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REFLEXÕES BAKHTINIANAS SOBRE A PERSONAGEM PRINCIPAL DE A COR PÚRPURA.

Isabella Lourenci Kojima

Historicamente, pode-se afirmar que a mulher vem sendo socialmente oprimida conforme os valores de determinada época, com isso deve-se pensar no enunciado de acordo com o contexto de produção e as vivências, desse modo promovendo reflexões através dos signos que fazem parte de um produto ideológico e que refletem e refratam o mundo. O reflexo e a refração de determinada época e sociedade são exemplificados através de obras, filmes, livros, pinturas os quais não só mostram o papel da mulher, mas inúmeros modos e estilos de vidas desconhecidos por nós. Assim, à medida em que compreendemos um enunciado, as valorações se materializam nele a partir de uma palavra, cor, gesto, nota musical, etc.

A obra, A cor púrpura (1982), romance escrito por Alice Walker, mulher negra, feminista e defensora dos direitos civis, traz escrevivências da protagonista através de cartas escritas para Deus e para a sua irmã. Portanto, esse texto propõe uma discussão a respeito da arte e da vida vivida, não apenas por Celie, mas por inúmeras mulheres negras que sofrem por não estar no seu país de origem, por simplesmente ser mulher ou por sua cor, destacando a relevância da obra, que reflete e refrata o mundo, reflete quando sabemos de uma realidade exterior e refrata quando o ser humano tem as suas experiências e interpretações diante de tudo. Com isso, as vozes sociais construídas por discursos ideológicos, faz com que as relações das personagens se tornem reais.

Figura 1: Celie e sua irmã Nettie brincando.


O enredo persegue, de uma forma bem sensível, questões sociais vividas por uma jovem negra, pobre e nascida em uma cidade segregada no sul dos Estados Unidos. Celie, foi estuprada pelo padrasto, foi obrigada a se separar dos filhos e da irmã, foi ofertada a casar com um homem mais velho que tinha mais filhos e nessa companhia sofreu todos os tipos possíveis de violência, assim foi vivendo um pesadelo constante. Entretanto, Shug Avery, amante de seu marido, proporcionou grandes mudanças em sua vida e foi através de seu olhar que aconteceu a libertação de si e de seus sofrimentos, que Celie teve mais voz e melhorou a sua vida. A construção do sujeito na narrativa se dá na amizade de Celie e Shug e essa alteridade deixa explícito que para ser sujeito nós precisamos estar organizados em coletividade, se comunicando, se inteirando pela linguagem, por conseguinte, o sujeito só é sujeito por meio da relação com o outro e essa necessidade do outro para se constituir como sujeito não torna idêntico a esse outro, mas mantém as relações dialógicas, sociais, os acontecimentos, as vivências, representações, que transformou a vida de Celie.

Vale ressaltar que a inserção do feminismo negro foi tardia, ganhando força nos Estados Unidos na década de 70, com referências políticas e culturais europeias. Desse modo, essa resistência para se encontrar de fato em uma corrente é de extrema importância, assim essa interação social diante desse contexto histórico, ou seja, ideológico. Assim sendo, o pensamento feminista negro possibilita que as mulheres tenham diferentes visões de si, do seu âmbito social e do seu mundo, rearticulando o que já existe e resistindo as opressões.

Infelizmente, não é de hoje que a mulher negra é silenciada, que seu espaço na sociedade é reprimido por causa da sua etnia, da sua classe social, da sua identidade de gênero e de padrões impossíveis de serem seguidos. As cartas confessionais de Celie é o que materializa a ideologia e a interação social, então o fluxo dos seus pensamentos fazem com que as consciências individuais se relacionam e criem signos para que o homem seja estimulado a adentrar nessa realidade e, consequentemente, ao ler os escritos conseguimos ter um senso crítico, um senso de empatia e uma comunicação.

A narrativa de A cor púrpura se baseia na oralidade popular, as expressões são construídas através de uma significação e essa significação dá sentido à sua realidade por meio da linguagem, dessa maneira tanto Celie quanto Alice Walker, são vozes sociais que adentram na consciência coletiva. Segundo Volóchinov em Marxismo e Filosofia da Linguagem, a consciência se materializa por meio do signo ideológico, por consequência só é vista no processo de interação social.

A construção do enunciado A cor púrpura demonstra a veracidade da situação vivida por muitas mulheres. Portanto, as ideologias em relação a mulher negra são materializadas por meio do signo ideológico, nesse sentido, no decorrer do enredo os valores dessas ideologias são retratados por meio de violência doméstica, estupro, violência psicológica e submissão, por ser mulher. No exemplo seguinte, nota-se uma questão que decorre na maior parte da história:

Querido Deus, Ele me bateu hoje purque disse queu pisquei prum rapaz na igreja. Eu pudia ta cum coisa no olho, mas eu num pisquei. Eu nem olho pros home. Essa é que é a verdade Eu olho pras mulher, sim, purque num tenho medo delas. (WALKER, 1982. p 15)

Há diversas vozes femininas no romance, todas em alguma parte da vida foram subordinadas ao homem negro, de forma que só serviam para satisfazê-lo, para ter uma posição de doméstica, mas em contrapartida elas deviam passar por esse sofrimento, o racismo é sustentado pela teoria de que uma raça é superior a outra, mas quando se trata da população negra diante dos brancos, as mulheres em si são mais violentadas, oprimidas, inferiorizadas, lideram em números de pobreza, desemprego, escolaridade baixa, por isso a relevância do feminismo negro, dessa luta para uma sociedade igualitária, assim desfazendo essa romantização de que as mulheres negras são mais fortes, bravas, independentes enquanto a mulher branca é delicada, inofensiva, fraca. Esses sujeitos representam um embate ideológico na concepção da época em que o livro foi publicado, do mundo atual, da sociedade, da cultura, típico de uma literatura crítica, sensível e real.

Afinal, a língua revela o homem e por meio da personagem principal, Celie, que muitas mulheres se encontraram, tiveram forças para lutar contra a discriminação, a submissão, o racismo, a desigualdade de gênero, etc. Por fim, as cartas representam uma valoração do sujeito social e reflete na identidade de uma mulher que abriu olhos, renovou vidas e não se calou diante de uma sociedade racista, machista, patriarcal e opressora. A luta é constante, a resistência é sucessiva e a escrita faz parte desse processo ideológico, político, expressivo e reflexivo.

Referências:

WALKER, Alice. A cor púrpura. CÍRCULO DO LIVRO S.A. 1982.

VOLÓCHINOV, Valentin Nikolaevich. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Editora 34, 2018.

SANTAGO, Ana Rita. Vozes literárias de escritoras negras. Editora UFRB, 2012.

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