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DAS LEITURAS EM FOUCAULT E AS EPIFANIAS COTIDIANAS (POR QUE NÃO?)

Glaucia Vaz

Quando assistimos às aulas de texto acadêmico, nossa principal lição é citar as referências, apontar o embasamento teórico, dar nome aos tigres. No entanto, se partimos para a leitura de grandes pensadores franceses, por exemplo, caímos numa grande cilada: eles não fazem as referências. Pelo menos não da maneira como aprendemos. Digamos que nossa obrigação seria a de saber o que leram e de quem se trata tal conceito ou livro ou pesquisa. Em momentos como esses, simplesmente dizemos que Foucault funda/cria/propõe uma genealogia do poder. E há lá em seus textos, aqui, acolá (ou não!), o nome Nietzsche. Porém, seguimos leitura, citações, estudos etc sem dar importância a esse nome e de que forma ele entrou ali. De repente, aparece outro nome alemão, Heidegger. Porém, como não somos estudantes de filosofia, bem, não nos cabe realizar uma busca das relações entre esses filósofos e outros (Sim, isso existe na academia). Além disso, nossa tarefa seria a de buscar conceitos que serão discutidos para a Análise do Discurso e isso não implicaria definitivamente ler Nietzsche ou Heidegger, de acordo com uma espécie de “senso comum” acadêmico”.

Remeto-me a uma observação que, longe de ser nova, é ainda recorrente: à leitura de Foucault para trazer dele conceitos para a Análise do Discurso. Vejo que muitos pesquisadores, respeitados e com trabalhos importantíssimos para a área, ainda se recusam a ver que Foucault não se lê por si só. E que, como área de entremeio, é evidente que transitemos, nem que seja a título de (e principalmente por isso) posicionar nosso lugar de pesquisa, de recortar nosso objeto e definir nossa perspectiva metodológica.

Ora, este texto trata muito mais de um desabafo sobre certa petulância acadêmica do que propriamente sobre o que Heidegger tem a ver com Foucault. Porém, ainda assim, quero apontar, para não ficar apenas na crítica sem fundamento, um pequeno exemplo da necessidade de se conhecer a relação de Foucault não apenas com estes dois alemães, mas com outros estudiosos – embora eu fique com a relação entre este filósofo francês e o proponente do Dasein. Ler tais autores, não necessariamente para se tornar um expert em suas obras, dá-nos uma localização bastante frutuosa nos estudos foucaultianos. Afinal, mesmo que dele busquemos o que é operatório e conceitual para a Análise do Discurso, é importante considerarmos que o pensamento de Foucault não veio de um nada e, principalmente, como o próprio Foucault nos ensina, as epistemes são discursos, portanto, marcadas historicamente.

O ponto de partida será esta fala de Foucault e, logo adiante, apontarei o papel de Heidegger para a importância de Nietzsche:

 Certamente, Heidegger foi sempre para mim o filósofo essencial. Comecei a ler Hegel, depois Marx, e me pus a ler Heidegger em 1951 ou 1951; e, em 1953, li Nietzsche. Tenho ainda aqui as notas que fiz sobre Heidegger no momento em que o lia (tenho toneladas!), e elas são mais importantes do que as que eu tinha feito sobre Hegel e Marx. Todo meu devir filosófico foi determinado pela minha leitura de Heidegger. Mas reconheço que foi Nietzsche quem ganhou. Eu não conheço suficientemente Heidegger, não conheço praticamente Ser e tempo nem as coisas editadas recentemente. Meu conhecimento de Nietzsche é muito melhor do que o que tenho de Heidegger. No entanto, essas são as duas experiências fundamentais que fiz. É provável que, se eu não tivesse lido Heidegger, não teria lido Nietzsche. Eu tinha tentado ler Nietzsche nos anos cinquenta, mas Nietzsche sozinho não me dizia nada! Nietzsche junto com Heidegger, esse foi o choque filosófico! (FOUCAULT apud CASTRO, 2009, p. 200).

  Sem Heidegger, não haveria leitura de Nietzsche. Eis uma ótima oportunidade de se perguntar de onde Foucault tirou essa ideia brilhante de genealogia, de enunciado, de ética e estética de si, de poder etc? Uma resposta esperada poderia ser: não importa de onde, já que não nos preocupamos com a origem ou ele buscou em Nietzsche. Da primeira, posso dizer: sim, não se trata da origem, mas de uma postura científica ignorante. Afinal, um postulado teórico aparece em negação ao outro e devemos considerar a historicidade dos saberes; da segunda, posso dizer: e de onde Nietzsche tirou tal ideia? Então, voltaria à primeira pergunta. Ora, realmente não se trata de buscar a origem do pensamento de determinado estudioso, mas de saber seu campo de luta.

Os saberes são produzidos. E são produzidos em meio às lutas, ao embate e ao exercício de poder em que se busca fazer valer, cada qual, suas verdades. Quem nunca leu Arqueologia do saber e ficou meio perdido pelo fato de que o livro não diz, primeiramente, o que são os conceitos enunciado, discurso, formação discursiva? O livro começa dizendo o que esses conceitos não são. Começa por dizer como não se fazer história, como não olhar para a descontinuidade como problema e resto. O que temos é que o enunciado, por exemplo, não é frase, não é speech nem proposição… Nada mais foucaultiano.

Voltando a Heidegger em Foucault num embate com Nietzsche (sim, nessa relação). Heidegger e Nietzsche tiveram em comum uma crítica à Metafísica que se iniciou desde Sócrates e Platão. Como cada um a criticou é a questão. Se, para Heidegger, a Metafísica se esqueceu do Ser para tratar do ente, para Nietzsche a questão não era o Ser e, sim, o ente. E isso está em Foucault.

De maneira geral, Heidegger critica a Metafísica do ente (que, para ele, não era efetivamente uma Metafísica) e propõe a Metafísica propriamente dita, que pensa o Ser (“e agora, José?” Ser e ente, isso não estava no programa da disciplina de Análise do Discurso). Heidegger é conhecido por nos dar o ser aí (pre-sença). O susto não é preciso. No colegial e nas aulas de teoria da literatura, lemos sobre a epifania em Clarice Lispector. Entre comer uma barata e amar o cego que mascava chicletes há algo de projetar-se para fora de si: existir (ex-istir). Grosso modo, sair da facticidade, do cotidiano e do viver automático para projetar-se e tornar-se um ser no mundo, um ser para os outros e um ser para a morte… A epifania lispectoriana é essa angústia de assumir a responsabilidade de existir, compreendendo o sentido do Ser e tornando-se ser-aí. Ufa![1]

O que isso tem a ver com Foucault, cuja obra se volta exatamente para a materialidade, para os sujeitos em seu cotidiano? Exatamente porque são formas de pensar opostas. Eis que “Nietzsche venceu”. Para compreender Nietzsche é preciso ver que houve um batimento entre a transcendência do Ser que busca um lugar em que a Verdade está fora do Ser para se chegar ao posicionamento de que os entes produzem verdades. Nietzsche falava da ilusão de uma Verdade que está em algum lugar esperando para que o Ser a alcance. Falava da construção de verdades “deste mundo” dos entes, ou seja, dos sujeitos em seu cotidiano, em sua historicidade.

 Há críticas a ambos os pensadores alemães quanto ao fato de proporem um abandono da Metafísica (que até então se fazia) sem deixar de fazer Metafísica. No entanto, se Heidegger nega um determinado tipo de Metafísica, em que a preocupação com o Ser é esquecida para dar conta do ente, Nietzsche se propõe a não fazer metafísica, nem no sentido criticado por Heidegger (ente), nem no sentido dado por Heidegger (voltar a pensar o Ser). E admitimos que se trata de assunto para outro texto e para mais cabeças.

Nietzsche está em Foucault e, sem Heidegger para se fazer uma contraposição radical, Nietzsche não faria sentido. Portanto, este texto é muito mais sobre a contribuição das contradições do que da contribuição das convergências. Quando se pensa em Heidegger como filósofo essencial para Foucault, vemos que a contraposição radical entre Heidegger e Nietzsche serve de referência para o pensamento de Foucault. É na negação que Foucault sempre constrói seu pensamento. E nada melhor do que, na contramão de Heidegger, fazer valer o sujeito como produtor da verdade e fazer do cotidiano a própria materialidade para compreender o sujeito.

O objetivo mesmo é compreender determinadas teorias ou pensamentos em sua negação a outras teorias ou pensamentos. O conhecimento se dá pela negação daquilo que foi efetivamente produzido. Se isso é ser chamada estruturalista (no seu sentido amplo), sim, que seja. Pois é a materialidades que quero me referir. Ao que está ali, posto, produzido, criado e que serve de matéria prima para o novo… E que a origem é uma questão vã quando se tem a positividade para refletir e para nos compreender enquanto sujeitos.


REFERÊNCIAS

CASTRO, Edgardo. Vocabulário de Foucault. Tradução de Ingrid Müller Xavier. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.

 HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo (parte I). Tradução de Márcia Sá Cavalcante Schuback. 15 ed. Petrópolis: Vozes, 2005.

 ___. Carta sobre o Humanismo. Conferências e escritos filosóficos. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

 VEYNE, Paul. Foucault: seu pensamento, sua obra. Tradução de Marcelo Jacques de Morais. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.


[1] Sugiro a leitura do capítulo “A despeito de Heidegger”, de Paul Veyne, cuja referência está ao final do texto.

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