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- O USO DE ATAQUES MACHISTAS PARA O SILENCIAMENTO DAS VOZES DAS MULHERES
Carolina Gomes Sant’ana No dia 11 de fevereiro de 2020, o deputado estadual bolsonarista André Fernandes (Republicanos-CE) postou em sua conta do twitter: “Se você acha que está na pior, lembre-se da jornalista do Folha de SP que oferece sexo em troca de alguma matéria para prejudicar Jair Bolsonaro. Depois de hoje, vai chover falsos informantes pra cima desta senhora. Força, coragem e dedicação Patrícia, você vai precisar!”. Referia-se à jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S. Paulo. Todavia, em julho de 2021, ele foi condenado a pagar indenização à vítima de R$ 50 mil. Entretanto, apesar de ser um caso em que o réu não passa impune (pelo menos legalmente, já que o deputado continua em seu cargo e o caso parece não ter repercutido mais do que isso), o uso de ataques machistas como forma de silenciamento da mulher continua sendo uma prática social comum, ainda mais no atual contexto do Brasil bolsonarista, que vive por uma onda de crescimento da extrema-direita conservadora. Esta forma de ridicularização da mulher, como forma de desvalorização e silenciamento de sua voz pode ser observada com qualquer mulher que atinge uma posição alta em seu trabalho. Se continuarmos na esfera política podemos observar como Dilma Rousseff (PT), enquanto ocupava cargo de presidente do Brasil, era representada por aqueles contrários ao seu governo, de formas pejorativas, em ataque a sua honra como indivíduo, não governante. Podiam ser vistos adesivos e imagens que a representavam de pernas abertas na entrada de combustível de carros [1], além de receber ataques verbais, chamando-a de vadia, louca, etc. A mulher considerada como “vadia” dentro do patriarcado, é vista como fraca, e digna de desprezo e exclusão social (BEAUVOIR). Mesmo mulheres que assumem posicionamento axiológico semelhante, associando-se à direita conservadora, como a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP), é vítima de ataques, como comparações a uma porca [2]. A questão da honra do homem é vista como superior, a ponto que o assassinato de uma mulher em legítima defesa da honra do homem era permitido, e em 2016 um homem foi absolvido do assassinato de sua ex-companheira com tal justificativa em Minas Gerais, e em 2020 o STF acatou essa absolvição. O ato (de feminicídio em legítima defesa da honra) só foi proibido em março de 2021. Mesmo que, com o decorrer do tempo e com muitas lutas, ela tenha conquistado direitos perante à lei, que lhe possibilitam mais independência e liberdade do homem, ela ainda é vista socialmente como sujeito inferior e secundário (BEAUVOIR), dentro de um sistema que aceita uma ideologia que atua em detrimento à ela. Beauvoir (1980, p.663) ainda afirma: “A mulher que se liberta economicamente do homem nem por isso alcança uma situação moral, social e psicológica idêntica à dele.” Segundo Saffioti, mudanças sociais devem acontecer junto com mudanças legislativas, já que, por mais que estas sejam importantes, enquanto perdurarem discriminações perpetuadas pelas ideologias dominantes, aqueles sujeitos prejudicados pelo sistema continuarão sofrendo, já que, aqueles que aplicam as leis, podem optar por ignorar denúncias de vítimas de discriminação. Assim, observamos como este embate entre ideologias patriarcais (vinda da classe dominante, no caso homens, principalmente brancos e héteros, que impõe a dominação das mulheres, colocando-as em papéis de inferiores e subservientes) e subversivas feministas (que propõe igualdade e empoderamento para as mulheres) se dão no cotidiano, através do discurso, da linguagem. Para Volóchinov: Todo sistema de normas sociais encontra-se em posição análoga. Ele existe apenas em relação à consciência subjetiva dos indivíduos que pertencem a uma dada coletividade, direcionada por certas normas. O mesmo pode ser dito sobre o sistema de normas morais, jurídicas, do gosto estético […], etc. (2018, p. 175) Entendemos então que estas ideologias, como construções sociais, existem decorrentes de uma sociedade organizada e capaz de comunicação. Portanto, uma ideologia não é inata, natural e pode mudar com o tempo. Cabe ao sujeito, como indivíduo que é responsável pelos seus atos e que ocupa lugar único na existência (VOLÓCHINOV) tomar consciência das ideologias que os rodeiam para que possa agir de forma ética perante à elas, já que: Ninguém pode ocupar uma posição neutra em relação a mim e ao outro; o ponto de vista abstrato-cognitivo carece de um enfoque axiológico, a diretriz axiológica necessita de que ocupemos uma posição singular no acontecimento único da existência, de que nos encarnemos. Todo juízo de valor é sempre uma tomada de posição individual na existência; até Deus precisou encarnar-se para amar, sofrer e perdoar, teve, por assim dizer, de abandonar o ponto de vista abstrato sobre a justiça. (VOLÓCHINOV, 2018, p. 117) [1] Imagem disponível em: Acesso em: 01 de ago. de 2021. [2] Imagem disponível em: Acesso em: 01 de ago. de 2021. REFERÊNCIAS BEAUVOIR, S. O segundo Sexo: Fatos e Mitos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980a. BEAUVOIR, S. O Segundo Sexo: A Experiência Vivida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980b. CASTRO, R. Deputado bolsonarista é condenado a indenizar jornalista em R$ 50 mil por ataques machistas. O Globo. Disponível em: Acesso em: 01 de ago. de 2021. SAFFIOTI, H. I. B. O poder do macho. São Paulo: Moderna, 1987. VOLÓCHINOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem. Rio de Janeiro: 34, 2018.
- O USO DE ATAQUES MACHISTAS PARA O SILENCIAMENTO DAS VOZES DAS MULHERES
Carolina Gomes Sant’ana No dia 11 de fevereiro de 2020, o deputado estadual bolsonarista André Fernandes (Republicanos-CE) postou em sua conta do twitter: “Se você acha que está na pior, lembre-se da jornalista do Folha de SP que oferece sexo em troca de alguma matéria para prejudicar Jair Bolsonaro. Depois de hoje, vai chover falsos informantes pra cima desta senhora. Força, coragem e dedicação Patrícia, você vai precisar!”. Referia-se à jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S. Paulo. Todavia, em julho de 2021, ele foi condenado a pagar indenização à vítima de R$ 50 mil. Entretanto, apesar de ser um caso em que o réu não passa impune (pelo menos legalmente, já que o deputado continua em seu cargo e o caso parece não ter repercutido mais do que isso), o uso de ataques machistas como forma de silenciamento da mulher continua sendo uma prática social comum, ainda mais no atual contexto do Brasil bolsonarista, que vive por uma onda de crescimento da extrema-direita conservadora. Esta forma de ridicularização da mulher, como forma de desvalorização e silenciamento de sua voz pode ser observada com qualquer mulher que atinge uma posição alta em seu trabalho. Se continuarmos na esfera política podemos observar como Dilma Rousseff (PT), enquanto ocupava cargo de presidente do Brasil, era representada por aqueles contrários ao seu governo, de formas pejorativas, em ataque a sua honra como indivíduo, não governante. Podiam ser vistos adesivos e imagens que a representavam de pernas abertas na entrada de combustível de carros [1], além de receber ataques verbais, chamando-a de vadia, louca, etc. A mulher considerada como “vadia” dentro do patriarcado, é vista como fraca, e digna de desprezo e exclusão social (BEAUVOIR). Mesmo mulheres que assumem posicionamento axiológico semelhante, associando-se à direita conservadora, como a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP), é vítima de ataques, como comparações a uma porca [2]. A questão da honra do homem é vista como superior, a ponto que o assassinato de uma mulher em legítima defesa da honra do homem era permitido, e em 2016 um homem foi absolvido do assassinato de sua ex-companheira com tal justificativa em Minas Gerais, e em 2020 o STF acatou essa absolvição. O ato (de feminicídio em legítima defesa da honra) só foi proibido em março de 2021. Mesmo que, com o decorrer do tempo e com muitas lutas, ela tenha conquistado direitos perante à lei, que lhe possibilitam mais independência e liberdade do homem, ela ainda é vista socialmente como sujeito inferior e secundário (BEAUVOIR), dentro de um sistema que aceita uma ideologia que atua em detrimento à ela. Beauvoir (1980, p.663) ainda afirma: “A mulher que se liberta economicamente do homem nem por isso alcança uma situação moral, social e psicológica idêntica à dele.” Segundo Saffioti, mudanças sociais devem acontecer junto com mudanças legislativas, já que, por mais que estas sejam importantes, enquanto perdurarem discriminações perpetuadas pelas ideologias dominantes, aqueles sujeitos prejudicados pelo sistema continuarão sofrendo, já que, aqueles que aplicam as leis, podem optar por ignorar denúncias de vítimas de discriminação. Assim, observamos como este embate entre ideologias patriarcais (vinda da classe dominante, no caso homens, principalmente brancos e héteros, que impõe a dominação das mulheres, colocando-as em papéis de inferiores e subservientes) e subversivas feministas (que propõe igualdade e empoderamento para as mulheres) se dão no cotidiano, através do discurso, da linguagem. Para Volóchinov: Todo sistema de normas sociais encontra-se em posição análoga. Ele existe apenas em relação à consciência subjetiva dos indivíduos que pertencem a uma dada coletividade, direcionada por certas normas. O mesmo pode ser dito sobre o sistema de normas morais, jurídicas, do gosto estético […], etc. (2018, p. 175) Entendemos então que estas ideologias, como construções sociais, existem decorrentes de uma sociedade organizada e capaz de comunicação. Portanto, uma ideologia não é inata, natural e pode mudar com o tempo. Cabe ao sujeito, como indivíduo que é responsável pelos seus atos e que ocupa lugar único na existência (VOLÓCHINOV) tomar consciência das ideologias que os rodeiam para que possa agir de forma ética perante à elas, já que: Ninguém pode ocupar uma posição neutra em relação a mim e ao outro; o ponto de vista abstrato-cognitivo carece de um enfoque axiológico, a diretriz axiológica necessita de que ocupemos uma posição singular no acontecimento único da existência, de que nos encarnemos. Todo juízo de valor é sempre uma tomada de posição individual na existência; até Deus precisou encarnar-se para amar, sofrer e perdoar, teve, por assim dizer, de abandonar o ponto de vista abstrato sobre a justiça. (VOLÓCHINOV, 2018, p. 117) [1] Imagem disponível em: Acesso em: 01 de ago. de 2021. [2] Imagem disponível em: Acesso em: 01 de ago. de 2021. REFERÊNCIAS BEAUVOIR, S. O segundo Sexo: Fatos e Mitos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980a. BEAUVOIR, S. O Segundo Sexo: A Experiência Vivida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980b. CASTRO, R. Deputado bolsonarista é condenado a indenizar jornalista em R$ 50 mil por ataques machistas. O Globo. Disponível em: Acesso em: 01 de ago. de 2021. SAFFIOTI, H. I. B. O poder do macho. São Paulo: Moderna, 1987. VOLÓCHINOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem. Rio de Janeiro: 34, 2018.
- AS MAIS OUVIDAS NO BRASIL – CANÇÃO, SENTIDOS E MERCADO
Fábio Augusto Alves de Oliveira Dados1 apontam para o crescimento do forró em rankings de streaming no Brasil. Segundo análise do G1, o sertanejo lidera as paradas, mas perde espaço para o forró nos últimos anos. Nesse estilo, destacam-se, entre outros, Os Barões da Pisadinha, duo musical mais tocado no primeiro semestre de 2021. Tendo em vista, então, esse crescimento, faço alguns apontamentos sobre a letra da canção Recairei2 interpretada pela dupla citada, discutindo o processo de superação amorosa. A presença em mais ouvidos, reproduzidos e tocados é importante, em sentido discursivo, para avaliar, analisar, estudar e compreender o que circula nas canções como valor, sentido e mercado. Pensando com o Círculo, é possível dizer que o enunciado, a canção, é repleto de significação que circula socialmente e se relaciona com outras canções e, mais amplamente, com produções diversas, na arte e fora dela. Com o princípio de que a palavra, o enunciado e a linguagem são sociais e ideológicos, cada produção artística está inserida em determinado espaço-tempo e produz sentidos, a partir de um projeto de dizer. Nesse caso, uma canção muito escutada, cujo autor é largamente reproduzido, demarca uma série de respostas na comunicação social, porque determina quais narrativas, estilos, vozes e construções vendem e se tornam “sucesso”. O canal oficial3 da dupla possui cerca de 4,9 milhões de inscrição, e o vídeo de Recairei (ao vivo), 330 milhões de visualização, um dos mais vistos do canal. São números que, novamente, atestam grande circulação e popularidade, fator que explica a escolha e a relevância da discussão em torno dessa canção, estilo e autores. Recairei trata de um sujeito em estado de superação amorosa, tema presente em demais estilos e em momentos históricos variados da canção brasileira. A narrativa aborda uma certeza de superação em contraste com uma condição de volta. Se pensarmos com o Círculo, que compreende o sujeito constituído pelas relações que mantém com os “outros”, via alteridade, portanto, é possível dizer que na canção o “você” constitui o “eu” como ser em processo de superação e vice-versa. De início, na canção, há uma demarcação temporal de distância entre o “eu” que supera e o “você” a ser superado. A forma na língua (“estar limpo”) escolhida para tanto expressa um valor: estar próximo e ter contato com “você” significa estar não-limpo/sujo (negativo), caracterizando, assim, esse processo e os sujeitos envolvidos. Os versos seguintes da letra mostram práticas superadas, como “olhar histories”, sentir saudades e afins. A distância descrita (uma semana) se concretiza em tais práticas, que implicam determinada memória da relação. Fator relevante é a presença de redes sociais nesse processo de superação, certeza e distanciamento. “Histories” e “curtidas” são recursos oriundos de espaços digitais, que também demarcam e caracterizam como o sofrimento e a superação ocorrem. Da mesma forma, a “mensagem” significa essa presença de tecnologias digitais em relações e processos amorosos. Nesse caso, são formas de contato entre o “eu” que supera e o “você” superado. O tempo e o modo verbal (superei) expressam algo concluído e feito no passado, reforçado também com o advérbio temporal “já”. Essas construções de língua afirmam uma posição do sujeito de superação completa. Nos versos seguintes, há outro reforço: a repetição e a “certeza”. Porém, essa assertividade é tensionada por uma condição: o envio, outra vez, de mensagem. O “mas” é responsável por fazer essa tensão, pois expressa um sentido adversativo e causa instabilidade na certeza da superação. A superação, pois, fica à mercê da condição da “mensagem”. Outra vez e o próprio sentido de recair revelam acontecimentos anteriores. Com isso, é possível pensar em um processo de superação – contato – recaída, tendo em vista o tempo de distância (uma semana) e a possibilidade de outra vez. Assim, na canção, não se trata de um estado estável de superação, mas instável e tenso, marcado por aspectos adversativos e condicionais, no qual há a negação do “outro”. De acordo com Volóchinov (2017), todo enunciado é orientado, significa e avalia socialmente. Recairei, desse modo, está em interação com outros enunciados e sujeitos, construindo valor e significações sobre o processo de superação, a partir de uma construção específica de língua4 (instrumentos, vocais e procedimentos musicais etc.). A grande circulação dessa canção revela que e como a narrativa de superação vende e é consumida no Brasil, produzindo respostas e sentidos variados na esfera artística, na jornalística, na científica e afins. [1] Disponível em: ‘Batom de cereja’, de Israel e Rodolffo, é o maior hit do 1º semestre do Brasil em streaming | Música | G1 (globo.com). Acesso em: 25. Jul. 2021. [2] Disponível em: Os Barões da Pisadinha – Recairei (Ao Vivo) – YouTube. Acesso em: 25. Jul. 2021. [3] Disponível em: Os Barões da Pisadinha Oficial – YouTube. Acesso em: 25. Jul. 2021. [4] Como tratei brevemente da letra, mencionei apenas construções de língua. Se se adotado outro corte metodológico, por analisar o gênero canção “completo”, outros pontos e construções desse tipo relativamente estável devem entrar na análise, como mencionado no texto. #CirculodeBakhtin #Volochinov
- AS MAIS OUVIDAS NO BRASIL – CANÇÃO, SENTIDOS E MERCADO
Fábio Augusto Alves de Oliveira Dados1 apontam para o crescimento do forró em rankings de streaming no Brasil. Segundo análise do G1, o sertanejo lidera as paradas, mas perde espaço para o forró nos últimos anos. Nesse estilo, destacam-se, entre outros, Os Barões da Pisadinha, duo musical mais tocado no primeiro semestre de 2021. Tendo em vista, então, esse crescimento, faço alguns apontamentos sobre a letra da canção Recairei2 interpretada pela dupla citada, discutindo o processo de superação amorosa. A presença em mais ouvidos, reproduzidos e tocados é importante, em sentido discursivo, para avaliar, analisar, estudar e compreender o que circula nas canções como valor, sentido e mercado. Pensando com o Círculo, é possível dizer que o enunciado, a canção, é repleto de significação que circula socialmente e se relaciona com outras canções e, mais amplamente, com produções diversas, na arte e fora dela. Com o princípio de que a palavra, o enunciado e a linguagem são sociais e ideológicos, cada produção artística está inserida em determinado espaço-tempo e produz sentidos, a partir de um projeto de dizer. Nesse caso, uma canção muito escutada, cujo autor é largamente reproduzido, demarca uma série de respostas na comunicação social, porque determina quais narrativas, estilos, vozes e construções vendem e se tornam “sucesso”. O canal oficial3 da dupla possui cerca de 4,9 milhões de inscrição, e o vídeo de Recairei (ao vivo), 330 milhões de visualização, um dos mais vistos do canal. São números que, novamente, atestam grande circulação e popularidade, fator que explica a escolha e a relevância da discussão em torno dessa canção, estilo e autores. Recairei trata de um sujeito em estado de superação amorosa, tema presente em demais estilos e em momentos históricos variados da canção brasileira. A narrativa aborda uma certeza de superação em contraste com uma condição de volta. Se pensarmos com o Círculo, que compreende o sujeito constituído pelas relações que mantém com os “outros”, via alteridade, portanto, é possível dizer que na canção o “você” constitui o “eu” como ser em processo de superação e vice-versa. De início, na canção, há uma demarcação temporal de distância entre o “eu” que supera e o “você” a ser superado. A forma na língua (“estar limpo”) escolhida para tanto expressa um valor: estar próximo e ter contato com “você” significa estar não-limpo/sujo (negativo), caracterizando, assim, esse processo e os sujeitos envolvidos. Os versos seguintes da letra mostram práticas superadas, como “olhar histories”, sentir saudades e afins. A distância descrita (uma semana) se concretiza em tais práticas, que implicam determinada memória da relação. Fator relevante é a presença de redes sociais nesse processo de superação, certeza e distanciamento. “Histories” e “curtidas” são recursos oriundos de espaços digitais, que também demarcam e caracterizam como o sofrimento e a superação ocorrem. Da mesma forma, a “mensagem” significa essa presença de tecnologias digitais em relações e processos amorosos. Nesse caso, são formas de contato entre o “eu” que supera e o “você” superado. O tempo e o modo verbal (superei) expressam algo concluído e feito no passado, reforçado também com o advérbio temporal “já”. Essas construções de língua afirmam uma posição do sujeito de superação completa. Nos versos seguintes, há outro reforço: a repetição e a “certeza”. Porém, essa assertividade é tensionada por uma condição: o envio, outra vez, de mensagem. O “mas” é responsável por fazer essa tensão, pois expressa um sentido adversativo e causa instabilidade na certeza da superação. A superação, pois, fica à mercê da condição da “mensagem”. Outra vez e o próprio sentido de recair revelam acontecimentos anteriores. Com isso, é possível pensar em um processo de superação – contato – recaída, tendo em vista o tempo de distância (uma semana) e a possibilidade de outra vez. Assim, na canção, não se trata de um estado estável de superação, mas instável e tenso, marcado por aspectos adversativos e condicionais, no qual há a negação do “outro”. De acordo com Volóchinov (2017), todo enunciado é orientado, significa e avalia socialmente. Recairei, desse modo, está em interação com outros enunciados e sujeitos, construindo valor e significações sobre o processo de superação, a partir de uma construção específica de língua4 (instrumentos, vocais e procedimentos musicais etc.). A grande circulação dessa canção revela que e como a narrativa de superação vende e é consumida no Brasil, produzindo respostas e sentidos variados na esfera artística, na jornalística, na científica e afins. [1] Disponível em: ‘Batom de cereja’, de Israel e Rodolffo, é o maior hit do 1º semestre do Brasil em streaming | Música | G1 (globo.com). Acesso em: 25. Jul. 2021. [2] Disponível em: Os Barões da Pisadinha – Recairei (Ao Vivo) – YouTube. Acesso em: 25. Jul. 2021. [3] Disponível em: Os Barões da Pisadinha Oficial – YouTube. Acesso em: 25. Jul. 2021. [4] Como tratei brevemente da letra, mencionei apenas construções de língua. Se se adotado outro corte metodológico, por analisar o gênero canção “completo”, outros pontos e construções desse tipo relativamente estável devem entrar na análise, como mencionado no texto. #CirculodeBakhtin #Volochinov
- OS SIGNOS IDEOLÓGICOS QUE VALORAM UM SUJEITO COMO “BOM” E “RUIM” NA SAGA HARRY POTTER
Giovana Cristina de Moura O signo ideológico para o Círculo de Bakhtin não é algo pronto. Ele se constitui na relação entre sujeitos de linguagem, no confronto, que se dá na interação. O indivíduo e as vozes sociais que dissemina são constituídos no e pelo social (VOLÓCHINOV, 2017). Os signos adentram na consciência individual dos sujeitos, porém, é na interação que esses signos são criados e ressignificados. Uma vez na consciência eles não permanecem ali, estáticos. São devolvidos ao solo social a cada dia, pois o signo é produto da interação (VOLÓCHINOV, 2019). Nesse sentido, os sujeitos-bruxos considerados como “bons” e “ruins” na saga Harry Potter são constituídos na relação desses com os seus outros. É o governo bruxo – Ministério da Magia –, a partir dos seus representantes, que consolida o “bom” (os bruxos sangue puro) e o “ruim” (mestiços, nascidos-trouxa, criaturas a seres). A própria configuração da Escola, Hogwarts, corrobora para com a divisão dos bruxos em Casas. Cada Casa constitui-se a partir dos signos atribuídos a elas. A Grifinória e a Sonserina, duas das quatro Casas, rivalizam, a partir dos seus bruxos representantes, ao longo de toda a narrativa. Os signos “coragem” e “ambição” (no sentido negativo) também inserem certos estereótipos aos bruxos representantes. A Casa Sonserina é associada à pureza do sangue, à magia das trevas; a Grifinória, por sua vez, é caracterizada como a Casa na qual habitam os heróis (para um certo grupo de bruxos, aqueles não coniventes com o órgão que regula o mundo bruxo, o Ministério da Magia). Entretanto, para a superestrutura dominante, o Ministério da Magia, o “bom” é o oposto: aqueles que discriminam aqueles que não são “puros o suficiente” são recompensados e ocupam as melhores posições sociais dentro e fora deste governo. Na interação, os sujeitos refletem e refratam vozes sociais coniventes e resistentes à hegemonia (da pureza do sangue, no caso da obra). Os interesses sociais são orientados de formas distintas na comunicação discursiva. A partir da materialização de tais vozes em um enunciado estético podemos analisar quem é o bom e o ruim para grupos sociais com pontos de vista antagônicos, conflitantes (MEDVIÉDEV, 2012). Para aqueles que se opõem as estratégias de dominação do órgão bruxo, os “bons” são os sujeitos que se posicionam de forma contrária à esta política (higienista e exclusória, pois apenas os bruxos “sangue puro” ascendem socialmente e são beneficiados por este governo); aqueles que resistem na infraestrutura. É na luta entre classes que os signos “bom” e “ruim”, “puro” e “impuro” são constituídos. O principal embate entre essas vozes se dá entre bruxos que representam as duas Casas, Sonserina e Grifinória. Os bruxos que compõem a alta hierarquia do Ministério da Magia orgulham-se de seu “sangue puro” e utilizam-se deste discurso para perseguir, condenar e punir aqueles que não se encaixam nesta hegemonia, o “ruim”. Os bruxos considerados como “ruins” são, majoritariamente, da Casa Grifinória. A rivalidade entre as duas Casas se dá por conta deste embate. Harry Potter e Voldemort, vilão da saga, é o principal exemplo desta luta entre classes, porém, o confronto se dá entre as duas Casas e, também, entre o Ministério da Magia e aqueles que se opõem a ele (bruxos que não compactuam com suas políticas, que são higienistas, persecutórias e beneficiadora a um grupo específico, à classe dominante, voltada aos sonserinos). No quinto livro da saga, intitulado de “Harry Potter e Ordem da Fênix”, o embate entre as forças centrípetas e centrífugas é ainda mais potencializado. As forças centrípetas, homogeneizadoras, monopolizadoras, censuram àqueles que se opõem à hegemonia; as centrífugas, por sua vez, na infraestrutura, reagem a esta monopolização da palavra, lutam para que as suas demandas sejam atendidas na infraestrutura (BAKHTIN, 2014). O movimento centrípeto é mobilizado pela representante do Ministério da Magia, Dolores Umbridge. Em nome desse Estado, suprime direitos daqueles considerados como “ruins” e “inimigos do Estado” (aqueles que se posicionam, de forma mais direta ou velada, quanto à intervenção do governo na Escola, Hogwarts). O movimento centrífugo é semiotizado pelos bruxos que, na infraestrutura, dentro e fora da Escola, articulam-se de forma contrária àquela esperada pela superestrutura dominante. Buscam mobilizar os outros bruxos acerca dos perigos de um governo que beneficia apenas os considerados como “dignos” de proteção. Qualquer produto ideológico não é apenas uma parte integrante da realidade natural e social. Não é apenas um reflexo, um corpo físico, um instrumento de produção ou produto de consumo (VOLÓCHINOV, 2017). É, também, refração. O enunciado estético reflete e refrata uma realidade que encontra-se fora dos seus limites. Embora Harry Potter seja uma obra literária relacionada ao contexto inglês, britânico, as estratégias discursivas colocadas em prática pelo Ministério da Magia são, com uma outra configuração, próximas àquelas empregadas pelo Brasil governado por Jair Bolsonaro: os “bons” são aqueles considerados como “puros”. Os “ruins” são aqueles que lutam para que as suas demandas sejam atendidas, para que a sua integridade, enquanto seres humanos, seja respeitada. Esses sujeitos são agredidos por uma política que os cala, que os trata como inimigos, porém, como o signo é reflexo e refração, não deixam de resistir à uma política que os coloca à margem da sociedade. REFERÊNCIAS BAKHTIN, M. M. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini et al. 7ª. ed. São Paulo: Hucitec, 2014. MEDVIÉDEV, P. N. O método formal nos estudos literários: introdução crítica a uma poética sociológica. São Paulo: Contexto, 2012. PAULA, L. DE; SIANI, A. C. Uma análise bakhtiniana da necropolítica brasileira em tempos de pandemia. Revista da ABRALIN, v. 19, n. 3, p. 475-503, 17 dez. 2020. VOLÓCHINOV, V. A palavra na vida e a palavra na poesia. Trad. Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Editora 34, 2019. VOLÓCHINOV, V. Marxismo e Filosofia da Linguagem. Trad. Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Editora 34, 2017.
- OS SIGNOS IDEOLÓGICOS QUE VALORAM UM SUJEITO COMO “BOM” E “RUIM” NA SAGA HARRY POTTER
Giovana Cristina de Moura O signo ideológico para o Círculo de Bakhtin não é algo pronto. Ele se constitui na relação entre sujeitos de linguagem, no confronto, que se dá na interação. O indivíduo e as vozes sociais que dissemina são constituídos no e pelo social (VOLÓCHINOV, 2017). Os signos adentram na consciência individual dos sujeitos, porém, é na interação que esses signos são criados e ressignificados. Uma vez na consciência eles não permanecem ali, estáticos. São devolvidos ao solo social a cada dia, pois o signo é produto da interação (VOLÓCHINOV, 2019). Nesse sentido, os sujeitos-bruxos considerados como “bons” e “ruins” na saga Harry Potter são constituídos na relação desses com os seus outros. É o governo bruxo – Ministério da Magia –, a partir dos seus representantes, que consolida o “bom” (os bruxos sangue puro) e o “ruim” (mestiços, nascidos-trouxa, criaturas a seres). A própria configuração da Escola, Hogwarts, corrobora para com a divisão dos bruxos em Casas. Cada Casa constitui-se a partir dos signos atribuídos a elas. A Grifinória e a Sonserina, duas das quatro Casas, rivalizam, a partir dos seus bruxos representantes, ao longo de toda a narrativa. Os signos “coragem” e “ambição” (no sentido negativo) também inserem certos estereótipos aos bruxos representantes. A Casa Sonserina é associada à pureza do sangue, à magia das trevas; a Grifinória, por sua vez, é caracterizada como a Casa na qual habitam os heróis (para um certo grupo de bruxos, aqueles não coniventes com o órgão que regula o mundo bruxo, o Ministério da Magia). Entretanto, para a superestrutura dominante, o Ministério da Magia, o “bom” é o oposto: aqueles que discriminam aqueles que não são “puros o suficiente” são recompensados e ocupam as melhores posições sociais dentro e fora deste governo. Na interação, os sujeitos refletem e refratam vozes sociais coniventes e resistentes à hegemonia (da pureza do sangue, no caso da obra). Os interesses sociais são orientados de formas distintas na comunicação discursiva. A partir da materialização de tais vozes em um enunciado estético podemos analisar quem é o bom e o ruim para grupos sociais com pontos de vista antagônicos, conflitantes (MEDVIÉDEV, 2012). Para aqueles que se opõem as estratégias de dominação do órgão bruxo, os “bons” são os sujeitos que se posicionam de forma contrária à esta política (higienista e exclusória, pois apenas os bruxos “sangue puro” ascendem socialmente e são beneficiados por este governo); aqueles que resistem na infraestrutura. É na luta entre classes que os signos “bom” e “ruim”, “puro” e “impuro” são constituídos. O principal embate entre essas vozes se dá entre bruxos que representam as duas Casas, Sonserina e Grifinória. Os bruxos que compõem a alta hierarquia do Ministério da Magia orgulham-se de seu “sangue puro” e utilizam-se deste discurso para perseguir, condenar e punir aqueles que não se encaixam nesta hegemonia, o “ruim”. Os bruxos considerados como “ruins” são, majoritariamente, da Casa Grifinória. A rivalidade entre as duas Casas se dá por conta deste embate. Harry Potter e Voldemort, vilão da saga, é o principal exemplo desta luta entre classes, porém, o confronto se dá entre as duas Casas e, também, entre o Ministério da Magia e aqueles que se opõem a ele (bruxos que não compactuam com suas políticas, que são higienistas, persecutórias e beneficiadora a um grupo específico, à classe dominante, voltada aos sonserinos). No quinto livro da saga, intitulado de “Harry Potter e Ordem da Fênix”, o embate entre as forças centrípetas e centrífugas é ainda mais potencializado. As forças centrípetas, homogeneizadoras, monopolizadoras, censuram àqueles que se opõem à hegemonia; as centrífugas, por sua vez, na infraestrutura, reagem a esta monopolização da palavra, lutam para que as suas demandas sejam atendidas na infraestrutura (BAKHTIN, 2014). O movimento centrípeto é mobilizado pela representante do Ministério da Magia, Dolores Umbridge. Em nome desse Estado, suprime direitos daqueles considerados como “ruins” e “inimigos do Estado” (aqueles que se posicionam, de forma mais direta ou velada, quanto à intervenção do governo na Escola, Hogwarts). O movimento centrífugo é semiotizado pelos bruxos que, na infraestrutura, dentro e fora da Escola, articulam-se de forma contrária àquela esperada pela superestrutura dominante. Buscam mobilizar os outros bruxos acerca dos perigos de um governo que beneficia apenas os considerados como “dignos” de proteção. Qualquer produto ideológico não é apenas uma parte integrante da realidade natural e social. Não é apenas um reflexo, um corpo físico, um instrumento de produção ou produto de consumo (VOLÓCHINOV, 2017). É, também, refração. O enunciado estético reflete e refrata uma realidade que encontra-se fora dos seus limites. Embora Harry Potter seja uma obra literária relacionada ao contexto inglês, britânico, as estratégias discursivas colocadas em prática pelo Ministério da Magia são, com uma outra configuração, próximas àquelas empregadas pelo Brasil governado por Jair Bolsonaro: os “bons” são aqueles considerados como “puros”. Os “ruins” são aqueles que lutam para que as suas demandas sejam atendidas, para que a sua integridade, enquanto seres humanos, seja respeitada. Esses sujeitos são agredidos por uma política que os cala, que os trata como inimigos, porém, como o signo é reflexo e refração, não deixam de resistir à uma política que os coloca à margem da sociedade. REFERÊNCIAS BAKHTIN, M. M. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini et al. 7ª. ed. São Paulo: Hucitec, 2014. MEDVIÉDEV, P. N. O método formal nos estudos literários: introdução crítica a uma poética sociológica. São Paulo: Contexto, 2012. PAULA, L. DE; SIANI, A. C. Uma análise bakhtiniana da necropolítica brasileira em tempos de pandemia. Revista da ABRALIN, v. 19, n. 3, p. 475-503, 17 dez. 2020. VOLÓCHINOV, V. A palavra na vida e a palavra na poesia. Trad. Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Editora 34, 2019. VOLÓCHINOV, V. Marxismo e Filosofia da Linguagem. Trad. Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Editora 34, 2017.
- XVII CED – Colóquio de Estudos Discursivos
Olá, Com prazer e honra, viemos divulgar o XVII CED, com a participação do Prof. Dr. Luciano Ponzio. Segue o link da página de inscrição do evento no final do post. Dia 15 esperamos nos encontrar com vocês no XVI CED, com o Prof. Dr. Samuel Manzoni e dia 29, com o Prof. Dr. Luciano Ponzio. Sobre o evento: 15/07/2021 – 14:00 – 17:00 GMT- O XVI CED – Colóquio de Estudos Discursivos, organizado e realizado pelo GED – Grupo de Estudos Discursivos, na UNESP, promove o diálogo com o Prof. Samuel Manzoni (Universidade de Zurique), com o intuito de refletir sobre o que o pesquisador denomina como “Re-descoberta” de Sollertinsky, principalmente, em sua relação com Bakhtin e o Círculo. 05/08/2021 – 14:00 – 17:00 GMT-3 O XVII CED – Colóquio de Estudos Discursivos, organizado e realizado pelo GED – Grupo de Estudos Discursivos, na UNESP, promove o diálogo com o Prof. Dr. Doutor Luciano Ponzio (Universidade de Salento, Lecce), a fim de refletir sobre o Círculo de Bakhtin e (ou como) semiótica, a partir da noção do que o pesquisador denomina “imagens-palavras”, relacionada à questão estética. Não se esqueçam de se inscreverem tanto no evento quanto na atividade. Sem isso, a participação não poderá ser certificada. Um abraço e contamos com a participação de todes! A página do evento: https://www.even3.com.br/xviiced2021/ A página do YouTube, link para acesso: https://www.youtube.com/watch?v=mqocwy4VF8o
- XVII CED – Colóquio de Estudos Discursivos
Olá, Com prazer e honra, viemos divulgar o XVII CED, com a participação do Prof. Dr. Luciano Ponzio. Segue o link da página de inscrição do evento no final do post. Dia 15 esperamos nos encontrar com vocês no XVI CED, com o Prof. Dr. Samuel Manzoni e dia 29, com o Prof. Dr. Luciano Ponzio. Sobre o evento: 15/07/2021 – 14:00 – 17:00 GMT- O XVI CED – Colóquio de Estudos Discursivos, organizado e realizado pelo GED – Grupo de Estudos Discursivos, na UNESP, promove o diálogo com o Prof. Samuel Manzoni (Universidade de Zurique), com o intuito de refletir sobre o que o pesquisador denomina como “Re-descoberta” de Sollertinsky, principalmente, em sua relação com Bakhtin e o Círculo. 05/08/2021 – 14:00 – 17:00 GMT-3 O XVII CED – Colóquio de Estudos Discursivos, organizado e realizado pelo GED – Grupo de Estudos Discursivos, na UNESP, promove o diálogo com o Prof. Dr. Doutor Luciano Ponzio (Universidade de Salento, Lecce), a fim de refletir sobre o Círculo de Bakhtin e (ou como) semiótica, a partir da noção do que o pesquisador denomina “imagens-palavras”, relacionada à questão estética. Não se esqueçam de se inscreverem tanto no evento quanto na atividade. Sem isso, a participação não poderá ser certificada. Um abraço e contamos com a participação de todes! A página do evento: https://www.even3.com.br/xviiced2021/ A página do YouTube, link para acesso: https://www.youtube.com/watch?v=mqocwy4VF8o
- Corpos em constante negação: o alvo tem cor e classe
Kamilat Ariele Souza Akinlotan O mundo atravessa quase dois anos de pandemia, ao lado de perdas incessantemente dolorosas, parentes, amigos e companheiros que restaram somente em memórias. Um momento de desajustes, desarmonias e desgoverno que propõe práticas eugenistas, autoritárias e discriminatórias como a política atual brasileira (PAULA; LOPES, 2020). A vivência e a (sobre)vivência é histórica, reflete e refrata a situação de desordem e regresso em que o país está condicionado. E não obstante, a resistência que há na população brasileira reverbera, àqueles que anseiam por um futuro em que a educação e a ciência sejam valorizadas, e que lutam em combate a desigualdade social e racial. Este texto propõe uma discussão a respeito de acontecimentos históricos atuais e marcados por violência pautados no racismo. De acordo com Bakhtin em Estética da Criação Verbal, “os enunciados e seus tipos, isto é, os gêneros discursivos, são correias de transmissão entre a história da sociedade e a história da linguagem” (p. 268). Portanto, os valores sócio-históricos estão fundamentalmente constituídos nos enunciados, no qual se investiga e analisa o contexto. Em 2020, por meio de hashtags nas mídias sociais, houveram ondas de protesto em prol ao combate à violência policial e ao racismo, que eclodiu nos EUA, o movimento antirracista Black Lives Matter (Vidas Negras Importam). O assassinato de George Floyd designou no estopim do protesto nos EUA. Jovem, homem negro, que levou a ser asfixiado por um policial branco que ajoelhou em seu pescoço por supostamente ter uma nota “falsa” em um estabelecimento em Minneapolis no estado de Minnesota. O falecimento de Floyd mobilizou o mundo, na internet, famosos e empresas multinacionais utilizaram hashtags, feed com imagens de fundo preto que semiotizam o luto e o combate aos grupos supremacistas brancos e a brutalidade policial oriundo do racismo estrutural do país. O primeiro não foi Floyd, e infelizmente não será e não foi o último. Para a população negra a qualquer momento pode determinar a assinatura da carta da sua sentença, uma vez que o mundo é colonizado e o corpo negro por sua vez é negado. (FANON, 2020). No Brasil, de acordo com cantor e compositor Criolo em sua canção Boca de Lobo, “Um litro de Pinho Sol pra um preto rodar” fazendo referência ao jovem negro Rafael Braga, que foi condenado por 11 anos por roubar um produto de limpeza, enquanto o atual presidente recusou ofertas da vacina que culminou em mais brasileiros mortos pelo vírus, no qual resultaram em mais de 500 mil mortos. Entretanto, os olhos insistem em condenar outros corpos. O presidente Jair Bolsonaro está envolvido em escândalo de corrupção da vacina Covaxin, mas nestes casos as investigações andam em passos vagarosos. O alvo tem classe e cor e o detentor da arma é a branquitude. O Fruto do racismo estrutural é o estado determina quem morre e quem vive para a manutenção da necropolítica (MBEMBE, 2018). Conforme Sílvio Almeida (2021), “O racismo, mais uma vez, permite a conformação das almas (…)”, ou seja, se naturaliza morte de pessoas racializados por “balas perdidas” como o caso da jovem Kethlen Romeu, mulher, gestante, negra, jovem e designer de interiores e vítima de violência policial no ano de 2021 no Rio de Janeiro em uma visita a sua avó materna na comunidade local, entretanto foi atingida por uma “bala de fuzil perdida”. Sonhos, desejos, construções e famílias que foram negados. Não foi somente a Kathlen, antes foi João Alberto em um supermercado brutalmente agredido por seguranças e entre outros e infelizmente não serão os últimos. Vidas negras importam. Não somente importam nos feeds do instagram, nas publicações e publicidades que promovem “consciência racial” uma vez por ano ou somente no dia 20 de novembro. A ação da luta antirracista deve ocorrer diariamente em todos os locais, é a inserção, integração, ato de alteridade, é a visibilidade de corpos que são constantemente negados em uma sociedade branca, heteronormativa e patriarcal. A luta e resistência é feita incessantemente, inclusive neste texto dispondo a escrita como ato de protesto, político, crítico e reflexivo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, S. Racismo estrutural. São Paulo: Editora Jandira, 2021 BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 6ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011. BERMÚDEZ, A.Morte de George Floyd: 4 fatores que explicam por que caso gerou onda tão grande de protestos nos EUA. BBC News Brasil. Publicado em: 2 de junho de 2020. Disponível em: < https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52893434> FANON, F. Pele negra, máscaras brancas. São Paulo: Ubu editora, 2020. GALVANI. G.Percepção de não-combate à corrupção por Bolsonaro chega a 45%. Carta Capital. Publicado em 02/07/2021. Disponível em: < https://www.cartacapital.com.br/politica/percepcao-de-nao-combate-a-corrupcao-por-bolsonaro-chega-a-45/> G1 Rio.O que se sabe sobre a morte da jovem Kathlen Romeu, no Rio. G1 Notícias. Publicado em 10/06/2020. Disponível em: < https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2021/06/10/o-que-se-sabe-sobre-a-morte-da-jovem-kathlen-romeu-no-rio.ghtml > MBEMBE. A. Necropolítica. São Paulo: N-1, 2018 PAULA, L.; LOPES, A. S. A eugenia de Bolsonaro: leitura bakhtiniana de um projeto de holocausto à brasileira. Revista Linguagem, São Carlos, v.35, Dossiê Discurso em tempos de pandemia. setembro/2020, p. 35-76. RIBEIRO. D. Pequeno Manual Antirracista. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. VASCONCELLOS, H. Apaixonado por futebol, brincalhão e família: quem era João Freitas. Uol Notícias. Publicado em: 20/11/2020. Disponível em: < https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2020/11/20/quem-era-joao-freitas-morto-no-carrefour.htm>
- Corpos em constante negação: o alvo tem cor e classe
Kamilat Ariele Souza Akinlotan O mundo atravessa quase dois anos de pandemia, ao lado de perdas incessantemente dolorosas, parentes, amigos e companheiros que restaram somente em memórias. Um momento de desajustes, desarmonias e desgoverno que propõe práticas eugenistas, autoritárias e discriminatórias como a política atual brasileira (PAULA; LOPES, 2020). A vivência e a (sobre)vivência é histórica, reflete e refrata a situação de desordem e regresso em que o país está condicionado. E não obstante, a resistência que há na população brasileira reverbera, àqueles que anseiam por um futuro em que a educação e a ciência sejam valorizadas, e que lutam em combate a desigualdade social e racial. Este texto propõe uma discussão a respeito de acontecimentos históricos atuais e marcados por violência pautados no racismo. De acordo com Bakhtin em Estética da Criação Verbal, “os enunciados e seus tipos, isto é, os gêneros discursivos, são correias de transmissão entre a história da sociedade e a história da linguagem” (p. 268). Portanto, os valores sócio-históricos estão fundamentalmente constituídos nos enunciados, no qual se investiga e analisa o contexto. Em 2020, por meio de hashtags nas mídias sociais, houveram ondas de protesto em prol ao combate à violência policial e ao racismo, que eclodiu nos EUA, o movimento antirracista Black Lives Matter (Vidas Negras Importam). O assassinato de George Floyd designou no estopim do protesto nos EUA. Jovem, homem negro, que levou a ser asfixiado por um policial branco que ajoelhou em seu pescoço por supostamente ter uma nota “falsa” em um estabelecimento em Minneapolis no estado de Minnesota. O falecimento de Floyd mobilizou o mundo, na internet, famosos e empresas multinacionais utilizaram hashtags, feed com imagens de fundo preto que semiotizam o luto e o combate aos grupos supremacistas brancos e a brutalidade policial oriundo do racismo estrutural do país. O primeiro não foi Floyd, e infelizmente não será e não foi o último. Para a população negra a qualquer momento pode determinar a assinatura da carta da sua sentença, uma vez que o mundo é colonizado e o corpo negro por sua vez é negado. (FANON, 2020). No Brasil, de acordo com cantor e compositor Criolo em sua canção Boca de Lobo, “Um litro de Pinho Sol pra um preto rodar” fazendo referência ao jovem negro Rafael Braga, que foi condenado por 11 anos por roubar um produto de limpeza, enquanto o atual presidente recusou ofertas da vacina que culminou em mais brasileiros mortos pelo vírus, no qual resultaram em mais de 500 mil mortos. Entretanto, os olhos insistem em condenar outros corpos. O presidente Jair Bolsonaro está envolvido em escândalo de corrupção da vacina Covaxin, mas nestes casos as investigações andam em passos vagarosos. O alvo tem classe e cor e o detentor da arma é a branquitude. O Fruto do racismo estrutural é o estado determina quem morre e quem vive para a manutenção da necropolítica (MBEMBE, 2018). Conforme Sílvio Almeida (2021), “O racismo, mais uma vez, permite a conformação das almas (…)”, ou seja, se naturaliza morte de pessoas racializados por “balas perdidas” como o caso da jovem Kethlen Romeu, mulher, gestante, negra, jovem e designer de interiores e vítima de violência policial no ano de 2021 no Rio de Janeiro em uma visita a sua avó materna na comunidade local, entretanto foi atingida por uma “bala de fuzil perdida”. Sonhos, desejos, construções e famílias que foram negados. Não foi somente a Kathlen, antes foi João Alberto em um supermercado brutalmente agredido por seguranças e entre outros e infelizmente não serão os últimos. Vidas negras importam. Não somente importam nos feeds do instagram, nas publicações e publicidades que promovem “consciência racial” uma vez por ano ou somente no dia 20 de novembro. A ação da luta antirracista deve ocorrer diariamente em todos os locais, é a inserção, integração, ato de alteridade, é a visibilidade de corpos que são constantemente negados em uma sociedade branca, heteronormativa e patriarcal. A luta e resistência é feita incessantemente, inclusive neste texto dispondo a escrita como ato de protesto, político, crítico e reflexivo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, S. Racismo estrutural. São Paulo: Editora Jandira, 2021 BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 6ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011. BERMÚDEZ, A.Morte de George Floyd: 4 fatores que explicam por que caso gerou onda tão grande de protestos nos EUA. BBC News Brasil. Publicado em: 2 de junho de 2020. Disponível em: < https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52893434> FANON, F. Pele negra, máscaras brancas. São Paulo: Ubu editora, 2020. GALVANI. G.Percepção de não-combate à corrupção por Bolsonaro chega a 45%. Carta Capital. Publicado em 02/07/2021. Disponível em: < https://www.cartacapital.com.br/politica/percepcao-de-nao-combate-a-corrupcao-por-bolsonaro-chega-a-45/> G1 Rio.O que se sabe sobre a morte da jovem Kathlen Romeu, no Rio. G1 Notícias. Publicado em 10/06/2020. Disponível em: < https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2021/06/10/o-que-se-sabe-sobre-a-morte-da-jovem-kathlen-romeu-no-rio.ghtml > MBEMBE. A. Necropolítica. São Paulo: N-1, 2018 PAULA, L.; LOPES, A. S. A eugenia de Bolsonaro: leitura bakhtiniana de um projeto de holocausto à brasileira. Revista Linguagem, São Carlos, v.35, Dossiê Discurso em tempos de pandemia. setembro/2020, p. 35-76. RIBEIRO. D. Pequeno Manual Antirracista. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. VASCONCELLOS, H. Apaixonado por futebol, brincalhão e família: quem era João Freitas. Uol Notícias. Publicado em: 20/11/2020. Disponível em: < https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2020/11/20/quem-era-joao-freitas-morto-no-carrefour.htm>
- A QUESTÃO MUSICAL NO CÍRCULO B.M.V: OS ESTUDOS DE IVAN SOLLERTÍNSKI
José Antônio Rodrigues Luciano Embora tenha tido grande recepção no campo dos estudos literários e, posteriormente, nos estudos culturais, a filosofia bakhtiniana não se ocupou apenas do signo verbal. O grupo de intelectuais russos conhecidos como Círculo de Bakhtin (ou, ainda, Círculo B.M.V, conforme Vauthier [2010]) tinha por objeto a linguagem (seja ela enquanto materialidade verbal, visual, sonora ou sincrética). Por exemplo, Bakhtin (2011) debruçou-se sobre a pintura, bem como chegou a desenvolver uma filosofia da música a partir de Schelling, que fora abandonado pensador russo, e a lecionar nessa disciplina no Conservatório em Vitebsk,. No período em que foi reitor da Universidade de Proletária de Vitebsk, função que também serviu como equivalente a prefeito da cidade, Medviédev participou da “Irmandade” do Teatro Itinerante, dirigido pelo ator e poeta P. P. Gaidebúrov, e tornou-se diretor de repertório e redator da revista Zapísski peredvijnógo teatra (Notas de um teatro itinerante). Além de linguista, Volóchinov (2019) também foi musicista e escreveu artigos sobre música, dentre eles, “O estilo do concerto”, de 1923, e “Problemas da Obra de Beethoven” em duas partes (1922) e (1923) – lembremos: seis anos antes de Bakhtin publicar o livro quase homônimo Problemas da Obra de Dostoiévski (1929). Os apontamentos feitos acima bastar-nos-iam para ilustrar o quanto o foco deste grupo de pensadores estava na questão da linguagem e não somente na língua/literatura. Contudo, ao percorremos as obras do Círculo, podemos acrescentar, ainda, conceitos advindos de outras áreas e que nos remetem ao visual e ao sonoro, como é o caso de polifonia, homofonia, voz (social), entonação, acento, arquitetônica, imagem de autor, imagem externa, dramatização. Por fim, um terceiro pilar que sustenta nossa posição está na composição do grupo com formações heterogêneas, a saber, físico, biólogos, filósofo, poeta, escultor e músico, os quais se reuniam em torno de um objeto em comum: linguagem. Conforme dissemos em outros trabalhos (LUCIANO, 2021; PAULA & LUCIANO, 2020) a partir de Emerson (2003) e Volóchinov (2017), o texto verbal teve uma predominância, se assim podermos dizer, nos estudos dos autores por três principais fatores: I) devido à impossibilidade em se abordar o fenômeno amplo da linguagem, com suas particularidades e especificidades; II) o signo verbal acompanha todos os campos da vida, o que o torna mais sensível para as percepções da realidade social e; III) a literatura era a própria vida real no duro regime soviético. Contudo, isso não impediu que fossem desenvolvidos simultaneamente estudos sobre música, pintura. A título de ilustração, neste texto, destacaremos brevemente alguns trabalhos de Ivan Sollertínski, membro do Círculo, musicólogo de prestígio na União Soviética, professor no Conservatório de Leningrado, Diretor Artístico da Filarmônica da mesma cidade e amigo íntimo de Dmitri Chostakóvich, a quem influenciou fortemente nas composições. De acordo com Fairclough (2001), ao compararmos os escritos de Sollertínski com um dos mais iminentes teóricos da música da União Soviética, Boris Asafiev, podemos observar um estilo de caráter semiótico do que formal propriamente dito, o que explica um maior interesse do Ocidente na obra deste último do que do primeiro. O musicólogo do Círculo havia um olhar para a música com um viés filosófico e literário, de modo que nunca escreveu sobre harmonia, forma do ponto de vista técnico – esta é uma característica de Asafiev. Ainda segundo a pesquisadora britânica, Sollertínski “preferiu discutir música de uma perspectiva sociofilosófica, valendo-se da experiência em teatro clássico europeu, filosofia e literatura para o contexto histórico”1 (p. 367, tradução nossa). Nesse sentido, óperas como Don Giovanni e A Flauta Mágica são vista a partir das noções de plurilinguismo e plurivocidade, as quais foram definidas pelo Círculo, sobretudo em relação à linguagem literária. Com isso, notamos a convergência na maneira de se pensar a linguagem, muito cara ao pensamento bakhtiniano. Embora os textos de Sollertínski estejam publicados na Rússia, poucos estão disponíveis nas línguas Ocidentais. Em russo, encontramos a publicação do livro sobre Gustav Mahler (1932), duas coletâneas organizadas por Mikhail Semenovich Druskin, I. Sollertinsky: Kriticheskie stat’iy [Critical Articles] (1963) e I. Sollertinsky: Istoricheskie etyudï [Historical Studies] (1958). Nesta última, estão os escritos mais expressivos do musicólogo russo, como The Problem of Symphonism (1929), Shakespeare and the World Music (1939) e Historical Types of Symphonic Dramaturgy (1941). Além disso, há também duas biografias sob a curadoria de sua nora Liudmila Mikheeva, Pamyati I. I. Sollertinskogo: Vospominaniya, materiali, issledovaniya [In Memory of I. I. Sollertinsky: Reminiscences, Materials, Articles] (1978) e I. I. Sollertinsky: Zhizn’ i naslediya [I. I. Sollertinsky: Life and Works] (1988). No Ocidente, o acesso aos trabalhos de Sollertínski é escasso. Destacamos, aqui, a obra de Eric Roseberry Style, Content, Thematic Process, and Ideology in the Symphonies, String Quartets, and Cello Concertos of Dmitri Shostakovich (1989), na qual se encontra a tradução para o inglês do texto “Historical Types of Symphonic Dramaturgy” e o sumário do livro sobre Mahler Musica. Do mesmo modo, em língua italiana, temos a coletânea de textos Musica e letteratura al tempo dell’Unione Sovietica, organizada por Samuel Manzoni. Todavia, a maneira mais frequente de nos depararmos com a obra do musicólogo russo é por meio de fragmentos presente em pesquisas em música, principalmente na área da (nova) musicologia e nos trabalhos relacionadas à obra de Chostákovich, pois “quase qualquer pessoa interessada na música de Shostakovich sabe alguma coisa sobre Ivan Sollertinsky”2 (FAIRCLOUGH, 2001, p. 367), dada a proximidade de ambos e pelo compositor relatar recorrentemente a amizade com musicólogo em seu Testimony (1979)3. Na Itália, ainda, contamos as pesquisas de Cassoti que buscou refletir a ressonância musical no Círculo na relação Bakhtin, Sollertínski e Yudina – trateremos dela no próximo Ato. Em texto traduzido para o português, a pesquisadora italiana aborda o texto “Historical types of symphonic dramaturgy”, citado acima, no qual Sollertínski estuda diversos tipos de dramaturgia sinfônica e define um tipo particular de sinfonismo chamado “sinfonismo shakeasperizante”, que encontrará plena realização em Beethoven. Essa categoria se trata de uma representação objetiva e sintética da realidade e dos processos conflituosos que nela ocorrem ou, em outros termos, de um sinfonismo dramático. Nas palavras de Cassotti (2010, p. 154), baseando-se nos estudos de Cohen, dramático, pois, uma vez que “o drama é processo, ação, em que há não somente uma, mas diversas consciências humanas que entram em embate umas com as outras” (…). Em suma, um sinfonismo do tipo shakeasperizante, de acordo, com Sollertínski, baseia-se “no princípio não monológico, mas dialógico”, de acordo com o princípio da “pluralidade de consciências”, da “pluralidade de ideias e vontades que opõe resistências”, na afirmação do princípio de “eu outrem” [io altrui]. Dessa forma, vemos que Sollertínski lança mão de conceitos como dialogismo, multiplicidade de vozes, carnavalização para analisar e descrever os fenômenos das obras não só de Mozart, mas de Beethoven e da música de maneira geral, compreendendo-a como um acontecimento social, uma linguagem por excelência. Cassoti cita também as análises das óperas de Mozart, Don Giovanni e A Flauta Mágica, a partir das concepções elaboradas pelo Círculo. Nesta leitura das peças, Sollertínski aponta uma relação entre o trágico e o cômico juntos, a qual se liga diretamente à obra Cultura Popular, de Mikhail Bakhtin. Inclusive, este último afirma, neste texto, que o próprio Shakeaspeare – presente nas obras de Mozart – fez de forma significativa a coexistência e o reflexo mútuo do sério e do cômico, associando-se à noção de carnavalização. Segundo Cassoti (2010) Na ópera lírica combina simultaneamente vários sistemas semióticos verbal, visual, gestual e musical. Nele coexistem mais canais de comunicação paralela, às vezes em harmonia e outras vezes em mútua interferência. A ópera, e em particular o “Singspiel”, com sua alternância particular de partes faladas e partes cantadas, pode ser definida como um gênero baseado no plurilinguismo, na plurivocidade, na pluridiscursividade, categorias definidas por Bakhtin em relação à linguagem literária (…). Em todo caso, é possível falar de plurilinguismo a propósito de A Flauta Mágica porque nela coexistem não somente uma pluralidade de expressões não só no plano estritamente estilístico mas também no ideológico (…). (p. 161, grifos nossos) Assim, por meio da discussão feita pela pesquisadora italiana, evidencia-se a proposta de Sollertínski, mencionada no início, voltada para uma abordagem sociofilósofica da música ou, se preferirmos, a música como discurso. Acrescentamos a isso, também a compreensão da filosofia do Círculo B.M.V orientada para a linguagem em sua manifestação ampla, de maneira que as categoriais conceituais formulada pelos intelectuais russos são produtivas não apenas aos fenômenos literários ou linguísticos, mas também para signos visuais ou sonoros, conforme fica latente na obras desses autores por seus apontamentos teóricos, bem como em práticas analíticas realizadas pelos membros. Com essa breve apresentação e reflexão, portanto, esperamos ampliar o entendimento acerca do pensamento bakhtiniano, em especial à concepção de linguagem tridimensional verbivocovisual, por meio da divulgação de trabalhos de outros membros que tanto quanto contribuíram para a construção do que podemos denominar de uma filosofia dialógica da linguagem. Referências BAKHTIN, Mikhail. Estética da Criação Verbal. Trad. de Paulo Bezerra. 6ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011. CASSOTTI, Rosa Stella. Ressonâncias musicais no Círculo de Bakhtin – Ivan I. Sollertinsky, intérprete de Mozart. In: PAULA, L. de; STAFUZZA, G. Círculo de Bakhtin – teoria inclassificável. Campinas: Mercado de Letras, 2010. (Série Bakhtin: inclassificável, v. 2). EMERSON, Caryl. Os 100 primeiros anos de Mikhail Bakhtin. Rio de Janeiro: DIFEL, 2003. FAIRCLOUGH, P. Mahler Reconstructed: Sollertinsky and the Soviet Symphony. The Musical Quarterly, Volume 85, Issue 2, Summer 2001, pp. 367–390. PAULA, Luciane de; LUCIANO, José Antonio Rodrigues. A tridimensionalidade verbivocovisual da linguagem bakhtiniana. Revista Linha D’Água, São Paulo (SP), v. 33, n. 3 (2020), p. 105-134. Disponível em: < https://www.revistas.usp.br/linhadagua/article/view/171296 >. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2236-4242.v33i3p105-134. Acesso em: 17 dez. 2020. LUCIANO, José Antonio Rodrigues. Filosofia da linguagem bakhtiniana: concepções verbivocovisuais. 2021. 278f. Dissertação (Mestrado em Linguística e Língua Portuguesa) — Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Faculdade de Ciências e Letras (Campus Araraquara), Araraquara, SP 2020. Disponível em: < http://hdl.handle.net/11449/204473 > MEDVIÉDEV, Iúri Pavlovitch; MEDVIÉDEVA, Dária Aleksándrovna. O Círculo de M. M. Bakhtin: sobre a fundamentação de um fenômeno. Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso, [S.l.], v. 9, p. 26-46, jun. 2014. ISSN 2176-4573. Disponível em: < https://revistas.pucsp.br/bakhtiniana/article/view/11535 >. Acesso em: 20 maio 2020. VAUTHIER, Bénédicte. Auctoridade e tornar-se autor: nas origens da obra do “Círculo B.M.V.” (BAKHTIN, MEDVEDEV, VOLOCHINOV). In: PAULA, L. de; STAFUZZA, G. (Orgs.). Círculo de Bakhtin – teoria inclassificável. Campinas: Mercado de Letras, 2010. p. 279-292 (Série Bakhtin: inclassificável, v. 1). VOLÓCHINOV, Valentin. A palavra na vida e a palavra na poesia. Trad. Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Editora 34, 2019. ____. Marxismo e Filosofia da Linguagem. Trad. Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Editora 34, 2017. [1] He preferred instead to discuss music in a sociophilosophical way, drawing on his expertise in European classical theater, philosophy, and literature for historical context. [2] Almost anyone interested in Shostakovich’s music knows something about Ivan Sollertinsky. [3] Há controvérsias quanto à biografia ser oficialmente de Chostákovich, mas não adentraremos a questão neste espaço delimitado. #circulobmv #GED #sollertinski
- A QUESTÃO MUSICAL NO CÍRCULO B.M.V: OS ESTUDOS DE IVAN SOLLERTÍNSKI
José Antônio Rodrigues Luciano Embora tenha tido grande recepção no campo dos estudos literários e, posteriormente, nos estudos culturais, a filosofia bakhtiniana não se ocupou apenas do signo verbal. O grupo de intelectuais russos conhecidos como Círculo de Bakhtin (ou, ainda, Círculo B.M.V, conforme Vauthier [2010]) tinha por objeto a linguagem (seja ela enquanto materialidade verbal, visual, sonora ou sincrética). Por exemplo, Bakhtin (2011) debruçou-se sobre a pintura, bem como chegou a desenvolver uma filosofia da música a partir de Schelling, que fora abandonado pensador russo, e a lecionar nessa disciplina no Conservatório em Vitebsk,. No período em que foi reitor da Universidade de Proletária de Vitebsk, função que também serviu como equivalente a prefeito da cidade, Medviédev participou da “Irmandade” do Teatro Itinerante, dirigido pelo ator e poeta P. P. Gaidebúrov, e tornou-se diretor de repertório e redator da revista Zapísski peredvijnógo teatra (Notas de um teatro itinerante). Além de linguista, Volóchinov (2019) também foi musicista e escreveu artigos sobre música, dentre eles, “O estilo do concerto”, de 1923, e “Problemas da Obra de Beethoven” em duas partes (1922) e (1923) – lembremos: seis anos antes de Bakhtin publicar o livro quase homônimo Problemas da Obra de Dostoiévski (1929). Os apontamentos feitos acima bastar-nos-iam para ilustrar o quanto o foco deste grupo de pensadores estava na questão da linguagem e não somente na língua/literatura. Contudo, ao percorremos as obras do Círculo, podemos acrescentar, ainda, conceitos advindos de outras áreas e que nos remetem ao visual e ao sonoro, como é o caso de polifonia, homofonia, voz (social), entonação, acento, arquitetônica, imagem de autor, imagem externa, dramatização. Por fim, um terceiro pilar que sustenta nossa posição está na composição do grupo com formações heterogêneas, a saber, físico, biólogos, filósofo, poeta, escultor e músico, os quais se reuniam em torno de um objeto em comum: linguagem. Conforme dissemos em outros trabalhos (LUCIANO, 2021; PAULA & LUCIANO, 2020) a partir de Emerson (2003) e Volóchinov (2017), o texto verbal teve uma predominância, se assim podermos dizer, nos estudos dos autores por três principais fatores: I) devido à impossibilidade em se abordar o fenômeno amplo da linguagem, com suas particularidades e especificidades; II) o signo verbal acompanha todos os campos da vida, o que o torna mais sensível para as percepções da realidade social e; III) a literatura era a própria vida real no duro regime soviético. Contudo, isso não impediu que fossem desenvolvidos simultaneamente estudos sobre música, pintura. A título de ilustração, neste texto, destacaremos brevemente alguns trabalhos de Ivan Sollertínski, membro do Círculo, musicólogo de prestígio na União Soviética, professor no Conservatório de Leningrado, Diretor Artístico da Filarmônica da mesma cidade e amigo íntimo de Dmitri Chostakóvich, a quem influenciou fortemente nas composições. De acordo com Fairclough (2001), ao compararmos os escritos de Sollertínski com um dos mais iminentes teóricos da música da União Soviética, Boris Asafiev, podemos observar um estilo de caráter semiótico do que formal propriamente dito, o que explica um maior interesse do Ocidente na obra deste último do que do primeiro. O musicólogo do Círculo havia um olhar para a música com um viés filosófico e literário, de modo que nunca escreveu sobre harmonia, forma do ponto de vista técnico – esta é uma característica de Asafiev. Ainda segundo a pesquisadora britânica, Sollertínski “preferiu discutir música de uma perspectiva sociofilosófica, valendo-se da experiência em teatro clássico europeu, filosofia e literatura para o contexto histórico”1 (p. 367, tradução nossa). Nesse sentido, óperas como Don Giovanni e A Flauta Mágica são vista a partir das noções de plurilinguismo e plurivocidade, as quais foram definidas pelo Círculo, sobretudo em relação à linguagem literária. Com isso, notamos a convergência na maneira de se pensar a linguagem, muito cara ao pensamento bakhtiniano. Embora os textos de Sollertínski estejam publicados na Rússia, poucos estão disponíveis nas línguas Ocidentais. Em russo, encontramos a publicação do livro sobre Gustav Mahler (1932), duas coletâneas organizadas por Mikhail Semenovich Druskin, I. Sollertinsky: Kriticheskie stat’iy [Critical Articles] (1963) e I. Sollertinsky: Istoricheskie etyudï [Historical Studies] (1958). Nesta última, estão os escritos mais expressivos do musicólogo russo, como The Problem of Symphonism (1929), Shakespeare and the World Music (1939) e Historical Types of Symphonic Dramaturgy (1941). Além disso, há também duas biografias sob a curadoria de sua nora Liudmila Mikheeva, Pamyati I. I. Sollertinskogo: Vospominaniya, materiali, issledovaniya [In Memory of I. I. Sollertinsky: Reminiscences, Materials, Articles] (1978) e I. I. Sollertinsky: Zhizn’ i naslediya [I. I. Sollertinsky: Life and Works] (1988). No Ocidente, o acesso aos trabalhos de Sollertínski é escasso. Destacamos, aqui, a obra de Eric Roseberry Style, Content, Thematic Process, and Ideology in the Symphonies, String Quartets, and Cello Concertos of Dmitri Shostakovich (1989), na qual se encontra a tradução para o inglês do texto “Historical Types of Symphonic Dramaturgy” e o sumário do livro sobre Mahler Musica. Do mesmo modo, em língua italiana, temos a coletânea de textos Musica e letteratura al tempo dell’Unione Sovietica, organizada por Samuel Manzoni. Todavia, a maneira mais frequente de nos depararmos com a obra do musicólogo russo é por meio de fragmentos presente em pesquisas em música, principalmente na área da (nova) musicologia e nos trabalhos relacionadas à obra de Chostákovich, pois “quase qualquer pessoa interessada na música de Shostakovich sabe alguma coisa sobre Ivan Sollertinsky”2 (FAIRCLOUGH, 2001, p. 367), dada a proximidade de ambos e pelo compositor relatar recorrentemente a amizade com musicólogo em seu Testimony (1979)3. Na Itália, ainda, contamos as pesquisas de Cassoti que buscou refletir a ressonância musical no Círculo na relação Bakhtin, Sollertínski e Yudina – trateremos dela no próximo Ato. Em texto traduzido para o português, a pesquisadora italiana aborda o texto “Historical types of symphonic dramaturgy”, citado acima, no qual Sollertínski estuda diversos tipos de dramaturgia sinfônica e define um tipo particular de sinfonismo chamado “sinfonismo shakeasperizante”, que encontrará plena realização em Beethoven. Essa categoria se trata de uma representação objetiva e sintética da realidade e dos processos conflituosos que nela ocorrem ou, em outros termos, de um sinfonismo dramático. Nas palavras de Cassotti (2010, p. 154), baseando-se nos estudos de Cohen, dramático, pois, uma vez que “o drama é processo, ação, em que há não somente uma, mas diversas consciências humanas que entram em embate umas com as outras” (…). Em suma, um sinfonismo do tipo shakeasperizante, de acordo, com Sollertínski, baseia-se “no princípio não monológico, mas dialógico”, de acordo com o princípio da “pluralidade de consciências”, da “pluralidade de ideias e vontades que opõe resistências”, na afirmação do princípio de “eu outrem” [io altrui]. Dessa forma, vemos que Sollertínski lança mão de conceitos como dialogismo, multiplicidade de vozes, carnavalização para analisar e descrever os fenômenos das obras não só de Mozart, mas de Beethoven e da música de maneira geral, compreendendo-a como um acontecimento social, uma linguagem por excelência. Cassoti cita também as análises das óperas de Mozart, Don Giovanni e A Flauta Mágica, a partir das concepções elaboradas pelo Círculo. Nesta leitura das peças, Sollertínski aponta uma relação entre o trágico e o cômico juntos, a qual se liga diretamente à obra Cultura Popular, de Mikhail Bakhtin. Inclusive, este último afirma, neste texto, que o próprio Shakeaspeare – presente nas obras de Mozart – fez de forma significativa a coexistência e o reflexo mútuo do sério e do cômico, associando-se à noção de carnavalização. Segundo Cassoti (2010) Na ópera lírica combina simultaneamente vários sistemas semióticos verbal, visual, gestual e musical. Nele coexistem mais canais de comunicação paralela, às vezes em harmonia e outras vezes em mútua interferência. A ópera, e em particular o “Singspiel”, com sua alternância particular de partes faladas e partes cantadas, pode ser definida como um gênero baseado no plurilinguismo, na plurivocidade, na pluridiscursividade, categorias definidas por Bakhtin em relação à linguagem literária (…). Em todo caso, é possível falar de plurilinguismo a propósito de A Flauta Mágica porque nela coexistem não somente uma pluralidade de expressões não só no plano estritamente estilístico mas também no ideológico (…). (p. 161, grifos nossos) Assim, por meio da discussão feita pela pesquisadora italiana, evidencia-se a proposta de Sollertínski, mencionada no início, voltada para uma abordagem sociofilósofica da música ou, se preferirmos, a música como discurso. Acrescentamos a isso, também a compreensão da filosofia do Círculo B.M.V orientada para a linguagem em sua manifestação ampla, de maneira que as categoriais conceituais formulada pelos intelectuais russos são produtivas não apenas aos fenômenos literários ou linguísticos, mas também para signos visuais ou sonoros, conforme fica latente na obras desses autores por seus apontamentos teóricos, bem como em práticas analíticas realizadas pelos membros. Com essa breve apresentação e reflexão, portanto, esperamos ampliar o entendimento acerca do pensamento bakhtiniano, em especial à concepção de linguagem tridimensional verbivocovisual, por meio da divulgação de trabalhos de outros membros que tanto quanto contribuíram para a construção do que podemos denominar de uma filosofia dialógica da linguagem. Referências BAKHTIN, Mikhail. Estética da Criação Verbal. Trad. de Paulo Bezerra. 6ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011. CASSOTTI, Rosa Stella. Ressonâncias musicais no Círculo de Bakhtin – Ivan I. Sollertinsky, intérprete de Mozart. In: PAULA, L. de; STAFUZZA, G. Círculo de Bakhtin – teoria inclassificável. Campinas: Mercado de Letras, 2010. (Série Bakhtin: inclassificável, v. 2). EMERSON, Caryl. Os 100 primeiros anos de Mikhail Bakhtin. Rio de Janeiro: DIFEL, 2003. FAIRCLOUGH, P. Mahler Reconstructed: Sollertinsky and the Soviet Symphony. The Musical Quarterly, Volume 85, Issue 2, Summer 2001, pp. 367–390. PAULA, Luciane de; LUCIANO, José Antonio Rodrigues. A tridimensionalidade verbivocovisual da linguagem bakhtiniana. Revista Linha D’Água, São Paulo (SP), v. 33, n. 3 (2020), p. 105-134. Disponível em: < https://www.revistas.usp.br/linhadagua/article/view/171296 >. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2236-4242.v33i3p105-134. Acesso em: 17 dez. 2020. LUCIANO, José Antonio Rodrigues. Filosofia da linguagem bakhtiniana: concepções verbivocovisuais. 2021. 278f. Dissertação (Mestrado em Linguística e Língua Portuguesa) — Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Faculdade de Ciências e Letras (Campus Araraquara), Araraquara, SP 2020. Disponível em: < http://hdl.handle.net/11449/204473 > MEDVIÉDEV, Iúri Pavlovitch; MEDVIÉDEVA, Dária Aleksándrovna. O Círculo de M. M. Bakhtin: sobre a fundamentação de um fenômeno. Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso, [S.l.], v. 9, p. 26-46, jun. 2014. ISSN 2176-4573. Disponível em: < https://revistas.pucsp.br/bakhtiniana/article/view/11535 >. Acesso em: 20 maio 2020. VAUTHIER, Bénédicte. Auctoridade e tornar-se autor: nas origens da obra do “Círculo B.M.V.” (BAKHTIN, MEDVEDEV, VOLOCHINOV). In: PAULA, L. de; STAFUZZA, G. (Orgs.). Círculo de Bakhtin – teoria inclassificável. Campinas: Mercado de Letras, 2010. p. 279-292 (Série Bakhtin: inclassificável, v. 1). VOLÓCHINOV, Valentin. A palavra na vida e a palavra na poesia. Trad. Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Editora 34, 2019. ____. Marxismo e Filosofia da Linguagem. Trad. Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Editora 34, 2017. [1] He preferred instead to discuss music in a sociophilosophical way, drawing on his expertise in European classical theater, philosophy, and literature for historical context. [2] Almost anyone interested in Shostakovich’s music knows something about Ivan Sollertinsky. [3] Há controvérsias quanto à biografia ser oficialmente de Chostákovich, mas não adentraremos a questão neste espaço delimitado. #circulobmv #GED #sollertinski


