“No one mourns the wicked”: uma breve reflexão dialógica sobre a diferença em Wicked
- rafaelabatista9
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Ana Carolina Siani
Com uma primeira parte lançada em 2024 (Wicked – Parte I) e a segunda em 2025 (Wicked – Parte 2), o filme Wicked é uma adaptação cinematográfica do musical da Broadway de mesmo título (em cartaz desde 2003) que, por sua vez, baseia-se no livro de Gregory Maguire, Wicked: A história não contada das Bruxas de Oz (2016 [1995]).
Enquanto um todo narrativo, no qual a obra de Maguire parte do universo do clássico O mágico de Oz de L. Frank Baum (2013 [1900]) e de elementos de sua adaptação cinematográfica mais famosa, O mágico de Oz de 1939; o enunciado Wicked segue a vida pregressa da Bruxa Má do Oeste e de Glinda, a Bruxa Boa, antes dos acontecimentos retratados em O mágico de Oz, de forma a nos oferecer uma outra perspectiva da história já conhecida.
De modo geral, Wicked concentra-se no ponto de vista da “vilã”, esta que é referenciada no clássico apenas como a Bruxa Má do Oeste, e que nesta narrativa torna-se a protagonista, ganhando um nome, Elphaba, uma mudança que já expressa os novos sentidos construídos pelo enunciado que nasce como uma “resposta” a outro (Bakhtin, 2011).
É a partir da constituição da personagem Elphaba, em seu percurso até tornar-se a Bruxa Má do Oeste, que no presente texto temos como intuito realizar uma breve reflexão acerca da materialização de relações de identidade e diferença na narrativa do filme Wicked, tendo em vista uma compreensão dialógica que toma a linguagem e o enunciado como um palco da luta entre valores sociais (Volóchinov, 2017), o que denota o caráter sígnico dos processos de construção do “diferente”. Para tanto, devido aos limites desta reflexão, nos concentraremos especialmente nos acontecimentos retratados na primeira parte da franquia fílmica.
Em Wicked (2024), Elphaba é rejeitada e marginalizada desde a infância, primeiro pelo pai e posteriormente pelos cidadãos de Oz, por ter nascido com a cor verde. Por uma interrelação entre valores sociais sustentada por determinados signos (aqui, a cor da pele), podemos compreender os mecanismos discursivos de construção da identidade e diferença a partir da contraposição entre a protagonista e seus outros.
Essa contraposição é explorada pelo projeto de dizer do enunciado ao retratar a “diferença” de Elphaba, que incorre no preconceito e exclusão que sofre, ancorando-se também na sua relação inicialmente de inimizade e posteriormente de amizade com Glinda na Universidade de Shiz, enquanto sujeitos completamente opostos e localizados em diferentes lugares sociais (Glinda é a garota “popular” da universidade, apreciada pelos colegas, padrão ético e estético almejado e a ser seguido).
Por uma compreensão dialógica, ancorada sobretudo no pensamento do Círculo de Bakhtin e sua filosofia da linguagem, a jornada e constituição da personagem Elphaba nos permite compreender o modo pelo qual a diferença é produzida a partir da identidade, pela/na alteridade, enquanto elementos interdependentes (uma não existe sem a outra) e fatos de sentido.
De acordo com Silva (2014), identidade e diferença “[...] não são criaturas do mundo natural ou de um mundo transcendental, mas do mundo cultural e social. Somos nós que as fabricamos, no contexto de relações culturais e sociais” (p. 76). Enquanto criações socioculturais, identidade e diferença não são preexistentes aos atos de linguagem, tratam-se antes de tudo de um conjunto de valores (discursos), formas de compreensão do mundo e consciência social, veiculados e concretizados pela/na materialidade significante, isto é, “[...] expressa e fixada pelo homem na palavra, no desenho artístico e técnico ou em alguma outra forma sígnica (Volóchinov, 2019, p. 243).
Conforme o pensamento do Círculo de Bakhtin, podemos dizer que um valor só pode ser estabelecido em contraposição (em uma relação de diferença) com outro valor, uma vez que nasce em um território interindividual, a partir de uma coletividade, do que decorre que um posicionamento sempre pressupõe ou leva em conta outros posicionamentos: “É impossível alguém definir sua posição sem correlacioná-la com outras posições” (Bakhtin, 2011, p. 297).
A “diferença” de Elphaba é produzida a partir da relação “eu-outro”, isto é, o “diferente” é valorado como tal sempre em relação a uma dada norma, esta que é “[...] a referência, é o ponto original relativamente ao qual se define a diferença. Isto reflete a tendência a tomar aquilo que somos como sendo a norma pela qual descrevemos ou avaliamos aquilo que não somos” (Silva, 2014, p. 75-76). E sendo a linguagem e o enunciado um reflexo e refração das relações conflituosas entre sujeitos socialmente organizados (Volóchinov, 2017), a produção da identidade e diferença também compreende dinâmicas de força e poder, a partir das quais determinados sujeitos construídos como “diferentes” serão marginalizados.
Em Wicked (2024), a cor de pele verde é o signo que materializa a diferenciação (não-identidade) de Elphaba em relação aos seus “outros”, elemento a partir do qual a personagem será valorada de forma negativa.
Figura 1: Elphaba na infância

Figura 2: Elphaba na infância

Nas sequências em destaque (Figuras 1 e 2), temos acesso às lembranças da infância de Elphaba, na qual é retratado o preconceito que a personagem sofre por parte de outras crianças por causa da sua cor. Assim, ter a cor verde no interior dessa coletividade é uma característica que vai contra um determinado “padrão” e que por isso, é associada a determinados valores negativos (éticos e estéticos), visto como algo que não pertence àquela sociedade.
Tendo em vista o projeto de dizer do enunciado fílmico, é interessante observar que as crianças enunciam em um tom negativo que Elphaba é “verde como as árvores” (Figura 2), o que nos chama atenção para plurivalência de sentidos desta cor, a qual será trabalhada pela narrativa e franquia de Wicked, em relação de oposição e complementariedade com o rosa, marca da personagem Glinda. Isso porque, conforme Heller (2013), o verde pode ser signo de valores ligados a natureza, esperança, frescor, entre outros, mas também assume, por outro lado, em algumas práticas de representação, mitos e narrativas, o sentido de “horripilante” e repulsivo (por também ser a cor de lagartos, serpentes, sapos), uma vez que pode ser tida como a cor mais “anti-humana” de todas, frequentemente mobilizada para retratar monstros, criaturas mitológicas, extraterrestres, demônios etc.
A norma compreende o que está na margem, pois “[...] a definição daquilo que é considerado aceitável, desejável, natural é inteiramente dependente da definição daquilo que é considerado abjeto, rejeitável, antinatural” (Silva, 2014, p. 84), uma complementariedade valorativa que em Wicked (2024) será explorada pela inesperada amizade entre Elphaba e Glinda, tendo em vista a versão da história retratada no clássico O mágico de Oz.
Ao adentrar a Universidade de Shiz, a cor de Elphaba causa estranhamento e rejeição por parte dos colegas, incluindo Glinda, com qual desenvolverá uma relação de inimizade. Glinda é caracterizada como ambiciosa, e mesmo expressando seu estranhamento e preconceito com Elphaba (a descreve como “exótica” e define sua cor como um “problema” a ser resolvido), ao interagir com ela, age com condescendência (Figura 3), valoração expressa não só pela palavra que utiliza para se referir a sua cor (“problema”), mas também pelo tom de voz e expressões faciais que emprega, o que faz com que seja exaltada por sua suposta “bondade” (ainda que no decorrer da trama, a afeição e amizade que surge entre elas se mostre verdadeira). O contraste ético e estético entre as duas protagonistas que refletem e refratam o modo pelo qual identidade e diferença são construídas via discurso corrobora com a constituição de cada uma em signos ideológicos do “bem” (Glinda, a Bruxa Boa) e do “mal” (Elphaba, a Bruxa Má do Oeste), a narrativa já conhecida da obra-fonte, a qual a franquia Wicked visa desconstruir.
Figura 3: Elphaba e Glinda na Universidade de Shiz

Todo signo carrega e veicula uma ideologia, um dado conjunto de valores, assim, por meio da manipulação da opinião pública e difusão de uma dada narrativa, Elphaba transforma-se no próprio “mal”, isso porque não aceita submeter-se aos planos autoritários de governo do Mágico (dentre os quais temos o projeto de exclusão e marginalização dos animais), e passa a ser enunciada em toda a Oz como a “inimiga” que deve ser eliminada, o que culmina na sua transformação na Bruxa Má do Oeste, um percurso que compreende o olhar/enquadramento axiológico que parte do “outro”, e de forma hierárquica distribui o poder entre quem pode definir e quem é definido.
A produção discursiva da norma e do diferente compreende determinados movimentos valorativos, nos quais uma dada moral e ética é atribuída aos sujeitos: “[...] incluir/excluir (‘estes pertencem, aqueles não’); demarcar fronteiras (‘nós’ e ‘eles’); classificar (‘bons e maus’; ‘puros e impuros’; ‘desenvolvidos e primitivos’; ‘racionais e irracionais’); normalizar (‘nós somos normais; eles são anormais’)” (Silva, 2014, p. 81-82). Dividir e classificar, também compreende o ato de hierarquizar e imputar comportamentos positivos e negativos tanto aos dominantes como aos subalternizados. Do mesmo modo, em Wicked (2024), Elphaba passa a ser definida como “má”, e para tanto, sua cor é evidenciada, como no discurso proferido por Madame Morrible aos cidadãos de Oz.
Figura 4: A transformação de Elphaba na Bruxa Má do Oeste

Na sequência acima (Figura 4), acompanhamos a associação entre a cor de pele de Elphaba (ressaltando-se essa sua “diferença” para “justificar” supostos atos condenáveis da personagem) e o valor de “maldade”. A recorrência a uma “natureza”, argumento presente no discurso de Morrible, visa assegurar ou sustentar determinados discursos preconceituosos e realizar a manutenção de hierarquias, o que se trata de um lugar comum neste tipo de visão de mundo. Assim, determinados tipos de intolerância sempre procedem a uma “essencialização” de características consideradas negativas imputadas às características de determinados grupos. Ainda no caso de Elphaba, esse tipo de estratégia discursiva cumpre com a manipulação promovida por Morrible e o Mágico, o que também envolve a instrumentalização de Glinda e sua imagem “irretocável” (“boa”) para a campanha de perseguição à Elphaba, quando aquele se torna a garota propaganda do governo.
Em seu projeto de dizer, a jornada de Elphaba demonstra o modo pelo qual a língua/linguagem nunca são neutras:
O enunciado nunca é apenas um reflexo, uma expressão de algo já existente fora dele, dado e acabado. Ele sempre cria algo que não existia antes dele, absolutamente novo e singular, e que ainda por cima tem relação com o valor (com a verdade, com a bondade, com a beleza, etc.) (Bakhtin, 2011, p. 326).
A releitura operada por Wicked nos permite compreender o discurso como um reflexo e refração da realidade, isto é, como uma atividade sígnica que não só descreve o mundo, como também cria algo novo e o avalia, podendo por isso mesmo, distorcê-lo. Mais do que isso, enquanto enunciado estético que nasce do solo social e toca em questões da vida de modo singular (de seu lugar único e a partir das potencialidades da esfera artística e do gênero dentro do qual concretiza-se), a constituição de Elphaba exemplifica o modo pelo qual identidade e diferença longe de serem elementos do mundo natural e fatos essenciais aos sujeitos, são antes de tudo, construções de sentido, o que vai ao encontro do que nos diz Hall (2013): “Não é que as diferenças não existam, mas sim que o que importa são os sistemas que utilizamos para dar sentido a elas” (Hall, 2013, s/p.).
Conforme a máxima que diz que toda história tem dois lados, na esteira de uma série de outros enunciados que buscam mostrar a perspectiva dos “vilões”, o enunciado fílmico Wicked comporta-se como um organismo vivo que traz em si um confronto entre vozes sociais, portanto, mostra-se como uma unidade de sentido complexa que visa desmontar uma narrativa já conhecida.
Ainda no interior do próprio enunciado e na sua relação com outros, podemos compreender a existência de movimentos de forças centrípetas e centrífugas (Bakhtin, 2014), uma vez que, no que diz respeito a produção discursiva da identidade e diferença, temos um jogo entre tentativas de fixidez e outras que visam desestabilizar esses valores, o que evidencia a linguagem como espaço de resistência nos qual podemos ressignificar e desconstruir hierarquias. Tal deslocamento é operado por Wicked (2024) ao humanizar Elphaba e Glinda, descontruindo uma narrativa já cristalizada (a tão essencializada luta entre “bem” e “mal”), ao retratar estas como sujeitos ambivalentes. Assim, entender as identidades e diferenças como construções simbólicas nos permite compreender as estratégias discursivas de suas imposições, o que também nos permite pensar que a linguagem pode ser usada tanto para reafirmar estereótipos e valores nocivos, como para desconstruí-los.
Finalmente é importante enfatizar que a presente reflexão não buscou esgotar as possibilidades de análise sobre os reflexos e refrações da identidade e diferença em Wicked, bem como realizar uma análise mais minuciosa e aprofundada da construção de sentido do enunciado fílmico, o que será feito em um trabalho futuro.
Referências bibliográficas
BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora Martins Fontes, 6ª edição, 2011.
BAKHTIN, M. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini, José Pereira Júnior, Augusto Góes Júnior, Helena Spryndis Nazário, Homero Freitas de Andrade. São Paulo: Hucitec, 2014.
BAUM, F. L. O mágico de Oz. Tradução de Sérgio Flaksman. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.
MAGUIRE, G. Wicked: A História Não Contada das Bruxas de Oz. Tradução de Tatiana Leão. São Paulo: LeYa, 2016.
HALL, S. Raça, um significante vazio. In: Z Cultural. UFRJ. Revista do Programa Avançado de Cultura Contemporânea. Ano VIII, Volume 02. 2013. Disponível em: https://revistazcultural.pacc.ufrj.br/raca-o-significante-flutuante%EF%80%AA/ (Acesso em 16 de março de 2026).
HELLER, E. A psicologia das cores: como as cores afetam a emoção e a razão. São Paulo: Gustavo Gili, 2013.
SILVA, T. T. da. A produção social da identidade e da diferença. In: SILVA, T. T. da. (Org.). HALL, S. WOODWARD, K. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 15ª edição, 2014, p. 73-102.
VOLÓCHINOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem. Tradução de Sheila Camargo
Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. Rio de Janeiro: 34, 2017.
VOLÓCHINOV, V. A palavra na vida e a palavra na poesia: Ensaios, artigos, resenhas e poemas. Organização, tradução, ensaio introdutório e notas de Sheila Grilo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Editora 34, 2019.
WICKED. Direção: Jon M. Chu. Produção: Marc Platt, David Stone. Roteiro: Winnie Holzman, Dana Fox. Música: Stephen Schwartz. Distribuição: Universal Pictures, 2024, 160 min.
1 “Ninguém chora pelos maus” (Tradução nossa). Trecho da canção No one mourns the wicked, que abre o filme Wicked (2024), na qual as personagens comemoram a morte de Elphaba, a Bruxa Má do Oeste. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=HgwOx31qsK4 (Acesso em 16 de março de 2026).




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