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Um dueto “relativamente estável”

Patrick Paiva

Cada esfera conhece seus gêneros, apropriados à sua especificidade, aos quais correspondem determinados estilos. Uma dada função (científica, técnica, ideológica, oficial, cotidiana) e dadas condições, específicas para cada uma das esferas da comunicação verbal, geram um dado gênero, ou seja, um dado tipo de enunciado, relativamente estável do ponto de vista temático, composicional e estilístico. (Gêneros do Discurso – M. Bakhtin)

 Numa quarta-feira de novembro, eu voltava do trabalho de carona com uma amiga quando ela ligou o aparelho de som do carro e colocou um pendrive me dizendo: “Vou te mostrar uma música nova que eu gosto muito”! Olhei no visor do som do carro e vi escrito: Eu me lembro – Clarice Falcão (feat. Silva). O que pude intuir pelo título da faixa é que ouviria um dueto (romântico?) entre a Clarice e um tal Silva. Num dueto, normalmente, cada um dos cantores canta sua parte, canta sua letra e quando cantam juntos fazem uma segunda voz; mas atuam sempre em concordância, reforçando um mesmo ponto de vista. Somente a título de recordação, por exemplo, grandes duetos que marcaram épocas: Perhaps love – com Plácido Domingo e John Denver; Endless love – Lionel Richie e Diana Ross; ou ainda Beauty and The Beast –  interpretada por Celine Dion e Peabo Bryson.

Porém, o que ouvi foi isto:


 Achei a canção, no mínimo, curiosa. Com uma harmonia simples e sem grandes rompantes instrumentais, os cantores desenvolvem uma narrativa na qual ambos se recordam (ou tentarão se recordar) do primeiro encontro. Acompanhados por um instrumento de cordas (talvez um violão, que é mais percutido que tangido) iniciam o dueto.

Em Eu me lembro observamos que cada eu-poético apresenta sua visão do primeiro encontro e vai desenvolvendo seus argumentos sempre em discordância do outro eu-poético. É uma confrontação entre dois eu(s)-para-mim. Podemos evidenciar a primeira instabilidade (ou relativa estabilidade) do gênero em relação ao conteúdo temático do dueto. Veja a primeira estrofe:

Era manhãXTrês da tardeQuando ele chegouXFoi ela quem subiuEu disse: “Oi! Fica à vontade”XEu é que disse “Oi”, mas ela não ouviu

Fica evidente aqui a estrutura arquitetônica do primeiro encontro como evento, único, irrepetível, singular. Cada eu-poético (eu-para-mim) ocupando o centro da relação com o outro (outro-para-mim) e estabelecendo seus próprios parâmetros, valores e sentidos. A primeira relação é temporal (manhã/tarde), segunda espacial (chegou/subiu) e a terceira é a da tentativa do primeiro contato (Oi/Oi), a relação interativa de diálogo face a face.

 Cada um de meus pensamentos, com o seu conteúdo, é um ato singular responsável meu; é um dos atos de que se compõe a minha vida singular inteira como agir ininterrupto, porque a vida inteira na sua totalidade pode ser considerada como uma espécie de ato complexo: eu ajo com toda a minha vida, e cada ato singular e cada experiência que vivo são um momento do meu viver-agir. (BAKHTIN, 2010 [1920-24], p. 40)

É interessante notar que a arquitetônica do encontro-evento é que determinará a forma composicional desta canção-dueto. Uma composição polifônica como metaforizada por Bakhtin para os estudos literários, em que cada voz expõe seu ponto de vista sem que uma se sobressaia. Segunda “relativa estabilidade”! Como exposto anteriormente, nos duetos as vozes confirmam um ponto de vista e a forma composicional confirma o conteúdo semântico-objetal. Aqui, há o inverso: o dueto apresenta visões díspares e a forma composicional “polifônica” confirma a divergência. Exemplo disso é o refrão, que se observado a partir do eixo sincrônico nos revela visões controversas e simultâneas do acontecimento da canção-evento:

E foi assim que eu vi que a vida colocou ele/ela pra mim Ali naquela Terça-Feira/Quinta-Feira de Setembro/Dezembro

 Outro aspecto que convém destacar é a relação entre a linguagem verbal e a linguagem musical. Assim como o sentido da canção é produzido pela adição de acontecimentos sob o ponto de vista das palavras (verbal), eventos musicais são adicionados ao longo da canção confirmando assim o estilo minimalista[1] da compositora e do álbum Monomania, em que a canção está inserida.

Na primeira estrofe (0:00 – 0:28), início dos acontecimentos e momento em que tudo será apresentado, entra subitamente o canto acompanhado por um violão com o timbre abafado com a intenção de marcar mais ritmicamente do que harmonicamente a sucessão dos acontecimentos que comporão o evento.

Na primeira apresentação do refrão (0:29 – 1:00) entram alguns instrumentos que ditarão explicitamente a harmonia (baixo acústico, violoncelo, percussão e guitarra elétrica) e executarão alguns ornamentos. Tem-se a impressão de que a partir de agora haverá uma mínima concordância entre os “eus” do dueto, o que é gerado pela entrada dos instrumentos executando a harmonia. Porém esta é logo frustrada pela execução simultânea de ele/ela, terça/quinta e setembro/dezembro.

Na segunda estrofe (1:01 – 1:29) tudo volta parece voltar à condição inicial, o que é típico do estilo minimalista, porém a guitarra elétrica permanece realizando uma espécie de ornamento em conjunto com o “violão rítmico”. Assim, novos acontecimentos são adicionados a esse “(des)encontro” tanto pela linguagem verbal quanto pelos elementos da linguagem musical.

 A segunda execução do refrão (1:30 – 2:01) contém a mesma letra da primeira, porém há um aumento da dinâmica e intensidade dos instrumentos e dos cantores é maior. Há também um aumento significativo dos acontecimentos musicais em relação à primeira apresentação do refrão.

Na terceira estrofe (2:02 – 2:28), também há um movimento crescente de eventos em relação à segunda estrofe. Além dos instrumentos da segunda estrofe, podemos ouvir mais intervenções percussivas e pizzicatos das cordas.

O terceiro refrão (2:29 – 3:00) abre a seção de maior intensidade sob o ponto de vista da linguagem musical. É inserido um novo timbre eletrônico que imita um xilofone.

Segue-se finalmente a Coda (3:01 – 3:35), que é a seção com que se termina uma música. A Coda é estritamente instrumental e, a fim de garantir a crescente espiral[2] minimalista, novos acontecimentos são adicionados ao arranjo. É inserido um trompete que dialoga com o violoncelo prolongando por meio da linguagem musical o desencontro das versões apresentadas e confirmadas por cada eu-poético em todas vezes em que o refrão era apresentado pela frase “eu me lembro” e que, inclusive, é topicalizada pelo título da canção.

Eis uma breve reflexão!

Referências:

BAKHTIN, M. M. Para uma filosofia do Ato Responsável. São Carlos: Pedro & João Editores, 2010.

BAKHTIN, M. M. Gêneros do discurso. In: Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

BRITO, Fernando. Philip Glass e o minimalismo. Disponível em: http://fernandobritto.blogspot.com.br/2012/02/philip-glass-e-o-minimalismo.html Acesso em: 21/06/2014.

[1] Baseada na repetição e na variação paulatina dos elementos colocados em jogo durante a ação musical, (…) esse gênero de música voltou a se basear no sistema tonal e no emprego das consonâncias geradas por seus acordes perfeitos, de emprego lento e gradual, gerador de uma quase imobilidade. Contudo, os elementos colocados sobre esses acordes, ou sobre ritmos repetitivos, geram uma polifonia capaz de provocar a sensação de movimento, de dar à música a sensação de dinâmica, e por conseguinte, de vida. (BRITO, Fernando)

[2] Para conhecer um pouco mais sobre Música Minimalista segue um exemplo do compositor Philip Glass – Morning Passages (http://www.youtube.com/watch?v=Aj6BLyqTKDo ) que integrou a trilha sonora do filme “As Horas” (2001). É curioso notar a crescente espiral de acontecimentos musicais que vão surgindo no decorrer da obra.

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