top of page

Resultados de busca

Buscar neste site

198 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Sugestão de leitura: “Questões bakhtinianas para uma heterociência humana”

    Sugerimos a leitura do texto “Questões bakhtinianas para uma heterociência humana” (disponível neste link), que apresenta uma entrevista com o professor Valdemir Miotello, da Universidade federal de São Carlos (UFSCar). Fica aqui uma deixa ao diálogo, no melhor sentido pensado por Bakhtin. Vamos ao embate? #diálogo #entrevista #Miotello #sugestãodeleitura

  • Sugestão de leitura: “Questões bakhtinianas para uma heterociência humana”

    Sugerimos a leitura do texto “Questões bakhtinianas para uma heterociência humana” (disponível neste link), que apresenta uma entrevista com o professor Valdemir Miotello, da Universidade federal de São Carlos (UFSCar). Fica aqui uma deixa ao diálogo, no melhor sentido pensado por Bakhtin. Vamos ao embate? #diálogo #entrevista #Miotello #sugestãodeleitura

  • Jorro de voz pelo blog e não quero estar só

    Luciane de Paula “Solto a voz nas estradas, já não quero parar Meu caminho é de ferro, como posso sonhar Sonho feito de brisa, vento ver (g)terminar (…) Já não sonho, hoje faço, com meu braço, o meu viver” (“Travessia” de e na voz solta de Milton Nascimento) Galin Tihanov tem um livro sobre Bakhtin e Lukács, chamado As lições que Bakhtin deixou para nós, onde diz que a grande lição que Bakhtin nos deixou foi a reflexão sobre a concepção de diálogo. Diálogo do ponto de vista filosófico. Não um filosófico abstrato, mas um filosófico concreto. Afinal, diálogo é o ato (portanto, o /fazer/) concreto ético, responsivo e responsável acerca de dado conteúdo. Como sabemos que não é possível ato qualquer sem linguagem, trata-se o diálogo de um fazer enunciativo, qualquer que seja ele (verbal, não-verbal ou sincrético). Linguagem é o que distingue o homem, fisiologicamente, de outros animais i-racionais (assim mesmo: não-racionais). Mas, como também escreveu Morin em textos como “Ciência com consciência” e “Amor Poesia Sabedoria”, o homem não pode ser chamado de “homo sapiens” porque essa palavra “sapiens” significa, no mínimo, razão; e, no máximo sabedoria. E o homem também é composto por sua parcela “demens”. Isso mesmo, sua porção “demente”. Demência, em dicotomia à racionalidade, é o élan passional que nos move. Paixão, semioticamente, no sentido de alteração de estado de ânimo, como já explanou Aristóteles em sua “Arte Retórica” – o pathos, para alguns, doentio. Mas, aqui, não me refiro à passionalidade como patológica ou demente e sim à passionalidade patêmica, do sujeito que re-age, às vezes, racionalmente (de maneira retórica, seja mais convincente ou mais persuasiva); às vezes, de maneira demente (tomado por algum tipo de paixão – raiva, inconformismo, inveja, indignação, passividade, medo, amor etc). Seja como for, há ato. Ato de linguagem. Ato-ação. E como essa atuação se realiza? Por meio de enunciados concretos, de forma dialógica. Diálogo, como nos explica Bakhtin, não significa concordância e nada tem de passividade. Diálogo é embate. Por isso, ele diz que o discurso é “a arena onde se digladiam as vozes sociais”. Digladiar de ideias e vozes heterogêneas, sem hierarquia. Polifonia. Dialogar significa falar o que se pensa e escutar o que o outro tem a dizer. Isso é resposta. E todo discurso é prenhe de resposta, ele já se compõe como resposta – seja a algo passado ou futuro, pois prevê reações. Escutar é tão ou mais importante que falar, pois é também um ato. Refiro-me à “escuta ativa” sobre a qual reflete Ponzio. Dialogar não é simples porque vivemos num mundo hierárquico, cheio de jogos de poder e interesses, tanto pessoais quanto coletivos. Mas, dialogar implica dizer e escutar o outro. Escutar com respeito ético, sem desnivelamento social. Escutar discordando do outro, mas escutar. Escutar e não ouvir. Barthes nos diz que ouvir, ouvimos indistintamente qualquer ruído. Escutar requer atenção. Ouvir significa deixar o outro falar enquanto penso em qualquer outra coisa. Não resolve. Menciono a importância de escutar. Isto é, deixar o outro falar o que pensa mesmo discordando dele, mas aberto a um outro ponto de vista. Isso não significa escutar pronto pra guerra, mas sim aberto à reflexão. Mudar de postura e deslocar-se, num exercício exotópico, ao se colocar no lugar do outro, sem deixar de ser “eu” mesmo. Isso não significa ser “vaquinha de presépio”, mas se dar a oportunidade de captar algo que passou, enxergar de outro ponto de vista. E, se achar, após refletir, que o ponto de vista do outro está equivocado, continuar com o seu. Fazer-se escutar. Hora de fala. Dialogar não como “emissor” de uma verdade absoluta inexistente ou como um “receptor” passivo e sem voz, tal qual prevê Jakobson. Não. Diálogo como concebe Bakhtin e o Círculo, como embate. Isso pede, no mínimo, tempo e, no máximo, matur-idade. Dialogar não é impor ao outro a sua visão, mas colocar-se da mesma maneira que pede que se ouça o ponto de vista do outro. Ninguém fala/faz o que quer sem ouvir ou consequências. Seja o ato que for. Não se dialoga quando se impõe. Seja o lado que for. Não se dialoga quando se age nas sombras, às escondidas, por conchavos, abuso de poder e sem sequer chamar o outro para lhe dizer, face a face, o que se pensa; nem se está disposto a escutar o que o outro pensa. Podemos dizer e escutar tudo, desde que saibamos como conduzir, como nos conduzir. Ser “racional” é saber que num determinado espaço-tempo é possível dialogar sem ofensas e todos os pontos de vista serem postos num mesmo nível; sair daquele espaço-tempo e não tornar os pontos de vista pessoalistas, pois se assim ocorrer, o ato não é ético e a toda ação, uma re-ação aparece como consequência de um ato inicial. Diálogo como embate se refere a diálogo de ideias e posturas. Com deveres e direitos. Com responsabilidade e responsividade. Maduramente, feito gente grande, melhor, feito gente pequena. As crianças dialogam muito melhor que nós. Aprendamos com elas e com os bichos, barrosianamente e sem vaidades. Sem álibi de medos e choros, fragilidades inexistentes quando pensamos em atos (delinquentes) institucionalizados e protegidos por leis (que são também instrumentos de poder, já dizia Foucault), a fim de se fortalecer. Repito: imposição, de qualquer tipo, é violência, perda de razão, demência – no sentido doentio do vocábulo. Por que não sermos “demens” para criar/construir algo melhor, mais interessante? Ceder em determinados aspectos, bater o pé em outros. Sim porque é a demência, segundo Morin, que constitui a poesia da vida e nos tira de sua “prosa ordinária”. Mas, ela também pode ser barbárie. Basta saber o que queremos. De novo, como conduzir. A forma e o direcionamento do conteúdo é fatal. É fácil nomear o outro, instiga-lo, apontar o dedo indicador e, depois, correr para trás da asa e da barra da saia de sujeitos mais poderosos chorando como vítima. O que me assusta é o “adulto” dessa relação tomar partido de uma das crianças sendo mais criança que elas. Sem ouvir os dois pontos de vista. E, injustamente, colocar um dos dois de castigo. Como já mencionei: as crianças sabem dialogar muito melhor que nós. Elas não mentem, não fingem, não escondem. Elas jogam aberto e limpo. Polêmica e pacificamente. Jamais passivamente, a não ser que assim sejam adestradas (porque abuso de poder de adultos por meio de instrumentos amedrontadores – bater, ameaçar, colocar de castigo etc – não é educação). Quando nos referimos à educação, vemos institucionalizada, nas escolas, de todos os níveis, uma lógica que atravessa os mais variados discursos e as mais variadas relações, em diversas esferas. É essa a lógica que queremos re-produzir? É a ela que respondemos. E mesmo quando pensamos que não queremos nos meter nisso, essa já é uma postura. Indignação, seja qual for, de qualquer tipo, sem noção do que se faz, sem horizonte e sem perspectiva, sem organização e sem diálogo “morre na praia”. Temos de considerar que, mesmo dentro de um determinado grupo, há posturas distintas, visões heterogêneas acerca do mesmo objeto, que pode ser visto como um prisma. Lidar com isso não é simples. Mas necessário. Porque a vida é assim. Compõe como arena, logo, pede, melhor, exige luta interminável, “full time”. Mas, as lutas podem ocorrer de maneira festiva. Não precisamos fazer de lutas diárias “cavalos de batalha”. Aliás, numa das batalhas mais conhecidas da história, quando apareceu um cavalo houve traição não-ética (que é diferente de anti-ética). Só para refletir um pouco, instigar respostas e soltar de vozes e sonhos, com braços não-armados (e também armados, se preciso for), feito brisa a germinar com o vento, venho espalhar diálogo em “Travessia”, embalado por Milton Nascimento e tantas outras vozes, a partir dessa resposta a um texto que não vem ao caso – são tantas as situações cotidianas! Reflexão alavancada pela voz do outro que me constitui e entrou em mim como escuta, suscitando-me resposta. Minha fala. Minha voz. Como o convite sugere, soltei a minha voz. Espero que, de alguma forma, ela ecoe. Não. Não gosto de ecos. Eles sugerem repetições e jamais a enunciação se repete. Ela é única. Irrepetível. Então, espero que ela re-verb-ere, afinal, como diz a letra de uma outra canção entoada por Milton Nascimento: “Há canções e há momentos Eu não sei como explicar Em que a voz é um instrumento Que eu não posso controlar Ela vai ao infinito Ela amarra (a) todos nós” (“Canções e Momentos”) Cadê sua voz? #ética #diálogo #enunciado #responsabilidade

  • Jorro de voz pelo blog e não quero estar só

    Luciane de Paula “Solto a voz nas estradas, já não quero parar Meu caminho é de ferro, como posso sonhar Sonho feito de brisa, vento ver (g)terminar (…) Já não sonho, hoje faço, com meu braço, o meu viver” (“Travessia” de e na voz solta de Milton Nascimento) Galin Tihanov tem um livro sobre Bakhtin e Lukács, chamado As lições que Bakhtin deixou para nós, onde diz que a grande lição que Bakhtin nos deixou foi a reflexão sobre a concepção de diálogo. Diálogo do ponto de vista filosófico. Não um filosófico abstrato, mas um filosófico concreto. Afinal, diálogo é o ato (portanto, o /fazer/) concreto ético, responsivo e responsável acerca de dado conteúdo. Como sabemos que não é possível ato qualquer sem linguagem, trata-se o diálogo de um fazer enunciativo, qualquer que seja ele (verbal, não-verbal ou sincrético). Linguagem é o que distingue o homem, fisiologicamente, de outros animais i-racionais (assim mesmo: não-racionais). Mas, como também escreveu Morin em textos como “Ciência com consciência” e “Amor Poesia Sabedoria”, o homem não pode ser chamado de “homo sapiens” porque essa palavra “sapiens” significa, no mínimo, razão; e, no máximo sabedoria. E o homem também é composto por sua parcela “demens”. Isso mesmo, sua porção “demente”. Demência, em dicotomia à racionalidade, é o élan passional que nos move. Paixão, semioticamente, no sentido de alteração de estado de ânimo, como já explanou Aristóteles em sua “Arte Retórica” – o pathos, para alguns, doentio. Mas, aqui, não me refiro à passionalidade como patológica ou demente e sim à passionalidade patêmica, do sujeito que re-age, às vezes, racionalmente (de maneira retórica, seja mais convincente ou mais persuasiva); às vezes, de maneira demente (tomado por algum tipo de paixão – raiva, inconformismo, inveja, indignação, passividade, medo, amor etc). Seja como for, há ato. Ato de linguagem. Ato-ação. E como essa atuação se realiza? Por meio de enunciados concretos, de forma dialógica. Diálogo, como nos explica Bakhtin, não significa concordância e nada tem de passividade. Diálogo é embate. Por isso, ele diz que o discurso é “a arena onde se digladiam as vozes sociais”. Digladiar de ideias e vozes heterogêneas, sem hierarquia. Polifonia. Dialogar significa falar o que se pensa e escutar o que o outro tem a dizer. Isso é resposta. E todo discurso é prenhe de resposta, ele já se compõe como resposta – seja a algo passado ou futuro, pois prevê reações. Escutar é tão ou mais importante que falar, pois é também um ato. Refiro-me à “escuta ativa” sobre a qual reflete Ponzio. Dialogar não é simples porque vivemos num mundo hierárquico, cheio de jogos de poder e interesses, tanto pessoais quanto coletivos. Mas, dialogar implica dizer e escutar o outro. Escutar com respeito ético, sem desnivelamento social. Escutar discordando do outro, mas escutar. Escutar e não ouvir. Barthes nos diz que ouvir, ouvimos indistintamente qualquer ruído. Escutar requer atenção. Ouvir significa deixar o outro falar enquanto penso em qualquer outra coisa. Não resolve. Menciono a importância de escutar. Isto é, deixar o outro falar o que pensa mesmo discordando dele, mas aberto a um outro ponto de vista. Isso não significa escutar pronto pra guerra, mas sim aberto à reflexão. Mudar de postura e deslocar-se, num exercício exotópico, ao se colocar no lugar do outro, sem deixar de ser “eu” mesmo. Isso não significa ser “vaquinha de presépio”, mas se dar a oportunidade de captar algo que passou, enxergar de outro ponto de vista. E, se achar, após refletir, que o ponto de vista do outro está equivocado, continuar com o seu. Fazer-se escutar. Hora de fala. Dialogar não como “emissor” de uma verdade absoluta inexistente ou como um “receptor” passivo e sem voz, tal qual prevê Jakobson. Não. Diálogo como concebe Bakhtin e o Círculo, como embate. Isso pede, no mínimo, tempo e, no máximo, matur-idade. Dialogar não é impor ao outro a sua visão, mas colocar-se da mesma maneira que pede que se ouça o ponto de vista do outro. Ninguém fala/faz o que quer sem ouvir ou consequências. Seja o ato que for. Não se dialoga quando se impõe. Seja o lado que for. Não se dialoga quando se age nas sombras, às escondidas, por conchavos, abuso de poder e sem sequer chamar o outro para lhe dizer, face a face, o que se pensa; nem se está disposto a escutar o que o outro pensa. Podemos dizer e escutar tudo, desde que saibamos como conduzir, como nos conduzir. Ser “racional” é saber que num determinado espaço-tempo é possível dialogar sem ofensas e todos os pontos de vista serem postos num mesmo nível; sair daquele espaço-tempo e não tornar os pontos de vista pessoalistas, pois se assim ocorrer, o ato não é ético e a toda ação, uma re-ação aparece como consequência de um ato inicial. Diálogo como embate se refere a diálogo de ideias e posturas. Com deveres e direitos. Com responsabilidade e responsividade. Maduramente, feito gente grande, melhor, feito gente pequena. As crianças dialogam muito melhor que nós. Aprendamos com elas e com os bichos, barrosianamente e sem vaidades. Sem álibi de medos e choros, fragilidades inexistentes quando pensamos em atos (delinquentes) institucionalizados e protegidos por leis (que são também instrumentos de poder, já dizia Foucault), a fim de se fortalecer. Repito: imposição, de qualquer tipo, é violência, perda de razão, demência – no sentido doentio do vocábulo. Por que não sermos “demens” para criar/construir algo melhor, mais interessante? Ceder em determinados aspectos, bater o pé em outros. Sim porque é a demência, segundo Morin, que constitui a poesia da vida e nos tira de sua “prosa ordinária”. Mas, ela também pode ser barbárie. Basta saber o que queremos. De novo, como conduzir. A forma e o direcionamento do conteúdo é fatal. É fácil nomear o outro, instiga-lo, apontar o dedo indicador e, depois, correr para trás da asa e da barra da saia de sujeitos mais poderosos chorando como vítima. O que me assusta é o “adulto” dessa relação tomar partido de uma das crianças sendo mais criança que elas. Sem ouvir os dois pontos de vista. E, injustamente, colocar um dos dois de castigo. Como já mencionei: as crianças sabem dialogar muito melhor que nós. Elas não mentem, não fingem, não escondem. Elas jogam aberto e limpo. Polêmica e pacificamente. Jamais passivamente, a não ser que assim sejam adestradas (porque abuso de poder de adultos por meio de instrumentos amedrontadores – bater, ameaçar, colocar de castigo etc – não é educação). Quando nos referimos à educação, vemos institucionalizada, nas escolas, de todos os níveis, uma lógica que atravessa os mais variados discursos e as mais variadas relações, em diversas esferas. É essa a lógica que queremos re-produzir? É a ela que respondemos. E mesmo quando pensamos que não queremos nos meter nisso, essa já é uma postura. Indignação, seja qual for, de qualquer tipo, sem noção do que se faz, sem horizonte e sem perspectiva, sem organização e sem diálogo “morre na praia”. Temos de considerar que, mesmo dentro de um determinado grupo, há posturas distintas, visões heterogêneas acerca do mesmo objeto, que pode ser visto como um prisma. Lidar com isso não é simples. Mas necessário. Porque a vida é assim. Compõe como arena, logo, pede, melhor, exige luta interminável, “full time”. Mas, as lutas podem ocorrer de maneira festiva. Não precisamos fazer de lutas diárias “cavalos de batalha”. Aliás, numa das batalhas mais conhecidas da história, quando apareceu um cavalo houve traição não-ética (que é diferente de anti-ética). Só para refletir um pouco, instigar respostas e soltar de vozes e sonhos, com braços não-armados (e também armados, se preciso for), feito brisa a germinar com o vento, venho espalhar diálogo em “Travessia”, embalado por Milton Nascimento e tantas outras vozes, a partir dessa resposta a um texto que não vem ao caso – são tantas as situações cotidianas! Reflexão alavancada pela voz do outro que me constitui e entrou em mim como escuta, suscitando-me resposta. Minha fala. Minha voz. Como o convite sugere, soltei a minha voz. Espero que, de alguma forma, ela ecoe. Não. Não gosto de ecos. Eles sugerem repetições e jamais a enunciação se repete. Ela é única. Irrepetível. Então, espero que ela re-verb-ere, afinal, como diz a letra de uma outra canção entoada por Milton Nascimento: “Há canções e há momentos Eu não sei como explicar Em que a voz é um instrumento Que eu não posso controlar Ela vai ao infinito Ela amarra (a) todos nós” (“Canções e Momentos”) Cadê sua voz? #ética #diálogo #enunciado #responsabilidade

  • Um convite à carnavalização

    Por Luciane de Paula “Vamos para avenida, desfilar a vida, carnavalizar” (Tribalistas. “Carnavália”) Este convite tem em mente a carnavalização como ato, tal qual reflete Bakhtin, em sua obra “Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais” (a minha versão é de 1987). Afirma o filósofo russo que, naquele momento histórico (Idade Média mais especificamente), as praças, ruas e demais espaços públicos, com suas festas populares (o carnaval, os espetáculos ao ar livre e as feiras), eram usados e tinham uma função de abertura e de desestabilização do poder oficial vigente (os sistemas ideológicos estruturados) porque nivelavam as pessoas e, com isso, apagavam as distinções hierárquicas, suspendiam certas normas estatais e religiosas, e promoviam a experiência de liberdade e de igualdade entre os sujeitos. Hoje não é assim? Não deveria ser? Talvez, seja o caso de tomarmos mais vezes com nossas vozes em atos esse espaço e restaurar sua força. Continuamos utilizando-os dessa maneira e com esse fim em alguns momentos: quando tomamos ruas e avenidas, no Brasil, em especial, muitas vezes, em grandes festas (a comemoração do futebol, as festas populares – não apenas o carnaval, mas também as festas religiosas, as regionais, as folclóricas, o final de uma novela nos bares, o réveillon, as viradas culturais, as danças de rua, o grafite, as pichações transgressoras etc), mas também em grandes manifestações “sérias” (como as passeatas, os pedágios, os piquetes, entre outras), o espaço público e coletivo continua com ou reivindica a sua função “carnavalizadora”. Falta resgatar que tais atos são políticos, responsáveis e responsivos. Esse locus é também topus da exclusão e da marginalidade (mendicância, prostituição, tráfico de drogas ilícitas, bandidagem, “vadiagem”, “malandragem”). Lugar da in-visibilidade. De todos e ninguém. “Terra de Marlboro”, como dizem. As festividades expressivas, como o carnaval (o mais resistente ritual pagão incorporado pelo calendário e “aceito” – sim, entre aspas – pela Igreja contra a sua vontade, ainda que de outra maneira, adaptado e punitivo – 4 dias de liberdade total, penitenciados com 10 vezes mais severidade pela prática do “pecado” da carne – trata-se dos 40 dias que se seguem. Sim, a quaresma, em que não se deve “comer carne”, teoricamente de nenhuma espécie, em nome da ressurreição de Cristo, que morreu. Morte do alto no ato baixo carnavalizado – extremamente interessante…via banquete, literal e figurado), naquele momento, em que ainda não era festa comercial em prol da lucratividade sistêmica (como hoje é institucionalizado), produzia a possibilidade de circulação de determinados discursos e formas de comunicação que, fora desse contexto, eram proibidas e censuradas. Assim, a linguagem carnavalesca, “autorizada” sob determinadas circunstâncias, era um ato político, pois estremecia, desestabilizava, parodiava, ironizava as ideologias oficiais com suas inversões do “alto” ao “baixo estrato corpóreo” (vísceras, genitália, umbigo…“Nádegas a Declarar”). A linguagem carnavalesca, segundo Bakhtin, caracterizava-se “pela lógica original das coisas ‘ao avesso’, ‘ao contrário’, pelas permutações constantes do alto e do baixo (‘a roda’), da face e do traseiro, e pelas diversas formas de paródias, travestis, degradações, profanações, coroamentos e destronamentos bufões” (1987, p. 10). Nesse sentido, a linguagem do carnaval instaura a possibilidade de ressignificação e re-surgimento de formas de vida com suas respectivas visões de mundo. Este convite à carnavalização do mundo, feito aqui por meio da citação de um verso da canção “Carnavália”, dos Tribalistas, de certa forma demonstra o intuito “Circular” do GED quanto às práticas cotidianas de se pensar e fazer pesquisa na e fora da academia. O conhecimento deve se trans-formar em sabedoria. E, para isso, não pode ficar confinado nos intramuros universitários – que sequer deveriam existir, uma vez que o vocábulo “Universidade” vem do latim (“universia”), que significa “comunidade”, “universo”, “universal”, “comum”. Precisa, portanto, pular tais muros, romper barreiras, derrubar paredes e tomar as ruas, a rede, o universo (para ser fiel ao léxico uni-versi-tário), constituído pela linguagem, em ato concreto. Vamos, então, carnavalizar com “Carnavália”, “Navalha na carne”. O humor de toda espécie (o deboche, a ironia, fina e ácida, o pastelão, a “torta na cara”) dá uma banana para a hipocrisia e segue, sem abalo às manobras e intrigas porque ri diante do inimigo, “ri na cara do perigo” e isso, sim, causa abalos sísmicos e altera profunda-mente o sistema. Por menores que pareçam, à primeira vista (e jamais assumidos), tais atos, aparentemente inconsequentes e “sem causa”, fazem história porque responsivos, dialógicos. A rebeldia não tem de ter causa aparente. Ela existe e caminha contra a hegemonia confortável e cômoda, como “Ode ao burguês”. Deixemos de homenagear e passemos a carnavalizar a vida em atu-ação filosófico-concreta. Carnavalizar: uma prática de resistência ao poder hierárquico e às ideologias oficiais de forma coletiva, ambivalente e bivocal, por meio do riso (carnavalesco/carnavalizado). Nas palavras de Bakhtin: A praça pública no fim da Idade Média e no Renascimento formava um mundo único e coeso onde todas as “tomadas de palavra” (desde as interpelações em altos brados até os espetáculos organizados) possuíam alguma coisa em comum, pois estavam impregnados do mesmo ambiente de liberdade, franqueza e familiaridade (1987, p. 132). Não seria a rede, famosa “world, wide, web” (o mundo navegando numa onda amarrada numa teia infinita), esse espaço público coeso de outrora ao qual se refere Bakhtin, junto com os locais físicos ainda existentes, mas em grande parte do tempo, redimensionados? Por que será que a “conexão” atrai tanto o homem? Por ser ele sujeito refletido e refratado pela e na linguagem, dialógico? Melhor “Circular” com sabor e pensar com escuta ativa esse saber de “homo-sapiens-demens” (Morin). Des-fiar a vida com as Moiras da linguagem. Carnavalizar. Vamos? 😉 #carnavalização #circular #conexão #linguagem

  • Um convite à carnavalização

    Por Luciane de Paula “Vamos para avenida, desfilar a vida, carnavalizar” (Tribalistas. “Carnavália”) Este convite tem em mente a carnavalização como ato, tal qual reflete Bakhtin, em sua obra “Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais” (a minha versão é de 1987). Afirma o filósofo russo que, naquele momento histórico (Idade Média mais especificamente), as praças, ruas e demais espaços públicos, com suas festas populares (o carnaval, os espetáculos ao ar livre e as feiras), eram usados e tinham uma função de abertura e de desestabilização do poder oficial vigente (os sistemas ideológicos estruturados) porque nivelavam as pessoas e, com isso, apagavam as distinções hierárquicas, suspendiam certas normas estatais e religiosas, e promoviam a experiência de liberdade e de igualdade entre os sujeitos. Hoje não é assim? Não deveria ser? Talvez, seja o caso de tomarmos mais vezes com nossas vozes em atos esse espaço e restaurar sua força. Continuamos utilizando-os dessa maneira e com esse fim em alguns momentos: quando tomamos ruas e avenidas, no Brasil, em especial, muitas vezes, em grandes festas (a comemoração do futebol, as festas populares – não apenas o carnaval, mas também as festas religiosas, as regionais, as folclóricas, o final de uma novela nos bares, o réveillon, as viradas culturais, as danças de rua, o grafite, as pichações transgressoras etc), mas também em grandes manifestações “sérias” (como as passeatas, os pedágios, os piquetes, entre outras), o espaço público e coletivo continua com ou reivindica a sua função “carnavalizadora”. Falta resgatar que tais atos são políticos, responsáveis e responsivos. Esse locus é também topus da exclusão e da marginalidade (mendicância, prostituição, tráfico de drogas ilícitas, bandidagem, “vadiagem”, “malandragem”). Lugar da in-visibilidade. De todos e ninguém. “Terra de Marlboro”, como dizem. As festividades expressivas, como o carnaval (o mais resistente ritual pagão incorporado pelo calendário e “aceito” – sim, entre aspas – pela Igreja contra a sua vontade, ainda que de outra maneira, adaptado e punitivo – 4 dias de liberdade total, penitenciados com 10 vezes mais severidade pela prática do “pecado” da carne – trata-se dos 40 dias que se seguem. Sim, a quaresma, em que não se deve “comer carne”, teoricamente de nenhuma espécie, em nome da ressurreição de Cristo, que morreu. Morte do alto no ato baixo carnavalizado – extremamente interessante…via banquete, literal e figurado), naquele momento, em que ainda não era festa comercial em prol da lucratividade sistêmica (como hoje é institucionalizado), produzia a possibilidade de circulação de determinados discursos e formas de comunicação que, fora desse contexto, eram proibidas e censuradas. Assim, a linguagem carnavalesca, “autorizada” sob determinadas circunstâncias, era um ato político, pois estremecia, desestabilizava, parodiava, ironizava as ideologias oficiais com suas inversões do “alto” ao “baixo estrato corpóreo” (vísceras, genitália, umbigo…“Nádegas a Declarar”). A linguagem carnavalesca, segundo Bakhtin, caracterizava-se “pela lógica original das coisas ‘ao avesso’, ‘ao contrário’, pelas permutações constantes do alto e do baixo (‘a roda’), da face e do traseiro, e pelas diversas formas de paródias, travestis, degradações, profanações, coroamentos e destronamentos bufões” (1987, p. 10). Nesse sentido, a linguagem do carnaval instaura a possibilidade de ressignificação e re-surgimento de formas de vida com suas respectivas visões de mundo. Este convite à carnavalização do mundo, feito aqui por meio da citação de um verso da canção “Carnavália”, dos Tribalistas, de certa forma demonstra o intuito “Circular” do GED quanto às práticas cotidianas de se pensar e fazer pesquisa na e fora da academia. O conhecimento deve se trans-formar em sabedoria. E, para isso, não pode ficar confinado nos intramuros universitários – que sequer deveriam existir, uma vez que o vocábulo “Universidade” vem do latim (“universia”), que significa “comunidade”, “universo”, “universal”, “comum”. Precisa, portanto, pular tais muros, romper barreiras, derrubar paredes e tomar as ruas, a rede, o universo (para ser fiel ao léxico uni-versi-tário), constituído pela linguagem, em ato concreto. Vamos, então, carnavalizar com “Carnavália”, “Navalha na carne”. O humor de toda espécie (o deboche, a ironia, fina e ácida, o pastelão, a “torta na cara”) dá uma banana para a hipocrisia e segue, sem abalo às manobras e intrigas porque ri diante do inimigo, “ri na cara do perigo” e isso, sim, causa abalos sísmicos e altera profunda-mente o sistema. Por menores que pareçam, à primeira vista (e jamais assumidos), tais atos, aparentemente inconsequentes e “sem causa”, fazem história porque responsivos, dialógicos. A rebeldia não tem de ter causa aparente. Ela existe e caminha contra a hegemonia confortável e cômoda, como “Ode ao burguês”. Deixemos de homenagear e passemos a carnavalizar a vida em atu-ação filosófico-concreta. Carnavalizar: uma prática de resistência ao poder hierárquico e às ideologias oficiais de forma coletiva, ambivalente e bivocal, por meio do riso (carnavalesco/carnavalizado). Nas palavras de Bakhtin: A praça pública no fim da Idade Média e no Renascimento formava um mundo único e coeso onde todas as “tomadas de palavra” (desde as interpelações em altos brados até os espetáculos organizados) possuíam alguma coisa em comum, pois estavam impregnados do mesmo ambiente de liberdade, franqueza e familiaridade (1987, p. 132). Não seria a rede, famosa “world, wide, web” (o mundo navegando numa onda amarrada numa teia infinita), esse espaço público coeso de outrora ao qual se refere Bakhtin, junto com os locais físicos ainda existentes, mas em grande parte do tempo, redimensionados? Por que será que a “conexão” atrai tanto o homem? Por ser ele sujeito refletido e refratado pela e na linguagem, dialógico? Melhor “Circular” com sabor e pensar com escuta ativa esse saber de “homo-sapiens-demens” (Morin). Des-fiar a vida com as Moiras da linguagem. Carnavalizar. Vamos? 😉 #carnavalização #circular #conexão #linguagem

bottom of page