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- Corpos em constante negação: o alvo tem cor e classe
Kamilat Ariele Souza Akinlotan O mundo atravessa quase dois anos de pandemia, ao lado de perdas incessantemente dolorosas, parentes, amigos e companheiros que restaram somente em memórias. Um momento de desajustes, desarmonias e desgoverno que propõe práticas eugenistas, autoritárias e discriminatórias como a política atual brasileira (PAULA; LOPES, 2020). A vivência e a (sobre)vivência é histórica, reflete e refrata a situação de desordem e regresso em que o país está condicionado. E não obstante, a resistência que há na população brasileira reverbera, àqueles que anseiam por um futuro em que a educação e a ciência sejam valorizadas, e que lutam em combate a desigualdade social e racial. Este texto propõe uma discussão a respeito de acontecimentos históricos atuais e marcados por violência pautados no racismo. De acordo com Bakhtin em Estética da Criação Verbal, “os enunciados e seus tipos, isto é, os gêneros discursivos, são correias de transmissão entre a história da sociedade e a história da linguagem” (p. 268). Portanto, os valores sócio-históricos estão fundamentalmente constituídos nos enunciados, no qual se investiga e analisa o contexto. Em 2020, por meio de hashtags nas mídias sociais, houveram ondas de protesto em prol ao combate à violência policial e ao racismo, que eclodiu nos EUA, o movimento antirracista Black Lives Matter (Vidas Negras Importam). O assassinato de George Floyd designou no estopim do protesto nos EUA. Jovem, homem negro, que levou a ser asfixiado por um policial branco que ajoelhou em seu pescoço por supostamente ter uma nota “falsa” em um estabelecimento em Minneapolis no estado de Minnesota. O falecimento de Floyd mobilizou o mundo, na internet, famosos e empresas multinacionais utilizaram hashtags, feed com imagens de fundo preto que semiotizam o luto e o combate aos grupos supremacistas brancos e a brutalidade policial oriundo do racismo estrutural do país. O primeiro não foi Floyd, e infelizmente não será e não foi o último. Para a população negra a qualquer momento pode determinar a assinatura da carta da sua sentença, uma vez que o mundo é colonizado e o corpo negro por sua vez é negado. (FANON, 2020). No Brasil, de acordo com cantor e compositor Criolo em sua canção Boca de Lobo, “Um litro de Pinho Sol pra um preto rodar” fazendo referência ao jovem negro Rafael Braga, que foi condenado por 11 anos por roubar um produto de limpeza, enquanto o atual presidente recusou ofertas da vacina que culminou em mais brasileiros mortos pelo vírus, no qual resultaram em mais de 500 mil mortos. Entretanto, os olhos insistem em condenar outros corpos. O presidente Jair Bolsonaro está envolvido em escândalo de corrupção da vacina Covaxin, mas nestes casos as investigações andam em passos vagarosos. O alvo tem classe e cor e o detentor da arma é a branquitude. O Fruto do racismo estrutural é o estado determina quem morre e quem vive para a manutenção da necropolítica (MBEMBE, 2018). Conforme Sílvio Almeida (2021), “O racismo, mais uma vez, permite a conformação das almas (…)”, ou seja, se naturaliza morte de pessoas racializados por “balas perdidas” como o caso da jovem Kethlen Romeu, mulher, gestante, negra, jovem e designer de interiores e vítima de violência policial no ano de 2021 no Rio de Janeiro em uma visita a sua avó materna na comunidade local, entretanto foi atingida por uma “bala de fuzil perdida”. Sonhos, desejos, construções e famílias que foram negados. Não foi somente a Kathlen, antes foi João Alberto em um supermercado brutalmente agredido por seguranças e entre outros e infelizmente não serão os últimos. Vidas negras importam. Não somente importam nos feeds do instagram, nas publicações e publicidades que promovem “consciência racial” uma vez por ano ou somente no dia 20 de novembro. A ação da luta antirracista deve ocorrer diariamente em todos os locais, é a inserção, integração, ato de alteridade, é a visibilidade de corpos que são constantemente negados em uma sociedade branca, heteronormativa e patriarcal. A luta e resistência é feita incessantemente, inclusive neste texto dispondo a escrita como ato de protesto, político, crítico e reflexivo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, S. Racismo estrutural. São Paulo: Editora Jandira, 2021 BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 6ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011. BERMÚDEZ, A.Morte de George Floyd: 4 fatores que explicam por que caso gerou onda tão grande de protestos nos EUA. BBC News Brasil. Publicado em: 2 de junho de 2020. Disponível em: < https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52893434> FANON, F. Pele negra, máscaras brancas. São Paulo: Ubu editora, 2020. GALVANI. G.Percepção de não-combate à corrupção por Bolsonaro chega a 45%. Carta Capital. Publicado em 02/07/2021. Disponível em: < https://www.cartacapital.com.br/politica/percepcao-de-nao-combate-a-corrupcao-por-bolsonaro-chega-a-45/> G1 Rio.O que se sabe sobre a morte da jovem Kathlen Romeu, no Rio. G1 Notícias. Publicado em 10/06/2020. Disponível em: < https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2021/06/10/o-que-se-sabe-sobre-a-morte-da-jovem-kathlen-romeu-no-rio.ghtml > MBEMBE. A. Necropolítica. São Paulo: N-1, 2018 PAULA, L.; LOPES, A. S. A eugenia de Bolsonaro: leitura bakhtiniana de um projeto de holocausto à brasileira. Revista Linguagem, São Carlos, v.35, Dossiê Discurso em tempos de pandemia. setembro/2020, p. 35-76. RIBEIRO. D. Pequeno Manual Antirracista. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. VASCONCELLOS, H. Apaixonado por futebol, brincalhão e família: quem era João Freitas. Uol Notícias. Publicado em: 20/11/2020. Disponível em: < https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2020/11/20/quem-era-joao-freitas-morto-no-carrefour.htm>
- A QUESTÃO MUSICAL NO CÍRCULO B.M.V: OS ESTUDOS DE IVAN SOLLERTÍNSKI
José Antônio Rodrigues Luciano Embora tenha tido grande recepção no campo dos estudos literários e, posteriormente, nos estudos culturais, a filosofia bakhtiniana não se ocupou apenas do signo verbal. O grupo de intelectuais russos conhecidos como Círculo de Bakhtin (ou, ainda, Círculo B.M.V, conforme Vauthier [2010]) tinha por objeto a linguagem (seja ela enquanto materialidade verbal, visual, sonora ou sincrética). Por exemplo, Bakhtin (2011) debruçou-se sobre a pintura, bem como chegou a desenvolver uma filosofia da música a partir de Schelling, que fora abandonado pensador russo, e a lecionar nessa disciplina no Conservatório em Vitebsk,. No período em que foi reitor da Universidade de Proletária de Vitebsk, função que também serviu como equivalente a prefeito da cidade, Medviédev participou da “Irmandade” do Teatro Itinerante, dirigido pelo ator e poeta P. P. Gaidebúrov, e tornou-se diretor de repertório e redator da revista Zapísski peredvijnógo teatra (Notas de um teatro itinerante). Além de linguista, Volóchinov (2019) também foi musicista e escreveu artigos sobre música, dentre eles, “O estilo do concerto”, de 1923, e “Problemas da Obra de Beethoven” em duas partes (1922) e (1923) – lembremos: seis anos antes de Bakhtin publicar o livro quase homônimo Problemas da Obra de Dostoiévski (1929). Os apontamentos feitos acima bastar-nos-iam para ilustrar o quanto o foco deste grupo de pensadores estava na questão da linguagem e não somente na língua/literatura. Contudo, ao percorremos as obras do Círculo, podemos acrescentar, ainda, conceitos advindos de outras áreas e que nos remetem ao visual e ao sonoro, como é o caso de polifonia, homofonia, voz (social), entonação, acento, arquitetônica, imagem de autor, imagem externa, dramatização. Por fim, um terceiro pilar que sustenta nossa posição está na composição do grupo com formações heterogêneas, a saber, físico, biólogos, filósofo, poeta, escultor e músico, os quais se reuniam em torno de um objeto em comum: linguagem. Conforme dissemos em outros trabalhos (LUCIANO, 2021; PAULA & LUCIANO, 2020) a partir de Emerson (2003) e Volóchinov (2017), o texto verbal teve uma predominância, se assim podermos dizer, nos estudos dos autores por três principais fatores: I) devido à impossibilidade em se abordar o fenômeno amplo da linguagem, com suas particularidades e especificidades; II) o signo verbal acompanha todos os campos da vida, o que o torna mais sensível para as percepções da realidade social e; III) a literatura era a própria vida real no duro regime soviético. Contudo, isso não impediu que fossem desenvolvidos simultaneamente estudos sobre música, pintura. A título de ilustração, neste texto, destacaremos brevemente alguns trabalhos de Ivan Sollertínski, membro do Círculo, musicólogo de prestígio na União Soviética, professor no Conservatório de Leningrado, Diretor Artístico da Filarmônica da mesma cidade e amigo íntimo de Dmitri Chostakóvich, a quem influenciou fortemente nas composições. De acordo com Fairclough (2001), ao compararmos os escritos de Sollertínski com um dos mais iminentes teóricos da música da União Soviética, Boris Asafiev, podemos observar um estilo de caráter semiótico do que formal propriamente dito, o que explica um maior interesse do Ocidente na obra deste último do que do primeiro. O musicólogo do Círculo havia um olhar para a música com um viés filosófico e literário, de modo que nunca escreveu sobre harmonia, forma do ponto de vista técnico – esta é uma característica de Asafiev. Ainda segundo a pesquisadora britânica, Sollertínski “preferiu discutir música de uma perspectiva sociofilosófica, valendo-se da experiência em teatro clássico europeu, filosofia e literatura para o contexto histórico”1 (p. 367, tradução nossa). Nesse sentido, óperas como Don Giovanni e A Flauta Mágica são vista a partir das noções de plurilinguismo e plurivocidade, as quais foram definidas pelo Círculo, sobretudo em relação à linguagem literária. Com isso, notamos a convergência na maneira de se pensar a linguagem, muito cara ao pensamento bakhtiniano. Embora os textos de Sollertínski estejam publicados na Rússia, poucos estão disponíveis nas línguas Ocidentais. Em russo, encontramos a publicação do livro sobre Gustav Mahler (1932), duas coletâneas organizadas por Mikhail Semenovich Druskin, I. Sollertinsky: Kriticheskie stat’iy [Critical Articles] (1963) e I. Sollertinsky: Istoricheskie etyudï [Historical Studies] (1958). Nesta última, estão os escritos mais expressivos do musicólogo russo, como The Problem of Symphonism (1929), Shakespeare and the World Music (1939) e Historical Types of Symphonic Dramaturgy (1941). Além disso, há também duas biografias sob a curadoria de sua nora Liudmila Mikheeva, Pamyati I. I. Sollertinskogo: Vospominaniya, materiali, issledovaniya [In Memory of I. I. Sollertinsky: Reminiscences, Materials, Articles] (1978) e I. I. Sollertinsky: Zhizn’ i naslediya [I. I. Sollertinsky: Life and Works] (1988). No Ocidente, o acesso aos trabalhos de Sollertínski é escasso. Destacamos, aqui, a obra de Eric Roseberry Style, Content, Thematic Process, and Ideology in the Symphonies, String Quartets, and Cello Concertos of Dmitri Shostakovich (1989), na qual se encontra a tradução para o inglês do texto “Historical Types of Symphonic Dramaturgy” e o sumário do livro sobre Mahler Musica. Do mesmo modo, em língua italiana, temos a coletânea de textos Musica e letteratura al tempo dell’Unione Sovietica, organizada por Samuel Manzoni. Todavia, a maneira mais frequente de nos depararmos com a obra do musicólogo russo é por meio de fragmentos presente em pesquisas em música, principalmente na área da (nova) musicologia e nos trabalhos relacionadas à obra de Chostákovich, pois “quase qualquer pessoa interessada na música de Shostakovich sabe alguma coisa sobre Ivan Sollertinsky”2 (FAIRCLOUGH, 2001, p. 367), dada a proximidade de ambos e pelo compositor relatar recorrentemente a amizade com musicólogo em seu Testimony (1979)3. Na Itália, ainda, contamos as pesquisas de Cassoti que buscou refletir a ressonância musical no Círculo na relação Bakhtin, Sollertínski e Yudina – trateremos dela no próximo Ato. Em texto traduzido para o português, a pesquisadora italiana aborda o texto “Historical types of symphonic dramaturgy”, citado acima, no qual Sollertínski estuda diversos tipos de dramaturgia sinfônica e define um tipo particular de sinfonismo chamado “sinfonismo shakeasperizante”, que encontrará plena realização em Beethoven. Essa categoria se trata de uma representação objetiva e sintética da realidade e dos processos conflituosos que nela ocorrem ou, em outros termos, de um sinfonismo dramático. Nas palavras de Cassotti (2010, p. 154), baseando-se nos estudos de Cohen, dramático, pois, uma vez que “o drama é processo, ação, em que há não somente uma, mas diversas consciências humanas que entram em embate umas com as outras” (…). Em suma, um sinfonismo do tipo shakeasperizante, de acordo, com Sollertínski, baseia-se “no princípio não monológico, mas dialógico”, de acordo com o princípio da “pluralidade de consciências”, da “pluralidade de ideias e vontades que opõe resistências”, na afirmação do princípio de “eu outrem” [io altrui]. Dessa forma, vemos que Sollertínski lança mão de conceitos como dialogismo, multiplicidade de vozes, carnavalização para analisar e descrever os fenômenos das obras não só de Mozart, mas de Beethoven e da música de maneira geral, compreendendo-a como um acontecimento social, uma linguagem por excelência. Cassoti cita também as análises das óperas de Mozart, Don Giovanni e A Flauta Mágica, a partir das concepções elaboradas pelo Círculo. Nesta leitura das peças, Sollertínski aponta uma relação entre o trágico e o cômico juntos, a qual se liga diretamente à obra Cultura Popular, de Mikhail Bakhtin. Inclusive, este último afirma, neste texto, que o próprio Shakeaspeare – presente nas obras de Mozart – fez de forma significativa a coexistência e o reflexo mútuo do sério e do cômico, associando-se à noção de carnavalização. Segundo Cassoti (2010) Na ópera lírica combina simultaneamente vários sistemas semióticos verbal, visual, gestual e musical. Nele coexistem mais canais de comunicação paralela, às vezes em harmonia e outras vezes em mútua interferência. A ópera, e em particular o “Singspiel”, com sua alternância particular de partes faladas e partes cantadas, pode ser definida como um gênero baseado no plurilinguismo, na plurivocidade, na pluridiscursividade, categorias definidas por Bakhtin em relação à linguagem literária (…). Em todo caso, é possível falar de plurilinguismo a propósito de A Flauta Mágica porque nela coexistem não somente uma pluralidade de expressões não só no plano estritamente estilístico mas também no ideológico (…). (p. 161, grifos nossos) Assim, por meio da discussão feita pela pesquisadora italiana, evidencia-se a proposta de Sollertínski, mencionada no início, voltada para uma abordagem sociofilósofica da música ou, se preferirmos, a música como discurso. Acrescentamos a isso, também a compreensão da filosofia do Círculo B.M.V orientada para a linguagem em sua manifestação ampla, de maneira que as categoriais conceituais formulada pelos intelectuais russos são produtivas não apenas aos fenômenos literários ou linguísticos, mas também para signos visuais ou sonoros, conforme fica latente na obras desses autores por seus apontamentos teóricos, bem como em práticas analíticas realizadas pelos membros. Com essa breve apresentação e reflexão, portanto, esperamos ampliar o entendimento acerca do pensamento bakhtiniano, em especial à concepção de linguagem tridimensional verbivocovisual, por meio da divulgação de trabalhos de outros membros que tanto quanto contribuíram para a construção do que podemos denominar de uma filosofia dialógica da linguagem. Referências BAKHTIN, Mikhail. Estética da Criação Verbal. Trad. de Paulo Bezerra. 6ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011. CASSOTTI, Rosa Stella. Ressonâncias musicais no Círculo de Bakhtin – Ivan I. Sollertinsky, intérprete de Mozart. In: PAULA, L. de; STAFUZZA, G. Círculo de Bakhtin – teoria inclassificável. Campinas: Mercado de Letras, 2010. (Série Bakhtin: inclassificável, v. 2). EMERSON, Caryl. Os 100 primeiros anos de Mikhail Bakhtin. Rio de Janeiro: DIFEL, 2003. FAIRCLOUGH, P. Mahler Reconstructed: Sollertinsky and the Soviet Symphony. The Musical Quarterly, Volume 85, Issue 2, Summer 2001, pp. 367–390. PAULA, Luciane de; LUCIANO, José Antonio Rodrigues. A tridimensionalidade verbivocovisual da linguagem bakhtiniana. Revista Linha D’Água, São Paulo (SP), v. 33, n. 3 (2020), p. 105-134. Disponível em: < https://www.revistas.usp.br/linhadagua/article/view/171296 >. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2236-4242.v33i3p105-134. Acesso em: 17 dez. 2020. LUCIANO, José Antonio Rodrigues. Filosofia da linguagem bakhtiniana: concepções verbivocovisuais. 2021. 278f. Dissertação (Mestrado em Linguística e Língua Portuguesa) — Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Faculdade de Ciências e Letras (Campus Araraquara), Araraquara, SP 2020. Disponível em: < http://hdl.handle.net/11449/204473 > MEDVIÉDEV, Iúri Pavlovitch; MEDVIÉDEVA, Dária Aleksándrovna. O Círculo de M. M. Bakhtin: sobre a fundamentação de um fenômeno. Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso, [S.l.], v. 9, p. 26-46, jun. 2014. ISSN 2176-4573. Disponível em: < https://revistas.pucsp.br/bakhtiniana/article/view/11535 >. Acesso em: 20 maio 2020. VAUTHIER, Bénédicte. Auctoridade e tornar-se autor: nas origens da obra do “Círculo B.M.V.” (BAKHTIN, MEDVEDEV, VOLOCHINOV). In: PAULA, L. de; STAFUZZA, G. (Orgs.). Círculo de Bakhtin – teoria inclassificável. Campinas: Mercado de Letras, 2010. p. 279-292 (Série Bakhtin: inclassificável, v. 1). VOLÓCHINOV, Valentin. A palavra na vida e a palavra na poesia. Trad. Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Editora 34, 2019. ____. Marxismo e Filosofia da Linguagem. Trad. Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Editora 34, 2017. [1] He preferred instead to discuss music in a sociophilosophical way, drawing on his expertise in European classical theater, philosophy, and literature for historical context. [2] Almost anyone interested in Shostakovich’s music knows something about Ivan Sollertinsky. [3] Há controvérsias quanto à biografia ser oficialmente de Chostákovich, mas não adentraremos a questão neste espaço delimitado. #circulobmv #GED #sollertinski
- A QUESTÃO MUSICAL NO CÍRCULO B.M.V: OS ESTUDOS DE IVAN SOLLERTÍNSKI
José Antônio Rodrigues Luciano Embora tenha tido grande recepção no campo dos estudos literários e, posteriormente, nos estudos culturais, a filosofia bakhtiniana não se ocupou apenas do signo verbal. O grupo de intelectuais russos conhecidos como Círculo de Bakhtin (ou, ainda, Círculo B.M.V, conforme Vauthier [2010]) tinha por objeto a linguagem (seja ela enquanto materialidade verbal, visual, sonora ou sincrética). Por exemplo, Bakhtin (2011) debruçou-se sobre a pintura, bem como chegou a desenvolver uma filosofia da música a partir de Schelling, que fora abandonado pensador russo, e a lecionar nessa disciplina no Conservatório em Vitebsk,. No período em que foi reitor da Universidade de Proletária de Vitebsk, função que também serviu como equivalente a prefeito da cidade, Medviédev participou da “Irmandade” do Teatro Itinerante, dirigido pelo ator e poeta P. P. Gaidebúrov, e tornou-se diretor de repertório e redator da revista Zapísski peredvijnógo teatra (Notas de um teatro itinerante). Além de linguista, Volóchinov (2019) também foi musicista e escreveu artigos sobre música, dentre eles, “O estilo do concerto”, de 1923, e “Problemas da Obra de Beethoven” em duas partes (1922) e (1923) – lembremos: seis anos antes de Bakhtin publicar o livro quase homônimo Problemas da Obra de Dostoiévski (1929). Os apontamentos feitos acima bastar-nos-iam para ilustrar o quanto o foco deste grupo de pensadores estava na questão da linguagem e não somente na língua/literatura. Contudo, ao percorremos as obras do Círculo, podemos acrescentar, ainda, conceitos advindos de outras áreas e que nos remetem ao visual e ao sonoro, como é o caso de polifonia, homofonia, voz (social), entonação, acento, arquitetônica, imagem de autor, imagem externa, dramatização. Por fim, um terceiro pilar que sustenta nossa posição está na composição do grupo com formações heterogêneas, a saber, físico, biólogos, filósofo, poeta, escultor e músico, os quais se reuniam em torno de um objeto em comum: linguagem. Conforme dissemos em outros trabalhos (LUCIANO, 2021; PAULA & LUCIANO, 2020) a partir de Emerson (2003) e Volóchinov (2017), o texto verbal teve uma predominância, se assim podermos dizer, nos estudos dos autores por três principais fatores: I) devido à impossibilidade em se abordar o fenômeno amplo da linguagem, com suas particularidades e especificidades; II) o signo verbal acompanha todos os campos da vida, o que o torna mais sensível para as percepções da realidade social e; III) a literatura era a própria vida real no duro regime soviético. Contudo, isso não impediu que fossem desenvolvidos simultaneamente estudos sobre música, pintura. A título de ilustração, neste texto, destacaremos brevemente alguns trabalhos de Ivan Sollertínski, membro do Círculo, musicólogo de prestígio na União Soviética, professor no Conservatório de Leningrado, Diretor Artístico da Filarmônica da mesma cidade e amigo íntimo de Dmitri Chostakóvich, a quem influenciou fortemente nas composições. De acordo com Fairclough (2001), ao compararmos os escritos de Sollertínski com um dos mais iminentes teóricos da música da União Soviética, Boris Asafiev, podemos observar um estilo de caráter semiótico do que formal propriamente dito, o que explica um maior interesse do Ocidente na obra deste último do que do primeiro. O musicólogo do Círculo havia um olhar para a música com um viés filosófico e literário, de modo que nunca escreveu sobre harmonia, forma do ponto de vista técnico – esta é uma característica de Asafiev. Ainda segundo a pesquisadora britânica, Sollertínski “preferiu discutir música de uma perspectiva sociofilosófica, valendo-se da experiência em teatro clássico europeu, filosofia e literatura para o contexto histórico”1 (p. 367, tradução nossa). Nesse sentido, óperas como Don Giovanni e A Flauta Mágica são vista a partir das noções de plurilinguismo e plurivocidade, as quais foram definidas pelo Círculo, sobretudo em relação à linguagem literária. Com isso, notamos a convergência na maneira de se pensar a linguagem, muito cara ao pensamento bakhtiniano. Embora os textos de Sollertínski estejam publicados na Rússia, poucos estão disponíveis nas línguas Ocidentais. Em russo, encontramos a publicação do livro sobre Gustav Mahler (1932), duas coletâneas organizadas por Mikhail Semenovich Druskin, I. Sollertinsky: Kriticheskie stat’iy [Critical Articles] (1963) e I. Sollertinsky: Istoricheskie etyudï [Historical Studies] (1958). Nesta última, estão os escritos mais expressivos do musicólogo russo, como The Problem of Symphonism (1929), Shakespeare and the World Music (1939) e Historical Types of Symphonic Dramaturgy (1941). Além disso, há também duas biografias sob a curadoria de sua nora Liudmila Mikheeva, Pamyati I. I. Sollertinskogo: Vospominaniya, materiali, issledovaniya [In Memory of I. I. Sollertinsky: Reminiscences, Materials, Articles] (1978) e I. I. Sollertinsky: Zhizn’ i naslediya [I. I. Sollertinsky: Life and Works] (1988). No Ocidente, o acesso aos trabalhos de Sollertínski é escasso. Destacamos, aqui, a obra de Eric Roseberry Style, Content, Thematic Process, and Ideology in the Symphonies, String Quartets, and Cello Concertos of Dmitri Shostakovich (1989), na qual se encontra a tradução para o inglês do texto “Historical Types of Symphonic Dramaturgy” e o sumário do livro sobre Mahler Musica. Do mesmo modo, em língua italiana, temos a coletânea de textos Musica e letteratura al tempo dell’Unione Sovietica, organizada por Samuel Manzoni. Todavia, a maneira mais frequente de nos depararmos com a obra do musicólogo russo é por meio de fragmentos presente em pesquisas em música, principalmente na área da (nova) musicologia e nos trabalhos relacionadas à obra de Chostákovich, pois “quase qualquer pessoa interessada na música de Shostakovich sabe alguma coisa sobre Ivan Sollertinsky”2 (FAIRCLOUGH, 2001, p. 367), dada a proximidade de ambos e pelo compositor relatar recorrentemente a amizade com musicólogo em seu Testimony (1979)3. Na Itália, ainda, contamos as pesquisas de Cassoti que buscou refletir a ressonância musical no Círculo na relação Bakhtin, Sollertínski e Yudina – trateremos dela no próximo Ato. Em texto traduzido para o português, a pesquisadora italiana aborda o texto “Historical types of symphonic dramaturgy”, citado acima, no qual Sollertínski estuda diversos tipos de dramaturgia sinfônica e define um tipo particular de sinfonismo chamado “sinfonismo shakeasperizante”, que encontrará plena realização em Beethoven. Essa categoria se trata de uma representação objetiva e sintética da realidade e dos processos conflituosos que nela ocorrem ou, em outros termos, de um sinfonismo dramático. Nas palavras de Cassotti (2010, p. 154), baseando-se nos estudos de Cohen, dramático, pois, uma vez que “o drama é processo, ação, em que há não somente uma, mas diversas consciências humanas que entram em embate umas com as outras” (…). Em suma, um sinfonismo do tipo shakeasperizante, de acordo, com Sollertínski, baseia-se “no princípio não monológico, mas dialógico”, de acordo com o princípio da “pluralidade de consciências”, da “pluralidade de ideias e vontades que opõe resistências”, na afirmação do princípio de “eu outrem” [io altrui]. Dessa forma, vemos que Sollertínski lança mão de conceitos como dialogismo, multiplicidade de vozes, carnavalização para analisar e descrever os fenômenos das obras não só de Mozart, mas de Beethoven e da música de maneira geral, compreendendo-a como um acontecimento social, uma linguagem por excelência. Cassoti cita também as análises das óperas de Mozart, Don Giovanni e A Flauta Mágica, a partir das concepções elaboradas pelo Círculo. Nesta leitura das peças, Sollertínski aponta uma relação entre o trágico e o cômico juntos, a qual se liga diretamente à obra Cultura Popular, de Mikhail Bakhtin. Inclusive, este último afirma, neste texto, que o próprio Shakeaspeare – presente nas obras de Mozart – fez de forma significativa a coexistência e o reflexo mútuo do sério e do cômico, associando-se à noção de carnavalização. Segundo Cassoti (2010) Na ópera lírica combina simultaneamente vários sistemas semióticos verbal, visual, gestual e musical. Nele coexistem mais canais de comunicação paralela, às vezes em harmonia e outras vezes em mútua interferência. A ópera, e em particular o “Singspiel”, com sua alternância particular de partes faladas e partes cantadas, pode ser definida como um gênero baseado no plurilinguismo, na plurivocidade, na pluridiscursividade, categorias definidas por Bakhtin em relação à linguagem literária (…). Em todo caso, é possível falar de plurilinguismo a propósito de A Flauta Mágica porque nela coexistem não somente uma pluralidade de expressões não só no plano estritamente estilístico mas também no ideológico (…). (p. 161, grifos nossos) Assim, por meio da discussão feita pela pesquisadora italiana, evidencia-se a proposta de Sollertínski, mencionada no início, voltada para uma abordagem sociofilósofica da música ou, se preferirmos, a música como discurso. Acrescentamos a isso, também a compreensão da filosofia do Círculo B.M.V orientada para a linguagem em sua manifestação ampla, de maneira que as categoriais conceituais formulada pelos intelectuais russos são produtivas não apenas aos fenômenos literários ou linguísticos, mas também para signos visuais ou sonoros, conforme fica latente na obras desses autores por seus apontamentos teóricos, bem como em práticas analíticas realizadas pelos membros. Com essa breve apresentação e reflexão, portanto, esperamos ampliar o entendimento acerca do pensamento bakhtiniano, em especial à concepção de linguagem tridimensional verbivocovisual, por meio da divulgação de trabalhos de outros membros que tanto quanto contribuíram para a construção do que podemos denominar de uma filosofia dialógica da linguagem. Referências BAKHTIN, Mikhail. Estética da Criação Verbal. Trad. de Paulo Bezerra. 6ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011. CASSOTTI, Rosa Stella. Ressonâncias musicais no Círculo de Bakhtin – Ivan I. Sollertinsky, intérprete de Mozart. In: PAULA, L. de; STAFUZZA, G. Círculo de Bakhtin – teoria inclassificável. Campinas: Mercado de Letras, 2010. (Série Bakhtin: inclassificável, v. 2). EMERSON, Caryl. Os 100 primeiros anos de Mikhail Bakhtin. Rio de Janeiro: DIFEL, 2003. FAIRCLOUGH, P. Mahler Reconstructed: Sollertinsky and the Soviet Symphony. The Musical Quarterly, Volume 85, Issue 2, Summer 2001, pp. 367–390. PAULA, Luciane de; LUCIANO, José Antonio Rodrigues. A tridimensionalidade verbivocovisual da linguagem bakhtiniana. Revista Linha D’Água, São Paulo (SP), v. 33, n. 3 (2020), p. 105-134. Disponível em: < https://www.revistas.usp.br/linhadagua/article/view/171296 >. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2236-4242.v33i3p105-134. Acesso em: 17 dez. 2020. LUCIANO, José Antonio Rodrigues. Filosofia da linguagem bakhtiniana: concepções verbivocovisuais. 2021. 278f. Dissertação (Mestrado em Linguística e Língua Portuguesa) — Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Faculdade de Ciências e Letras (Campus Araraquara), Araraquara, SP 2020. Disponível em: < http://hdl.handle.net/11449/204473 > MEDVIÉDEV, Iúri Pavlovitch; MEDVIÉDEVA, Dária Aleksándrovna. O Círculo de M. M. Bakhtin: sobre a fundamentação de um fenômeno. Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso, [S.l.], v. 9, p. 26-46, jun. 2014. ISSN 2176-4573. Disponível em: < https://revistas.pucsp.br/bakhtiniana/article/view/11535 >. Acesso em: 20 maio 2020. VAUTHIER, Bénédicte. Auctoridade e tornar-se autor: nas origens da obra do “Círculo B.M.V.” (BAKHTIN, MEDVEDEV, VOLOCHINOV). In: PAULA, L. de; STAFUZZA, G. (Orgs.). Círculo de Bakhtin – teoria inclassificável. Campinas: Mercado de Letras, 2010. p. 279-292 (Série Bakhtin: inclassificável, v. 1). VOLÓCHINOV, Valentin. A palavra na vida e a palavra na poesia. Trad. Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Editora 34, 2019. ____. Marxismo e Filosofia da Linguagem. Trad. Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Editora 34, 2017. [1] He preferred instead to discuss music in a sociophilosophical way, drawing on his expertise in European classical theater, philosophy, and literature for historical context. [2] Almost anyone interested in Shostakovich’s music knows something about Ivan Sollertinsky. [3] Há controvérsias quanto à biografia ser oficialmente de Chostákovich, mas não adentraremos a questão neste espaço delimitado. #circulobmv #GED #sollertinski
- A pílula vermelha e o espírito do homem alpha
Marana Luísa Tregues Diniz Os chamados coaches de desenvolvimento pessoal masculino têm adquirido cada vez mais visibilidade nas diversas mídias e redes sociais, como Youtube, Facebook, Instagram e Twitter, com as consequentes vendas de cursos online (e presenciais), pelos quais prometem ensinar à clientela masculina cisgênero e heterossexual, por meio de métodos de eficácia científica não comprovada, formas de sucesso, principalmente na seara romântico-sexual, com mulheres cisgênero e heterossexuais. Recentemente, um deles, Matheus Donadelli, fundador do Projeto Alpha Spirit (cuja página no Instagram, @alphaspiritoficial, encontrava-se inativada no momento da publicação desse texto), um curso voltado ao ensino de técnicas de como evitar a masturbação masculina – vinculadas ao movimento online conhecido como “NoFap” – com a finalidade, promovida pelo fundador, de “transmutar a energia” do homem para torná-lo mais confiante e atraente ao sexo oposto, obteve grande repercussão midiática, após a transmissão de uma live. Na referida live, Matheus interagia com seu público padrão, ensinando “técnicas de sedução”, com a presença de sua namorada, quando foi chamado por um de seus seguidores pela alcunha de “beta”, no chat. Ao verificar essa mensagem, Donadelli ficou visivelmente exaltado e respondeu ao seguidor de forma agressiva, ofendido pela nomenclatura recebida, chamando o referido seguidor de “blue pill”, afastando a namorada de forma brusca, quando esta tentava se manifestar em sua defesa e, por fim, retirando a camisa e começando a fazer flexões, para “demonstrar sua masculinidade”. Volóchinov, em Marxismo e Filosofia da Linguagem, ressalta a ligação intrínseca entre as formas de interação discursiva e as condições da situação no meio social concreto (VOLÓCHINOV, 2017, p. 107), bem como o caráter sígnico dos elementos do discurso, em que o valor ideológico de um determinado enunciado é dado na comunicação social de uma coletividade organizada (MEDVIÉDEV, 2012, p. 49). Por esse motivo, é necessário destacar a significação das expressões utilizadas por Donadelli e sua consequente valoração ideológica, para que se entenda a motivação de sua exaltação, bem como o modo com que sua expressão de masculinidade reflete e refrata a existência de um determinado grupo social, cujas vinculações valorativas apresentam grande relevância no contexto sociopolítico brasileiro. A nomenclatura de “macho alpha” – também presente no título do curso promovido por Donadelli – advém de uma classificação do reino animal, consideradas as relações de poder dentro de um bando, entre alpha, beta e ômega, por ordem hierárquica de importância e força. Essas expressões foram ressignificadas por grupos masculinistas, em que os homens denominavam alphas aqueles considerados como homens mais fortes, melhores e exemplares dentro do grupo humano, em sua concepção, e que, portanto, conseguiriam realizar as melhores “conquistas” em relação ao sexo oposto (mulheres cis hétero, uma vez que a heterossexualidade e transfobia são pontos mandatórios dentro desses grupos); enquanto os homens betas seriam aqueles de “segunda classe” que, em uma visão misógina, ficariam com as “sobras” dos homens alphas, por não possuírem capacidade suficiente para realizar as mesmas conquistas dos alphas; e, por fim, os omegas, seriam aqueles de tamanha desimportância na escala hierárquica que não seriam sequer considerados homens para os grupos masculinistas (FERREIRA, 2018, p. 39). O “xingamento” proferido por Donadelli contra um de seus seguidores (“blue pill”), também parte de uma ressignificação sígnica, a partir de da obra cinematográfica Matrix (1999), conforme dispõe Ana Carolina de Andrade Ferreira: […] nossa sociedade ocidental atual, é o que eles denominam como “Matrix”, em referência ao filme norte-americano realizado em 1999. Ele conta a história de um programador de computador que começa a ter repetidos sonhos sobre estar preso em uma máquina, em um momento no futuro, e acorda quando estão prestes a colocar eletrodos em seu cérebro. A partir disso, ele começa a investigar o que pode estar acontecendo e descobre que vive em um mundo que não existe, é uma simulação criada para que, enquanto seu corpo produz energia para as pessoas de fora da Matrix, ele acredite que tem uma vida normal. Ele consegue sair da Matrix quando resolve tomar uma pílula que lhe expande a consciência, a Red Pill (pílula vermelha), em oposição a Blue Pill (pílula azul) que o faria ficar para sempre na Matrix e esquecer tudo que ele descobriu até ali, decisão que não teria volta. (FERREIRA, 2018, p. 9) Os grupos masculinistas apoiadores do ideal da tomada de consciência por meio da “pílula vermelha” fizeram surgir iniciativas de caráter misógino, como a organização ativista online pela “defesa dos direitos dos homens”, A Voice for Men, criada por Paul Elam ,e o documentário, dirigido por Cassie Jaye, The Red Pill (2017), por meio dos quais reproduz-se a ideia de que existiríamos em um mundo programado para acreditarmos em “mentiras feministas” de que homens seriam privilegiados em relação a mulheres, quando, de fato, o oposto é que seria o real, de modo a seus adeptos e defensores se denominarem Realistas ou Guerreiros do Real (FERREIRA, 2018, p. 10), designados para lutar contra as mentiras da Matrix feminista, buscando levar “a verdade” para outros homens, a fim de convencê-los a juntarem-se ao exército “red pill”. Assim, ao referir-se ao seu seguidor como “blue pill”, Donadelli se reafirma como “macho alpha”, “red pill” e “detentor da verdade”, nos termos masculinistas, para o restante de seus seguidores, de modo a não só se colocar em posição de superioridade hierárquica, dentro de seu viés ideológico, mas também a desacreditar o desditoso seguidor que o havia xingado. A postura masculinista e misógina de Donadelli é expressa não somente em seu discurso verbivocal já mencionado, como também no visual – nos termos de Paula e Serni, que conceituam a verbivocovisualidade como integração entre as dimensões sonora, visual e do sentido para atribuição de valor aos enunciados (PAULA; SERNI, 2017, p. 179) –, ao interromper a fala da namorada, empurrando-a para fora da câmera, e ao retirar a camisa, exibindo os músculos em uma postura de “peitoral aberto e inflado, conhecido como ‘peito de pombo’, [que] geralmente remete a quem ‘chama para a briga’ […]” (PAULA; TREGUES DINIZ; PRATES DE ALMEIDA, 2020, p. 58), iniciando um ciclo de flexões, logo após o gesto. O discurso do coach Matheus Donadelli – do dito “macho alpha”, que na prática é misógino e transfóbico –, como todo enunciado sígnico, não é isolado, refletindo e refratando a realidade social de determinado grupo, no contexto atual brasileiro, cujos valores ideológicos vão ao encontro do discurso oficial do governo do país, de modo a não ser exagero dizer que, de forma mais ampla, demonstram um posicionamento político de extrema direita. Em maio de 2020, o então Ministro da Educação Abraham Weintraub publicou em sua conta do Twitter, uma cena do filme Matrix (1999), em que a personagem principal deveria fazer a escolha entre as duas pílulas – vermelha ou azul – referenciando a escolha que o cidadão brasileiro deveria realizar entre dois posicionamentos políticos, o do atual governo (pílula vermelha) e aquele que, na visão dos extremistas, seria denominado de “marxismo cultural”, que acreditam ser uma doutrinação cultural pró-esquerda, no âmbito da educação, principalmente derivada dos cursos das áreas de Ciências Humanas, no ensino superior, em universidades públicas (pílula azul). Vê-se, assim, que os enunciados expressos por Donadelli e pelos membros do governo federal, como Weintraub, apesar de superficialmente não aparentarem correlação direta, ao serem analisados discursivamente, dialogam entre si na formação de uma mesma voz social que reflete e refrata os valores de uma determinada ideologia dominante, que não só se calca sobre as bases da misoginia, da transfobia e de diversos preconceitos de gênero representadas pelo signo do “macho alpha”, como também de uma política de desmantelamento das universidades públicas do Brasil – que visam ao fomento de um pensamento crítico sobre a realidade social e a existência dos referidos preconceitos, para combatê-los –, com a finalidade de calar as vozes sociais divergentes, permitindo a propagação das famosas fake news. Deste modo, cabe aqui um questionamento e uma (re)ressignificação do signo das pílulas tão caro atualmente aos extremistas de direita: entre a manutenção do status quo de dominação por um governo baseado em fake news e destruição do ensino público superior e a luta contra esse status quo pelo fomento do pensamento crítico e combate ao preconceito com base no diálogo, você vai escolher a pílula azul ou a vermelha? REFERÊNCIAS: BETA SPIRIT. Canal Peca zagodinho, março de 2021. Youtube, 02min30seg. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=TI0f3xA5_gg. Acesso em 19 jun. 2021. COMO O FILME ‘MATRIX’ se tornou símbolo na extrema direita. Nexo, Expresso, on-line, mai. 2020. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2020/05/20/Como-o-filme-%E2%80%98Matrix%E2%80%99-se-tornou-s%C3%ADmbolo-na-extrema-direita. Acesso em 19 jun. 2021. FERREIRA, A. C. de Andrade. A Constituição do Macho Alpha: Construindo Identidades e Masculinidades em uma Comunidade Virtual. 2018. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Ciências Sociais) – Universidade Federal do Paraná, Ciritiba, 2018. MEDVIÉDEV, P. N. O método formal nos estudos literários: introdução crítica a uma poética sociológica. São Paulo: Contexto, 2012. PAULA, L.; SERNI, N. M. A vida na arte: a verbivocovisualidade do gênero filme musical. Raído, Dourados, v. 11, n. 25, p. 179-201, jan./jun. 2017. PAULA, L. de; TREGUES DINIZ, M. L.; PRATES DE ALMEIDA, J. B. Johnny Bravo em: Johnny Bravo e o Homem Carnavalizado. PERcursos Linguísticos, [S. l.], v. 10, n. 25, p. 48–67, 2020. Disponível em: https://periodicos.ufes.br/percursos/article/view/30826. Acesso em: 19 jun. 2021. VOLÓCHINOV, V. N. Marxismo e filosofia da linguagem: Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. 1. ed. Rio de Janeiro: 34, 2017. #GED #Volochinov
- A pílula vermelha e o espírito do homem alpha
Marana Luísa Tregues Diniz Os chamados coaches de desenvolvimento pessoal masculino têm adquirido cada vez mais visibilidade nas diversas mídias e redes sociais, como Youtube, Facebook, Instagram e Twitter, com as consequentes vendas de cursos online (e presenciais), pelos quais prometem ensinar à clientela masculina cisgênero e heterossexual, por meio de métodos de eficácia científica não comprovada, formas de sucesso, principalmente na seara romântico-sexual, com mulheres cisgênero e heterossexuais. Recentemente, um deles, Matheus Donadelli, fundador do Projeto Alpha Spirit (cuja página no Instagram, @alphaspiritoficial, encontrava-se inativada no momento da publicação desse texto), um curso voltado ao ensino de técnicas de como evitar a masturbação masculina – vinculadas ao movimento online conhecido como “NoFap” – com a finalidade, promovida pelo fundador, de “transmutar a energia” do homem para torná-lo mais confiante e atraente ao sexo oposto, obteve grande repercussão midiática, após a transmissão de uma live. Na referida live, Matheus interagia com seu público padrão, ensinando “técnicas de sedução”, com a presença de sua namorada, quando foi chamado por um de seus seguidores pela alcunha de “beta”, no chat. Ao verificar essa mensagem, Donadelli ficou visivelmente exaltado e respondeu ao seguidor de forma agressiva, ofendido pela nomenclatura recebida, chamando o referido seguidor de “blue pill”, afastando a namorada de forma brusca, quando esta tentava se manifestar em sua defesa e, por fim, retirando a camisa e começando a fazer flexões, para “demonstrar sua masculinidade”. Volóchinov, em Marxismo e Filosofia da Linguagem, ressalta a ligação intrínseca entre as formas de interação discursiva e as condições da situação no meio social concreto (VOLÓCHINOV, 2017, p. 107), bem como o caráter sígnico dos elementos do discurso, em que o valor ideológico de um determinado enunciado é dado na comunicação social de uma coletividade organizada (MEDVIÉDEV, 2012, p. 49). Por esse motivo, é necessário destacar a significação das expressões utilizadas por Donadelli e sua consequente valoração ideológica, para que se entenda a motivação de sua exaltação, bem como o modo com que sua expressão de masculinidade reflete e refrata a existência de um determinado grupo social, cujas vinculações valorativas apresentam grande relevância no contexto sociopolítico brasileiro. A nomenclatura de “macho alpha” – também presente no título do curso promovido por Donadelli – advém de uma classificação do reino animal, consideradas as relações de poder dentro de um bando, entre alpha, beta e ômega, por ordem hierárquica de importância e força. Essas expressões foram ressignificadas por grupos masculinistas, em que os homens denominavam alphas aqueles considerados como homens mais fortes, melhores e exemplares dentro do grupo humano, em sua concepção, e que, portanto, conseguiriam realizar as melhores “conquistas” em relação ao sexo oposto (mulheres cis hétero, uma vez que a heterossexualidade e transfobia são pontos mandatórios dentro desses grupos); enquanto os homens betas seriam aqueles de “segunda classe” que, em uma visão misógina, ficariam com as “sobras” dos homens alphas, por não possuírem capacidade suficiente para realizar as mesmas conquistas dos alphas; e, por fim, os omegas, seriam aqueles de tamanha desimportância na escala hierárquica que não seriam sequer considerados homens para os grupos masculinistas (FERREIRA, 2018, p. 39). O “xingamento” proferido por Donadelli contra um de seus seguidores (“blue pill”), também parte de uma ressignificação sígnica, a partir de da obra cinematográfica Matrix (1999), conforme dispõe Ana Carolina de Andrade Ferreira: […] nossa sociedade ocidental atual, é o que eles denominam como “Matrix”, em referência ao filme norte-americano realizado em 1999. Ele conta a história de um programador de computador que começa a ter repetidos sonhos sobre estar preso em uma máquina, em um momento no futuro, e acorda quando estão prestes a colocar eletrodos em seu cérebro. A partir disso, ele começa a investigar o que pode estar acontecendo e descobre que vive em um mundo que não existe, é uma simulação criada para que, enquanto seu corpo produz energia para as pessoas de fora da Matrix, ele acredite que tem uma vida normal. Ele consegue sair da Matrix quando resolve tomar uma pílula que lhe expande a consciência, a Red Pill (pílula vermelha), em oposição a Blue Pill (pílula azul) que o faria ficar para sempre na Matrix e esquecer tudo que ele descobriu até ali, decisão que não teria volta. (FERREIRA, 2018, p. 9) Os grupos masculinistas apoiadores do ideal da tomada de consciência por meio da “pílula vermelha” fizeram surgir iniciativas de caráter misógino, como a organização ativista online pela “defesa dos direitos dos homens”, A Voice for Men, criada por Paul Elam ,e o documentário, dirigido por Cassie Jaye, The Red Pill (2017), por meio dos quais reproduz-se a ideia de que existiríamos em um mundo programado para acreditarmos em “mentiras feministas” de que homens seriam privilegiados em relação a mulheres, quando, de fato, o oposto é que seria o real, de modo a seus adeptos e defensores se denominarem Realistas ou Guerreiros do Real (FERREIRA, 2018, p. 10), designados para lutar contra as mentiras da Matrix feminista, buscando levar “a verdade” para outros homens, a fim de convencê-los a juntarem-se ao exército “red pill”. Assim, ao referir-se ao seu seguidor como “blue pill”, Donadelli se reafirma como “macho alpha”, “red pill” e “detentor da verdade”, nos termos masculinistas, para o restante de seus seguidores, de modo a não só se colocar em posição de superioridade hierárquica, dentro de seu viés ideológico, mas também a desacreditar o desditoso seguidor que o havia xingado. A postura masculinista e misógina de Donadelli é expressa não somente em seu discurso verbivocal já mencionado, como também no visual – nos termos de Paula e Serni, que conceituam a verbivocovisualidade como integração entre as dimensões sonora, visual e do sentido para atribuição de valor aos enunciados (PAULA; SERNI, 2017, p. 179) –, ao interromper a fala da namorada, empurrando-a para fora da câmera, e ao retirar a camisa, exibindo os músculos em uma postura de “peitoral aberto e inflado, conhecido como ‘peito de pombo’, [que] geralmente remete a quem ‘chama para a briga’ […]” (PAULA; TREGUES DINIZ; PRATES DE ALMEIDA, 2020, p. 58), iniciando um ciclo de flexões, logo após o gesto. O discurso do coach Matheus Donadelli – do dito “macho alpha”, que na prática é misógino e transfóbico –, como todo enunciado sígnico, não é isolado, refletindo e refratando a realidade social de determinado grupo, no contexto atual brasileiro, cujos valores ideológicos vão ao encontro do discurso oficial do governo do país, de modo a não ser exagero dizer que, de forma mais ampla, demonstram um posicionamento político de extrema direita. Em maio de 2020, o então Ministro da Educação Abraham Weintraub publicou em sua conta do Twitter, uma cena do filme Matrix (1999), em que a personagem principal deveria fazer a escolha entre as duas pílulas – vermelha ou azul – referenciando a escolha que o cidadão brasileiro deveria realizar entre dois posicionamentos políticos, o do atual governo (pílula vermelha) e aquele que, na visão dos extremistas, seria denominado de “marxismo cultural”, que acreditam ser uma doutrinação cultural pró-esquerda, no âmbito da educação, principalmente derivada dos cursos das áreas de Ciências Humanas, no ensino superior, em universidades públicas (pílula azul). Vê-se, assim, que os enunciados expressos por Donadelli e pelos membros do governo federal, como Weintraub, apesar de superficialmente não aparentarem correlação direta, ao serem analisados discursivamente, dialogam entre si na formação de uma mesma voz social que reflete e refrata os valores de uma determinada ideologia dominante, que não só se calca sobre as bases da misoginia, da transfobia e de diversos preconceitos de gênero representadas pelo signo do “macho alpha”, como também de uma política de desmantelamento das universidades públicas do Brasil – que visam ao fomento de um pensamento crítico sobre a realidade social e a existência dos referidos preconceitos, para combatê-los –, com a finalidade de calar as vozes sociais divergentes, permitindo a propagação das famosas fake news. Deste modo, cabe aqui um questionamento e uma (re)ressignificação do signo das pílulas tão caro atualmente aos extremistas de direita: entre a manutenção do status quo de dominação por um governo baseado em fake news e destruição do ensino público superior e a luta contra esse status quo pelo fomento do pensamento crítico e combate ao preconceito com base no diálogo, você vai escolher a pílula azul ou a vermelha? REFERÊNCIAS: BETA SPIRIT. Canal Peca zagodinho, março de 2021. Youtube, 02min30seg. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=TI0f3xA5_gg. Acesso em 19 jun. 2021. COMO O FILME ‘MATRIX’ se tornou símbolo na extrema direita. Nexo, Expresso, on-line, mai. 2020. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2020/05/20/Como-o-filme-%E2%80%98Matrix%E2%80%99-se-tornou-s%C3%ADmbolo-na-extrema-direita. Acesso em 19 jun. 2021. FERREIRA, A. C. de Andrade. A Constituição do Macho Alpha: Construindo Identidades e Masculinidades em uma Comunidade Virtual. 2018. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Ciências Sociais) – Universidade Federal do Paraná, Ciritiba, 2018. MEDVIÉDEV, P. N. O método formal nos estudos literários: introdução crítica a uma poética sociológica. São Paulo: Contexto, 2012. PAULA, L.; SERNI, N. M. A vida na arte: a verbivocovisualidade do gênero filme musical. Raído, Dourados, v. 11, n. 25, p. 179-201, jan./jun. 2017. PAULA, L. de; TREGUES DINIZ, M. L.; PRATES DE ALMEIDA, J. B. Johnny Bravo em: Johnny Bravo e o Homem Carnavalizado. PERcursos Linguísticos, [S. l.], v. 10, n. 25, p. 48–67, 2020. Disponível em: https://periodicos.ufes.br/percursos/article/view/30826. Acesso em: 19 jun. 2021. VOLÓCHINOV, V. N. Marxismo e filosofia da linguagem: Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. 1. ed. Rio de Janeiro: 34, 2017. #GED #Volochinov
- VERBIVOCOVISUALIDADE: UMA CONCEPÇÃO DE LINGUAGEM
Leonardo de Oliveira Doutorando em Linguística e Língua Portuguesa – UNESP Considerações iniciais Há alguns anos, quando ainda estava na graduação em Letras, cursei uma disciplina denominada Literatura e outras linguagens, cuja proposta era, em resumo, a de analisar inter-relações da literatura com a pintura, com o cinema, com as mídias de massa, com a fotografia e com a música. Objetivando contemplar tanto a influência dessas produções na literatura quanto as contribuições da literatura para com esses campos da expressão artística, a disciplina se deu pelo estabelecimento de diálogos intersemióticos cuja análise me despertou um interesse crescente em investigar essa riqueza e multiplicidade sígnicas a partir de uma perspectiva enunciativa, interesse que reavivo agora nessa oportunidade de tecer considerações acerca da verbivocovisualidade da linguagem (Paula e Serni, 2017) com base em uma das atividades realizadas nessa disciplina, em específico. A atividade em questão foi um exercício em que deveríamos discorrer sobre a natureza da relação entre o quadro O grito (1983), de Edvard Munch (1863-1944), e o poema O grito (Munch) (1996), de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), expressões artísticas cujo diálogo se dá segundo uma espécie de equivalência intersemiótica entre a imagem e o poema, de um modo tal que o último, de um certa forma, traduz em palavras a expressividade do primeiro. Nesse diálogo, o eu-poético do dístico de Drummond parece exprimir pelo verbal o ideal estético expressionista, interessado na manifestação de leituras subjetivas da realidade, com a mesma intensidade e agudeza da pintura de Munch. É justamente a partir dessas correspondências inter e multissígnicas subjetivas que procurarei explorar o conceito de verbivocovisualidade, buscando mostrar em um e outro enunciado remissões a que as semioses neles ostensivas nos levam a fazer a aspectos que extrapolam ao que nossos sentidos podem apreender de imediato. A verbivocovisualidade da linguagem O conceito de verbivocovisualidade foi cunhado por James Joyce no contexto das vanguardas modernistas européias e se refere à inter-relação do verbal com as imagens, sentimentos e sensações que um poema é capaz de provocar. O conceito foi retomado no século XX pelos artistas envolvidos com o movimento concretista, quadro no qual ele é empregado em alusão à busca de uma integração total entre a forma e o conteúdo de poemas-objetos resultantes da união inquebrantável entre semioses diversas. Posteriormente, o campo bakhtiniano se apropria do conceito a partir de diferentes enfoques e terminologias, dentre os quais nos interessa aqui o de Paula e Serni (2017), segundo o qual a verbivocovisualidade é vista como um aspecto inerente à linguagem e que, em decorrência disso, implica numa relação mútua e indissolúvel entre as dimensões sonora, visual e verbal verificáveis em todo e qualquer enunciado, independentemente das materialidades que toma como base para a sua corporificação. De acordo com as autoras, “a verbivocovisualidade diz respeito ao trabalho, de forma integrada, das dimensões sonora, visual e o(s) sentido(s) das palavras. O enunciado verbivocovisual é considerado, em sua potencialidade valorativa.” (2017, p. 179-180). Diante dessas considerações, tomo o conceito embasado nessa última visão explicitada para fazer a análise dos enunciados elencados, concepção que pressupõe a verbivocovisualidade tanto enquanto concepção de linguagem quanto como coconstituição materialidades sígnicas distintas, expressas ou implícitas. Tendo uma vez assumido essa compreensão verbivocovisual das expressões humanas, busco nesse breve trabalho sustentá-la por meio da análise dos dois enunciados estéticos acima mencionados, com os quais pretendo demonstrar, por vias inversas (visto que, no primeiro, partirei do imagético para as demais semioses e, no segundo, do verbal para as outras materialidades a ele imbricadas), tal arranjo intersemiótico concernente à linguagem. Tratarei primeiramente do quadro O grito (1893), de pintor norueguês Edvard Munch (1863-1944), tela considerada a precursora do movimento expressionista. Observe-o a seguir: Figura 1: quadro O grito, de Edvard Munch. Como se pode observar na figura 1, a tela nos apresenta uma figura humana aterrorizada sobre uma ponte onde as silhuetas de outras duas pessoas aparecem mais atrás e sobre um fundo onde estão estampados um lago e um céu alaranjado de entardecer. Os traços grossos, extensos e rudimentares das pinceladas, aliados às cores vibrantes empregadas, à força expressiva das linhas curvas e à expressão de horror que a figura em primeiro plano ostenta, criam uma atmosfera de angústia que, ancorada na estética expressionista, externaliza não somente as impressões singulares e desesperadas do autor-criador acerca do mundo a sua volta como ainda nos impacta quando da sua recepção, evocando-nos sentimentos fortes e que gravitam em torno dessa aura tensa e agônica que a obra inspira. Essas evocações, na qualidade de impressões provocadas pela apreciação da obra, consistem em vivências compreensivas e interpretativas que, de acordo com Volochinov, ao tocarem a interioridade dos sujeitos convertem-se em signos, já que, segundo essa perspectiva, o psiquismo interior é essencialmente sígnico (2018, p. 116). Assim, estamos diante de uma manifestação ideológica em cuja compreensão/interpretação recorremos ao discurso interior, ou seja, ao material sígnico básico com o qual se cria qualquer signo cultural, ou seja, a palavra, e, nesse sentido, o filósofo assevera que “toda manifestação ideológica, isto é, todos os outros signos não verbais são envolvidos pelo universo verbal, emergem nele e não podem ser nem isolados, nem completamente separados dele” (2018, p. 100-1). Portanto, temos um enunciado que num primeiro momento, parece-nos exclusivamente imagético, mas em cuja compreensão “a consciência sempre saberá encontrar alguma aproximação verbal como o signo cultural” (2018, p. 101), seja este último de que natureza for. Dessa forma, não podemos ignorar o fato de que, na apreensão do quadro de Munch, assim como na apreensão de qualquer outra coisa de que nos apercebamos, articulamos o não verbal, expresso na tela, ao verbal, subjacente a qualquer processo psíquico levado a cabo pela consciência. Esse é um dos postulados do Círculo no qual me ancoro aqui para corroborar, ainda que de forma bastante modesta, as formulações de Paula e Serni (2017) acerca da verbivocovisualidade dos processos enunciativos. Segundo essa perspectiva, tudo o que a contemplação do quadro suscita, independentemente da natureza do que ele evoca, adquire alma sígnica sob alguma forma material, razão pela qual vivências pessoais, memórias, movimentos, gestos, sentimentos, sensações, dizeres, imagens, sons etc. tornam-se passíveis de integrar qualquer processo enunciativo. Esse movimento semântico em constante renovação resultante da união entre semioses se dá da mesma forma com enunciados explicitamente ancorados no verbal e, para verificarmos isso, passemos agora à observação do poema do poema O grito (Munch) (1996), de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987): O grito (Munch) A natureza grita, apavorante. Doem os ouvidos, dói o quadro. (ANDRADE, 1996, p. 30) Posterior ao quadro de Munch em mais de um século, o dístico acima apresentado ilustra bem o pensamento bakhtiniano ao nos descortinar em ato o movimento de reflexo e refração do projeto de sentido do primeiro. Diferentemente de um enunciado que poderia narrar, comentar ou descrever o quadro, o pequeno poema simplesmente traduz em palavras o que o quadro exprime, a princípio, em cores e formas. Além disso, já encontramos desde a leitura do título do poema alusões claras a uma expressão artística de natureza plástica amplamente conhecida, o que nos leva a mobilizarmos o que conhecemos a respeito da tela expressionista quando fruímos os versos de Drummond. Nesse sentido, o ato da leitura do poema acaba por incorporar uma dimensão visual ao apontar para a obra de Munch, articulação a qual se somam os aspectos sonoros característicos da poética e os recursos expressivos inerentes à forma e ao conteúdo dessas produções literárias. Tal integração semiótica faz da apreciação do dístico uma experiência sinestésica na qual a dimensão gráfica e a conformação sintático-vocabular nos remetem à musicalidade, as imagens se insinuam pelo próprio conteúdo e o apelo à nossa sensibilidade se dá pelas emoções e sensações que esse todo multissemiótico coeso, breve e agudo desencadeia. Recorrendo novamente à Volochinov, encontramos a afirmação de que “ainda que a enunciação esteja privada de palavras, bastará o som da voz – a entonação – ou somente um gesto. Fora de uma expressão material, não existe enunciação, assim como também não existe a sensação.” (VOLOCHINOV, 2013, p. 173 – 174 – itálicos originais). Com base nessa asserção, entendo que reações físicas, sentimentos e emoções também consistem, assim como as formas lógicas de compreensão, em meios igualmente factíveis de se apreender o mundo. Portanto, ao se tornarem cognoscíveis, todas essas vias perceptivas, sejam elas racionais, emocionais ou sensoriais, fazem das dinâmicas enunciativas, sobretudo aquelas de caráter estético, experiências semioticamente ricas. É por isso que a observação do quadro ou a leitura do poema tornam-nos expressões verbivocovisuais, pois a comunhão de todos esses aspectos passa pela semiotização deles ao chegarem a nossa consciência, convertendo-os em signos assim sujeitos à atribuição de sentidos tão diversos quantos os lugares ocupados pelos sujeitos que interagem com esses enunciados. Considerações finais Ao contemplarmos o quadro apresentado (figura 1) ou ao lermos o poema citado, fazemos associações entre os múltiplos aspectos constitutivos de cada um tanto entre si quanto com tudo o que podem incutir conforme a singularidade dos lugares de compreensão de cada sujeito que a eles apreciam. Se na contemplação de cada um desses enunciados já agregamos um sem-fim componentes que transcendem ao próprio material semiótico que os constitui, no diálogo entre eles promovemos encontros intersígnicos que potencializam tais possibilidades de associação semântica e conferem a eles riqueza semiótica ainda maior. Assim, se à simples contemplação da tela de Munch ou do poema de Drummond, isoladamente, já se incorporam vivências sensório-emotivas e saberes diversos, no encontro entre eles cada um se renova enunciativamente ao ser retomado pelo outro de um modo tal que formam correntes enunciativas em cujo movimento dialético acumulam e articulam essas vivências e saberes. Com isto, todas essas experiências conscientes reunidas, sendo de naturezas sígnicas distintas entre si e inevitavelmente incorporadas aos processos enunciativos, fazem com que os diferentes materiais semióticos constitutivos desses enunciados se somem, se permeiem e se alarguem, fazendo da comunicação discursiva um acontecimento fundamentalmente verbivocovisual. Como busquei demonstrar, apesar de a pintura e o poema serem baseados em materialidades sígnicas distintas, um e outro são igualmente permeados por experiências socioenunciativas e por subjetividades diversas que conferem à produção, circulação e recepção de ambos insinuações a variadas formas materiais com as quais se pode assimilar o mundo. Referências ANDRADE, Carlos Drummond. Arte em Exposição. Rio de Janeiro: Editora Record, 1996. BRASIL. Ementa e conteúdo programático. Emitida em 15 de julho de 2013. Disponível em:. Acesso em: 10 jun. 2021. PAULA, L.; SERNI, N. M. A vida na arte: a verbivocovisualidade do gênero filme musical. Raído, Dourados, v. 11, n. 25, p. 179-180, jan./jun. 2017. QUADRO O Grito, de Edvard Munch. Cultura genial, [s.d.]. Disponível em: https://www.culturagenial.com/quadro-o-grito-de-edvard-munch/. Acesso em: 10 jun. 2021. VOLOCHINOV, V. N. Marxismo e Filosofia da Linguagem – problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Tradução, notas e glossário de Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2018.
- VERBIVOCOVISUALIDADE: UMA CONCEPÇÃO DE LINGUAGEM
Leonardo de Oliveira Doutorando em Linguística e Língua Portuguesa – UNESP Considerações iniciais Há alguns anos, quando ainda estava na graduação em Letras, cursei uma disciplina denominada Literatura e outras linguagens, cuja proposta era, em resumo, a de analisar inter-relações da literatura com a pintura, com o cinema, com as mídias de massa, com a fotografia e com a música. Objetivando contemplar tanto a influência dessas produções na literatura quanto as contribuições da literatura para com esses campos da expressão artística, a disciplina se deu pelo estabelecimento de diálogos intersemióticos cuja análise me despertou um interesse crescente em investigar essa riqueza e multiplicidade sígnicas a partir de uma perspectiva enunciativa, interesse que reavivo agora nessa oportunidade de tecer considerações acerca da verbivocovisualidade da linguagem (Paula e Serni, 2017) com base em uma das atividades realizadas nessa disciplina, em específico. A atividade em questão foi um exercício em que deveríamos discorrer sobre a natureza da relação entre o quadro O grito (1983), de Edvard Munch (1863-1944), e o poema O grito (Munch) (1996), de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), expressões artísticas cujo diálogo se dá segundo uma espécie de equivalência intersemiótica entre a imagem e o poema, de um modo tal que o último, de um certa forma, traduz em palavras a expressividade do primeiro. Nesse diálogo, o eu-poético do dístico de Drummond parece exprimir pelo verbal o ideal estético expressionista, interessado na manifestação de leituras subjetivas da realidade, com a mesma intensidade e agudeza da pintura de Munch. É justamente a partir dessas correspondências inter e multissígnicas subjetivas que procurarei explorar o conceito de verbivocovisualidade, buscando mostrar em um e outro enunciado remissões a que as semioses neles ostensivas nos levam a fazer a aspectos que extrapolam ao que nossos sentidos podem apreender de imediato. A verbivocovisualidade da linguagem O conceito de verbivocovisualidade foi cunhado por James Joyce no contexto das vanguardas modernistas européias e se refere à inter-relação do verbal com as imagens, sentimentos e sensações que um poema é capaz de provocar. O conceito foi retomado no século XX pelos artistas envolvidos com o movimento concretista, quadro no qual ele é empregado em alusão à busca de uma integração total entre a forma e o conteúdo de poemas-objetos resultantes da união inquebrantável entre semioses diversas. Posteriormente, o campo bakhtiniano se apropria do conceito a partir de diferentes enfoques e terminologias, dentre os quais nos interessa aqui o de Paula e Serni (2017), segundo o qual a verbivocovisualidade é vista como um aspecto inerente à linguagem e que, em decorrência disso, implica numa relação mútua e indissolúvel entre as dimensões sonora, visual e verbal verificáveis em todo e qualquer enunciado, independentemente das materialidades que toma como base para a sua corporificação. De acordo com as autoras, “a verbivocovisualidade diz respeito ao trabalho, de forma integrada, das dimensões sonora, visual e o(s) sentido(s) das palavras. O enunciado verbivocovisual é considerado, em sua potencialidade valorativa.” (2017, p. 179-180). Diante dessas considerações, tomo o conceito embasado nessa última visão explicitada para fazer a análise dos enunciados elencados, concepção que pressupõe a verbivocovisualidade tanto enquanto concepção de linguagem quanto como coconstituição materialidades sígnicas distintas, expressas ou implícitas. Tendo uma vez assumido essa compreensão verbivocovisual das expressões humanas, busco nesse breve trabalho sustentá-la por meio da análise dos dois enunciados estéticos acima mencionados, com os quais pretendo demonstrar, por vias inversas (visto que, no primeiro, partirei do imagético para as demais semioses e, no segundo, do verbal para as outras materialidades a ele imbricadas), tal arranjo intersemiótico concernente à linguagem. Tratarei primeiramente do quadro O grito (1893), de pintor norueguês Edvard Munch (1863-1944), tela considerada a precursora do movimento expressionista. Observe-o a seguir: Figura 1: quadro O grito, de Edvard Munch. Como se pode observar na figura 1, a tela nos apresenta uma figura humana aterrorizada sobre uma ponte onde as silhuetas de outras duas pessoas aparecem mais atrás e sobre um fundo onde estão estampados um lago e um céu alaranjado de entardecer. Os traços grossos, extensos e rudimentares das pinceladas, aliados às cores vibrantes empregadas, à força expressiva das linhas curvas e à expressão de horror que a figura em primeiro plano ostenta, criam uma atmosfera de angústia que, ancorada na estética expressionista, externaliza não somente as impressões singulares e desesperadas do autor-criador acerca do mundo a sua volta como ainda nos impacta quando da sua recepção, evocando-nos sentimentos fortes e que gravitam em torno dessa aura tensa e agônica que a obra inspira. Essas evocações, na qualidade de impressões provocadas pela apreciação da obra, consistem em vivências compreensivas e interpretativas que, de acordo com Volochinov, ao tocarem a interioridade dos sujeitos convertem-se em signos, já que, segundo essa perspectiva, o psiquismo interior é essencialmente sígnico (2018, p. 116). Assim, estamos diante de uma manifestação ideológica em cuja compreensão/interpretação recorremos ao discurso interior, ou seja, ao material sígnico básico com o qual se cria qualquer signo cultural, ou seja, a palavra, e, nesse sentido, o filósofo assevera que “toda manifestação ideológica, isto é, todos os outros signos não verbais são envolvidos pelo universo verbal, emergem nele e não podem ser nem isolados, nem completamente separados dele” (2018, p. 100-1). Portanto, temos um enunciado que num primeiro momento, parece-nos exclusivamente imagético, mas em cuja compreensão “a consciência sempre saberá encontrar alguma aproximação verbal como o signo cultural” (2018, p. 101), seja este último de que natureza for. Dessa forma, não podemos ignorar o fato de que, na apreensão do quadro de Munch, assim como na apreensão de qualquer outra coisa de que nos apercebamos, articulamos o não verbal, expresso na tela, ao verbal, subjacente a qualquer processo psíquico levado a cabo pela consciência. Esse é um dos postulados do Círculo no qual me ancoro aqui para corroborar, ainda que de forma bastante modesta, as formulações de Paula e Serni (2017) acerca da verbivocovisualidade dos processos enunciativos. Segundo essa perspectiva, tudo o que a contemplação do quadro suscita, independentemente da natureza do que ele evoca, adquire alma sígnica sob alguma forma material, razão pela qual vivências pessoais, memórias, movimentos, gestos, sentimentos, sensações, dizeres, imagens, sons etc. tornam-se passíveis de integrar qualquer processo enunciativo. Esse movimento semântico em constante renovação resultante da união entre semioses se dá da mesma forma com enunciados explicitamente ancorados no verbal e, para verificarmos isso, passemos agora à observação do poema do poema O grito (Munch) (1996), de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987): O grito (Munch) A natureza grita, apavorante. Doem os ouvidos, dói o quadro. (ANDRADE, 1996, p. 30) Posterior ao quadro de Munch em mais de um século, o dístico acima apresentado ilustra bem o pensamento bakhtiniano ao nos descortinar em ato o movimento de reflexo e refração do projeto de sentido do primeiro. Diferentemente de um enunciado que poderia narrar, comentar ou descrever o quadro, o pequeno poema simplesmente traduz em palavras o que o quadro exprime, a princípio, em cores e formas. Além disso, já encontramos desde a leitura do título do poema alusões claras a uma expressão artística de natureza plástica amplamente conhecida, o que nos leva a mobilizarmos o que conhecemos a respeito da tela expressionista quando fruímos os versos de Drummond. Nesse sentido, o ato da leitura do poema acaba por incorporar uma dimensão visual ao apontar para a obra de Munch, articulação a qual se somam os aspectos sonoros característicos da poética e os recursos expressivos inerentes à forma e ao conteúdo dessas produções literárias. Tal integração semiótica faz da apreciação do dístico uma experiência sinestésica na qual a dimensão gráfica e a conformação sintático-vocabular nos remetem à musicalidade, as imagens se insinuam pelo próprio conteúdo e o apelo à nossa sensibilidade se dá pelas emoções e sensações que esse todo multissemiótico coeso, breve e agudo desencadeia. Recorrendo novamente à Volochinov, encontramos a afirmação de que “ainda que a enunciação esteja privada de palavras, bastará o som da voz – a entonação – ou somente um gesto. Fora de uma expressão material, não existe enunciação, assim como também não existe a sensação.” (VOLOCHINOV, 2013, p. 173 – 174 – itálicos originais). Com base nessa asserção, entendo que reações físicas, sentimentos e emoções também consistem, assim como as formas lógicas de compreensão, em meios igualmente factíveis de se apreender o mundo. Portanto, ao se tornarem cognoscíveis, todas essas vias perceptivas, sejam elas racionais, emocionais ou sensoriais, fazem das dinâmicas enunciativas, sobretudo aquelas de caráter estético, experiências semioticamente ricas. É por isso que a observação do quadro ou a leitura do poema tornam-nos expressões verbivocovisuais, pois a comunhão de todos esses aspectos passa pela semiotização deles ao chegarem a nossa consciência, convertendo-os em signos assim sujeitos à atribuição de sentidos tão diversos quantos os lugares ocupados pelos sujeitos que interagem com esses enunciados. Considerações finais Ao contemplarmos o quadro apresentado (figura 1) ou ao lermos o poema citado, fazemos associações entre os múltiplos aspectos constitutivos de cada um tanto entre si quanto com tudo o que podem incutir conforme a singularidade dos lugares de compreensão de cada sujeito que a eles apreciam. Se na contemplação de cada um desses enunciados já agregamos um sem-fim componentes que transcendem ao próprio material semiótico que os constitui, no diálogo entre eles promovemos encontros intersígnicos que potencializam tais possibilidades de associação semântica e conferem a eles riqueza semiótica ainda maior. Assim, se à simples contemplação da tela de Munch ou do poema de Drummond, isoladamente, já se incorporam vivências sensório-emotivas e saberes diversos, no encontro entre eles cada um se renova enunciativamente ao ser retomado pelo outro de um modo tal que formam correntes enunciativas em cujo movimento dialético acumulam e articulam essas vivências e saberes. Com isto, todas essas experiências conscientes reunidas, sendo de naturezas sígnicas distintas entre si e inevitavelmente incorporadas aos processos enunciativos, fazem com que os diferentes materiais semióticos constitutivos desses enunciados se somem, se permeiem e se alarguem, fazendo da comunicação discursiva um acontecimento fundamentalmente verbivocovisual. Como busquei demonstrar, apesar de a pintura e o poema serem baseados em materialidades sígnicas distintas, um e outro são igualmente permeados por experiências socioenunciativas e por subjetividades diversas que conferem à produção, circulação e recepção de ambos insinuações a variadas formas materiais com as quais se pode assimilar o mundo. Referências ANDRADE, Carlos Drummond. Arte em Exposição. Rio de Janeiro: Editora Record, 1996. BRASIL. Ementa e conteúdo programático. Emitida em 15 de julho de 2013. Disponível em:. Acesso em: 10 jun. 2021. PAULA, L.; SERNI, N. M. A vida na arte: a verbivocovisualidade do gênero filme musical. Raído, Dourados, v. 11, n. 25, p. 179-180, jan./jun. 2017. QUADRO O Grito, de Edvard Munch. Cultura genial, [s.d.]. Disponível em: https://www.culturagenial.com/quadro-o-grito-de-edvard-munch/. Acesso em: 10 jun. 2021. VOLOCHINOV, V. N. Marxismo e Filosofia da Linguagem – problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Tradução, notas e glossário de Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2018.
- Liliths e Evas: breve olhar bakhtiniano
Rafaela dos Santos Batista Desde os primórdios, homens e mulheres não ocupam o mesmo lugar social. As relações humanas são hierárquicas e fundamentadas em valores de interseccionalidade entre gênero, raça e classe (DAVIS, 2016), por isso, o funcionamento das esferas da vida exaltam o sexo masculino, pois o homem (principalmente o branco e economicamente privilegiado) é o superior que necessita do processo correlato da mulher inferior (SAFFIOTI, 1984, p. 29). Ainda hoje, mulheres são subjugadas como auxiliares de homens, os papéis impostos devido seu corpo biologicamente capaz de reproduzir à luz de uma naturalização resulta em funções sociais que toda mulher deve seguir se quiser ser adorada: primeiro deve ser boa filha e irmã, depois uma esposa maravilhosa e uma mãe exemplar, tudo isso adornada de características como a bondade, fidelidade, doçura e delicadeza. Mulheres contemporâneas são tratadas com valores de séculos atrás. Um grande exemplo está no atual governo nas mãos de Bolsonaro, famoso pelas suas considerações misóginas, homofóbicas e racistas, como no caso que ofende a deputada Maria do Rosário ao dizer que “Ela é muito feia. Eu não sou estuprador, mas, se fosse, não iria estuprar porque ela não merece”1. Dizer que desde sempre acontece essa inferiorização não é exagero, uma das grandes responsáveis pelo sexo feminino ser colocado como secundário na existência social é os dogmas que a igreja impõe ao cristalizar a naturalização da mulher reprodutora que deve ser mãe, e por consequência, destinada ao privado. Vale lembrar que a incumbência materna da mulher advém de uma cópula de estrita reprodução, o sexo nunca deve ser prazer, essencialmente à mulher. A função de submissão e vassalagem ao homem foi construída pelo discurso religioso baseado no livro do Gênese, no Antigo Testamento, que, na versão judaico-cristã, omite a criação de Lilith e a substitui por Eva. O demônio noturno, assassina de recém-nascidos, sedutora e prostituta Lilith foi criada como a primeira mulher de Adão, nascida do pó e insuflada pelo sopro divino com a missão de fundar a espécie humana. No entanto, foi expulsa do paraíso ao se opor a permanecer por baixo do homem no ato sexual. Pela luta de igualdade entre Adão e ela, Lilith dialoga com todas as mulheres que reconhecem sua sexualidade e autoridade feminina. No patriarcado toda mulher se torna demônio se for contra os ideais ideológicos, tal qual Lilith fora pintada e até apagada da história bíblica. O lugar de Lilith fora dado a Eva, mulher feita da costela de Adão (e não mais do mesmo pó, assim, não mais igual), para responder ao papel submisso e dócil do feminino. Mesmo sendo criada para o posto de auxiliar, Eva foi vista com espírito transgressor onde tudo o que é ruim no mundo, só existe por sua culpa. O fato de toda mulher ser relacionada ao mal e ao diabo tem ligação com Eva, seduzida e levada pela serpente maligna a pecar. Relacionada a vergonha e a culpa de afastar o homem ingênuo e excelente de Deus, foi entendida como regida pela sexualidade, cobiça e pelo mal. Eva está em toda mulher pensante. Designadas sempre ao papel submisso, basta uma discordância ao que diz o homem que a mulher será julgada. Na bíblia ainda se tem a perfeita Maria, mãe virgem que concebe Jesus Cristo. Lilith foi subjugada por querer seu lugar de direito, Eva foi malvista por cair “em tentação”, e ainda recebe o título de: […] a portadora do signo perverso da palavra, já que tudo indica que a serpente falava e que a linguagem resultou de uma conspiração entre o réptil com cabeça e língua masculinas e a sedutora criada para ser ajudante e serva dos desígnios de Deus por meio do homem (ROBLES, 2019, p. 41). A palavra, semente ideológica usada para domínio hegemônico também foi criada por Eva, mesmo que seu uso superestrutural seja feito pelos homens poderosos. O Círculo de Bakhtin, ao estudar e entender a linguagem como meio de mudanças sociais (VOLÓCHINOV, 2017), compreende a palavra como ideológica por ser composta de signos ideológicos que advém da interação social entre sujeitos. A ideologia penetra nas esferas onde há meios de comunicação, sendo arena para embate de propensões sociais, dessa forma, a comunicação dialógica é composta por forças contrárias entre discursos e sujeitos (enunciativos, que para a teoria bakhtiniana é no mínimo dois: eu e outro). Toda esfera é composta de vozes sociais alteritárias que semiotizam ideologias dominantes e também as tidas como inferiores. Numa sociedade patriarcal, a linguagem é o meio para a ideologia em voga propagar-se e permanecer em força centrípeta. Ao saber que a igreja impõe valores até hoje seguidos, é claro que faz parte do jogo ideológico onde superestruturalmente impute suas axiologias na infraestrutura, tudo isso por meio da palavra (que julga ser criada por Eva, sendo então, ruim). As forças contrárias e contraditórias do discurso preveem uma ideologia em primazia, a igreja transforma e quer suas premissas como verdades incontestáveis, com isso, articula as histórias bíblicas para que a mulher seja sempre perversa e má. O temor a Deus é colocado às mulheres fiéis ao mostrar que Eva pecou e foi expulsa, mas também que Lilith abusou dos seus privilégios e foi castigada. A história omitida da bíblia tem peso, porque escondem a mulher desafiadora ao tentarem fazer que nenhuma serva da igreja seja como Lilith. Ao colocar que o sexo feminino é culpado pelas coisas ruins do mundo, as fiéis são obrigadas a seguir o ideal de Maria, ser mãe (virgem, não ter prazer no ato sexual) e uma boa esposa. A palavra que é ideológica por excelência (VOLÓCHINOV, 2017), é o meio de propagação do discurso religioso que reifica a mulher, mas, a ideologia não nasce no sujeito e sim no social (MEDVIEDÉV, 2012). Valores vêm das esferas e são postos no sujeito que entre interações recebem vozes sociais diversas que o formam enquanto ser evento único (BAKHTIN, 2010). Das vozes sociais fundantes do sujeito, a singularidade surge e este é compelido a se posicionar no mundo, inclinando-se a um valor social. Há mulheres que recebem a ideologia patriarcal-religiosa sem se opor, são seguidoras fiéis de uma axiologia que as trata como um corpo reprodutor e sem importância. A sociedade contemporânea condena Liliths e Evas, mas ama Marias e as colocam como ideal: a mulher que não é divina acaba por ser rechaçada. A relevância de se pensar o corpo da mulher em sociedade ainda não é uma ideia retrógada, pois há homens (e mulheres) que querem o feminino como segundo sexo (BEAUVOIR, 2009). A liberdade feminina é uma busca, mulheres devem ser livres de rótulos e devem poder alcançar qualquer espaço, não basta parar ao conseguir alguns direitos sociais, deve-se ansiar a queda do que nos derruba: o eco patriarcal. Referências BAKHTIN. M. Para uma filosofia do ato responsável. São Carlos: Pedro e João, 2010. BEAUVOIR, S. 1908-1986. O Segundo Sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009. 2v. DAVIS, A. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016. MEDVIÉDEV, P. N. O método formal nos estudos literários: introdução crítica a uma poética sociológica. São Paulo: Contexto, 2012. ROBLES, Martha. Mulheres, mitos e deusas: o feminino através dos tempos. São Paulo: Editora Aleph, 2019. SAFFIOTI, H. O poder do macho. São Paulo: Editora Moderna, 1987. VOLOCHÍNOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem. Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Rio de Janeiro: 34, 2017. #GED
- Liliths e Evas: breve olhar bakhtiniano
Rafaela dos Santos Batista Desde os primórdios, homens e mulheres não ocupam o mesmo lugar social. As relações humanas são hierárquicas e fundamentadas em valores de interseccionalidade entre gênero, raça e classe (DAVIS, 2016), por isso, o funcionamento das esferas da vida exaltam o sexo masculino, pois o homem (principalmente o branco e economicamente privilegiado) é o superior que necessita do processo correlato da mulher inferior (SAFFIOTI, 1984, p. 29). Ainda hoje, mulheres são subjugadas como auxiliares de homens, os papéis impostos devido seu corpo biologicamente capaz de reproduzir à luz de uma naturalização resulta em funções sociais que toda mulher deve seguir se quiser ser adorada: primeiro deve ser boa filha e irmã, depois uma esposa maravilhosa e uma mãe exemplar, tudo isso adornada de características como a bondade, fidelidade, doçura e delicadeza. Mulheres contemporâneas são tratadas com valores de séculos atrás. Um grande exemplo está no atual governo nas mãos de Bolsonaro, famoso pelas suas considerações misóginas, homofóbicas e racistas, como no caso que ofende a deputada Maria do Rosário ao dizer que “Ela é muito feia. Eu não sou estuprador, mas, se fosse, não iria estuprar porque ela não merece”1. Dizer que desde sempre acontece essa inferiorização não é exagero, uma das grandes responsáveis pelo sexo feminino ser colocado como secundário na existência social é os dogmas que a igreja impõe ao cristalizar a naturalização da mulher reprodutora que deve ser mãe, e por consequência, destinada ao privado. Vale lembrar que a incumbência materna da mulher advém de uma cópula de estrita reprodução, o sexo nunca deve ser prazer, essencialmente à mulher. A função de submissão e vassalagem ao homem foi construída pelo discurso religioso baseado no livro do Gênese, no Antigo Testamento, que, na versão judaico-cristã, omite a criação de Lilith e a substitui por Eva. O demônio noturno, assassina de recém-nascidos, sedutora e prostituta Lilith foi criada como a primeira mulher de Adão, nascida do pó e insuflada pelo sopro divino com a missão de fundar a espécie humana. No entanto, foi expulsa do paraíso ao se opor a permanecer por baixo do homem no ato sexual. Pela luta de igualdade entre Adão e ela, Lilith dialoga com todas as mulheres que reconhecem sua sexualidade e autoridade feminina. No patriarcado toda mulher se torna demônio se for contra os ideais ideológicos, tal qual Lilith fora pintada e até apagada da história bíblica. O lugar de Lilith fora dado a Eva, mulher feita da costela de Adão (e não mais do mesmo pó, assim, não mais igual), para responder ao papel submisso e dócil do feminino. Mesmo sendo criada para o posto de auxiliar, Eva foi vista com espírito transgressor onde tudo o que é ruim no mundo, só existe por sua culpa. O fato de toda mulher ser relacionada ao mal e ao diabo tem ligação com Eva, seduzida e levada pela serpente maligna a pecar. Relacionada a vergonha e a culpa de afastar o homem ingênuo e excelente de Deus, foi entendida como regida pela sexualidade, cobiça e pelo mal. Eva está em toda mulher pensante. Designadas sempre ao papel submisso, basta uma discordância ao que diz o homem que a mulher será julgada. Na bíblia ainda se tem a perfeita Maria, mãe virgem que concebe Jesus Cristo. Lilith foi subjugada por querer seu lugar de direito, Eva foi malvista por cair “em tentação”, e ainda recebe o título de: […] a portadora do signo perverso da palavra, já que tudo indica que a serpente falava e que a linguagem resultou de uma conspiração entre o réptil com cabeça e língua masculinas e a sedutora criada para ser ajudante e serva dos desígnios de Deus por meio do homem (ROBLES, 2019, p. 41). A palavra, semente ideológica usada para domínio hegemônico também foi criada por Eva, mesmo que seu uso superestrutural seja feito pelos homens poderosos. O Círculo de Bakhtin, ao estudar e entender a linguagem como meio de mudanças sociais (VOLÓCHINOV, 2017), compreende a palavra como ideológica por ser composta de signos ideológicos que advém da interação social entre sujeitos. A ideologia penetra nas esferas onde há meios de comunicação, sendo arena para embate de propensões sociais, dessa forma, a comunicação dialógica é composta por forças contrárias entre discursos e sujeitos (enunciativos, que para a teoria bakhtiniana é no mínimo dois: eu e outro). Toda esfera é composta de vozes sociais alteritárias que semiotizam ideologias dominantes e também as tidas como inferiores. Numa sociedade patriarcal, a linguagem é o meio para a ideologia em voga propagar-se e permanecer em força centrípeta. Ao saber que a igreja impõe valores até hoje seguidos, é claro que faz parte do jogo ideológico onde superestruturalmente impute suas axiologias na infraestrutura, tudo isso por meio da palavra (que julga ser criada por Eva, sendo então, ruim). As forças contrárias e contraditórias do discurso preveem uma ideologia em primazia, a igreja transforma e quer suas premissas como verdades incontestáveis, com isso, articula as histórias bíblicas para que a mulher seja sempre perversa e má. O temor a Deus é colocado às mulheres fiéis ao mostrar que Eva pecou e foi expulsa, mas também que Lilith abusou dos seus privilégios e foi castigada. A história omitida da bíblia tem peso, porque escondem a mulher desafiadora ao tentarem fazer que nenhuma serva da igreja seja como Lilith. Ao colocar que o sexo feminino é culpado pelas coisas ruins do mundo, as fiéis são obrigadas a seguir o ideal de Maria, ser mãe (virgem, não ter prazer no ato sexual) e uma boa esposa. A palavra que é ideológica por excelência (VOLÓCHINOV, 2017), é o meio de propagação do discurso religioso que reifica a mulher, mas, a ideologia não nasce no sujeito e sim no social (MEDVIEDÉV, 2012). Valores vêm das esferas e são postos no sujeito que entre interações recebem vozes sociais diversas que o formam enquanto ser evento único (BAKHTIN, 2010). Das vozes sociais fundantes do sujeito, a singularidade surge e este é compelido a se posicionar no mundo, inclinando-se a um valor social. Há mulheres que recebem a ideologia patriarcal-religiosa sem se opor, são seguidoras fiéis de uma axiologia que as trata como um corpo reprodutor e sem importância. A sociedade contemporânea condena Liliths e Evas, mas ama Marias e as colocam como ideal: a mulher que não é divina acaba por ser rechaçada. A relevância de se pensar o corpo da mulher em sociedade ainda não é uma ideia retrógada, pois há homens (e mulheres) que querem o feminino como segundo sexo (BEAUVOIR, 2009). A liberdade feminina é uma busca, mulheres devem ser livres de rótulos e devem poder alcançar qualquer espaço, não basta parar ao conseguir alguns direitos sociais, deve-se ansiar a queda do que nos derruba: o eco patriarcal. Referências BAKHTIN. M. Para uma filosofia do ato responsável. São Carlos: Pedro e João, 2010. BEAUVOIR, S. 1908-1986. O Segundo Sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009. 2v. DAVIS, A. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016. MEDVIÉDEV, P. N. O método formal nos estudos literários: introdução crítica a uma poética sociológica. São Paulo: Contexto, 2012. ROBLES, Martha. Mulheres, mitos e deusas: o feminino através dos tempos. São Paulo: Editora Aleph, 2019. SAFFIOTI, H. O poder do macho. São Paulo: Editora Moderna, 1987. VOLOCHÍNOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem. Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Rio de Janeiro: 34, 2017. #GED
- Sujeito-pesquisador e sujeito-pesquisado: uma breve reflexão sobre a etnografia digital e a perspect
Natasha Ribeiro de Oliveira As pesquisas científicas voltadas para a análise de interações on-line, como em redes sociais, sites ou algum outro aspecto da vida digital não são novidades. Assim como a própria presença (simbólica e, por vezes, física) da internet em nossas vidas também não é, afinal, as novas gerações já deixaram de ser compostas por imigrantes digitais e passaram a ser de nativos digitais, como apontado por Marc Prensky (2001). Embora pareça que a internet seja “terra de ninguém”, como popularmente é dito, em termos de pesquisa e rigor científico, não podemos compactuar com tal pensamento. Por isso, apresentamos, de forma breve, algumas questões que devem ser consideradas em relação a um estudo que se propõe a analisar as interações on-line a partir da perspectiva da etnografia digital e como o sujeito-pesquisador e o seu outro, o sujeito-pesquisado (corpus), muito caros à abordagem dialógica, são concebidos nessa perspectiva metodológica. Segundo Hine (2000), a internet é um artefato cultural, a inserção de tal tecnologia em nossa vida cotidiana é tamanha que não cabe mais pensar, como antes, em irrealidade ao se falar de vida on-line, pois o virtual deve ser compreendido como uma possibilidade do real, um novo formato de realidade, como pontua Lévy (2000 [1997]), não de situação dicotômica e oposta, em que tudo que está on-line não seja embasado em situações da vida off-line. Como Hine (2016) pontua, as mídias sociais transformam as nossas experiências de identidade (aqui, ressaltamos, pautadas na alteridade), de interação e as fronteiras sociais, pois os ambientes on-line e off-line transformaram e continuam a transformar a sociabilidade. Dentre tantas possibilidades, o pesquisador que se propõe a compreender as interações em ambiente on-line pode fazê-lo na forma de um “lurking” (BRAGA, 2006), com o objetivo de observar determinado grupo, situação ou sujeito sem a necessidade de se manifestar para não interferir nas relações que ocorrem de maneira espontânea e natural, sem ser estimulada ou frojada. Por isso a etnografia digital, com as suas variadas possibilidades de execução, por meio da análise das redes sociais, tornou-se um instrumento para a compreensão da sociedade (FRAGOSO; RECUERO; AMARAL, 2011). Aí é que está o papel do sujeito enquanto pesquisador e do seu outro (que, aqui, entendemos como o corpus, seja em qual formato for, e que temos chamado de sujeito-pesquisado). Neste sentido, um ganho para o pesquisador e para as análises feitas em ambiente virtual, na abordagem da etnografia digital, é poder analisar as atividades on-line que deixam “traços visíveis de audiência” (HINE, 2016), ou seja, que mesmo já tendo acontecido, ainda são possíveis de localizar mediante mecanismos de busca e acesso, o que possibilita, portanto, acessar determinados modos de ser e estar em certo período histórico e social, como uma leitura do agir do sujeito-pesquisado naquele momento específico que, por vezes, pode já ter acontecido há meses, anos e até décadas e, ainda assim, ser recuperado pela estrutura disposta no social. Assim é que compreendemos que há muitas e diferentes vozes a ser ouvidas neste ambiente on-line, que divergem entre si, entram em tensão, embate dialógico, sem fim, porque nada é dito do nada, mas sempre em relação com algo que veio antes (e após), o que Bakhtin e o Círculo entendem como o elo da comunicação discursiva de em enunciado. A pesquisa que se propõe a analisar as interações on-line precisa, portanto, estar ancorada nos princípios da etnografia digital que, por sua vez, possui diferentes tipos de realização de coleta de dados e análise. Ressaltamos, aqui, a perspectiva dialógica como uma aliada neste tipo de análise, por entendermos que “por trás” de todo e qualquer corpus há um sujeito falante, que enuncia e deixa a sua assinatura autoral, seja em qual formato for. Desse modo, há, ali, uma voz social que marca social e historicamente determinados posicionamentos, que são visões de mundo, por sua vez, entendidos como a voz social de um determinado grupo. Pensar, junto ao Círculo de Bakhtin, em um sujeito-pesquisador e um sujeito-pesquisado, como as interações on-line em redes sociais é também pensar que há sujeitos falantes nas duas vias: o sujeito que fala e fala tanto quanto o sujeito por quem ele fala. Ou seja, o corpus (o sujeito-pesquisado, como temos chamado), fala tanto quanto o pesquisador, de modo que cabe a ele dar voz, em sua pesquisa, a esse sujeito, para que ele seja ouvido, na pesquisa, na mesma proporção em que ele fala. A perspectiva dialógica comporta a ideia de que um texto deve ser visto no seu contexto e na relação com outros textos, o que nos permite considerar o caráter responsivo e responsável do(s) enunciado(s) (ou, dos textos, como está nos escritos bakhtinianos) para analisar esse sujeito-pesquisado que fala tanto quanto o sujeito-pesquisador na pesquisa. Bakhtin diz: “Cada palavra (cada signo) do texto leva para além dos seus limites. Toda interpretação é o correlacionamento de dado texto com outros textos. […] A índole dialógica desse correlacionamento” (BAKHTIN, 2011, p. 400). A partir disso, podemos escutar outras e diferentes vozes a partir de um dado texto, colocadas em diálogos e recuperadas por meio do contato com outros contextos: O texto só tem vida contatando com outro texto (contexto). Só no ponto desse contato de textos eclode a luz que ilumina retrospectiva e prospectivamente, iniciando dado texto no diálogo. […] e um contato dialógico entre textos (enunciados) […]. Por trás desse contato está o contato entre indivíduos e não entre coisas (BAKHTIN, 2011, p. 401). Esta escuta-ativa do pesquisador é extremamente necessária nas pesquisas, não só as de abordagem dialógica, etnográfica digital ou de qual cunho seja, pois é o ganho das Ciências Humanas: conseguir inserir o sujeito e toda a sua subjetividade (pautada na alteridade) na pesquisa, com caráter científico. Analisar os sujeitos e suas interações, de forma on-line ou off-line, é uma forma de apreender modos de comportamento que são específicos de um ou outro ambiente, e que não se enquadram de maneira igualitária em outro espaço não porque os sujeitos são outros, mas porque os gêneros que permitem a comunicação são outros. Com isso, não estamos dizendo que o sujeito-pesquisado, por exemplo, é um duplo, que adquire “máscaras” para lidar em ambiente on-line, mas que a comunicação na internet é diferente de uma comunicação face a face, por isso que há a necessidade de procedimentos e abordagens próprias para este tipo de pesquisa e análise. Hine (2016) defende que a internet é um componente do dia-a-dia e que a usamos de maneira despercebida, com os dispositivos móveis incorporados às nossas vidas. Segundo a autora O uso da internet torna-se significativo para nossas compreensões da identidade e responsabilidade, e transformador de nossas estruturas de recompensa, confiança e reconhecimento. Qualquer fragmento individual dos dados derivados da internet é, por isso, passível de ser interpretado de uma série de formas, dependendo dos contextos em que se incorpora e adquire significado (HINE, 2016, p. 16). As escolhas metodológicas são de extrema importância para a pesquisa científica, por isso que cabe, ao sujeito-pesquisador, clareza sobre os caminhos a serem percorridos, para justamente entender qual tipo de abordagem que o próprio sujeito-pesquisado vai demandar, pois como dito, ele fala tanto quanto o pesquisador. Com os dados provenientes da internet e das interações on-line não é diferente, a análise e interpretação podem ser feitas de determinadas formas, mas todas vão remeter e ser um retrato, ainda que com nuances diferentes, do momento específico em que foram produzidas, bem como dos sujeitos que as produziram. Frisamos, por fim, como o contexto do próprio sujeito-pesquisador encaminha e determina o percurso da pesquisa, ao considerar que ele é fruto da sua época. Ou seja, as valorações e sentidos aos quais ele responde são provenientes do próprio contexto por ele vivenciado. Nesse sentido, o sujeito-pesquisado é também um reflexo e refração de um momento tido como atual, mesmo que não sejam dados recentes, pois revelam modos de ser e compreender não só a contemporaneidade, mas também tempos passados, a partir de pistas deixadas e coletadas pelo próprio sujeito-pesquisador, confrontadas e colocadas em diálogo com outros sujeitos-pesquisados, textos e/ou enunciados. Referências bibliográficas BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Metodologia das ciências humanas. Estética da criação verbal. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2011, p. 393-410. BRAGA, Adriana. Técnica etnográfica aplicada à comunicação online: uma discussão metodológica. UNIrevista, vol. 1, n° 3, julho 2006. FRAGOSO, Suely; RECUERO, Raquel; AMARAL, Adriana (orgs.). Métodos de pesquisa para internet. Porto Alegre: Sulina, 2011. HINE, Christine. Estratégias para etnografia da internet em estudos de mídia. In: CAMPANELLA, Bruno; BARROS, Carla. Etnografia e consumo midiático: novas tendências e desafios metodológicos. – 1. ed. – Rio de Janeiro: E-papers, 2016, p. 11-28. HINE, Christine. Virtual Ethnography. London: SAGE Publications, 2000. LÉVY, Pierre. Inteligência coletiva. Edições Loyola, 2000 [1997]. PRENSKY, Marc. Digital natives, digital immigrants part 2:Do they really think differently?. On the horizon, 2001.
- Sujeito-pesquisador e sujeito-pesquisado: uma breve reflexão sobre a etnografia digital e a perspect
Natasha Ribeiro de Oliveira As pesquisas científicas voltadas para a análise de interações on-line, como em redes sociais, sites ou algum outro aspecto da vida digital não são novidades. Assim como a própria presença (simbólica e, por vezes, física) da internet em nossas vidas também não é, afinal, as novas gerações já deixaram de ser compostas por imigrantes digitais e passaram a ser de nativos digitais, como apontado por Marc Prensky (2001). Embora pareça que a internet seja “terra de ninguém”, como popularmente é dito, em termos de pesquisa e rigor científico, não podemos compactuar com tal pensamento. Por isso, apresentamos, de forma breve, algumas questões que devem ser consideradas em relação a um estudo que se propõe a analisar as interações on-line a partir da perspectiva da etnografia digital e como o sujeito-pesquisador e o seu outro, o sujeito-pesquisado (corpus), muito caros à abordagem dialógica, são concebidos nessa perspectiva metodológica. Segundo Hine (2000), a internet é um artefato cultural, a inserção de tal tecnologia em nossa vida cotidiana é tamanha que não cabe mais pensar, como antes, em irrealidade ao se falar de vida on-line, pois o virtual deve ser compreendido como uma possibilidade do real, um novo formato de realidade, como pontua Lévy (2000 [1997]), não de situação dicotômica e oposta, em que tudo que está on-line não seja embasado em situações da vida off-line. Como Hine (2016) pontua, as mídias sociais transformam as nossas experiências de identidade (aqui, ressaltamos, pautadas na alteridade), de interação e as fronteiras sociais, pois os ambientes on-line e off-line transformaram e continuam a transformar a sociabilidade. Dentre tantas possibilidades, o pesquisador que se propõe a compreender as interações em ambiente on-line pode fazê-lo na forma de um “lurking” (BRAGA, 2006), com o objetivo de observar determinado grupo, situação ou sujeito sem a necessidade de se manifestar para não interferir nas relações que ocorrem de maneira espontânea e natural, sem ser estimulada ou frojada. Por isso a etnografia digital, com as suas variadas possibilidades de execução, por meio da análise das redes sociais, tornou-se um instrumento para a compreensão da sociedade (FRAGOSO; RECUERO; AMARAL, 2011). Aí é que está o papel do sujeito enquanto pesquisador e do seu outro (que, aqui, entendemos como o corpus, seja em qual formato for, e que temos chamado de sujeito-pesquisado). Neste sentido, um ganho para o pesquisador e para as análises feitas em ambiente virtual, na abordagem da etnografia digital, é poder analisar as atividades on-line que deixam “traços visíveis de audiência” (HINE, 2016), ou seja, que mesmo já tendo acontecido, ainda são possíveis de localizar mediante mecanismos de busca e acesso, o que possibilita, portanto, acessar determinados modos de ser e estar em certo período histórico e social, como uma leitura do agir do sujeito-pesquisado naquele momento específico que, por vezes, pode já ter acontecido há meses, anos e até décadas e, ainda assim, ser recuperado pela estrutura disposta no social. Assim é que compreendemos que há muitas e diferentes vozes a ser ouvidas neste ambiente on-line, que divergem entre si, entram em tensão, embate dialógico, sem fim, porque nada é dito do nada, mas sempre em relação com algo que veio antes (e após), o que Bakhtin e o Círculo entendem como o elo da comunicação discursiva de em enunciado. A pesquisa que se propõe a analisar as interações on-line precisa, portanto, estar ancorada nos princípios da etnografia digital que, por sua vez, possui diferentes tipos de realização de coleta de dados e análise. Ressaltamos, aqui, a perspectiva dialógica como uma aliada neste tipo de análise, por entendermos que “por trás” de todo e qualquer corpus há um sujeito falante, que enuncia e deixa a sua assinatura autoral, seja em qual formato for. Desse modo, há, ali, uma voz social que marca social e historicamente determinados posicionamentos, que são visões de mundo, por sua vez, entendidos como a voz social de um determinado grupo. Pensar, junto ao Círculo de Bakhtin, em um sujeito-pesquisador e um sujeito-pesquisado, como as interações on-line em redes sociais é também pensar que há sujeitos falantes nas duas vias: o sujeito que fala e fala tanto quanto o sujeito por quem ele fala. Ou seja, o corpus (o sujeito-pesquisado, como temos chamado), fala tanto quanto o pesquisador, de modo que cabe a ele dar voz, em sua pesquisa, a esse sujeito, para que ele seja ouvido, na pesquisa, na mesma proporção em que ele fala. A perspectiva dialógica comporta a ideia de que um texto deve ser visto no seu contexto e na relação com outros textos, o que nos permite considerar o caráter responsivo e responsável do(s) enunciado(s) (ou, dos textos, como está nos escritos bakhtinianos) para analisar esse sujeito-pesquisado que fala tanto quanto o sujeito-pesquisador na pesquisa. Bakhtin diz: “Cada palavra (cada signo) do texto leva para além dos seus limites. Toda interpretação é o correlacionamento de dado texto com outros textos. […] A índole dialógica desse correlacionamento” (BAKHTIN, 2011, p. 400). A partir disso, podemos escutar outras e diferentes vozes a partir de um dado texto, colocadas em diálogos e recuperadas por meio do contato com outros contextos: O texto só tem vida contatando com outro texto (contexto). Só no ponto desse contato de textos eclode a luz que ilumina retrospectiva e prospectivamente, iniciando dado texto no diálogo. […] e um contato dialógico entre textos (enunciados) […]. Por trás desse contato está o contato entre indivíduos e não entre coisas (BAKHTIN, 2011, p. 401). Esta escuta-ativa do pesquisador é extremamente necessária nas pesquisas, não só as de abordagem dialógica, etnográfica digital ou de qual cunho seja, pois é o ganho das Ciências Humanas: conseguir inserir o sujeito e toda a sua subjetividade (pautada na alteridade) na pesquisa, com caráter científico. Analisar os sujeitos e suas interações, de forma on-line ou off-line, é uma forma de apreender modos de comportamento que são específicos de um ou outro ambiente, e que não se enquadram de maneira igualitária em outro espaço não porque os sujeitos são outros, mas porque os gêneros que permitem a comunicação são outros. Com isso, não estamos dizendo que o sujeito-pesquisado, por exemplo, é um duplo, que adquire “máscaras” para lidar em ambiente on-line, mas que a comunicação na internet é diferente de uma comunicação face a face, por isso que há a necessidade de procedimentos e abordagens próprias para este tipo de pesquisa e análise. Hine (2016) defende que a internet é um componente do dia-a-dia e que a usamos de maneira despercebida, com os dispositivos móveis incorporados às nossas vidas. Segundo a autora O uso da internet torna-se significativo para nossas compreensões da identidade e responsabilidade, e transformador de nossas estruturas de recompensa, confiança e reconhecimento. Qualquer fragmento individual dos dados derivados da internet é, por isso, passível de ser interpretado de uma série de formas, dependendo dos contextos em que se incorpora e adquire significado (HINE, 2016, p. 16). As escolhas metodológicas são de extrema importância para a pesquisa científica, por isso que cabe, ao sujeito-pesquisador, clareza sobre os caminhos a serem percorridos, para justamente entender qual tipo de abordagem que o próprio sujeito-pesquisado vai demandar, pois como dito, ele fala tanto quanto o pesquisador. Com os dados provenientes da internet e das interações on-line não é diferente, a análise e interpretação podem ser feitas de determinadas formas, mas todas vão remeter e ser um retrato, ainda que com nuances diferentes, do momento específico em que foram produzidas, bem como dos sujeitos que as produziram. Frisamos, por fim, como o contexto do próprio sujeito-pesquisador encaminha e determina o percurso da pesquisa, ao considerar que ele é fruto da sua época. Ou seja, as valorações e sentidos aos quais ele responde são provenientes do próprio contexto por ele vivenciado. Nesse sentido, o sujeito-pesquisado é também um reflexo e refração de um momento tido como atual, mesmo que não sejam dados recentes, pois revelam modos de ser e compreender não só a contemporaneidade, mas também tempos passados, a partir de pistas deixadas e coletadas pelo próprio sujeito-pesquisador, confrontadas e colocadas em diálogo com outros sujeitos-pesquisados, textos e/ou enunciados. Referências bibliográficas BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Metodologia das ciências humanas. Estética da criação verbal. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2011, p. 393-410. BRAGA, Adriana. Técnica etnográfica aplicada à comunicação online: uma discussão metodológica. UNIrevista, vol. 1, n° 3, julho 2006. FRAGOSO, Suely; RECUERO, Raquel; AMARAL, Adriana (orgs.). Métodos de pesquisa para internet. Porto Alegre: Sulina, 2011. HINE, Christine. Estratégias para etnografia da internet em estudos de mídia. In: CAMPANELLA, Bruno; BARROS, Carla. Etnografia e consumo midiático: novas tendências e desafios metodológicos. – 1. ed. – Rio de Janeiro: E-papers, 2016, p. 11-28. HINE, Christine. Virtual Ethnography. London: SAGE Publications, 2000. LÉVY, Pierre. Inteligência coletiva. Edições Loyola, 2000 [1997]. PRENSKY, Marc. Digital natives, digital immigrants part 2:Do they really think differently?. On the horizon, 2001.
- OS TRÊS IRMÃOS POTTERIANOS: UM OLHAR BAKHTINIANO ACERCA DA CONSTRUÇÃO DA IMAGEM DE PERSONAGENS DE HA
Ana Beatriz Maia Barissa Era uma vez três irmãos… Em O conto dos três irmãos, J. K. Rowling aborda sobre uma antiga crença dentro do mundo bruxo acerca das relíquias da Morte, constituídas da Varinha das Varinhas, a Pedra da Ressurreição e a Capa da Invisibilidade. No conto, um objeto foi dado a cada um dos três irmãos em uma ponte, território da Morte e por onde tentaram atravessar. Tal como acontece com as narrativas populares, o conto traz em si não apenas o modelo tradicional dos contos de fadas, mas também uma moralidade, no que concerne condutas há muito exploradas, tais como humildade e legado e penitência para a ganância e soberba dos seres humanos. Seguindo os pressupostos bakhtinianos de linguagem como as personagens desse conto pertencente à literatura bruxa, ajudam a compreender a constituição dos sujeitos Harry Potter, Voldemort e Severus Snape. A proposta de análise fará suas devidas ressalvas quanto à constituição das personagens como sujeitos que, tal como a concepção dialógica proposta pelo Círculo de Bakhtin, Medviedév e Voloshinov, ambos possuem discursos com vozes outras e dados por relações dialógicas, sejam elas dissonantes ou consonantes. Severus Snape, Voldemort e Harry Potter se tornam uma tríade bastante importante para a composição da saga, tal como os irmãos Peverell. Por sua vez, ambos os trios acabam por constituir uns aos outros como sujeitos, também constituídos pelas vozes presentes nos discursos tanto do próprio conto (narrativa popular de caráter moralista, remetente a toda uma carga ideológica que regem a sociedade e é regido por ela), quanto da saga potteriana. Dessa forma, nossa proposta se volta a um viés tanto teórico, quanto analítico, com conceitos norteadores do nosso trabalho, tais como: enunciado, diálogo e sujeito. Não nos restringiremos à materialidade linguística, uma vez que pretendemos compreender como o conto se relaciona ao meio social no qual está inserido (o mundo bruxo). Partiremos do linguístico (materialidade verbal) rumo ao translinguístico (cultura e sociedade), tal como é trabalhado pelo Círculo. Beedle, o bardo e os contos: A importância da narrativa popular do /no mundo bruxo potteriano Tzvetan Todorov, em uma divisão didática explana acerca da aparição do sobrenatural nas narrativas e como este é percebido pelas personagens do enredo e, por conseguinte, pelo leitor. O Maravilhoso se configura como uma categoria cujo caráter sobrenatural e as criaturas dessa natureza (fadas, duendes, animais falantes) têm a transgressão das leis da física e da natureza nas obras e isso decorre como algo aceito pelo leitor desde o início da leitura. Dentro do maravilhoso é possível encontrar os contos de fadas, as ficções científicas e a literatura de horror. Segundo Todorov, os contos possuem essa diferença em relação ao sobrenatural não por conta da temática, mas o modo pelo qual a narrativa é estruturada, pensada de modo a fazer o leitor se sentir no mesmo plano dos acontecimentos da narrativa e não estranhar ou se assustar com o sobrenatural. Desse modo, os contos de fadas são narrativas de origem popular, cujo legado é carregado por meio da tradição oral e transmitido de geração em geração. Logo após tiveram suas (diversas) versões escritas para, enfim, serem difundidas e transformadas em “um fruto e um bem da coletividade” (VOLOBUEF, 1993, p.100). Por todo o solo (não somente) europeu teremos precursores dessas histórias, com um estudo mais estruturalista iniciado na Rússia por Vladmir Propp sobre os contos de fadas, a fim de se encontrar as similaridades decorrentes dessas narrativas, tais como: Situação introdutória; Surgimento de um problema (doença, pobreza da família, perda ocasionada pela desobediência a alguma proibição, maldades infligidas pelo malfeitor, tais como rapto, abandono etc.); Procura por solução: protagonista ou “herói” sai em viagem com o propósito de cumprir tarefa que lhe foi imposta (resgatar a princesa, buscar a água da vida para o rei moribundo, achar um objeto encantado); Submissão a uma prova: o herói tem que mostrar sua humildade, força, inteligência, coragem, astúcia etc.; Êxito na prova: em consequência de sua boa conduta ou qualidades, o herói conquista a ajuda de um benfeitor (fada madrinha, animal falante) ou adquire um objeto mágico (bolsa sempre cheia de moedas de ouro, chapéu que o torna invisível); Superação da dificuldade imposta pelo malfeitor (que raptou a princesa ou mantém guardada a água da vida): com o auxílio mágico recebido, o herói realiza a sua tarefa; Punição do malfeitor (bruxa, dragão, lobo mau são mortos); Final ditoso: protagonista casa-se com a princesa e/ou enriquece. (VOLOBUEF, 1993, p.101) Outra característica dos contos de fadas acerca do herói é o fato de que todas as personagens que aparecem estarão conectadas diretamente com ele. Seja o ajudante do herói, o inimigo, pessoa salva pelo herói e também as personagens figurantes, como irmãos, por exemplo. Mais um destaque a ser considerado sobre as narrativas maravilhosas é o extremo com que emoções, personalidades, defeitos e qualidades aparecem nas histórias: só há o bom e o mau, o belo e o feio, o amor e o ódio. Não há espaço para o meio termo. Esses moldes mais fechados e universalistas é o que garantirão o propósito do conto e também sua sobrevivência ao longo dos séculos. É necessário ter em mente de que estas narrativas se eternizaram também por conta da função moralista a que sempre foi atribuída. O ensinamento por meio da contação de história é um feito desde os primórdios a fim de orientar crianças, principalmente, sobre condutas e ritos importantes da/na natureza, como nascimento, morte, crescimento e maturação sexual. Entretanto, abordar também sobre o bem e o mal, ensinar sobre a humildade penitência ao que é considerado como correto também sempre foram funções primordiais dos contos maravilhosos e que aparece claramente durante a saga: […] – Que acha? – Perguntou a Hermione; – Ah, Harry – Disse, preocupada –, isso é um monte de besteiras. Não pode ser realmente o significado do símbolo [das Relíquias da Morte] Deve ser a versão excêntrica dele. Que perda de tempo. – Suponho que esse seja o homem que descobriu os Bufadores de Chifre Enrugado – comentou Rony. – Você também não acredita nele? – Perguntou Harry ao amigo. – Bah, essa história é uma dessas coisas que se conta às crianças para ensinar lições de vida, não é? Não saia procurando encrenca, não compre brigas, não mexa com coisas que é melhor deixar em paz? Mantenha a cabeça abaixada, cuide de sua vida e você viverá bem. Pensando bem – acrescentou Rony –, talvez essa história seja para explicar porque varinhas de sabugueiro dão azar. Do que está falando? – É uma dessas superstições, não? “Bruxa nascida em maio com trouxa irá casar”. “Feitiço ao anoitecer desfaz ao amanhecer.” “Varinha de sabugueiro, azar o ano inteiro.” Você já deve ter ouvido. Minha mãe sabe uma porção. – Harry e eu fomos criados por trouxas – lembrou-lhe Hermione –, aprendemos outras superstições. – […] – Acho que tem razão – disse-lhe – É só um conto moral […]. (ROWLING, 2007, p.231) No que concerne Os contos de Beedle, o bardo, ele não fugirá desse modelo tradicional. Especificamente, n’O conto dos três irmãos, temos como situação introdutória três irmãos portadores de magia, que conseguiram ultrapassar um rio perigoso de travessia e onde a própria Morte fazia várias vítimas. A problemática é ocasionada por personagens perdidos, mas pela própria Morte que ilude os irmãos ao fazê-los acreditar estar impressionada com as habilidades mágicas dos irmãos e a procura por solução toma forma dos pedidos de presentes feitos pelas três personagens e que foram oferecidos pela própria Morte: Então, o irmão mais velho, que era um homem combativo, pediu a varinha mais poderosa que existisse: uma varinha que sempre vencesse os duelos para seu dono, uma varinha digna de um bruxo que derrotara a Morte! Ela atravessou a ponte e se dirigiu a um vetusto sabugueiro na margem do rio, fabricou uma varinha de um galho da árvore e entregou-a ao irmão mais velho. Então, o segundo irmão, que era um homem arrogante, resolveu humilhar ainda mais a Morte e pediu o poder de restituir a vida aos que ela levara. Então a Morte apanhou uma pedra da margem do rio e entregou-a ao segundo irmão, dizendo-lhe que a pedra tinha o poder de ressuscitar os mortos. Então, a Morte perguntou ao terceiro e mais moço dos irmãos o que queria. O mais moço era o mais humilde e também o mais sábio dos irmãos, e não confiou na Morte. Pediu, então, algo que lhe permitisse sair daquele lugar sem ser seguido por ela. E a Morte, de má vontade, lhe entregou a própria Capa da Invisibilidade. (ROWLING, 2007, p.228). Ao escolher a Capa da Invisibilidade, o irmão mais novo prova sua humildade (ou seja, sua boa conduta) em não querer humilhar a Morte, como o fez os outros dois irmãos, o que o recompensou com permanência da Capa e a tornou um legado para o filho, diferente dos outros, que tiveram as relíquias perdidas, além da morte precoce. A partir disso, é preciso se atentar aos objetos considerados as Relíquias da Morte. No caso da Varinha das Varinhas, ela se concretiza como o a própria mágica. A mitologia celta é bastante presente na obra de Rowling e, para essa cultura, segundo o Dicionário de símbolos, a varinha é um instrumento de magia por excelência, por simbolizar o poder mágico do druida sobre os elementos. No caso da Pedra da Ressurreição, a pedra tem uma conexão estreita com a alma e, dessa forma, é possível compreender sua ligação com a (vida) pós-morte. No que concerne seu valor místico, a pedra e o homem representam o movimento duplo de subida e descida. Conforme explica Chevalier O homem nasce de Deus e a Ele retorna. A pedra bruta descende do céu, transmuta-se e se eleva a ele. O templo deve ser construído com pedra bruta e não talhada. […] A pedra talhada, em efeito, nada mais é do que obra humana; profana a obra de Deus, simboliza a ação humana que substitui a energia da Criação. A pedra bruta é também símbolo da liberdade, a pedra talhada, de servidão e trevas. (CHEVALIER, GHEERBRANT, 1986, 828, tradução livre)[1] No que concerne a Capa da Invisibilidade, se faz necessário ressaltar, uma vez mais, a importância da mitologia celta para a construção da saga. No imaginário celta, Mananan Mac Lir era um feiticeiro cruel possuidor de artefatos mágicos, inclusive um manto da invisibilidade, que assumia qualquer cor desejada. Mesmo na crença católica, o manto é uma imagem (pedida em oração) que aparece para simbolizar a proteção e a invisibilidade de tudo aquilo considerado negativo. Compreendidas a importância da narrativa popular (também aplicada dentro do mundo bruxo) e sua moralidade e as significações dos objetos denominados Relíquias da Morte, estabeleceremos no próximo item do artigo, a construção das personagens, Voldemort, Severus Snape e Harry Potter na saga e de como essa tríade, que refletem e refratam ideologias de uma comunidade (não somente) bruxa materializada na e pela linguagem, arena de combate ideológico por excelência entre sujeitos – neste caso, os três irmãos e Harry Potter/ Voldemort/ Severus Snape – repletos de valores, concretizados em discurso e na qual o próprio meio ideológico de manifesta. 2. Os três irmãos: A construção de Voldemort, Severo Snape e Harry Potter no/por meio do conto de Beedle, o bardo Na saga Harry Potter, Voldemort é um bruxo das trevas poderoso, cujo único objetivo é construir uma sociedade bruxa livre das “impurezas” da população não mágica: isto é, sem que haja envolvimento entre bruxos e não mágicos. Uma de suas ambições é conseguir poder e, para tanto, procura pela Varinha das Varinhas. No espaço-tempo da saga, a Varinha se encontra em posse de Albus Dumbledore, diretor da escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Durante o último livro da saga, é mostrado o empenho de Voldemort em conseguir a varinha, tal como é descrito no conto de Beedle, o bardo. Por ser um homem combativo e violento, o irmão mais velho pede uma varinha com a qual possa vencer qualquer batalha. No caso de Voldemort, é por meio de um sistema ditatorial que pretende fazer uma (em sua concepção) limpeza sócio-racial de toda uma comunidade. Bakhtin faz a proposta de uma filosofia da linguagem baseada na interação, ou seja, no diálogo, que ocorre entre enunciados, entre sujeitos e entre enunciados e sujeitos. Dessa forma, compreende-se o enunciado como concreto e dialógico, social e transmissor de valores dos sujeitos que o enunciaram, inseridos em um determinado espaço-tempo. Voldemort é um vilão que vive para e pelo poder acima de qualquer moralidade. Desobedece a ideia base de que é na varinha que recai a escolha de bruxo usuário. Ao conseguir a Varinha das Varinhas, seu feito é conseguido a partir do assassínio. Tal como o Primeiro Irmão, cuja única intenção era a de humilhar a Morte (desafiá-la) e provar sua posição como a de bruxo mais poderoso. A construção de uma personagem referente ao Irmão mais Velho no contexto de produção da saga potteriana tão semelhante aos princípios de Voldemort nos conduz a fazer um diálogo imediato entre ambos os sujeitos, que materializam seus valores em seus discursos. Essa conexão decorre devido à consciência ideológica em torno de um determinado objeto de enunciação, tal qual explana Souza sobre o enunciado que […] existente, surgido de maneira significativa num determinado momento social e histórico, não pode deixar de tocar os milhares fios, tecidos pela consciência ideológica em torno de um dado objeto enunciação, não pode deixar de ser um participante ativo do diálogo social. Ele também surge desse diálogo como seu prolongamento, como sua réplica, e não sabe de que lado ele se aproxima desse objeto. (BAKHTIN apud SOUZA, 2002, p.83, grifos do autor) Do mesmo modo ocorre com a personagem Severus Snape e o Segundo Irmão. O Mestre de Poções se tornou um ícone dentro da saga devido à construção dupla desse sujeito e que confere à sua personagem o exemplo máximo da ambivalência humana. Outro ponto que o destaca dentro da saga é a base que o faz trabalhar como espião duplo para os dois maiores bruxos da época: Lily Evans, mãe d eHarry Potter. Nasce daí a construção da personagem Snape refletida e refratada n’O conto dos três irmãos por meio da imagem do Segundo Irmão: Entrementes, o segundo irmão viajou para a própria casa, onde vivia sozinho. Ali, tomou a pedra que tinha o poder de ressuscitar os mortos e virou-a três vezes na mão. Para sua surpresa e alegria, a figura de uma moça que tivera esperança de desposar antes de sua morte precoce surgiu instantaneamente diante dele. Contudo, ela estava triste e fria, como que separada dele por um véu. Embora tivesse retornado ao mundo dos mortais, seu lugar não era ali, e ela sofria. Diante disso, o segundo irmão, enlouquecido pelo desesperado desejo, matou-se para poder verdadeiramente se unir a ela. Então, a Morte levou o segundo irmão. (ROWLING, 2007, p. 228). A imagem de Snape se configura por meio da/ na imagem do Segundo Irmão, do mesmo jeito que o este é construído por/em Snape também. O diálogo social se faz presente e os entrelaces ideológicos se constroem nessas duas personagens. A pedra do Segundo Irmão, conectora do plano terrestre e o plano místico, não transpassa as leis de vida e morte e traz à vida uma mulher de espírito desfalecido. O sacrifício (da vida) é feito a fim de que haja a união no post mortem. Severus Snape também se condicionou a uma vida por uma causa maior por amor (a uma mulher) e que transpassou qualquer valor ético, moral e conduta. No caso de Harry Potter, sua personagem se configura na/por meio da imagem do Terceiro Irmão e cuja Capa da Invisibilidade foi o que o (en)cobriu da Morte até se entregar a ela no devido tempo, tal qual fez o mais novo dos irmãos: – Pensei que ele viria – comentou Voldemort em sua voz clara e aguda, seus olhos postos nas línguas de fogo. – Esperava que viesse. Ninguém falou. Todos pareciam tão apavorados quanto Harry, cujo coração agora saltava contra as costelas como se tivesse decidido escapar do corpo que estava prestes a descartar. Suas mãos estavam suadas, e ele despiu a Capa da Invisibilidade e guardou-a, com a varinha, dentro das vestes. Não queria se sentir tentado a lutar. – Aparentemente… me enganei – disse Voldemort. – Não se enganou. Harry falou o mais alto que pôde, com toda a força que conseguiu reunir: não queria parecer amedrontado. […] Voldemort erguera a varinha. Sua cabeça ainda estava inclinada para um lado, como a de uma criança curiosa, imaginando o que aconteceria se ele prosseguisse. Harry encarou os olhos vermelhos e desejou que acontecesse naquele instante, rapidamente, enquanto ele ainda se mantinha de pé, antes que se descontrolasse, antes que traísse o seu medo… Ele viu a boca se mover e um clarão verde, e tudo desapareceu. (ROWLING, 2007, p.385-386). Embora a Morte procurasse o terceiro irmão durante muitos anos, jamais conseguiu encontrá-lo. Somente quando atingiu uma idade avançada foi que o irmão mais moço despiu a Capa da Invisibilidade e deu-a de presente ao filho. Acolheu, então, a Morte como uma velha amiga e acompanhou-a de bom grado, e, iguais, partiram desta vida. (ROWLING, 2007, p.228). Harry Potter, tal qual acontece com o Terceiro Irmão, torna-se ciente de que não pode (e nem deve) transgredir as leis naturais e desafiar a Morte e foi por isso (e pela Pedra da Ressurreição) que conseguiu ser atingido novamente pela maldição da morte e ainda assim não morrer. Em ambos os discursos (de Harry Potter e do Terceiro Irmão), é possível contemplar a valoração axiológica no que concerne a ideia de Vida versus Morte, diferenciada das de Voldemort (cuja ideia de Morte era inaplicável a si mesmo) e de Snape (que tinha a Morte como redenção ao seu passado) e também do Primeiro e Segundo Irmãos. Harry Potter e o Terceiro Irmão são materialização da aceitação da ordem natural da vida e que não existe a possibilidade da transgressão dessas leis. Algumas considerações… Na história, buscamos contemplar a relação entre os irmãos e a Morte, ao passo de como é construída esta relação na saga potteriana entre Harry Potter, Severus Snape e Voldemort e a Morte. Em cada construção genérica enunciativa, discursos são inseridos em sua construção arquitetônica. Ambos discursos (Tríade potteriana e Três Irmãos) são plenos de valores sociais, já que se constituem por vozes de sujeitos inseridos em determinado espaço tempo. Desse modo, é possível compreender a importância do sujeito para a construção desses enunciados. O sujeito é parte fundamental no ato de enunciar. Por ser colocado sob um posicionamento responsivo e responsável, o enunciado responde a outros enunciados, carregados de vozes sociais. Essas vozes trarão em si posicionamentos variados de sujeitos situados em espaços-tempos diferentes, o que nos faz voltar no postulado bakhtiniano da linguagem como dialógica. Essa condição está fundamentada na interação entre sujeitos responsivos, cuja natureza é de uso social e interacional por meio de enunciados. Referência Bibliográfica BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo: HUCITEC, 1997 BETELLHEIM, Bruno. A Psicanálise dos Contos de Fadas. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 2014. CHEVALIER, J.; GHEERBRANT, A. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015. ROWLING, J. K. Os contos de Beedle, o bardo. Trad. Lia Wyler. Rio de Janeiro: Rocco, 2008. ROWLING, J. K. Harry Potter e as relíquias da morte. Trad. Lia Wyler, Rio de Janeiro: Rocco, 2007. PROPP, Vladimir. Morfologia do conto maravilhoso. CopyMarket, 2001 SOUZA, Geraldo Tadeu. Introdução à teoria do enunciado concreto: círculo de Bakhtin/Volochinov/Medvedev – 2 ed. – São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP, 2002. VOLOBUEF, Karin; ALVAREZ, Roxana Guadalupe Herrera (Org.); WIMMER, Norma (Org.) Dimensões do fantástico, mítico e maravilhoso. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2011. VOLOCHINOV, V. A Construção da enunciação e outros ensaios. São Carlos: Pedro e João, 2013. [1] El hombre nace de Dios y retorna a Dios. La piedra bruta desciende Del cielo; transmudada, se eleva hacia él. El templo debe construirse com piedra bruta, no com piedra tallada. […] La piedra labrada no es em efecto más que obra humana; profana La obra de Dios, simboliza La acción humana que substituye a la energia creadora. La piedra bruta es también símbolo de libertad, la piedra tallada de servidumbre y de tinieblas.


