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Breve olhar para a noção de identidade na letra da canção “Língua Índia”- Arnaldo Antunes

Rafaela dos Santos Batista

Arnaldo Antunes tem uma ampla produção multimodal eclética. Seu trabalho artístico evidencia um posicionamento de linguagem único, concebido fora da esfera e suporte canônicos. Atuante em diversas áreas da arte, ele mesmo denomina a si e seu fazer como inclassificável, por ser traçado a partir da verbivocovisualidade: uma visão que entende a proposição e a materialização da linguagem em dimensões verbais, vocais e visuais sincreticamente.

Esse ensaio é uma reflexão sobre a língua como parte da vida social humana, logo, refratária de identidade. Por isso, entendê-la no esteio social e identitário é percebê-la como um organismo que não é pronto e nem acabado. Para isso, a letra da canção “Língua Índia” – O Real Resiste (2020) foi escolhido para debate, pois é exemplar para tratar dos assuntos elencados. Este é um recorte do Trabalho de Avaliação da Disciplina “Tópicos em Sociolinguística”, cursada no Programa de Pós-Graduação em Linguística e Língua Portuguesa na Unesp – Câmpus de Araraquara, no ano de 2023 sob responsabilidade da Profa. Dra. Gladis Massini-Cagliari, Profa. Dra. Angelica Terezinha Carmo Rodrigues e Profa. Dra. Rosane de Andrade Berlinck.

A língua foi, por muito tempo, encarada de forma virtual. A dicotomia de Saussure e o olhar estrutural não buscaram observar as relações entre língua e sociedade, pois formaram uma complexa estrutura de elementos que recebeu amplo espaço na Linguística: apartada da manifestação espontânea, a língua se tornou um sistema abstrato sem variações e erros.

No entanto, essa visão de língua é uma idealização, em razão de hoje já se entender que a língua tem realização na sociedade, nos seus falantes e por isso deixa de ser encarada como um sistema abstrato, mas sim como parte da vida e por isso é inacabada. Ela é uma manifestação do homem no seio social, a refletir visões de mundo, lugares de origem, não existindo apenas um modo “certo” de se comunicar. A língua é linguagem per se, isto é, comunica ideias, sentimentos: comunica a vida.

Se língua(gem) comunica a vida, ela evidencia a identidade. A relação entre esses elementos, mesmo que em graus distintos de intensidade, revelam modos de lidar com a variação e mudança da língua, uma vez que deixa de ser um objeto estanque.

O conceito de identidade pode ser visto como “[…] a negociação ativa da relação de um indivíduo com as estruturas sociais mais amplas, na medida em que essa negociação é sinalizada através da linguagem e de outros meios semióticos” (Mendoza-Denton, 2004, p. 475 – tradução nossa[1]), assim, as escolhas linguísticas dos sujeitos são realizadas a partir da identidade que carregam. O processo identitário de comunicação abarca aspectos como gênero, etnia, faixa etária, práticas sociais, classe social e outros. A variação e mudança da língua, ao relacionar linguagem e sociedade, mostra que a maneira que usamos a língua remete ao modo como nos identificamos.

Um mesmo sujeito pode ser atravessado por várias identidades, pois elas não são categorias fechadas, uma vez que são construídas face aos valores políticos, históricos, econômicos, institucionais etc. Ao interagir, o ser humano se constrói como sujeito de linguagem que carrega valores em sua fala, valores esses que trazem aspectos diversos de sua identidade, em constante mudança e transformação, bem como a língua. O homem não é apenas uma “coisa”, um ser humano pode se constituir de múltiplas formas e isso será levado para a língua, já que ela reflete o sujeito que usufrui da comunicação para interesse próprio, é um falante competente que se impõe na língua.

Como identidade e linguagem são mutuamente implicadas, entendemos os indivíduos como dinâmicos, uma vez que suas identidades são construções sociais, históricas e políticas mutáveis, em constante formação e transformação. Isso também ocorre com a língua, dado que as variações e mudanças se dão justamente por conta da implicação da identidade/linguagem. Deve-se observar o sujeitos como engajados em suas práticas sociais, logo, entram em processo identitário e estabelecem, nas comunidades de práticas, manifestações linguísticas que assumem, dentro desse espaço, um significado social.

A língua como característica do sujeito é evidenciada na letra da canção “Língua Índia” (2020)[2] de Arnaldo Antunes. Aqui, podemos ver um olhar atento para a linguagem, como muito é realizado no trabalho arnaldiano: o autor expressa metalinguisticamente sua visão sobre como o idioma revela identidade, de como as mudanças e transformações que a língua passa revela o sujeito-homem que usufrui dela.

A letra da canção mostra o processo de ação do homem nas línguas, que se misturam e formam outras. A questão da identidade é evidenciada no fato de que o português brasileiro se sustenta em múltiplas raízes, especialmente a indígena. Portanto, a brasilidade é mostrada em tom combativo na letra da canção, que ressalta como o português brasileiro recebe influências das línguas indígenas, pois isso se deve ao fato de que o Brasil não é um país monolíngue.

A canção de Antunes, ao reaver o passado do português e ao mostrar que nossa língua é influenciada por línguas indígenas, justamente porque nosso passado e atualidade dialoga com esses povos que hoje são minoritários, reavive a presença da real brasilidade: com certo tom embativo, assume sua identidade brasileira miscigenada, que é sempre evidenciada pela língua portuguesa, como ele mesmo assume ao falar da sua obra: “Na música ‘Língua Índia’ eu já tinha feito a melodia e tinha começado a fazer a letra, mas acabei a letra lá, enquanto pensava nas transmutações da língua pelos falantes, como também a contaminação das línguas indígenas no português que se fala no Brasil, que veio do latim, tudo isso ‘tá’ na música” (Costa, 2020).

A língua é “índia”, “gringa” e “brinca de vida”, a ressaltar o seu caráter social e a miscigenação do português brasileiro como parte da identidade do povo. Ainda, ao trazer “Lira felícia”, “Inca”, “Hindu”, “China” e “Xingu”, a letra da canção sugere certa apreciação pela multiplicidade de idiomas e culturas que agem em transformações e evoluções, desde a Antiguidade (dado aos povos citados e até a referência ao lado sonoro da língua com a palavra “Lira”) até os dias atuais.

Em “o que vinga vem da mudança”, o autor relembra a capacidade linguística de variação dada a linguagem ligada à cultura, à mercê do homem que se transpõe na linguagem. O trecho “Uma sílaba de distância / Uma pétala na balança”  mostra a língua como unificadora dos povos, é a partir dela que o homem pode ser visto, estudado e entendido: mesmo que cada sujeito de linguagem tenha traços próprios para se comunicar, pertence a uma identidade cultural, se constitui situadamente como membro de comunidades diversas que o fundam enquanto ser ativo, logo, toda sua capacidade e sua identidade podem ser percebidas pela língua, espaço pleno de manifestação cultural.

Em “Compartilham a mesma herança / Línguarani”, há o destaque para um passado compartilhado de diferentes línguas e povos, a mostrar como o português brasileiro é mais do que uma ascendência somente europeia: a brasilidade é marcada por mais raízes, línguas e culturas que já e ainda entram em embate para moldar esse idioma, como também traz os trechos “Ente Shiva” e “Brisa escrita”, que evocam elementos místicos e espirituais para ancorar a diversidade cultural que “Brinca de vida / De uma fibra faz-se uma trança / Da cantiga nasce uma dança”, isto é, múltiplos valores sociais podem transformar a linguagem.

A identidade, portanto, é dinâmica, podemos receber diversos traços para nos compor e, ao entender que língua e sociedade estão estritamente imbricadas, notamos como a língua portuguesa brasileira revela as várias facetas do seu povo.

Referências ANTUNES, Arnaldo. O real resiste. O real resiste [álbum]. Piracicaba: Rosa Celeste, 2020.

COSTA, Tássia. Entrevista: A resistência em Arnaldo Antunes. Noize. 2020. Disponível em: https://noize.com.br/entrevista-a-resistencia-de-arnaldo-antunes/#1. Acesso em: 07 dez. 2023.

MENDOZA‐DENTON, Norma. Language and identity. In: The handbook of language variation and change, p. 475-499, 2004.

[1] 1 No original: “[…] identity to mean the active negotiation of an individual’s relationship with larger social constructs, in so far as this negotiation is signaled through language and other semiotic means” (Mendoza-Denton, 2004, p. 475).

[2] Disponível em: https://youtu.be/aXqb1SK52ks?si=SQrs99fG3fPTfUrB. Acesso em: 06 dez. 2023.

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