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DIALOGANDO E DIVAGANDO PARA NÃO DESVAIR

Camila Cristina de Oliveira Alves[1] (UNESP/CNPq)

Ao aceitar o convite da querida professora Luciane de Paula e do grupo GED para escrever um texto para o blog a respeito das ideias bakhtinianas de discurso, parei para pensar que tipo de texto poderia eu escrever depois de ser informada de que poderia ser uma reflexão, um texto sem o formato padrão de artigo científico. Embora tenha me sentido mais relaxada em relação ao gênero (Bakhtin curtiu isso), demorei para escrever pois fiquei refletindo acerca do exercício da escrita e da linguagem, ao invés de escrever propriamente. Lembrei de Volochínov e parece que ele sussurrou no meu ouvido bem assim: “Antes de começar a refletir sobre a linguagem, tudo lhe parecia simples e linear. Mas nem bem começa a escrever […] essa linguagem se torna para o autor pesada, informe, com ela é muito difícil de construir uma frase bela, elegante e, sobretudo, que transmita aquilo que quer realmente expressar.” (2013, p.132). O linguista russo continua me alertando que a gente nem repara se usamos regras linguísticas severas ou obrigatórias quando estamos conversando animadamente com alguém.

Segui minha reflexão sobre a linguagem, não antes de Volochínov ainda me mandar uma ideia, tipo assim: – Menina, ‘a linguagem é produto da atividade humana coletiva’, nem adianta esconder, ao enunciar perceberão seus valores ali intrínsecos à linguagem, mesmo ela sendo verbal.

E num é mesmo?!

Desse modo, me coloquei a escrever propondo privilegiar o aspecto mais importante considerado pelo Círculo de Bakhtin a

 respeito da linguagem: a comunicação. Eu também considero, já que ao dialogar com esses autores, já me sinto parte viva de um discurso que não se acaba. Afinal, por que mesmo estamos falando de um grupo de estudiosos russos que produziram ideias filosóficas sobre a linguagem nas décadas de 20 e 30? Porque a linguagem é viva. E o meu enunciado, que não poderia deixar de ser concreto e social, ressignifica e dialoga com esse eterno discurso.

Parei um pouquinho de escrever e fui pro Facebook… Quem nunca?


Voltei pro papel pensando bastante coisa… a velocidade e a diversidade de informação, as opiniões e lutas de classes e gêneros, os sentimentos líquidos (Bauman curtiu isso)… E não dá nem pra negar, também faço parte dessa bagunça, sempre fiz aliás, já que meu “eu” se constitui em conjunto com muitos “outro(s)”.

Primeiro dialoguei ‘dialeticamente’ com alguns discursos machistas pensando “que vontade de chamar Simone de Beauvoir pra gente dá uns role por aí, aparecer na casa duns caras…”. Depois pensei que era melhor não.

Depois vi discursos pseudo-intelectuais, vi bastante política (ou má política) e fiquei triste ao ver materializados na

linguagem via internet tantos preconceitos. Daí lembrei do meu ‘amigo’ Robert Stam que ‘me disse’ outro dia que o “dialogismo opera dentro de qualquer produção cultural, seja ela letrada ou analfabeta, verbal ou não-verbal, elitista ou popular” (1992, p.75). Imediatamente pensei que os ‘iletrados’ e os marginalizados muitas vezes utilizam a linguagem com mais beleza e mais sabiamente, seja no sentido comunicativo, ou na criação artística. Sim, na criação artística (por que não?). Foi assim que ‘rolando’ abaixo os olhos no meu feed de notícias me deparei com a linda citação de Sérgio Vaz (poeta marginal e escritor do livro Colecionador de pedras): “Hoje se alguém quiser / pode fazer reforma agrária no meu sorriso. / Minha alegria é um latifúndio / a ser ocupado.”

Dei um pouco de sol pro meu coração, como diria o mesmo poeta, e me voltei para o meu texto pensando que ele já estava perdido. Mostrei ao meu interlocutor já alguns valores e as ideologias circundantes aos mesmos. Logo, me tornei responsável por tudo o que disse e, assim, vão pensar que eu escrevi um texto de opinião, ou uma crônica mal escrita ou só fiquei procrastinando na internet mesmo.

Não, péra! Num era exatamente isso que eu estava falando da linguagem entendida sob o viés bakhtiniano?

Pois é, rapaiz! Nesse entrecruzar de vozes, fazia todo sentido lembrar-me de como a filosofia bakhtiniana pensou a linguagem e a vida.

Na verdade, amigo que compartilha o tempo dialogando comigo e com as vozes que chamei aqui, este texto é uma reflexão mesmo. Um ‘ato responsável’, ‘único e singular’, não uma ‘ação’. É um diálogo que reflete e refrata a vida, pois assim é a linguagem. Não haveria de ser diferente agora. Ainda que construamos formas, ou quando tentamos estabilizar gêneros, a linguagem não deixa de ser viva, não deixa de dialogar com nosso cotidiano, com nosso contexto social.

Do meu centro irradiador axiológico transmito aqui o discurso de um sujeito que entende a linguagem como comunicação contínua, construída socialmente, pautada na alteridade.

Seja para afirmar ou para contradizer, sempre há diálogo!

Não acha?

Referências:

BAKHTIN, M. Para uma filosofia do ato responsável. São Carlos: Pedro & João Editores, 2012.

STAM, R. Bakhtin da teoria literária à cultura de massa. São Paulo: Ática, 1992

VOLOCHÍNOV, V. N. A Construção da Enunciação e outros ensaios. Tradução de J. W. Geraldi. São Carlos: Pedro & João Editores, 2013.

[1] Doutoranda e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Linguística e Língua Portuguesa da UNESP, Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara e membro Slovo Grupo de Estudos do Discurso.

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