VOZES PARA ALÉM DO APITO DA FIFA: A Copa do Mundo de 2026 como arena social
- rafaelabatista9
- 10 de jul.
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Davi César de Souza

Ao analisarmos a geopolítica da Copa do Mundo 2026, percebemos que o futebol contemporâneo opera como um centro eurocêntrico de dominação gerido majoritariamente por homens brancos, mas que permanece sob constante disputa ideológica. Afinal, como formula Volóchinov, "já sabemos, toda palavra é um pequeno palco em que as ênfases sociais multidirecionadas se confrontam e entram em embate. Uma palavra nos lábios de um único indivíduo é um produto da interação viva das forças sociais" (2017, p. 140). Assim, longe de ser um esporte neutro, a palavra futebol funciona como "qualquer signo ideológico exterior" que, "independentemente do seu gênero, banha-se por todos os lados nos signos interiores, ou seja, na consciência" (Volóchoinov, 2017, p. 57).
Sob essa ótica, o monopólio e os padrões estéticos e táticos ditados pela Europa encontram resistência quando o signo exterior do futebol mergulha no "mar dos signos interiores" das populações do Sul Global, onde sua vida e sua força insurgente continuam a pulsar justamente no "processo de renovação da sua compreensão, vivência e assimilação, ou seja, em sua inserção contínua no contexto interior" (Volóchinov, 2017, p. 57), transformando o gramado em um território vivo de confrontação e resistência aos colonizadores.
Com 48 seleções, 104 partidas, 16 sedes e uma arrecadação projetada de US$ 8,9 bilhões, a Copa do Mundo de 2026, realizada nos Estados Unidos da América, México e Canadá, configura-se como o maior evento esportivo da história em termos de escala e monetização. Mas, para além dos números impressionantes e do discurso oficial da FIFA, que ecoa termos como "unidade global", "integração" e "fair play", o torneio se desdobra como um palco de tensões geopolíticas, protestos de federações, restrições de vistos e debates acirrados sobre imigração, gênero, raça e classe. É nesse terreno movediço que a presente reflexão propõe uma leitura: a Copa de 2026 como enunciado social, compreendido à luz dos pressupostos do Círculo de Bakhtin.
Em A palavra na vida e a palavra na poesia (2019), Volóchinov traça as fronteiras entre a "palavra na vida", essencialmente orientada para o objeto, ancorada no cotidiano e de natureza concreta, e a "palavra na poesia", desenhada como autossuficiente, abstrata e enclausurada em sua própria arquitetura. A Copa do Mundo, em sua dimensão de macro enunciado midiático, orbita de maneira pendular entre essas duas polaridades. Sob a égide da superestrutura institucional, o discurso oficial emanado pela cúpula da FIFA tenta mimetizar a "poesia": ergue-se como um texto hermético e espetacularizado, engessado na ilusão do acabamento estético e exigindo uma decodificação unívoca. Contudo, ao descer ao rés do chão da vida concreta, o megaevento transborda essa redoma para se desdobrar como um texto irremediavelmente aberto. Em sua essência orgânica, o jogo é a coreografia imprevisível de vinte e dois corpos em campo, gravitando em torno do rito da bola rumo ao ápice do gol. É nesse terreno instável que o torneio recusa a completude e assume o seu devir; um espaço de permanente construção onde cada polêmica, fissura ou embate irrompe como uma nova voz social, tensionando as amarras do discurso dominante e reconfigurando, a cada instante, a composição polifônica do todo.
Como afirma Volóchinov (1929, p. 87), "a palavra é o acúmulo de forças sociais no ponto mais sensível e móvel da prática social". A Copa do Mundo de 2026 constitui-se, precisamente, como esse ponto sensível e móvel. A estreia da Argentina contra a Argélia (3 a 0), por exemplo, gerou um dos primeiros grandes choques discursivos do torneio. Lionel Messi acertou a sola da chuteira na panturrilha do zagueiro Aïssa Mandi, lance que, para o técnico bósnio, configurava expulsão: "É inútil nesse momento comentar situações hipotéticas. Mas todo mundo viu, inclusive eu". O árbitro polonês Szymon Marciniak marcou apenas falta, sem cartão.

A Federação Argelina apresentou queixa formal à FIFA. Aqui, a voz hegemônica, arbitragem, FIFA, imprensa ocidental, naturaliza a vitória argentina como produto do talento de Messi. A voz subalterna, da Argélia e da imprensa africana, denuncia um padrão de arbitragem que, segundo ela, favorece as potências tradicionais. O silêncio do VAR diante de lances que exigiriam expulsão funciona como um "discurso ausente" porque, para Mikhail Bakhtin (2003), o não-dito é tão constitutivo do sentido quanto o próprio dito. A omissão não é um vácuo, mas uma escolha comunicativa que revela critérios implícitos e ideológicos das arbitragens.
O conceito de polifonia, desenvolvido por Bakhtin em Problemas da poética de Dostoiévski (2010, p. 65), não postula a harmonia de coros, mas a sinfonia desafinada de instrumentos que recusam o maestro (FIFA) e as múltiplas vozes independentes (países subalternos da África, Ásia e latinos), igualmente válidas, que se respondem sem se submeter. Se Volóchinov nos mostrou a Copa como texto pendular entre a "poesia" institucional e a "vida" desordenada, Bakhtin nos permite ouvir, dentro desse texto, as vozes que não se deixam silenciar pela voz oficial.
Aqui, a polifonia não se resume às vozes que ecoam nos noventa minutos: ela se estende à reverberação que fratura o silêncio após o apito final. Quando a FIFA anuncia uma idílica "unidade global", quem de fato responde? Responde o árbitro somali Omar Artan, deportado dos EUA sem justificativa, cujo silêncio forçado grita mais alto que qualquer comunicado institucional. Responde a mãe do goleiro Vozinha, cuja solicitação de visto foi negada até que a mobilização nas redes sociais a transformasse em um "caso" midiático e, portanto, em um problema a ser burocraticamente resolvido. Responde o técnico iraniano, foi obrigado a transferir a base de treinamento do Arizona para Tijuana, na qual a seleção teve que treinar em volta da piscina do hotel, esses fatos reescrevem com os pés o mapa geopolítico que a FIFA e o governo estadunidense de extrema direita Donand Trump desenharam com a caneta.

Essa polifonia adensa-se ainda mais nas vozes dos atletas antirracistas, como Vini Jr. e Mbappé, cujos corpos negros se recusam a ser meros autômatos do jogo, e nas vozes de governos como o de Trump, que intervém na justiça esportiva com a mesma crueza com que opera no mercado global; na base dessa superestrutura, manifestam-se as vozes dos torcedores, que ressignificam o meme nas redes sociais como a nova metáfora da revolta, em fricção constante com o coro dos patrocinadores – do monopólio das casas de apostas, que colonizam o signo como arena de luta de classes, às redes de fast-food, às bebidas alcoólicas e aos titãs de logística como a Amazon –, de modo que o jogo de futebol, antes espaço de disputa esportiva autônoma, converte-se hoje em signo ideologicamente saturado por essas plataformas, que não apenas patrocinam clubes e transmitem partidas, mas reconfiguram o próprio ritmo do espetáculo: as odds em tempo real, os mercados de escanteios e cartões, as narrativas televisivas que naturalizam o "aposta agora" como parte da experiência do torcedor, tudo isso opera na lógica do capital financeiro, que nunca fala em seu próprio nome, mas se infiltra no discurso do amor ao clube, da emoção do gol, da identidade coletiva, fazendo com que o torcedor, ao vibrar, reproduza sem saber a ideologia da mercantilização total do futebol, e o jogador, ao marcar, já esteja inscrito numa cadeia de valores que transcende o campo e o transforma em mero ator de um espetáculo cujo roteiro é escrito pelos algoritmos das casas de apostas, de tal forma que, como bem observa Volóchinov, "Tudo que é ideológico possui significado: representa, figura ou simboliza algo que está fora dele. Em outras palavras, é um signo. Sem signos, não há ideologia." (VOLÓCHINOV, 2017); configura-se assim o que se pode denominar apostocapitalismo espetacular, fenômeno pelo qual a lógica da aposta não mais se limita a parasitar o futebol, mas o dissolve por completo, transformando cada gesto do jogador e cada pulsação do torcedor em dado transacionável, de modo que o próprio corpo do esporte, seus ritmos, suas paixões, suas resistências, é reabsorvido como matéria-prima de um mercado que lucra com a ilusão de que ainda se trata de jogo.
Esse processo de espetacularização, ainda é impulsionado pelo oligopólio de corporações transnacionais como Nike, Adidas e Puma, que operam uma violenta dupla via de alienação: por um lado, metamorfoseiam o corpo do atleta em um outdoor ambulante; por outro, exploram a vulnerabilidade do Sul Global, pagando irrisórios 36 a 40 pesos mexicanos por hora (cerca de R$ 10 a R$ 11) às artesãs indígenas que bordam à mão os uniformes da seleção do México, garantindo lucros que ultrapassam a margem de 100% na venda de uma única peça. Sob o signo do capital, até mesmo o apelo visual da performance, como a onipresença de chuteiras rosas vibrantes nos pés dos jogadores, deixa de ser mero instrumento tático e passa a operar como fetiche Instagramável. A subjetividade do espetáculo é, assim, integralmente convertida em mercadoria, forjando objetos de desejo que colonizam o imaginário dos consumidores.

Como lembra Bourdieu (2015, p. 43), o campo social é um espaço de lutas em que os agentes disputam a legitimidade de suas visões de mundo. A Copa de 2026 desenha-se, portanto, não como um território neutro, mas como um campo de forças fraturado, onde cada voz carrega um habitus distinto, um capital simbólico desigual e uma posição estrutural que a predispõe ao eco ou ao silenciamento. A voz da FIFA fala do topo de seu capital institucional, como quem discursa de um palanque inacessível; em contrapartida, a voz do atleta Vozinha, ao suplicar pelo visto de sua mãe, ecoa do chão da vida concreta, como quem fala para o vento, até que esse, transmutado em algoritmo viral, force a engrenagem a ouvi-lo.
Nesse sentido, a polifonia bakhtiniana no espetáculo contemporâneo não emana de uma democracia idílica, mas de uma "democracia ferida": todas as vozes se manifestam, mas nem todas portam o mesmo peso político. Se para Bakhtin (2010, p. 122) o diálogo é constitutivo da linguagem, para Bourdieu (2015, p. 87) ele é constitutivo do poder. No horizonte de 2026, o diálogo opera simultaneamente como promessa e prisão, a promessa de que todos os cantos podem ecoar e a prisão de que apenas as vozes hegemônicas detêm o microfone.
Longe de serem meramente justapostas, essas vozes entram em rota de colisão, refutando-se e transformando-se mutuamente a contrapelo do texto oficial. Essa fricção materializou-se de forma dramática nas oitavas de final, quando a Argentina reverteu um placar de 2 a 0 contra o Egito nos acréscimos. Diante do desfecho, a Federação Egípcia protocolou uma denúncia formal contra o trio de arbitragem, enquanto o atacante Zico subverteu o protocolo ao acusar o campeonato de ser "direcionado". A resposta pragmática da FIFA de investigar os árbitros, mas chancelar o placar, escancarou a assimetria radical desse campo: a instituição reserva-se o direito de admitir falhas procedimentais na burocracia sem jamais comprometer a soberania do resultado material. Assim, as vozes subalternas do Sul Global não dialogam com a superestrutura em condições de igualdade; dialogam contra ela, rasurando as entrelinhas de um roteiro que já nasceu pronto.

E é justamente nessa teia de discursos cruzados que se insere a institucionalização da chamada "Lei Vini Jr." pela FIFA, ratificada junto à IFAB. A diretriz, que proíbe o ato de cobrir a boca durante discussões sob o pretexto de coibir insultos discriminatórios, ilustra de que maneira a fala de um atleta marginalizado provoca reações em cadeia capazes de alterar a própria gramática do jogo global. Longe de resolver o conflito racial, essa medida converte-se em um amplo mecanismo de silenciamento.
Na Copa de 2026, as expulsões de Miguel Almirón (Paraguai) e Piero Hincapié (Equador), somadas à repressão infligida contra os torcedores, os jogadores da República Democrática do Congo e o congolês/belga Romelu Lukaku, que utilizavam o espaço do jogo para denunciar a guerra e a crise humanitária no Congo, evidenciam a rigidez com que a superestrutura impõe novos dispositivos de controle burocrático sobre os corpos. Sob a ameaça imediata do cartão vermelho, a FIFA enclausura a "palavra do outro", obliterando tanto a insurgência antirracista quanto a denúncia geopolítica em nome de uma ordem asséptica e mercantil.

No entanto, o consenso em torno da medida é puramente ilusório. Enquanto a UEFA adota uma postura mais branda, punindo o gesto apenas com o cartão amarelo, a aplicação assimétrica da lei revela profundas fraturas políticas: a federação pune rigorosamente o técnico egípcio por seguir os protocolos de reclamação, mas exime-se de controlar a violência material e simbólica em suas arenas. Essa leniência materializa-se tanto na inércia diante de torcedores argentinos que arremessam latas contra torcedores egípcios, quanto na omissão perante a proliferação de ataques virtuais, como os memes racistas direcionados a Vini Jr. com Haaland, ou, ainda, diante de ofensas proferidas por figuras do alto escalão político, como a senadora paraguaia Celeste Amarilla.

Sob essa perspectiva, a regra opera como uma inversão: ao criminalizar o ato de tapar a boca, a instituição transforma uma tática de ocultamento do discurso racista na própria infração punível. O que outrora servia de escudo para a impunidade do agressor converte-se, ele mesmo, no corpo de delito. Como observa Volóchinov, "É, portanto, claro que a palavra será sempre o indicador mais sensível de todas as transformações sociais, mesmo daquelas que apenas despontam, que ainda não tomaram forma, que ainda não abriram caminho para sistemas ideológicos estruturados e bem formados." (Volóchinov, 2017, p. 41).
Paralelamente, Kylian Mbappé consolida-se como uma nova figura discursiva: o atleta-intelectual que abdica da neutralidade mercadológica para intervir ativamente no tecido social. Sua voz ressoa não apenas contra o racismo estrutural e a ascensão da extrema-direita, mas também contra o colonialismo econômico das apostas esportivas. Ao repudiar o uso não autorizado da imagem dos atletas por plataformas de apostas, o atleta francês/camaronês evoca a ancestralidade e a realidade concreta das periferias, onde as promessas ilusórias do jogo destroem trajetórias vulneráveis.
Essa postura engajada, contudo, converte o jogador em alvo preferencial de violentas reações conservadoras, materializadas nos ataques racistas desferidos pela senadora paraguaia, de centro-direita, uma tentativa flagrante da elite política de desqualificar sua agência e reconduzi-lo ao estigma histórico: “Um bruto, não aprendeu sequer a escrever; em vez de leite materno, mamava em cocos, e os sons mais cultos que ouviu na vida foram de chimpanzés. Você deveria ter mostrado o dedo do meio para ele, Orlando Gill; eu faço isso no Senado e não acontece nada”, escreveu a senadora, que chamou Mbappé de “camaronês colonizado que finge ser francês, rancoroso, novo rico, arrogante e feio”. Franz Fanon, em Pele Negra, Máscaras Brancas, aponta para a exigência de assimilação e submissão aos padrões hegemônicos: "Para o negro, há apenas um destino. E ele é branco" (FANON, 2008, p. 27). No futebol, isso implica que a aceitação e o sucesso do sujeito negro (seja ele jogador ou torcedor) são condicionados à sua disposição em atender às expectativas da sociedade branca. Ele é forçado a adotar “máscaras brancas”, ou seja, a performar comportamentos, aceitar passivamente o racismo e adotar posturas que não ameacem a ordem racial estabelecida ou o conforto da branquitude. O sujeito negro só é tolerado e celebrado enquanto se mantiver dócil ou espetacularizado.
Nas arquibancadas, a dinâmica de negação da subjetividade é idêntica. O torcedor e jogador negro é alvo constante de hostilidade e violência, sendo reduzido a um alvo de ofensas racistas que buscam desumanizá-lo. O racismo estrutural e institucional que permeia o esporte reflete exatamente a linha abissal descrita por Fanon, que divide o mundo entre a zona do ser (o branco, detentor da plena humanidade e sujeito de fala) e a zona do não-ser (o negro, visto como inferior, indesejável ou mero adereço social). Dessa forma, o corpo negro no estádio é simultaneamente indispensável para o show esportivo, mas rejeitado como sujeito social pleno.
Não obstante, o campo das disputas discursivas recusa maniqueísmos puros. Ao responder às agressões institucionais classificando a senadora como uma "mulher desprezível", Mbappé desliza para um comentário de teor machista e depreciativo. Esse episódio demonstra que a polifonia do espetáculo é atravessada por ambiguidades; mesmo a voz insurgente, ao tatear as entrelinhas do poder, está sujeita a reproduzir opressões do mesmo verniz social que tenta combater.
Nesse ponto, Heleieth Saffioti, em O Poder do Macho, oferece o instrumental analítico necessário: "Não há de um lado a dominação patriarcal e, de outro, a exploração capitalista. Para começar, não existe um processo de dominação separado de outro de exploração" (SAFFIOTI, 2005, p. 65). A fala de Mbappé, ao mesmo tempo em que denuncia o racismo, reproduz a dominação de gênero, revelando que patriarcado e racismo são, nas palavras de Saffioti, "duas faces de um mesmo processo" (SAFFIOTI, 2005, p. 65).

Outro episódio profundamente emblemático da politização assimétrica da Copa envolveu o atacante norte-americano Folarin Balogun, expulso pelo árbitro brasileiro Raphael Claus em um confronto contra a Bósnia. A gravidade do fato consolidou-se fora das quatro linhas: o presidente Donald Trump admitiu publicamente ter intercedido junto à FIFA para solicitar a reavaliação do lance, levando a entidade a anular a suspensão automática do atleta e a substituí-la por um inusitado "período probatório de um ano". A comemoração de Trump nas redes sociais, "Obrigado à Fifa por fazer o que era certo e reverter uma grande injustiça!", escancara uma colagem abrupta entre o poder de Estado e o ordenamento esportivo. Ao ver a esfera presidencial intervir diretamente em sua estrutura regulatória, o futebol testemunha a ruína de sua suposta autonomia simbólica. A capitulação da FIFA ressoa como uma concordância estratégica com o país-sede, instituindo um precedente perigoso: a justiça esportiva passa a ser um bem negociável sob a balança das pressões políticas macroeconômicas.
O contraste desse veredito com o caso envolvendo Lionel Messi no jogo contra a Argélia torna-se, portanto, gritante. Enquanto a entrada faltosa de Messi, atleta de incomensurável capital simbólico e mercadológico, não gerou sequer a aplicação de um cartão amarelo, a ação similar de Balogun resultou em uma expulsão sumária, posteriormente revogada não pelo rigor da regra, mas pelo peso da interferência geopolítica. Paralelamente a esse duplo padrão de julgamento, a superestrutura opera sua blindagem na esfera digital: vídeos que compilavam e denunciavam erros sistemáticos de arbitragem contra a seleção de Cabo Verde foram sumariamente removidos das plataformas digitais a pedido da FIFA. Como contraofensiva a esse autoritarismo corporativo, a eclosão da campanha popular #ResignInfantino, acompanhada de um massivo abaixo-assinado virtual, surge como uma resposta insurgente da base social, que tenta tensionar as redes e reverter a assimetria radical de um jogo cujas cartas parecem sempre marcadas.

Mas por que isso importa?
Como nos ensina o Círculo de Bakhtin, o signo é a arena na qual se trava a luta de classes, e o futebol, longe de ser um mero espetáculo alienante, funciona como um macroenunciado que reflete as pulsações mais íntimas da nossa estrutura social. Quando a bola rola em um cenário geopolítico complexo, o que testemunhamos não é a pureza asséptica das regras da FIFA, mas sim a palavra viva, refletida e refratada pelas assimetrias de poder que Bourdieu tão bem mapeou. Os discursos que cercam os gramados, sejam os protestos silenciosos contra o neocolonialismo e comentários racistas denunciados nos estudos de Fanon, sejam os deslizes discursivos que reproduzem as opressões de gênero desveladas por Saffioti, provam que o futebol é um tecido histórico em constante disputa axioideológica.
Referências:
BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.
BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2015.
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: Edufba, 2008.
SAFFIOTI, Heleieth I. B. O poder do macho. São Paulo: Editora Moderna, 1987.
VOLÓCHINOV, Valentin. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. São Paulo: 34, 2017.
VOLÓCHINOV, Valentin. A palavra na vida e a palavra na poesia: para uma poética sociológica. São Paulo: Editora 34, 2019.




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