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A pílula vermelha e o espírito do homem alpha

Marana Luísa Tregues Diniz

Os chamados coaches de desenvolvimento pessoal masculino têm adquirido cada vez mais visibilidade nas diversas mídias e redes sociais, como Youtube, Facebook, Instagram e Twitter, com as consequentes vendas de cursos online (e presenciais), pelos quais prometem ensinar à clientela masculina cisgênero e heterossexual, por meio de métodos de eficácia científica não comprovada, formas de sucesso, principalmente na seara romântico-sexual, com mulheres cisgênero e heterossexuais.

Recentemente, um deles, Matheus Donadelli, fundador do Projeto Alpha Spirit (cuja página no Instagram, @alphaspiritoficial, encontrava-se inativada no momento da publicação desse texto), um curso voltado ao ensino de técnicas de como evitar a masturbação masculina – vinculadas ao movimento online conhecido como “NoFap” – com a finalidade, promovida pelo fundador, de “transmutar a energia” do homem para torná-lo mais confiante e atraente ao sexo oposto, obteve grande repercussão midiática, após a transmissão de uma live.

Na referida live, Matheus interagia com seu público padrão, ensinando “técnicas de sedução”, com a presença de sua namorada, quando foi chamado por um de seus seguidores pela alcunha de “beta”, no chat. Ao verificar essa mensagem, Donadelli ficou visivelmente exaltado e respondeu ao seguidor de forma agressiva, ofendido pela nomenclatura recebida, chamando o referido seguidor de “blue pill”, afastando a namorada de forma brusca, quando esta tentava se manifestar em sua defesa e, por fim, retirando a camisa e começando a fazer flexões, para “demonstrar sua masculinidade”.

Volóchinov, em Marxismo e Filosofia da Linguagem, ressalta a ligação intrínseca entre as formas de interação discursiva e as condições da situação no meio social concreto (VOLÓCHINOV, 2017, p. 107), bem como o caráter sígnico dos elementos do discurso, em que o valor ideológico de um determinado enunciado é dado na comunicação social de uma coletividade organizada (MEDVIÉDEV, 2012, p. 49).

Por esse motivo, é necessário destacar a significação das expressões utilizadas por Donadelli e sua consequente valoração ideológica, para que se entenda a motivação de sua exaltação, bem como o modo com que sua expressão de masculinidade reflete e refrata a existência de um determinado grupo social, cujas vinculações valorativas apresentam grande relevância no contexto sociopolítico brasileiro.

A nomenclatura de “macho alpha” – também presente no título do curso promovido por Donadelli – advém de uma classificação do reino animal, consideradas as relações de poder dentro de um bando, entre alpha, beta e ômega, por ordem hierárquica de importância e força.

Essas expressões foram ressignificadas por grupos masculinistas, em que os homens denominavam alphas aqueles considerados como homens mais fortes, melhores e exemplares dentro do grupo humano, em sua concepção, e que, portanto, conseguiriam realizar as melhores “conquistas” em relação ao sexo oposto (mulheres cis hétero, uma vez que a heterossexualidade e transfobia são pontos mandatórios dentro desses grupos); enquanto os homens betas seriam aqueles de “segunda classe” que, em uma visão misógina, ficariam com as “sobras” dos homens alphas, por não possuírem capacidade suficiente para realizar as mesmas conquistas dos alphas; e, por fim, os omegas, seriam aqueles de tamanha desimportância na escala hierárquica que não seriam sequer considerados homens para os grupos masculinistas (FERREIRA, 2018, p. 39).

O “xingamento” proferido por Donadelli contra um de seus seguidores (“blue pill”), também parte de uma ressignificação sígnica, a partir de da obra cinematográfica Matrix (1999), conforme dispõe Ana Carolina de Andrade Ferreira:

[…] nossa sociedade ocidental atual, é o que eles denominam como “Matrix”, em referência ao filme norte-americano realizado em 1999. Ele conta a história de um programador de computador que começa a ter repetidos sonhos sobre estar preso em uma máquina, em um momento no futuro, e acorda quando estão prestes a colocar eletrodos em seu cérebro. A partir disso, ele começa a investigar o que pode estar acontecendo e descobre que vive em um mundo que não existe, é uma simulação criada para que, enquanto seu corpo produz energia para as pessoas de fora da Matrix, ele acredite que tem uma vida normal. Ele consegue sair da Matrix quando resolve tomar uma pílula que lhe expande a consciência, a Red Pill (pílula vermelha), em oposição a Blue Pill (pílula azul) que o faria ficar para sempre na Matrix e esquecer tudo que ele descobriu até ali, decisão que não teria volta. (FERREIRA, 2018, p. 9)

Os grupos masculinistas apoiadores do ideal da tomada de consciência por meio da “pílula vermelha” fizeram surgir iniciativas de caráter misógino, como a organização ativista online pela “defesa dos direitos dos homens”, A Voice for Men, criada por Paul Elam ,e o documentário, dirigido por Cassie Jaye, The Red Pill (2017), por meio dos quais reproduz-se a ideia de que existiríamos em um mundo programado para acreditarmos em “mentiras feministas” de que homens seriam privilegiados em relação a mulheres, quando, de fato, o oposto é que seria o real, de modo a seus adeptos e defensores se denominarem Realistas ou Guerreiros do Real (FERREIRA, 2018, p. 10), designados para lutar contra as mentiras da Matrix feminista, buscando levar “a verdade” para outros homens, a fim de convencê-los a juntarem-se ao exército “red pill”.

Assim, ao referir-se ao seu seguidor como “blue pill”, Donadelli se reafirma como “macho alpha”, “red pill” e “detentor da verdade”, nos termos masculinistas, para o restante de seus seguidores, de modo a não só se colocar em posição de superioridade hierárquica, dentro de seu viés ideológico, mas também a desacreditar o desditoso seguidor que o havia xingado.

A postura masculinista e misógina de Donadelli é expressa não somente em seu discurso verbivocal já mencionado, como também no visual – nos termos de Paula e Serni, que conceituam a verbivocovisualidade como integração entre as dimensões sonora, visual e do sentido para atribuição de valor aos enunciados (PAULA; SERNI, 2017, p. 179) –, ao interromper a fala da namorada, empurrando-a para fora da câmera, e ao retirar a camisa, exibindo os músculos em uma postura de “peitoral aberto e inflado, conhecido como ‘peito de pombo’, [que] geralmente remete a quem ‘chama para a briga’ […]” (PAULA; TREGUES DINIZ; PRATES DE ALMEIDA, 2020, p. 58), iniciando um ciclo de flexões, logo após o gesto.

O discurso do coach Matheus Donadelli – do dito “macho alpha”, que na prática é misógino e transfóbico –, como todo enunciado sígnico, não é isolado, refletindo e refratando a realidade social de determinado grupo, no contexto atual brasileiro, cujos valores ideológicos vão ao encontro do discurso oficial do governo do país, de modo a não ser exagero dizer que, de forma mais ampla, demonstram um posicionamento político de extrema direita.

Em maio de 2020, o então Ministro da Educação Abraham Weintraub publicou em sua conta do Twitter, uma cena do filme Matrix (1999), em que a personagem principal deveria fazer a escolha entre as duas pílulas – vermelha ou azul – referenciando a escolha que o cidadão brasileiro deveria realizar entre dois posicionamentos políticos, o do atual governo (pílula vermelha) e aquele que, na visão dos extremistas, seria denominado de “marxismo cultural”, que acreditam ser uma doutrinação cultural pró-esquerda, no âmbito da educação, principalmente derivada dos cursos das áreas de Ciências Humanas, no ensino superior, em universidades públicas (pílula azul).

Vê-se, assim, que os enunciados expressos por Donadelli e pelos membros do governo federal, como Weintraub, apesar de superficialmente não aparentarem correlação direta, ao serem analisados discursivamente, dialogam entre si na formação de uma mesma voz social que reflete e refrata os valores de uma determinada ideologia dominante, que não só se calca sobre as bases da misoginia, da transfobia e de diversos preconceitos de gênero representadas pelo signo do “macho alpha”, como também de uma política de desmantelamento das universidades públicas do Brasil – que visam ao fomento de um pensamento crítico sobre a realidade social e a existência dos referidos preconceitos, para combatê-los –, com a finalidade de calar as vozes sociais divergentes, permitindo a propagação das famosas fake news.

Deste modo, cabe aqui um questionamento e uma (re)ressignificação do signo das pílulas tão caro atualmente aos extremistas de direita: entre a manutenção do status quo de dominação por um governo baseado em fake news e destruição do ensino público superior e a luta contra esse status quo pelo fomento do pensamento crítico e combate ao preconceito com base no diálogo, você vai escolher a pílula azul ou a vermelha?

REFERÊNCIAS: BETA SPIRIT. Canal Peca zagodinho, março de 2021. Youtube, 02min30seg. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=TI0f3xA5_gg. Acesso em 19 jun. 2021. COMO O FILME ‘MATRIX’ se tornou símbolo na extrema direita. Nexo, Expresso, on-line, mai. 2020. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2020/05/20/Como-o-filme-%E2%80%98Matrix%E2%80%99-se-tornou-s%C3%ADmbolo-na-extrema-direita. Acesso em 19 jun. 2021. FERREIRA, A. C. de Andrade. A Constituição do Macho Alpha: Construindo Identidades e Masculinidades em uma Comunidade Virtual. 2018. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Ciências Sociais) – Universidade Federal do Paraná, Ciritiba, 2018. MEDVIÉDEV, P. N. O método formal nos estudos literários: introdução crítica a uma poética sociológica. São Paulo: Contexto, 2012. PAULA, L.; SERNI, N. M. A vida na arte: a verbivocovisualidade do gênero filme musical. Raído, Dourados, v. 11, n. 25, p. 179-201, jan./jun. 2017. PAULA, L. de; TREGUES DINIZ, M. L.; PRATES DE ALMEIDA, J. B. Johnny Bravo em: Johnny Bravo e o Homem Carnavalizado. PERcursos Linguísticos, [S. l.], v. 10, n. 25, p. 48–67, 2020. Disponível em: https://periodicos.ufes.br/percursos/article/view/30826. Acesso em: 19 jun. 2021. VOLÓCHINOV, V. N. Marxismo e filosofia da linguagem: Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. 1. ed. Rio de Janeiro: 34, 2017.

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