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Corpos em constante negação: o alvo tem cor e classe

Kamilat Ariele Souza Akinlotan

O mundo atravessa quase dois anos de pandemia, ao lado de perdas incessantemente dolorosas, parentes, amigos e companheiros que restaram somente em memórias. Um momento de desajustes, desarmonias e desgoverno que propõe práticas eugenistas, autoritárias e discriminatórias como a política atual brasileira (PAULA; LOPES, 2020).

A vivência e a (sobre)vivência é histórica, reflete e refrata a situação de desordem e regresso em que o país está condicionado. E não obstante, a resistência que há na população brasileira reverbera, àqueles que anseiam por um futuro em que a educação e a ciência sejam valorizadas, e que lutam em combate a desigualdade social e racial. Este texto propõe uma discussão a respeito de acontecimentos históricos atuais e marcados por violência pautados no racismo. De acordo com Bakhtin em Estética da Criação Verbal, “os enunciados e seus tipos, isto é, os gêneros discursivos, são correias de transmissão entre a história da sociedade e a história da linguagem” (p. 268). Portanto, os valores sócio-históricos estão fundamentalmente constituídos nos enunciados, no qual se investiga e analisa o contexto. Em 2020, por meio de hashtags nas mídias sociais, houveram ondas de protesto em prol ao combate à violência policial e ao racismo, que eclodiu nos EUA, o movimento antirracista Black Lives Matter (Vidas Negras Importam).

O assassinato de George Floyd designou no estopim do protesto nos EUA. Jovem, homem negro, que levou a ser asfixiado por um policial branco que ajoelhou em seu pescoço por supostamente ter uma nota “falsa” em um estabelecimento em Minneapolis no estado de Minnesota. O falecimento de Floyd mobilizou o mundo, na internet, famosos e empresas multinacionais utilizaram hashtags, feed com imagens de fundo preto que semiotizam o luto e o combate aos grupos supremacistas brancos e a brutalidade policial oriundo do racismo estrutural do país.

O primeiro não foi Floyd, e infelizmente não será e não foi o último. Para a população negra a qualquer momento pode determinar a assinatura da carta da sua sentença, uma vez que o mundo é colonizado e o corpo negro por sua vez é negado. (FANON, 2020).

No Brasil, de acordo com cantor e compositor Criolo em sua canção Boca de Lobo, “Um litro de Pinho Sol pra um preto rodar” fazendo referência ao jovem negro Rafael Braga, que foi condenado por 11 anos por roubar um produto de limpeza, enquanto o atual presidente recusou ofertas da vacina que culminou em mais brasileiros mortos pelo vírus, no qual resultaram em mais de 500 mil mortos. Entretanto, os olhos insistem em condenar outros corpos. O presidente Jair Bolsonaro está envolvido em escândalo de corrupção da vacina Covaxin, mas nestes casos as investigações andam em passos vagarosos. O alvo tem classe e cor e o detentor da arma é a branquitude.

   O Fruto do racismo estrutural é o estado determina quem morre e quem vive para a manutenção da necropolítica (MBEMBE, 2018). Conforme Sílvio Almeida (2021), “O racismo, mais uma vez, permite a conformação das almas (…)”, ou seja, se naturaliza morte de pessoas racializados por “balas perdidas” como o caso da jovem Kethlen Romeu, mulher, gestante, negra, jovem e designer de interiores e vítima de violência policial no ano de 2021 no Rio de Janeiro em uma visita a sua avó materna na comunidade local, entretanto foi atingida por uma “bala de fuzil perdida”. Sonhos, desejos, construções e famílias que foram negados. Não foi somente a Kathlen, antes foi João Alberto em um supermercado brutalmente agredido por seguranças e entre outros e infelizmente não serão os últimos.

      Vidas negras importam. Não somente importam nos feeds do instagram, nas publicações e publicidades que promovem “consciência racial” uma vez por ano ou somente no dia 20 de novembro. A ação da luta antirracista deve ocorrer diariamente em todos os locais, é a inserção, integração, ato de alteridade, é a visibilidade de corpos que são constantemente negados em uma sociedade branca, heteronormativa e patriarcal. A luta e resistência é feita incessantemente, inclusive neste texto dispondo a escrita como ato de protesto, político, crítico e reflexivo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, S. Racismo estrutural. São Paulo: Editora Jandira, 2021

BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 6ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

BERMÚDEZ, A.Morte de George Floyd: 4 fatores que explicam por que caso gerou onda tão grande de protestos nos EUA. BBC News Brasil. Publicado em: 2 de junho de 2020. Disponível em: < https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52893434>

FANON, F. Pele negra, máscaras brancas. São Paulo: Ubu editora, 2020.

GALVANI. G.Percepção de não-combate à corrupção por Bolsonaro chega a 45%. Carta Capital. Publicado em 02/07/2021. Disponível em: < https://www.cartacapital.com.br/politica/percepcao-de-nao-combate-a-corrupcao-por-bolsonaro-chega-a-45/>

G1 Rio.O que se sabe sobre a morte da jovem Kathlen Romeu, no Rio. G1 Notícias. Publicado em 10/06/2020. Disponível em: < https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2021/06/10/o-que-se-sabe-sobre-a-morte-da-jovem-kathlen-romeu-no-rio.ghtml >

MBEMBE. A. Necropolítica. São Paulo: N-1, 2018

PAULA, L.; LOPES, A. S. A eugenia de Bolsonaro: leitura bakhtiniana de um projeto de holocausto à brasileira. Revista Linguagem, São Carlos, v.35, Dossiê Discurso em tempos de pandemia. setembro/2020, p. 35-76.

RIBEIRO. D. Pequeno Manual Antirracista. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

VASCONCELLOS, H. Apaixonado por futebol, brincalhão e família: quem era João Freitas. Uol Notícias. Publicado em: 20/11/2020. Disponível em: < https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2020/11/20/quem-era-joao-freitas-morto-no-carrefour.htm>

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