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Dialogismo, intertextualidade e um possível caminho…[1]

José Radamés Benevides de Melo[2]

 A conceituação e as discussões que envolvem dialogismo, polifonia e intertextualidade foram e ainda são de extrema importância para aqueles que ingressam nos estudos da linguagem, que fazem pesquisa nesse âmbito, para os que ensinam, enfim, para os que a tem no âmago de suas preocupações. Hoje, esses princípios constitutivos de (inter)textos/(inter)discursos são concebidos de maneira muito diversa da que foram em outros momentos de sua própria história no vínculo com a recepção, na Europa Ocidental e na América, da obra de Bakhtin e do Círculo[3]. Assim, o que ora apresentamos é uma breve análise de um texto publicado ainda na década de 1970, num dos primeiros momentos de fomento desses princípios. Época em que grandes nomes do estruturalismo e do, então, chamado pós-estruturalismo, especialmente no campo das letras – Barthes, Blanchot, Butor, Kristeva, Todorov –, dedicavam-se a pensar o texto de modo distinto da reflexão estruturalista. Por isso, não se espante o leitor se se deparar com uma conceituação e um tratamento de dialogismo e intertextualidade muito diferente do atual, especificamente, no âmbito dos estudos linguístico-discursivos aqui no Brasil.

Nessa breve e panorâmica análise, ficamos circunscritos aos “limites do texto” em questão, e não foi nosso intuito relacionar o tratamento (epistemológico e teórico) que esses conceitos receberam na década de 1970 com o que recebem hoje. Importante deixar isso claro, já que o desenvolvimento dos estudos bakhtinianos tem nos mostrado as divergências, equívocos, aproximações mal feitas, enfim, problemas na recepção da obra do Círculo; o que é apontado, por exemplo, em Ponzio (2010a), Fiorin (2008a), Clark e Holquist (1998), Morson e Emerson (2008) e Bezerra (2010). Somente a título de exemplo do caráter polêmico e complexo do debate a que nos referimos, vejamos o que dizem Bezerra (2010) e Ponzio (2010) a esse respeito: o primeiro (2010, p. XXI), no prefácio à edição brasileira de Problemas da poética de Dostoiévski, livro do qual é também o tradutor, assinala que, em entrevista,


[…] Kristeva afirma (p. 114) que fez de Bakhtin um “interlocutor da moderna teoria dos anos sessenta e setenta (leia-se estruturalismo e psicanálise!), e que a linguística estrutural e a psicanálise “foram o fundamento profundo do pensamento bakhtiniano” (p. 116). Acontece, porém, que Bakhtin é contra o estruturalismo por considerar que seu método de análise, centrado nas “categorias mecanicistas de ‘oposição’ e alternância de códigos”, despreza a especificidade do discurso literário, o que redunda no “fechamento do texto… Quanto a mim, em tudo eu ouço vozes e relações dialógicas entre elas… No estruturalismo, existe apenas um sujeito: o próprio pesquisador. As coisas se transformam em conceitos… o sujeito nunca pode tornar-se conceito (ele mesmo fala e responde)” [em nota: M. Bakhtin. Estética da criação verbal, p. 409-410]. Quanto à psicanálise, Bakhtin dela se distingue porque, ao longo de toda a sua obra, sempre enfatiza como essencial a questão da consciência. “A consciência é muito mais terrível que quaisquer complexos inconscientes.” [em nota: Ibid., p. 343]


            Já Ponzio (2010, p. 316) afirma que


Todorov (1981), embora intitule sua monografia sobre Bakhtin Il principio dialogico (Le principe dialogique), prefere não usar o termo “dialogismo”, central, como reconhece, em Bakhtin, e o substitui, para explicar o que Bakhtin entende por isso, por intertextualidade, termo introduzido por Julia Kristeva (1970; 1977a) na sua apresentação de Bakhtin. Ele reserva o termo “dialógico” “a determinados casos de intertextualidade, como a troca de turnos entre interlocutores, ou à concepção da personalidade humana elaborada por Bakhtin” (Todorov 1981, p. 85).


            Tendo isso em vista, dirigimo-nos ao texto de Perrone-Moisés (1979).

Em setembro de 1976, foi lançado, na França, o número 27 da revista Poétique: Revue de théorie et d’analyse littéraires, cuja tradução para a língua portuguesa foi publicada em 1979, em Portugal, pela Almedina, sob o título de Intertextualidades Poétique nº 27. Essa revista reúne ensaios de grandes pesquisadores do estruturalismo e do pós-estruturalismo. A edição se dedica ao tema intertextualidade. Os trabalhos publicados na edição de número 27 da Poétique foram tão expressivos, que têm sido referência para os estudos da área da linguagem, ainda hoje, nos seus vários campos de pesquisa[4].

Este texto que ora apresentamos responde a algumas questões levantadas a partir da leitura de um desses ensaios: A intertextualidade crítica, de Leyla Perrone-Moisés. As perguntas são as seguintes: que critérios são usados por Perrone-Moisés para defender sua hipótese, segundo a qual a intertextualidade crítica não se confunde com a intertextualidade poética? Em que teorias estão fundamentados esses critérios? Como os critérios são usados por Perrone-Moisés para estabelecer a diferença entre intertextualidade crítica e intertextualidade poética e para demonstrar a existência da intertextualidade crítica?

Parte-se da hipótese de que Perrone-Moisés usa três critérios: primeiro, o do inacabamento, de Bakhtin e partilhado por Butor, Barthes e Blanchot; segundo, o critério do dialogismo e intertextualidade, de Bakhtin e Kristeva, respectivamente; e terceiro, o critério da economia, que envolve as categorias de propriedade, apropriação, limites, declaração, leis, regras, contribuição.

Tendo isso em vista, na abordagem do ensaio A intertextualidade crítica, nossos objetivos são os seguintes: primeiro, apresentar a fundamentação teórica usada por Leyla Perrone-Moisés para distinguir intertextualidade crítica de intertextualidade poética. Segundo, identificar os critérios usados pela ensaísta para fazer a distinção entre intertextualidade crítica de intertextualidade poética. Terceiro, explicar a maneira como os critérios são manipulados para a comprovação de sua hipótese. A partir disso, definimos o objetivo geral que nos move: apontar um caminho de perscrutação das relações entre intertextualidade e dialogismo ao longo da história de seus usos e a concepção em que são tomados no ensaio de Perrone-Moisés e como o são atualmente, principalmente no âmbito dos estudos linguístico-discursivos. Esperamos, com esta reflexão, instigar o debate e, assim, colaborar com seu desenvolvimento.

1. O ensaio de Perrone-Moisés, sua fundamentação e seus critérios

 O ensaio, A intertextualidade crítica, aparece dividido em quatro tópicos: As fronteiras do texto, Metalinguagem e intertextualidade, A obra inacabada e Intertextos críticos. No primeiro tópico, Perrone-Moisés (1979) estabelece a diferença entre a intertextualidade crítica e a intertextualidade poética, trabalhando com as oposições de declaração x apropriação x propriedade, o trabalho da crítica e o trabalho do poeta, além de fronteira discursiva x fronteira textual.

Um dos pontos mais relevantes é a discussão que a autora faz sobre as fronteiras discursiva e textual, porque se não se considerar a fronteira entre a obra poética e a obra crítica, esta última colocará em prática o mesmo tipo de intertextualidade que a obra poética. Em outras palavras, uma intertextualidade soberana e tácita, em vez de um dialogismo declarado e submisso como o da crítica tradicional. Como exemplo, Perrone-Moisés apresenta Butor, Blanchot e Barthes como três possibilidades de produtores de intertextos críticos, já que as fronteiras genéricas e textuais aparecem atenuadas em suas obras. Mas, para chegar à atenuação das fronteiras entre intertextualidade crítica e poética,

 […] é preciso trabalhar pela abolição de duas espécies de fronteiras para que haja a verdadeira intertextualidade a qual se situa por agora no domínio da utopia: a fronteira discursiva (ou genérica) e a fronteira textual. A primeira serve para separar dois tipos de discursos, no nosso caso o poético e o crítico; a segunda diz respeito a áreas de propriedade, isto é, a diferentes extensões de obras cuja integralidade é protegida pelos nomes dos autores. (PERRONE-MIOSÉS, 1979, p. 214)

A partir disso, podemos afirmar que o discurso é livre, pois “os tipos de discurso”, crítico ou poético, são produzidos por grupos sociais; já o texto é uma concretização individual, subjetiva, particular de alguém que materializa esse discurso. Portanto, se um teórico ou crítico literário utiliza um texto de Drummond ou de Machado de Assis, esse crítico se sente na obrigação de citar a fonte, porque o texto pertence a outrem. Daí vem o critério da economia usado por Perrone-Moisés e que envolve noções de propriedade, apropriação, de direitos e deveres do crítico e do autor do texto. Entretanto, os discursos que estão em Drummond, Machado ou Jorge Amado – ou que por eles se materializam, embora a eles não pertençam – são discursos que estão alheios, estão livres e que, por isso, não têm fronteiras ou, se as tem, as possui em menor quantidade ou numa intensidade menor. Assim, podem ser empregados indistintamente por qualquer usuário falante. Então, aqui estão as duas fronteiras e disso a autora conclui o seguinte:

 A fronteira discursiva é abstrata, o seu percurso é traçado pelo código dos géneros; a fronteira textual toca no problema bem concreto dos direitos do autor. Em ambos os casos há uma relação de propriedade: servir para, como atributo – fronteira discursiva ou genérica; ser propriedade de, como pertença – fronteira textual. (PERRONE-MOISÉS, 1979, p. 214)


Isso prepara a malha retórica e argumentativa para a introdução de um novo tópico: Metalinguagem e intertextualidade. Nele, a ensaísta estabelece as diferenças entre metalinguagem e intertextualidade. Ela trabalha com três oposições básicas: intertextualidade e metalinguagem x intertextualidade e escrita, apropriação x englobamento, intertextualidade x discurso sobreposto.

Perrone-Moisés (1979, p. 214), fundamentada em Bakhtin (1970) e Kristeva (1971), considera que a “verdadeira intertextualidade só será possível quando tiverem caído os dois muros […] [a quebra das fronteiras de gênero e de texto], e isso implica a queda de muros mais vastos do que os da literatura […] [a extinção ou a atenuação da idéia de propriedade privada].” Então, se a crítica for considerada metalinguagem, a fronteira discursiva é preservada porque o discurso metalinguístico consiste numa escrita da escrita, numa escrita que escreve sobre si mesma, não se constitui num discurso sobre o mundo, mas num discurso acerca de outro discurso, o que gera a noção de discurso sobreposto a outro. Por isso, “O crítico que faz metalinguagem não re-escreve Pascal ou outro, sobrepõe o seu discurso à transparência, ao do autor tutelar, respeitando assim a hierarquia discursiva.” (p. 215). Se ela for considerada, todavia, como escrita, essa fronteira discursiva será apagada, uma vez que “Só há intertextualidade, no sentido forte do termo, quando essas fronteiras são abolidas pela força conquistadora da escrita” (p. 216). Isso é o que acontece com Butor, Blanchot e Barthes, segundo Perrone-Moisés (1979).

Por isso, o texto crítico, ou metalinguístico, não é intertextual no “sentido forte do termo”. Ele não engloba, absorve e transforma outros textos. O que ele faz é um diálogo com um ou vários textos fazendo um outro, paralelo; ou seja, montando um para-texto. Desse modo, a intertextualidade da crítica é uma intertextualidade declarada e, a rigor, não é isso que defendem Bakhtin e Kristeva sobre a intertextualidade [isso, em 1979 e segundo Leyla Perrone-Moisés]. Assim, “Só uma crítica que fosse uma escrita permitiria o aparecimento dum discurso verdadeiramente intertextual.” (p. 217).

No terceiro tópico, a obra inacabada, ela trabalha com a condição primeira e maior da intertextualidade: o inacabamento das obras. Perrone-Moisés apresenta concepções de Butor, Barthes e Blanchot sobre tal aspecto e as diferenças e aproximações entre os três autores.

Para Butor, a obra inacabada se refere à necessidade que nós temos de uma invenção, como se o crítico quisesse e conseguisse prolongar a invenção de um autor literário. Na verdade, para o crítico fazer um intertexto crítico, ele precisa considerar a obra inacabada porque, se ele considerar a obra acabada, não haverá intertexto crítico, uma vez que ele vai usar o texto literário como uma matriz, como principal, um texto primeiro; e o dele, como um secundário. Ele vai pegar o texto literário e, nas margens desse texto, nas margens da literatura, nas bordas da literatura, vai escrever a sua crítica literária. É isso que ele vai fazer quando ele não considera a obra acabada.

Depois da concepção de Butor, Perrone-Moisés apresenta a concepção de Barthes. Ela diz que há uma semelhança entre Butor e Barthes porque este fala de uma circularidade das linguagens, mas a diferença é que Butor tem uma visão monumental da literatura enquanto Barthes, não. Em vez de querer conduzir progressivamente a história, como Butor, Barthes dissemina os fragmentos. Então, com isso, apaga as marcas dos autores, os rastros deixados. Por isso, ela conclui que no texto barthesiano há uma hierarquia desorientada, ao contrário da crítica tradicional, orientada por um norte, por um texto principal, o texto literário, conforme Butor.

Depois de apresentar as concepções de Butor e de Barthes, ela apresenta as noções de Blanchot. Para ele, segundo Perrone-Moisés (1979), “a obra literária nem é acabada e nem é inacabada; ela simplesmente é”. O que isso quer dizer? Aparentemente, a postura de Blanchot é diferente, ou melhor, oposta à atitude de Butor e à de Barthes.

Ela busca explicações para aproximar as três concepções. Assim, a diferença entre Butor e Barthes é que aquele pretende prolongar a história ou a poesia, e Barthes, não. Este dissemina, espalha e, nesse momento de distribuição, ele apaga as marcas dos próprios autores das obras. Por isso, a idéia da propriedade privada ou do texto como pertencente a alguém não aparece no intertexto crítico, já que as fronteiras entre os gêneros e a metalinguagem, bem como entre a escrita e os textos vão sendo atenuadas ou desfeitas.

Blanchot segue um outro caminho, “a obra é aberta na direção do regresso, da morte e do silêncio”. O que isso significa? Conforme Blanchot, a obra é inacabada porque ela é puxada, aspirada pelo silêncio. Essa obra aspirada pelo silêncio significa que ela tem sua voz anulada, já que o discurso crítico vai re-escrevê-la e, nesse re-escrever, ele vai ocultar a obra, por ser uma re-escritura. Por isso, “Se examinarmos as citações de diferentes autores, reunidas por Blanchot nas suas páginas críticas, verificamos que elas se encadeiam como se viessem duma fonte única, como se se tratasse de fragmentos dum único discurso: o do próprio Blanchot.” (p. 221).

Então, Blanchot apaga a fonte, constrói uma crítica completamente intertextual porque, unindo fragmentos de vários outros discursos e textos, constrói um novo texto: a malha textual crítica de Blanchot. “Dir-se-ia”, desse modo, “que todos os escritores só pré-plagiaram Blanchot.” (p. 222).

2. O emprego dos critérios

 O objetivo do ensaio de Perrone-Moisés é saber em que medida um novo modelo artístico, o romance polifônico, abala a crítica, o que faz dela e o que ela faz dele. A partir disso, a autora tem o objetivo de responder às seguintes questões: (1) em que medida o dialogismo crítico difere (ou pode diferir) do dialogismo poético? (2) quais serão as diferenças entre a intertextualidade crítica e a intertextualidade poética? (3) poderá haver uma verdadeira intertextualidade para esse discurso que é a crítica?

Os critérios usados por Perrone-Moisés para responder suas questões são três: (1) intertextual ou dialógico, fundamentado por Julia Kristeva e Mikhail Bakhtin; (2) econômico ou da economia, galgado nas leis de declaração e de apropriação que regem a esfera econômica; (3) inacabamento, referenciado por Bakhtin, Barthes, Butor e Blanchot.

Dirigindo-se à primeira questão, Leyla chega à conclusão de que o dialogismo crítico só difere do dialogismo poético quando aquele é tradicional, porque a crítica moderna, pós-estruturalista, a crítica feita por Roland Barthes, Butor e Blanchot são críticas intertextuais, já que esses teóricos não sobrepõem um texto ao outro. Então, para Perrone-Moisés, conforme Julia Kristeva, a intertextualidade é um trabalho de absorção e de transformação de textos em outro texto, novo. Ela parte da hipótese de que a crítica tradicional não pode exercer um trabalho de absorção e transformação de um texto ou vários em outro texto; por isso, a rigor, essa crítica tradicional não é intertextual, já que só é intertextual, no “sentido forte do termo”, o texto que transforma e absorve outros textos num só.

Ao voltar o olhar para a segunda questão, ela conclui que a intertextualidade poética é aquela que coloca o texto de outrem, usa outros textos, cita textos alheios, sem demarcar seus limites, ou seja, sem informar as fontes, o nome dos autores etc.; ou se o faz, faz de maneira mais discreta. Por isso, as fronteiras discursivas e textuais são quase extintas.

A primeira evidência é que a intertextualidade crítica é declarada, ou seja, submetida a uma lei, enquanto que a intertextualidade poética pode ser tácita – e a maior parte das vezes o é. O crítico declara, confessa que escreve sobre uma ou várias obras, o nome do autor-tutor e o nome da obra-assunto. Nesse momento, Perrone-Moisés lança mão do critério da economia. Assim, a declaração pressupõe e implica uma submissão; Perrone-Moisés (1979) coloca o crítico como um submisso: enquanto a estrutura do discurso poético engloba a dos textos estranhos que abriga, a estrutura do discurso crítico tradicional, pelo contrário, é englobada pelo texto indutor (literário), que a modela e a situa em posição de filiação e de prolongamento. Essas injunções apresentam uma certa semelhança com as leis de declaração e de apropriação que regem a esfera da economia.

Essas leis decorrem do contrato social que implica deveres. Quando o crítico literário se propõe a fazer uma obra, um artigo ou um ensaio sobre um outro discurso, ele tem de seguir leis e regras que são os deveres de identificação e de direitos de propriedade que decorrem de um contrato social. Dessa forma, a declaração de um crítico seria mais ou menos como a declaração de um contribuinte: a identidade, a residência e a profissão. Isso acontece porque o crítico é alguém que entra em propriedade alheia e dela usufrui durante algum tempo, o que pressupõe respeito por certas regras.

O texto literário é colocado como uma propriedade alheia e da qual ele vai usufruir. Por isso, o crítico tem de seguir algumas regras, sendo a mais elementar das regras o reconhecimento dos limites da propriedade. Logo, ele tem de reconhecer os limites da propriedade, o limite dos direitos do proprietário e o limite dos deveres do não-proprietário (no caso, o crítico). Já o autor (escritor, literato, poeta, romancista) não precisa fazer isso, ele pode citar os discursos alheios sem citar as fontes porque ele está no seu campo. Isso é possível porque ele é tratado de igual para igual, as relações entre os escritores de literatura são de igualdade.

O critério do inacabamento não se dissocia do critério intertextual porque a intertextualidade pressupõe a concepção de obra inacabada. É necessário que o crítico a conceba como inacabada. Por isso, Perrone-Moisés coloca o inacabamento como um critério fundamental para a intertextualidade crítica, uma vez que os textos literários não servirão como parâmetro ou suporte da análise, mas, ao contrário, serão absorvidos e transformados num amálgama textual singular e novo porque não prontos, não acabados, porque abertos.


(In)acabando

 Assim, Leyla Perrone-Moisés se vale dos discursos de Bakhtin e Kristeva para definir intertextualidade crítica (critério intertextual ou dialógico) e para diferenciá-la de intertextualidade poética. Usa ainda o discurso da economia numa referência à propriedade, à delimitação, à apropriação, às regras de mercado (ao manipular o critério da esfera econômica); além de apresentar o crítico tradicional como aquele que usufrui o texto literário, mas respeitando regras e limites: citando declaradamente quem é o autor, quem é o dono do texto, até aonde o texto vai etc. Ela aproxima as concepções de Butor, Barthes e Blanchot, que colocam, cada qual a seu modo, com interesses distintos e em epistemes diferentes, o inacabamento como condição sine qua non para o estabelecimento da intertextualidade.

Se, em 1976 – ano da publicação do número 27 da Poétique, revista em que foi publicado o texto de Perrone-Moisés –, a discussão que envolvia intertextualidade e dialogismo era travada também como a lemos no ensaio A intertextualidade crítica, durante os 38 anos seguintes, intertextualidade e dialogismo passaram e continuam passando por muitas reflexões e refrações, ganhando outros matizes, outros acentos, carregando-se de outros valores. Hoje, pelo menos no contexto brasileiro, seria difícil pensar dialogismo fora desse meio plurivocal e pluriestilístico que é o Círculo de Bakhtin, sem pensar nas produções de Medvedev e Volochínov, que engrossam o caldo dessa conversa e dela são parte constitutiva.

A partir disso, poderíamos apontar alguns dados que nos ajudariam a pensar a questão do dialogismo e da intertextualidade no movimento da história de sua recepção nos continentes europeu e americano. Se, em algum momento, intertextualidade e dialogismo se confundiram, e esse não é o caso de Perrone-Moisés, hoje, sabemos que são fenômenos distintos. De lá até aqui, contudo, há um longo caminho trilhado por estudiosos e pesquisadores que contribuíram para a divulgação do pensamento de Bakhtin e do Círculo. Muitos inéditos de Bakhtin foram publicados (CLARK; HOLQUIST, 1998), como os constantes da coletânea Estética da criação verbal (com textos fundamentais para pensarmos o dialogismo), editada por Bocharov e publicada em 1979, três anos depois da publicação de Poétique na França. Além dessa obra, em 1986 (PONZIO, 2010b), vem a público o texto inacabado Para uma filosofia do ato responsável, um dos primeiros escritos bakhtinianos. Essas duas informações e a consideração do contexto em que Perrone-Moisés escreve seu texto seriam o bastante para nos apontar um percurso de investigação que problematizasse as relações entre intertextualidade e dialogismo ao longo da história de seus usos e a concepção em que são tomados no ensaio de Perrone-Moisés e como o são atualmente, o que deverá levar em conta, pelo menos, a história da recepção da obra do Círculo no Ocidente. Essa discussão fica, entretanto, para uma próxima oportunidade.

REFERÊNCIAS

BEZERRA, P. Prefácio: uma obra à prova do tempo. In: BAKHTIN, M. Problemas da poética de Dostoiévski. Tradução de Paulo Bezerra. 5 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.

CLARK, K.; HOLQUIST, M. Mikhail Bakhtin. Tradução de J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 1998. (Coleção Perspectiva)

FIORIN, J. L. Introdução ao pensamento de Bakhtin. São Paulo: Ática, 2008a.

FIORIN, J. L. Interdiscursividade e intertextualidade. In: BRAIT, B. (Org.). Bakhtin: outros conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2008b.

KOCH, I. V. O texto e a construção dos sentidos. 2 ed. São Paulo: Contexto, 1998.

MORSON, G. S.; EMERSON, C. Mikhail Bakhtin: criação de uma prosaística. Tradução de Antônio de Pádua Danesi. São Paulo: EdUSP, 2008.

PERRONE-MOISÉS, L. A intertextualidade crítica. Tradução de Clara Crabbé Rocha. In: JENNY, L. et al. Intertextualidades – Poétique nº27. Coimbra: Almedina, 1979.

PONZIO, A. O pensamento dialógico de Bakhtin e do seu Círculo como inclassificável. Tradução de Adail Sobral. In: DE PAULA, L.; STAFUZZA, G. (Orgs.). Círculo de Bakhtin: teoria inclassificável. Campinas, SP: Mercado de Letras, 2010a. (Série Bakhtin: Inclassificável; v. 1).

PONZIO, A. A concepção bakhtiniana do ato como dar um passo. In: BAKHTIN, M. Para uma filosofia do ato responsável. São Carlos: Pedro e João Editores, 2010b.

[1] Uma primeira versão deste texto foi escrita em 2007 – sob o título de Os critérios dialógico, econômico e do inacabamento em A intertextualidade crítica, de Leyla Perrone-Moisés – como requisito de avaliação da disciplina História da literatura e história da leitura, ministrada pela professora Patrícia Pina no Curso de Especialização em Estudos Comparados em Literaturas de Língua Portuguesa da UESC, Ilhéus, Bahia. Agradeço a leitura e as sugestões para a revisão deste texto a Luciane de Paula.

[2] Professor de Língua Portuguesa do IF Baiano, Campus Senhor do Bonfim, e aluno do mestrado em Linguística e Língua Portuguesa na Unesp, campus de Araraquara.

[3] Só a título de sugestão, leia-se Interdiscursividade e intertextualidade, de Fiorin (2008b).

[4] A exemplo do ensaio de Laurent Jenny (1979), A estratégia da forma, usado por Koch (1998) para fundamentar a discussão sobre intertextualidade em sentido amplo e em sentido restrito.

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