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O orgulho de ser brasileiro: significação e tema

Schneider Pereira Caixeta Luciane de Paula

No dia 22 de junho último, o “Fantástico”, da Rede Globo, exibiu uma matéria em que demonstrava a insatisfação da torcida brasileira com relação ao seu próprio grito de torcida e comparava-o aos gritos de torcida bradados pelas torcidas adversárias. Além disso, o programa convocava os compositores de plantão a participarem enviando novas composições para serem entoadas nos estádios.


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O grito de torcida em questão é o famoso “Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”, que ecoa em qualquer jogo do Brasil contra qualquer time que seja.

Considerada o décimo segundo jogador em campo, a torcida tem função especial nos jogos e, por meio dos seus gritos, consegue inúmeras possibilidades de diálogo (consigo mesma, com a torcida adversária, com os jogadores, com o técnico, com o juiz, até mesmo com o locutor da partida e com o público de casa). Entretanto, mesmo uma campanha da maior emissora de TV do país não conseguiu persuadir a torcida brasileira, que preferiu continuar cantando sobre o orgulho e o amor de serem brasileiros.

O enunciado desse grito de torcida nos possibilita reflexões muito pertinentes, sobretudo num momento em que o Brasil hospeda uma Copa do Mundo ao mesmo tempo tão desejada e tão repelida devido ao momento de reivindicações vivido, a corrupção, em alta e as questões políticas – desde as eleições até as penas aos políticos condenados pelo “mensalão”, abrandadas sem serem tão notadas, dada a ênfase na Copa e a inflação, avassaladora, implantada de maneira sorrateira.

Eu sou brasileiro…

Sendo, eu mesmo um sujeito não adepto a jogos de futebol, nem em épocas de Copa, já tive, por vezes, a consciência em culpa por não estar apoiando a seleção do meu país. Isso porque, até pouco tempo atrás, a única demonstração de patriotismo possível nas terras de cá era aquela feita nos estádios de futebol, transmitida de maneira construída pela mídia hegemônica e, de tempos em tempos, um ou outro festival cancioneiro.

Sendo o futebol, junto com o carnaval, uma das maiores expressões da cultura brasileira, esse patriotismo não é de se espantar. Hall (2006) explica que as culturas nacionais são, sem dúvida, uma das principais fontes de identidade cultural, mas não são algo com que nascemos, e sim algo adquirido devido à nossa identificação. Elas buscam unificar os membros de uma mesma nação e representa-los, metaforicamente, como uma única família: a nação.

Entretanto, segundo o mesmo autor, essa ideia de identidade nacional tem sido deslocada e algo que contribui fortemente para isso é a globalização – uma força que consegue transpor barreiras de tempo e espaço e interconectar comunidades, por mais distantes que estejam.

Sendo assim, afirmar que alguém é brasileiro pode ser mais complexo do que se pensa. Se, antes, o brasileiro era aquele que jogava “pelada” nas ruas entre times com e sem camisa, comia feijoada, dançava samba nas quadras e assistia telenovelas à noite, o que temos, hoje, é um sujeito híbrido, que, além das manifestações culturais canônicas estereotipadas, também sai aos fins de semana para comer sushi, ouve música pop norte-americana na estação de rádio local e assiste a séries britânicas na TV a cabo.

…com muito orgulho, com muito amor.

Não é preciso forçar muito a memória para lembrar que o enunciado aqui mencionado ecoou muito recentemente nos quatro cantos do país nos protestos de rua que aconteceram em junho de 2013. Cabe ressaltar que parte dos que foram às ruas para protestar estão hoje nos estádios. Não é minha intenção julgar a dupla participação de milhares de brasileiros nos dois eventos, mas sim questionar se o orgulho de ser brasileiro entoado nos protestos é o mesmo que aquele entoado nas arquibancadas.

Bakhtin (2006), em Marxismo e Filosofia da linguagem, discorre sobre a definição de tema e significação, que, segundo ele, é uma discussão essencial para se construir uma ciência sólida da significação. Por tema, entende-se um sentido único, uma significação unitária, ou um sentido completo de uma enunciação, enquanto significação se define pelos elementos da enunciação que são reiteráveis e idênticos cada vez que são repetidos. Assim, não há tema sem significação e vice-versa.

Ao trazer à tona a discussão temática do enunciado “Eu sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor”, levo em consideração seus contextos de enunciação, pois, conforme afirma Bakhtin,

O tema da enunciação é concreto, tão concreto como o instante histórico ao qual ela pertence. Somente a enunciação tomada em toda a sua amplitude concreta, como fenômeno histórico, possui um tema. Isto é o que se entende por tema da enunciação (2006, p. 132).

Ao se tomar o enunciado proferido nas manifestações de junho do ano passado, o orgulho do qual se fala está fundado numa tomada de posição dos sujeitos protestantes frente a uma situação de descontentamento geral da população com a maneira como os governantes administram o país. O ato de cantar que eram brasileiros “com muito orgulho, com muito amor” era a própria arma de que a multidão dispunha para mostrar que “brasileiro não desiste nunca” e que pode, sim, parar cidades com força própria. Sendo assim, o orgulho pela resistência, subversão e heroísmo era a força que impulsionava reivindicações. Já no futebol, o herói é o jogador (o artilheiro da partida, o garoto propaganda e, quiçá, o goleiro) que representa, metafórica e metonimicamente, o brasileiro, a nação (Daí, as campanhas, elaboradas e incentivadas pela mídia televisiva, de que “todos somos um”). Se o herói nas manifestações era o próprio povo, com suas vozes e atos; no futebol, nada a torcida pode além de incentivar os jogadores com seu “grito de guerra”, mas impotente diante do adversário, diferente do enfrentamento estabelecido nas ruas, pelos protestos realizados. O valor do heroísmo parece ser idêntico, contudo, é completamente diferente quando se pensa nos referidos atos enunciativos que entoam o enunciado proferido.

O orgulho de que se fala nos estádios é um orgulho-resultado: ser campeão, mais, o único país hexacampeão do mundo. Tudo bem que o orgulho que se espalha pelas arquibancadas serve também de estímulo aos que lutam em campo, mas é um orgulho que pode se ferir facilmente frente à adversidade. Um resultado negativo na partida é o suficiente para que a torcida volte-se contra o time.

O que fica é: enquanto todos se voltam ao futebol na Copa produzida pela FIFA e, de certa forma, pela Rede Globo de televisão, as reivindicações continuam, ainda que não televisionadas, com embates mais severos com a polícia para a garantia dos jogos (encomendados pelo Governo), bem como muitas mudanças (tais como aumentos de diversos produtos e serviços, abrandamento da pena de políticos presos por corrupção, projetos de lei etc) que, provavelmente, em outros momentos pudessem ser questionadas, ocorridas de maneira nem tão tranquila como têm acontecido, passadas despercebidas, uma vez que todos os olhos se encontram voltados à Copa. Em outras palavras, ainda o velho ditado latino: “Ao povo, pão e circo”. Mais circo do que pão.

A pergunta é: e quanto ao “ensinar a pescar”? Nem no futebol nem nas reivindicações parece ser o principal esquecimento/apagamento por parte do Estado, claro, pois isso não interessa aos governantes um povo pensante, questionador, reivindicador de seus direitos…ainda mais em ano eleitoral, como este (o que também tem sido pouco debatido, colocado como pano de fundo e, de fato, exercício de cidadania do país, de todo brasileiro, que, nesse caso, não tem orgulho de ser brasileiro!).

Em suma, o que se pode dizer com esta breve reflexão é que, um enunciado (re)utilizado em situações diversas se constitui, dadas as esferas de atividades, os sujeitos e suas cronotopias, em enunciações distintas, com significações em embate, com seus temas atualizados em situações concretas enunciativas. Estas, em diálogo com a vida, sempre sociais, como as aqui mencionadas. Com base nas poucas linhas expressas, terminamos este texto com um questionamento: e você, é “brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”? Em que sentido(s)? Será que “todos somos um” mesmo?

Referências:

BAKHTIN, Mikhail Mikhailovitch. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico da linguagem. São Paulo: Hucitec, 2006.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de janeiro: DP&A, 2006.

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