos e mentes “selvagens” – de certa forma, pacifica comunidades à força (como a polícia!). Mas, será que todos os docentes têm essa consciência acerca de seus atos? Dormem tranquilos com isso? Será mesmo que, de fato, o que importa é apenas a (péssima) condição de trabalho e o salário indigno? Longe de querer ser missionária da educação (até porque não tenho vocação para Madre Teresa de Calcutá!), claro que as condições de trabalho, o salário, o reconhecimento acerca da importância do profissional da educação, tudo isso conta (e muito) para estimular melhorias e reflexões. Todavia, apenas colocar as questões sob esse prisma não resolve a questão e, enquanto nada é feito de fato (apenas medidas paliativas ou aparentes, com intuito de votos, aumento da dominação e da hegemonia), a situação só se agrava e a minha preocupação é, mais do que com a instrução (que pode ser adquirida, inclusive, de formas diversas, em outros locais e relações), com o desenvolvimento humano e social dos sujeitos. Denunciar, refletir sobre, falar acerca da questão é um começo de despertar da consciência. Primeiro passo a ser dado.

Ações são criadas para determinar necessidades, limites, desejos etc no outro (no caso, os alunos), com tons e matizes de democracia, entoações de “melhoria” e “crescimento” (muitas vezes, envolvendo questões econômicas e políticas que se dizem sociais por meio de projetos que aparentam auxílios “vantajosos”, como possibilidades de mobilidade, intercâmbios, programas de aperfeiçoamento e avanço profissional, bolsas dos mais variados tipos etc), todos controlados, de acordo com o poder da sociedade manipuladora e detentora do poder. Quando se coloca lente de aumento em diversas dessas “oportunidades” (assim chamadas), verifica-se grandes emboscadas.

Isso tudo leva a pensar que o sistema de ensino dissemina opressão e até, de certa forma, deseducação – de um certo ponto de vista, claro. Muitas vezes, não devido apenas ao educador (o “carrasco”, essa “peça” sistêmica), mas pelas condições de trabalho que são impostas de maneira opressora a ele (tente fazer diferente e diferença e verá o quanto o sistema todo pesa sobre você!). Conteúdos programáticos alijados de sentido são depositados em todos (docentes e discentes) com a finalidade da domesticação. Conteúdos, muitas vezes, transmitidos como “decoreba” sem sentido, impostas, hospedam-se nas consciências para tornar os sujeitos mais dóceis e a manipulação de uma dada “cultura” e de um registro de língua impostas e valoradas como “corretas” e “melhores”, camufladas em forma de falsa “ad-miração” do mundo para manter o status quo, com vistas à trans-formação ou manutenção do sistema, calcado na constituição de um ser enfraquecido de ideais e ideias, com baixa autoestima, que, muitas vezes, nega suas origens e, com isso, sua voz (e vez) – caso de camadas sociais mais baixas, negritude, indígenas, mulheres, homossexuais etc. A hegemonia impera contra a variedade, ainda que o “multi” determine a ordem do dia nos discursos aparentes.

Reflexões são feitas e propostas. Mudanças, também. Livros são escritos e teorias brotam até nos terrenos mais áridos. Contudo, as reflexões permanecem no campo das ideias ou até no papel; livros são lidos e recomendados como ótima leitura a ser digerida; e teorias são admiráveis e fazem todo o sentido. Mas, pergunto: e aí, em eu isso tudo ajuda a mexer com as estruturas sistêmicas e a mudar a situação caótica em que nos encontramos? Não vejo muitas coisas sendo feitas. Continuamos acomodados, controlados, buscando por mudanças e resultados sem sair do lugar. Que pena! Continuamos seguindo as ordens, sem cessar, sem questionar, clivados pelo poder.

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