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A alma e o corpo: reverberações na arte do discurso na vida

Aline do Prado Aleixo Soares

 E se cada parte de seu corpo começasse a crescer e a diminuir a ponto de fazê-la perder toda semelhança com Tereza, seria ainda ela mesma, existiria ainda uma Tereza? Então, qual a relação entre Tereza e seu corpo? Seu corpo tinha direito de se chamar Tereza? E se não tinha esse direito, a que se referia esse nome? (KUNDERA, 2008, p. 138)

O par dicotômico alma e corpo surge no romance A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera, como indagação acerca da dualidade existente entre as duas instâncias, sendo elas duas facetas que compõem a vida humana. O principal questionamento posto nesse sentido diz respeito a algumas questões, como: alma e corpo podem ser pensadas separadamente? São elas instâncias opostas ou inseparáveis?

Num primeiro momento, o narrador do romance (o qual não participa da história, não obstante faça constantes comentários, digressões e julgamentos a propósito das personagens e daquilo que é por elas vivenciado) levanta a hipótese de que alma e corpo são duas instâncias totalmente separadas e completamente opostas. Segundo esse primeiro olhar, a alma é produto do pensamento e, sendo assim, não pode ser ligada ao corpo, matéria física e biológica, uma verdadeira máquina desvendada pelo homem por meio da ciência.

Paradoxalmente, esse mesmo narrador coloca sua tese à prova por meio daquilo que é vivido por Tereza, uma das personagens do romance. Somos levados a crer, a certa altura do romance, que alma e corpo são instâncias que não negam uma à outra: muito pelo contrário, uma exige a afirmação da outra para que se faça completa. Assim, essas instâncias não são passíveis de separação, mas a sua junção forma um todo completo.

A primeira imagem de Tereza que vemos no romance é esta: ela se observa em frente ao espelho, tentando fazer com que a sua alma suba à superfície do corpo, a fim de que este seja apagado e que transpareça em seu rosto apenas o que, para ela, é seu verdadeiro “eu”: sua alma.

A ideia de que o corpo é o que torna todos os seres humanos iguais, uma vez que todos eles possuem necessidades fisiológicas, constantemente explanada por sua mãe, lhe causa horror. Ela pensa que, se fosse assim, as almas das pessoas se esconderiam de seus corpos. Nesse sentido, para Tereza, a igualdade de seus corpos anularia a singularidade de cada um, e todos passariam a ser corpos desprovidos de alma. Tereza quer fazer com que o seu rosto transpareça sua verdadeira essência – sua alma – de maneira a ressaltar sua singularidade, em oposição à ideia de igualdade e banalidade ligada, para ela, ao corpo.

Os conflitos da personagem em questão são calcados na cisão, presente nela mesma, entre a alma e o corpo. Para Tereza, alma e corpo são duas coisas estranhas entre si, que aparentemente não possuem relação. Uma interessante questão a ser abordada a partir daí diz respeito ao motivo dessa cisão. O que faz com que Tereza não considere o seu corpo como parte de si? Ou, ainda, por que a alma e o corpo de Tereza não podem se corresponder mutuamente?

Seu corpo lhe causa asco, pois ele “não teve força de se tornar para Tomas o único corpo de sua vida. Esse corpo a decepcionou, traiu-a” (id., ibid., p. 139). Tal pensamento liga-se ao discurso machista, derivado de uma visão de mundo em que a mulher – e, principalmente, seu corpo, uma vez que, nesse mundo, as almas têm medo de se mostrar e, por isso, se escondem – é objetificada e, paradoxalmente, idealizada. As traições de Tomas, personagem com a qual Tereza possui um relacionamento físico e emocional, são vistas por ela como consequência de sua fraqueza física e emocional; uma vez que o seu corpo não teve forças para tornar-se o único para ele e a sua alma, assim, ficou relevada para um segundo plano e não pôde se mostrar e triunfar sobre o seu corpo.

O conflito de Tereza com seu próprio corpo versus sua própria alma liga-se à aparente cisão entre eles e apresenta nuances de um discurso (infelizmente) presente e difundido na sociedade, segundo o qual a mulher e seu corpo são objetificados e, portanto, segundo a linha de pensamento da personagem, desprovidos de alma.

O que nos intriga nisso tudo é pensar que o que acontece na ficção – a arte – é reflexo e refração daquilo que a vida nos apresenta. Se é assim, até quando deixaremos que as nossas almas se escondam e não se liguem, como naturalmente deveria ocorrer, aos nossos corpos? Até quando existirá essa cisão?

A ambiguidade da relação entre alma e corpo vivida pela personagem é severamente reprovada pelo narrador do romance, que julga Tereza como ingênua. As dúvidas ingênuas de Tereza (qual a relação existente entre a alma e o corpo?) são, não obstante, aquelas “[…] que marcam os limites das possibilidades humanas e que traçam as fronteiras de nossa existência” (id., ibid., p. 139).

Sendo assim, desvendar a vida humana requer, necessariamente, que reflitamos sobre essas perguntas. O intrigante é que nem sempre chegaremos a respostas definitivas para elas. A aparente dicotomia alma e corpo é reafirmada como dualidade no romance. Assim, essas instâncias constituem-se em uma, ainda que comportem ambiguidade. O corpo é o local onde a alma grava a sua assinatura.

Alma e corpo, por fim, não podem ser pensados separadamente, pois ambos são constituintes do ser humano: o corpo lhe dá a forma humana e a alma lhe confere o sentimento que o faz, de fato, humano. E ainda não podemos excluir a ambiguidade dessa relação, uma vez que tais instâncias são tão intrinsecamente relacionadas que marcam e completam uma à outra, formando um todo singular.

Referências

KUNDERA, Milan. A insustentável leveza do ser. Trad. Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

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